O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Escutar

Dois homens estavam caminhando por uma calçada cheia de gente em uma área comercial do centro. De repente, um exclamou: "Ouça o som encantador daquele grilo"! Mas o outro não conseguiu ouvir e então perguntou ao seu companheiro como ele poderia detectar o som de um grilo no meio do barulho das pessoas e do tráfego. O primeiro homem tinha treinado para ouvir os sons da natureza, mas ele não explicou. Em vez disso, ele pegou uma moeda do bolso e jogou na calçada. De repente, observaram que uma dúzia de pessoas estavam olhando para eles! "Nós ouvimos", disse ele, “o que nos interessa ouvir". Há pessoas que podem ouvir apenas o som de uma moeda caindo no chão – que é a sua única música. Pobre gente! Eles pensam que são ricos, mas são pessoas pobres, cuja única música que ouvem consiste apenas no som de uma moeda caindo no chão. Pessoas muito pobres...famintas. Eles não sabem do que consiste a vida. Eles não sabem as infinitas possibilidades, eles não sabem das melodias infinitas ao seu redor – a riqueza multidimensional. Você ouve apenas o que quer ouvir. — Osho 
A fala é o meio mais poderoso de comunicação. Entretanto, muito mal-entendido é criado pela palavra falada, resultando em relacionamento infeliz. Se pudéssemos ir além do significado verbal e parar de projetar nossos próprios significados nas palavras que são ditas pelo outro, a vida seria muito mais simples e não causaria tensão no relacionamento. No entanto, como isso pode ser feito? Apenas através de uma ação de comunhão, o que significa observar o movimento de nossa própria mente quando escutamos as palavras pronunciadas pelos outros. Se pudéssemos ouvir a nós mesmos sem interrupção enquanto escutamos os outros, então o escutar seria feito de silêncio. Esse deve ser um processo simultâneo — escutar os outros sem qualquer interrupção ou resistência àquilo que a mente tem a dizer. Precisamos ouvir a nós mesmos enquanto escutamos aos demais — essa é a única maneira de saber o que nossa mente está dizendo. Somente aí as reações imediatas das mente podem ser vistas.

Contudo isso pode ser feito tão-só pela mente nova; a mente velha com seu enorme fardo do passado não pode fazê-lo. A mente nova, em um estado de comunhão com a fala dos outros, pode chegar a um verdadeiro entendimento do que a outra pessoa diz ou deseja transmitir. A mente capaz de tal comunhão pode entender o que qualquer um diz. Tal mente jamais pode se equivocar. Ela está em comunhão e não permite que o pensamento e o pensador interfiram na ação de escutar. Escutar é, de fato, uma grande arte; aquele que sabe fazer isso se torna um centro de relacionamento feliz. — Rohit Mehta  - Yoga a arte da integração
É preciso dissipar a enorme confusão decorrente da "VERBALIZAÇÃO". Muitas palavras e símbolos estão impregnados de superstição, de tradição e, infelizmente, temos de empregar certas palavras "carregadas" do simbolismo cristão, hinduísta, etc. A palavra não É a coisa, o simbolo não É a essência, a verdade. Seria muito de lamentar se ficássemos enredados em simbolismos, em palavras, porque o símbolo, a palavra, jamais É o real. Quando a palavra ou o símbolo se tornam importantes, a realidade desapareceu, deixou de ter substância, validade. - Krishnamurti — O Descobrimento do amor

