O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Observação

Observar, absorver para absolver!

"Eis que enviarei (EU-Consciência) o meu mensageiro (o Observador), e ele prepara o caminho diante de mim: e o Senhor que procurais (Perene Consciência Amorosa), entrará SUBITAMENTE no seu templo, sim, o mensageiro da aliança (unidade entre mente, emoção, sentidos) no qual vos deleitais: Eis que ele virá, diz o Senhor dos exércitos". — Malaquias


Para se perceber qualquer coisa na vida, tem que haver uma certa calma na mente, não uma calma disciplinada – nesse caso não é calma, é uma mente sem vida. Ora, uma mente em conflito não deixa observar nada, observar eu próprio. Portanto, se estou em permanente conflito, em constante movimento, a mexer, a falar, eternamente a fazer perguntas, a explicar; aí não é possível haver qualquer observação. É isso que a maior parte de nós faz, quando estamos perante 'o que é'. Portanto, vemos que só pode haver observação quando não há conflito. Para não haver conflito, podemos tomar um tranquilizante, um comprimido, para ficarmos tranquilos, mas não é isso que dá percepção, isso apenas nos faz é dormir; e isso é provavelmente o que a maior parte de nós quer.

Ora, para observar, tem que haver uma certa tranquilidade na mente; e se vê ou não o que é a verdade, depende da qualidade da mente.
Krishnamurti

A neurose oferece uma extraordinária impressão de segurança. O homem que crê é neurótico, e neurótico é também o que adora uma imagem. Nestas neuroses encontra-se muita segurança. E a segurança não faz operar-se uma radical revolução em nós mesmos. Para realizá-la, cumpre observar sem escolha, sem nenhuma deformação causada pelo desejo, pelo prazer ou pelo medo. Temos de observar o que realmente somos, sem nenhuma espécie de fuga. E não nomeiem ao que veem: Observem-no, apenas! Terão então a paixão, a energia necessária ao observar, e nesse observar verifica-se uma extraordinária transformação. - Krishnamurti - Fora da Violência

O autoconhecimento brota quando vocês observam e compreendem todos os seus sentimentos e pensamentos, momento por momento, dia a dia. A totalidade dessa compreensão resolverá os problemas da vida. - Krishnamurti - O Problema da Revolução Total

Agora por onde começar o entendimento de nós mesmos? Aqui estou eu, e como fazer para estudar a mim mesmo, me observar, ver o que está acontecendo de fato dentro de mim? Eu só posso me observar no relacionamento porque toda a vida é relação. Não tem nenhum sentido sentar-me em um canto e meditar sobre mim mesmo. Eu não posso existir sozinho. Eu só existo em relação com as pessoas, coisas e idéias, e estudando meu relacionamento com as coisas e as pessoas externas, bem como com as coisas internas, eu começo a me conhecer. Toda outra forma de conhecer-me é somente uma abstração e eu não posso me estudar em uma abstração; Eu não sou uma entidade abstrata; portanto eu tenho que me estudar na realidade — como eu sou, não como gostaria de ser. Eu só posso me observar no relacionamento. Krishnamurti - Freedom from the Known

Autoconhecimento não significa acumular conhecimentos sobre si próprio; significa observar a si próprio. Se aprendo acumulando conhecimentos, nada aprendo a respeito de mim mesmo... Para a compreensão da vida diária, não necessitamos de nenhum guru, de nenhuma autoridade ou instrutor. O que nos cabe fazer é, apenas, observar, estar cônscios de nossos atos, pensamentos, e "motivos", e descobrir se existe alguma possibilidade de transformarmos totalmente nossas humanas tendências, crenças e desesperos. - Krishnamurti - O Novo Ente Humano

Para deixar um pensamento ou percepção florescer é necessária atenção — não concentração. Quero dizer que o florescimento de um pensamento dá a liberdade para ver o que acontece, o que está acontecendo no seu pensamento, na sua percepção. Qualquer coisa para florescer tem que ter liberdade, tem que ter luz, não pode ser restringida. Você não pode atribuir valores a isso, não se pode dizer, "Isso é certo, isso é errado, isto deve ser, e isso não deve ser" — assim, você limita o florescimento do pensamento. Então, se você for muito profundamente nisto, você verá que o florescer do pensamento é o cessar do pensamento... Na conscientização não existe nenhum vir a ser, não há nenhum objetivo a ser alcançado. Existe a observação silenciosa sem escolha e condenação, e é daí que surge a compreensão. Neste processo quando pensamento e a percepção desdobrar-se, o que só é possível quando não existe nem aquisição nem aceitação, então surge à conscientização ampla de todas as camadas ocultas e sua importância é revelada. Esta conscientização revela o vazio criativo que não pode ser imaginado nem pode ser formulado. Esta ampla e criativa conscientização e a vacuidade é um processo único global, não são diferentes fases. Quando você silenciosamente observa um problema sem condenação e justificação, surge a consciência serena. Nesta passiva conscientização, todo problema é compreendido e dissolvido. Na conscientização há aumento de sensibilidade em que existe a mais alta forma de pensar negativo. Quando a mente está formulando e produzindo não pode haver nenhuma criação. É só quando a mente está vazia, quando não cria um problema — nessa serena atenção existe criação. A criação só pode acontecer na negação, o que não é o contrário da positivação. Ser nada não é o oposto de ser algo. O problema vem à existência apenas quando há procura de resultado. Quando a procura de resultado cessa, só então não há mais problema nenhum.