"Se observardes a vossa própria mente, enquanto estais aqui sentados, notareis que estais ouvindo através de certas cortinas — a cortina do que sabeis, do que ouvistes dizer ou lestes, a cortina de vossas próprias experiências; e estas cortinas, com efeito, impedem o escutar. Nunca escutais realmente, estais sempre interpretando o que ouvis, de acordo com o vosso fundo (background), vossos preconceitos, de acordo com as conclusões a que chegastes. Por isso não há escuta. E só é possível transformação imediata quando se escuta completamente, o que significa não permitir interferência de coisas anteriormente aprendidas. Escutar completamente significa: não julgar, não avaliar — de modo que todo o nosso ser esteja atento. E quando se escuta por essa maneira, verifica-se imediato esclarecimento. Esse esclarecimento é liberdade, libertação imediata, fora do tempo... A mente só pode aprender quando é capaz de renunciar, isto é, de despojar-se constantemente do que está aprendendo. Se aprender é apenas uma operação de adição, então não há aprender. Percebei este fato. Enquanto a mente está acumulando, amontoando, como pode aprender, visto que tudo o que aprender será sempre traduzido de acordo com o que já acumulou? Quando há acumulação, não pode haver o movimento do aprender. Porque só quando está livre para explorar, a mente é capaz de aprender. Se a mente percebe, realmente, este fato, não de maneira argumentativa, de maneira verbal ou, como se diz, intelectualmente, porém profunda e verdadeiramente, nesse caso ela é capaz de encontrar aquilo que se pode chamar bem-aventurança, verdade, Deus, ou como quiserdes". (1)

"Se houver apenas cinco pessoas que queiram escutar, que queiram viver, que tenham a face voltada para a eternidade, será o suficiente. De que servem milhares que não compreendem, completamente imbuídos de preconceitos, que não desejam o novo(...)? Gostaria que todos os que queiram compreender sejam livres, não para me seguir, não para fazer de mim uma gaiola, que se torne uma religião, uma seita. Deverão estar livres de todos os temores (...), do medo da espiritualidade, do medo do amor, do medo da morte, do medo da própria vida."(2)

"Por favor, não aceite ou rejeite o que o orador está dizendo: examine-o! O orador não tem nenhum valor (quando você usa um telefone, não obedece ao que ele diz. O telefone não é nenhum autoridade, mas você o escuta). Se você escuta com atenção, nessa atenção há afeição; não há concordância, nem discordância, porém uma mente disposta a dizer: "Ouçamos o que ele está dizendo, e vejamos se tem algum valor; tratemos de discernir o que é verdadeiro e o que é falso". Não aceite nem rejeite, mas observe e escute, não só o que está sendo dito, mas também suas próprias reações e deformações que se produz enquanto está escutando; veja seus preconceitos, suas imagens, suas experiências, veja a sua função que lhe impede de escutar."(3)

"Se puderdes, não apenas escutar o que se está dizendo, mas também afastar de vós tudo o que conheceis — as conclusões, as avaliações, as determinações, os ideais — vereis então surgir um estado sem continuidade, como memória, mas que é, instantaneamente, a totalidade do Ser. Esse momento é que é o Sublime, o Supremo, e ele precisa ser experimentado. Mas só se pode experimentá-lo, quando a mente está completamente tranquila, compreendendo a totalidade de sua própria estrutura. É pelo autoconhecimento que vem a quietude da mente, e não por meio da disciplina, por meio da compulsão. E nessa tranquilidade encontrareis um momento que não está relacionado com o passado, um instante em que se verifica a criação. E esse estado é essencial, porque liberta a mente do "coletivo" e dá existência à individualidade."(4)

"Uma revolução em toda a psique do homem não é realizável por meio da vontade, que é desejo, determinação, por meio de um plano de vida conducente à paz. Ela só é possível quando o cérebro pode estar quieto e ao mesmo tempo ativo, para observar sem criar imagens de acordo com sua experiência, conhecimentos e prazer... O próprio ato de escutar é a ação que operará a revolução."(5)

"É muito importante estar judiciosamente atentos, mas nunca formular um julgamento; porque no instante em que formulamos um julgamento, já temos uma conclusão. Vocês não estão judiciosamente atentos. No momento em que chegam numa conclusão, está morta a capacidade de observação judiciosa de vocês... Deus ou a verdade, não podem ser pensados. Se pensam nela, não é a verdade. A verdade não pode ser procurada; ela vem a nós. Só podemos procurar o que é conhecido. Quando a mente não é torturada pelo conhecido, pelos efeitos do conhecido, só então pode a verdade revelar-se... A verdade só pode manifestar-se na mente que está livre do conhecido."(6)

"Por favor, como eu disse no outro dia, o orador não é importante. O que ele diz é importante, porque o que ele diz é o eco das várias faces da sua personalidade, falando em alta voz. Através das palavras que usa o orador, vocês estão ouvindo a si mesmos, não orador, e portanto, ouvir se torna uma coisa extraordinariamente importante. Ouvir é aprender e não acumular. Se vocês acumulam conhecimentos e ouvem a partir desse acervo, de seu repositório de conhecimentos, então, não estão ouvindo. Somente quando se ouve é que se aprende. Vocês estão aprendendo a respeito de si próprios e, portanto, devem ouvir com cuidado, com extraordinária atenção e a atenção inexiste quando vocês absolvem, condenam, ou avaliam de outro modo o que ouviram. Nesse caso, vocês não estão ouvindo, não estão percebendo, não estão vendo. Se, depois de uma tempestade, vocês se sentarem às margens de um rio, verão a corrente passar carregando uma porção de detritos. Você têm, de forma semelhante, que observar o movimento de si mesmos, acompanhando cada pensamento, cada sentimento, cada intenção, cada razão. Apenas observar — este observar é também ouvir. É estar ciente com seus olhos, com seus ouvidos, com suas percepções, de todos os valores que o ser humano criou e pelos quais vocês estão condicionados. Só esse estado de total percepção pode pôr fim a toda busca."(7)

"Há uma arte no escutar. Escutar, a fim de descobrir se o que se diz tem significação, e depois de escutar, julgar, aceitar, ou rejeitar; mas, antes de tudo, escutar. A questão é que a maioria de nós não escuta. Vimos preparados para ser desfavoráveis ou favoráveis, e não para escutar com neutralidade.  Se vocês escutam neutralmente, só então, certamente, começam a descobrir o que se esconde atrás das palavras. As palavras são meios de comunicação. Tendes de aprender o meu vocabulário, a significação das minhas palavras, para reconhecer a importância do assunto. A coisa de primordial importância é aprender a escutar de maneira apropriada. Se vocês leem um poema de espírito prevenido, como podem compreendê-lo? Para apreciar o que o poeta deseja lhes fazer compreender, devem vir com liberdade para isso."(8)

"Escutar é uma das coisas mais difíceis, porque costumamos a interpretar tudo o que ouvimos e, depois, concordar ou discordar. A mente, o cérebro está em incessante atividade, sempre a ouvir, refutando ou aceitando, negando ou seguindo o que se diz. Para podermos escutar realmente, precisamos estar absolutamente quietos; do contrário, não podemos escutar. O que acontece é que geralmente é que nunca escutamos o que se nos diz, nunca escutamos uma ave ou o ciciar da brisa entre as folhas. Nunca escutamos realmente. Já traduzimos tudo em palavras, imagens, e olhamos as coisas com essas imagens, palavras, experiências, conhecimentos. Afinal, escutar o vosso amigo, escutar vossa esposa ou marido, é uma das coisas mais difíceis que há, porque tendes uma imagem já formada de vosso amigo, de vossa esposa, e esta tem sua imagem de vós. A relação existente é entre duas imagens, e são essa imagens que falam uma à outra — sendo as imagens lembranças, experiências, mágoas, etc. Nunca há o verdadeiro ato de escutar. Para escutar, temos de estar livres da imagem."(9)