Não sei se vocês têm observado que uma grande parte do intelecto interfere em nossa vida. Os jornais, as revistas, tudo atua sobre nós nos cultivando a razão. Não que eu seja contra a razão. Pelo contrário, é preciso ter a capacidade de raciocinar precisamente de forma muito clara. Mas, se você observar você verá que o intelecto está perpetuamente analisando, por que é que uma pessoa deve ou não pertencer a algo, por que é preciso ser o desconhecido para achar realidade, e outras coisas mais. Temos aprendido o processo de análise de nós mesmos. Portanto, existe o intelecto com a sua capacidade para investigar, de analisar, de raciocinar e chegar a conclusões, e há a percepção, percepção pura, que está sempre sendo interrompida, colorida pelo intelecto. E quando o intelecto interfere na percepção pura, esta interferência faz com que se desenvolva uma mente medíocre. De um lado, temos intelecto, com a sua capacidade de raciocinar com base em seu gostar e não gostar, de acordo com o seu condicionamento, em função de sua experiência e conhecimentos, e do por outro lado, temos a percepção, que é corrompida pela sociedade, pelo medo. E estes dois revelarão o que é a verdade? Ou existe apenas o discernimento, e nada mais?... Não sei se você tem considerado a natureza do intelecto. O intelecto e as suas atividades estão sempre no mesmo nível, não? Mas, quando o intelecto interfere na percepção pura, acontece a mediocridade. Conhecer a função do intelecto, e ser consciente desta percepção pura, sem deixar os dois misturados se destruírem um ao outro, requer uma consciência muito clara e nítida. Assim, a função do intelecto  sempre, não é, investigar, analisar, procurar exteriormente, mas, por querermos estar seguros interiormente, psicologicamente, por estarmos receosos, ansiosos na vida, chegamos a algum tipo de conclusão com que já estávamos comprometidos. De um compromisso avançamos para outro, e eu digo que essa mente, tal intelecto sendo escravizada a uma conclusão, cessou de pensar, de investigar. 

Compreender o "eu" requer muitíssima inteligência, um estado de intensa vigilância, de alerta, de agudez mental, uma incessante observação para que o "eu" não possa escapulir-se. Como sou muito sério, quero dissolver o "eu". Quando digo isso, entendo que é possível dissolver o "eu". Por favor, seja paciente. Prontamente digo: "Quero dissolver este "eu", e no processo que sigo para dissolvê-lo, intervém a experimentação do "eu"; em consequência, o "eu" se fortalece. Como é possível, então, que o "eu" não experimente? Pode-se ver que a criação não é em absoluto uma experiência do "eu". A criação tem lugar quando o "eu" está ausente, porque a criação não é um fato intelectual, não pertence a mente, não é autoprojetada; é algo que está mais além de toda experimentação tal como a conhecemos. Pode estar a mente completamente quieta, num estado de não reconhecimento, ou seja, de não experimentação, um estado em que a criação possa ter lugar? Quer dizer, quando o "eu" não está ai, quando se acha ausente... Qualquer movimento da mente, positivo ou negativo, é uma experiência que de fato fortalece o "eu". Pode a mente não reconhecer? Isso pode ocorrer somente quando há completo silêncio, porém, não o silêncio que é uma experiência do "eu" e que, portanto, o fortalece. 