"Por estarmos, na maioria, condicionados por influências sociais, econômicas, religiosas, etc., somos copistas, imitadores, e por isso não damos importância ao que é novo, chamamo-lo revolucionário (…) Mas se pudermos examiná-lo, se o observarmos com inteira isenção de preconceitos, de limitações, então talvez seja possível compreender-nos mutuamente e comungar uns com os outros. Só há comunhão quando não existe barreira alguma... Em geral ouvimos o que nos convém ouvir com exclusão de tudo que cause perturbação. A toda expressão de uma idéia perturbadora fazemos ouvidos de mercador; e sobretudo quando se trata de matéria profunda, religiosa, de importância na vida, temos a tendência de ouvir superficialmente. Se ouvimos mesmo alguma coisa, ouvimos apenas as palavras, não o seu conteúdo; porque os mais de nós não queremos ser perturbados. Queremos em geral prosseguir em nossos velhos caminhos; porque o alterar, o realizar qualquer modificação, significa perturbação: perturbação em nossa vida diária, perturbação em nossa família, perturbação entre marido e mulher, entre nós e a sociedade. Como em geral não gostamos de ser perturbados, preferimos seguir pelo caminho fácil da existência — se esse caminho conduz ao sofrimento, à confusão e ao conflito, isso, ao que parece, tem muito pouca importância. O que queremos é uma vida fácil: nada de muito incômodo, de muita perturbação, nada de pensar em demasia: e, assim, quando escutamos, não estamos em verdade ouvindo coisa alguma. A maioria de nós tem medo de ouvir profundamente; mas só quando ouvimos profundamente, quando os sons penetram fundo, existe a possibilidade de uma tranformação fundamental completa. Essa transformação não é possível, se vocês ouvem superficialmente; e, se me permitem sugerí-lo, procurem escutar sem resistência, sem preconceito: só escutem. Não façam esforços excessivos para compreender, porque a compreensão não resulta de luta. A compreensão vem rápida, imperceptível, quando o esforço é passivo; só quando o produtor do esforço está silencioso, vem a onda da compreensão... Não façam esforço de imaginação, não façam esforço algum para escutar, fiquem a escutar, apenas. Então, o som nos transmite seu próprio significado, e essa compreensão é muito profunda, muito maior e duradoura, do que a mera compreensão de palavras resultante de esforço intelectual. A compreensão de palavras, chamada compreensão intelectual, é totalmente vã.... Compreensão intelectual é mera compreensão verbal. Ouvir palavras não é assimilar-lhes o conteúdo. A palavra não é a coisa. A palavra não é a compreensão. A compreensão surge quando a mente não faz mais esforço, isto é, quando não mais opõe resistência, não mais tem preconceitos, mas escuta em liberdade e de maneira completa... Então, essa própria observação, esse escutar, comunica um significado extraordinário." (10)

"Como você escuta? Você escuta com suas projeções, com sua ideologia, com suas ambições, desejos, medos, ansiedades, com atenção somente ao que você quer ouvir, somente atenta para o que será satisfatório, ao que gratifica, ao que dará o conforto, ao que no momento pode aliviar seu sofrimento? Se você escutar através da tela de seus desejos, então você escuta obviamente sua própria voz; você está escutando seus próprios desejos. E há alguma outra forma de escutar? Não é importante encontrar uma forma como escutar não somente o que está sendo dito, mas a tudo, ao ruído nas ruas, à algazarra dos pássaros, ao ruído das ondas do mar agitado, à voz de seu marido, a sua esposa, a seus amigos, ao grito de um bebê? Escutar tem a importância somente quando não está projetando unicamente os próprios desejos de quem escuta. Podemos por de lado todos estes filtros através de qual escutamos e escutar realmente?"

"Escutar é uma arte que não se aprende facilmente, mas há nela beleza e uma grande compreensão. Nós escutamos com as várias profundidades de nosso ser, mas nosso escutar é sempre com uma percepção de um ponto particular da vista. Nós, simplesmente nada escutamos; há sempre um filtro dos nossos próprios pensamentos intervindo, conclusões, e preconceitos. Escutar exige quietude interior, uma liberdade da tensão de adquirir, uma atenção relaxada. Neste alerta, contudo, em estado passivo, pode-se ouvir o que está além da conclusão verbal. As palavras confundem; são somente meios de comunicação externos; mas para perceber além do ruído das palavras, deve haver um escutar, um passivo alerta. Assim se pode escutar o amor; mas é extremamente raro encontrar um ouvinte. A maioria de nós somos o acumulado, o conseguindo, os objetivos; nós estamos sempre acrescentando e conquistando, e assim não há nenhum escutar. É somente nesse escutar que se escuta a canção das palavras."

"Quando você faz um esforço para ouvir, você está ouvindo? Não é esse esforço uma distração que impede o escutar? Você faz um esforço quando você escuta alguma coisa que lhe delicia?... Você não está consciente da verdade, você não vê o falso como o falso, enquanto sua mente está de alguma forma ocupada com esforço, com a comparação, com a justificação ou condenação... Escutar isso adequadamente é um ato completo, o próprio ato de ouvir produz sua própria liberdade! Mas você realmente está interessado em escutar, ou em alterar sua confusão interior? Se você deseja ouvir, senhor, no sentido de estar atento de seus conflitos e contradições sem os forçar em qualquer padrão particular de pensamento, talvez eles possam cessar completamente. Você vê, nós constantemente estamos tentando ser isto ou aquilo, alcançar um estado particular, obter um tipo de experiência e evitar outras, assim a mente está permanentemente ocupada com algo, nunca está silenciosa para escutar o ruído de suas próprias lutas e dores. Seja simples... e não tente tornar-se algo ou adquirir alguma experiência." (11)

"A maioria de nós nunca estamos em comunhão com ninguém. Não estamos diretamente em comunhão com os nossos amigos, com nossas esposas, com os nossos filhos. Por certo, para compreender o sofrimento, você tem que ama-lo, não? Quer dizer, você precisa estar em comunhão direta com ele. Para você compreender qualquer coisa – seu vizinho, sua esposa, ou qualquer relação – para compreender profundamente algo, você necessita manter contato direto com isso. Você tem que abordar esta relação sem qualquer objeção, preconceito, condenação ou rejeição, tem que ser assim, não? Se é para haver compreensão, não posso ter nenhum preconceito a seu respeito. Eu devo ser capaz de olhar para você, sem barreiras, sem projetar meus preconceitos e condicionamentos. Preciso estar em comunhão com você, ou seja, preciso amá-lo. Do mesmo modo, para compreender o sofrimento, eu tenho que amá-lo, tenho que estar em comunhão com ele. Não posso fazer isso se estou fugindo dele através de explicações, teorias, esperanças, protelando, porque  tudo isso são processos de verbalização. Assim as palavras impedem que eu esteja em comunhão com o sofrimento. As palavras me impedem – palavras como explicações, racionalizações são ainda palavras, que são o processo mental – de estar diretamente em comunhão com o sofrimento. É somente quando estou em comunhão com o sofrimento que eu o compreendo”. (12)

"Escutar, não é só escutar a quem fala, mas também ao próximo, a vossa esposa ou marido, a uma ave. Ver uma flor é vê-la "botanicamente" e também não botanicamente. Escutar é estar consciente da incessante propaganda da Igreja, do Estado, da Imprensa, do anunciante — é escutar tudo isso, sem se deixar influenciar em nenhum sentido. Quase todos somos muito facilmente influenciáveis; toda a nossa estrutura psicológica baseia-se na influência, na propaganda... Somos influenciados pelos alimentos ingeridos, pelo clima em que vivemos, as roupas que usamos, os livros e jornais que lemos. O rádio, a televisão, tudo nos influencia incrivelmente; e essa influencia é consciente ou inconsciente. Na América — creio — fizeram-se várias experiências com a chamada "propaganda subliminar", a qual visa diretamente ao inconsciente, sem percebimento por parte da mente consciente. Por uma fração de segundo se projeta repetidamente, na tela ou no vídeo, um anúncio que a mente consciente "não recebe", mas que é percebido e lembrado pelo inconsciente; e, em sua próxima visita a uma loja, o espectador tende a comprar o que foi anunciado.

Em verdade, somos resultado de muitas influências; e a inteligência, segundo me parece, é a faculdade que habilita a mente a estar consciente de todas as influências, ou pelo menos do maior número possível delas, e abrir caminho por entre elas, sem se emaranhar, sem se deixar deformar ou impregnar por elas. Estar constantemente consciente da influência, e sacudi-la de si — eis, no meu sentir, a verdadeira essência da inteligência.