Quando não existe nenhum observador que sofre, o sofrimento é diferente de você? Você é o sofrimento, não é? Você não está além da dor — você é a dor. O que acontece? Não há nenhuma identificação, nenhum dá nome e assim separando de você toda essa percepção dolorida — você é simplesmente essa dor, essa percepção, essa sensação de agonia. Quando você é isso, o que acontece? Quando você não o nomeia, quando não existe nenhum medo com relação a isso, o centro está relacionado com isso? Se o centro está relacionado com isso, então ele tem medo disso. Então deve agir e deve fazer algo em relação a isso. Mas se o centro é isso, então o que você faz? Nada há a ser feito, há? Se você é isso e você não está aceitando, não está se identificando, nem está pondo isso de lado — se você é isso, o que acontece? Então você diz que você sofre? Seguramente, aconteceu uma transformação fundamental. Então já não há mais um "eu sofro", porque não há nenhum centro para sofrer e o centro sofre porque nós nunca examinamos “o que é” o centro. Acabamos de viver isso palavra por palavra, de reação a reação. 

Podemos nos tornar mais refinados, sutis, detalhistas, mudar nossos prazeres, mas no centro de tudo isso, existe o "eu" — o “eu", que está desfrutando, e que quer mais felicidade, o "eu", que procura, anseia ardentemente a felicidade, o “eu", que luta, o “eu", que se torna mais e mais refinado, que nunca quer chegar a um fim. É apenas quando o "eu", em todas as formas sutis chega ao fim de que existe um estado de êxtase, que depois não pode ser procurado, um êxtase, uma verdadeira alegria, sem dor, sem corrupção... Quando a mente vai além do pensamento, do "eu", do experimentador, do observador, do pensador, então existe a possibilidade de uma felicidade que é incorruptível. Essa felicidade não pode ser permanente, no sentido em que nós usamos essa palavra. Mas, a nossa mente está buscando uma felicidade permanente, algo que vá durar, que vá continuar. Esse desejo de continuidade é corrupção. Se pudermos entender o processo da vida, sem condenar, sem dizer que é certo ou errado, então eu penso, que vem a felicidade criadora que não está no "eu" ou no "meu”. Esta felicidade criadora é como a luz do sol. Se você quiser manter o sol para si mesmo, ele não se mantém por muito tempo dando vida e calor. Da mesma forma, se desejar felicidade porque está sofrendo, ou porque perdeu alguém, ou porque não é bem sucedido, então isso é apenas uma reação. Mas, quando a mente pode ir mais além, existe uma felicidade que não é da mente.  - Krishnamurti - O livro da Vida

Conhecer a si mesmo é sabedoria. Vocês podem ignorar todos os livros do mundo (e espero que sim), podem ignorar as mais modernas teorias, mas isso não é ignorância. Não nos conhecermos profundamente, fundamentalmente, é ignorância; e vocês não podem se conhecer se não são capazes de se olhar, de se ver exatamente como são, sem nenhuma deformação, sem nenhum desejo de mudar nada. Então, o que vocês veem se transforma, porque a distância entre o observador e a coisa observada desapareceu e, por conseguinte, não há conflito. - Krishnamurti - Onde está abem-aventurança

Perceber, sem condenar, sem julgar; observar pura e simplesmente, e sem escolha, olhar sem condenação, interpretação, comparação; nisso há grande beleza, e grande clareza na observação. Se dessa maneira você se observar sem escolha, então, nesse percebimento, existe atenção, nenhuma entidade existe como "observador", nem "coisa observada". Não há "observador" a olhar aquilo a que está observando. - Krishnamurti - Uma nova maneira de agir

A mente, em geral, é "barulhenta". Está sempre a "tagarelar". Sempre monologando, ou dizendo repetidamente o que irá fazer, o que fez, o que DEVE fazer, etc. Nunca está quieta. E você pensa que, para se produzir esse estado de quietude mental, deve praticar algum método — método que por sua vez, se torna mecânico. 

Mas, se você estiver consciente de cada pensamento, ao surgir, sem julgar, sem condenar nem aceitar — porém simplesmente num estado de ATENÇÃO — verá que a mente se torna extraordinariamente quieta; você não a disciplinou para torná-la quieta — pois isso é de efeito mortal. Por que, se se disciplina a mente, ela se torna superficial, vazia, morta. A mente deve ser viva,  vigorosa, plena, cheia de vitalidade. - Krishnamurti - Uma nova maneira de agir

Se, depois de uma tempestade, vocês se sentarem às margens de um rio, verão a corrente passar carregando uma porção de detritos. Você têm, de forma semelhante, que observar o movimento de si mesmos, acompanhando cada pensamento, cada sentimento, cada intenção, cada razão. Apenas observar — este observar é também ouvir. É estar ciente com seus olhos, com seus ouvidos, com suas percepções, de todos os valores que o ser humano criou e pelos quais vocês estão condicionados. Só esse estado de total percepção pode pôr fim  a toda busca. - Krishnamurti - Collected Works of J. Krishnamurti - Saanen, 01/08/1965 





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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)