O importante é escutar a propaganda, escutar o que estamos dizendo agora, e perceber diretamente, por si mesmo, o que é verdadeiro e o que é falso; mas isso não podeis fazer em conformidade com vossas avaliações, vossos gostos e desgostos, que são meras reações de vosso condicionamento cultural. Certo, ver verdadeiramente é ver o fato como é; e esse ver imediato, não requer tempo.

Em geral, pensamos que a compreensão vem lentamente, pela avaliação comparativa, não é verdade? Mas a compreensão é comparativa, gradual? Ou é imediata? Ora, ou compreendo uma coisa agora ou não a compreendo absolutamente. Posso dizer a mim mesmo: "Compreenderei gradualmente o que se está dizendo; essa compreensão virá futuramente, com o tempo". Mas o futuro trará compreensão? Se não há agora uma modificação radical de meu modo de observação, de minha visão das coisas, o futuro nenhum proveito trará. Se não sacudo imediatamente o meu condicionamento, os meus preconceitos, meus gostos e aversões, eles continuarão existentes amanhã.

Se me é permitido dizê-lo, penso que a mente indolente é que tem essa ideia de "gradualidade", ela que diz: "Com o tempo compreenderei, mas não agora". Não me refiro à aquisição de conhecimentos. Esta requer tempos. Dominar uma língua, estudar matemática, aprender mecânica, etc., tudo isso exige tempo. Mas, perceber o fato de se ser ávido — tudo isso é uma percepção imediata. E escutar uma coisa sem desfiguração, isso também é imediato; escutar, não apenas o orador, mas a tudo, sem interpretação, sem interferência do processo mecânico do pensamento. Se já experimentastes isto, deveis saber que é muito... Já ia empregar a palavra "difícil". Mas não é difícil, na acepção comum da palavra. Requer tremenda energia.

Para se "viver com algo" que é muito feio, morar numa rua feia, sem uma só árvore, viajar de ônibus para o escritório todos os dias, por entre o barulho, as exalações, as imundícies de uma grande cidade — para "viver com tudo isso" e não se deixar corromper nem insensibilizar, precisa-se de uma grande soma de energia. Identicamente, "o viver com algo que é muito belo", uma montanha, uma árvore, um belo rosto, sem se acostumar — isso também demanda uma grande dose de energia.

Do mesmo modo, para escutardes, para verdes sem desfiguração, necessitais de muita energia de atenção;  mas a atenção não é processo de concentração, de controlar a mente e fazê-la voltar toda vez que divaga. Não é isso, absolutamente. E espero que o muito que tenho falado a respeito disso não se esteja tornando um problema. Se se tornar um problema, por favor, largai-o das mãos. Sabe Deus quantos problemas já temos, sem acrescentar-lhes mais este." (13)
  1. Krishnamurti - Da solidão à plenitude humana
  2. Krishnamurti - Discurso da dissolução da Ordem Estrela 
  3. Krishnamurti - O voo da águia 
  4. Krishnamurti - Da solidão à plenitude humana
  5. Krishnamurti - Encontro com o eterno 
  6. Krishnamurti - O que estamos buscando – ICK 
  7. Krishnamurti - Collected Works of J. Krishnamurti - Saanen, 01/08/1965 
  8. Krishnamurti - O que estamos buscando – ICK
  9. Krishnamurti — Encontro com o eterno
  10. Krishnamurti - O que estamos buscando – ICK
  11. Krishnamurti - O Livro da Vida
  12. Krishnamurti - O Livro da Vida
  13. Krishnamurti – O Homem e Seus Desejos em Conflito – 10 de junho de 1962

"A fala se torna valiosa apenas quando você atingiu o silêncio. Do contrário, é fútil. Não apenas fútil, mas também perigosa, pois você está jogando lixo na cabeça dos outros. Foi esse o esforço que fiz, o de falar apenas quando toda fala houvesse cessado dentro de mim. Quando essa fala interior desaparecesse, eu poderia falar. Nesse momento, não seria uma doença." - Vardhamana (mais conhecido como Mahavira)





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Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)