O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Os subterfúgios do Ego - parte 2


Se o ego puder enganar o aspirante a ponto de desviá-lo da questão central de sua própria destruição para alguma questão lateral menos importante, certamente o fará. O número de êxitos nesse esforço é muito maior que o de fracassos. Poucos escapam de serem enganados. O ego usa os meios mais sutis para se inserir no pensamento e na vida do aspirante. Trapaceia, engana, exalta e avilta-o alternadamente; basta que ele o permita. Anatole France escreveu que é na habilidade de enganar a si mesmo que se revela o maior talento. É um hábito constante e uma reação instintiva defender o ego contra a evidência dos resultados infelizes de sua própria atividade. O aspirante precisará resguardar-se disso repetidamente, pois os próprios poderes do ego são pateticamente inadequados, e sua própria capacidade de prever está visivelmente ausente.
 
Ele é arrogante, soberbo, presunçoso e autoenganador. Mente para si mesmo, mente para o homem que se identifica com ele e mente para os outros homens, pois gira incessantemente em torno de si mesmo. Todos são crucificados pelo próprio ego. Ele, por natureza, é enganador e, em suas ações, um mentiroso. Pois, se ele revelasse as coisas como realmente são, ou falasse o que é profundamente verdadeiro, teria de expor seu próprio eu como um arqui-impostor que finge ser o próprio homem e oferece a ilusão da felicidade. Ele não reverencia a nenhum Deus senão a si mesmo. Se não pode se afirmar abertamente, o fará insidiosamente. Ele se posiciona como o único eu, o verdadeiro eu – o eu por completo. Se autoestabeleceu por inteiro e, só poderia ter feito isso, ao estabelecer uma ficção no lugar da realidade, se supondo ser o que de fato nunca foi.
Nenhum aspirante sabe o quanto o ego pode fazer para enganar sua mente com fantasias e desviar seus passos com vaidades, pois existem muitas maneiras através das quais ele escapa de suas mãos quando tenta segurá-lo. E, se tenta opor-se ao ego, poderá, através desse mesmo ato, mudar a área de atuação dele que o iludirá fazendo-o crer que o está enfraquecendo em sua atividade!

Também poderá mascarar seu desejo de poder e proeminência com um interesse em servir à humanidade. O verdadeiro altruísmo, de natureza filosófica, não é realizado pelo eu, mas através dele, e nem pelo ego, mas pelo Eu Superior, que o utiliza. Poucos alcançam este grau. A maioria pratica seu altruísmo misturado com motivações egoístas ou, em outros casos, mascarando inteiramente seus motivos, para que isso não venha a perturbar suas ilusões e nem as das outras pessoas. Externamente, o indivíduo poderá estar trabalhando somente pelos propósitos de uma causa, movimento, partido ou instituição. Ele até poderá dizer que é assim que o faz. Mas, internamente, estará na verdade trabalhando para o seu próprio ego, quer dizer, para si mesmo!
 
O poder do ego é tal que logo apaga da mente uma ideia sobre uma reforma moral, revelada no silêncio interno como necessária. Sua postura assume várias formas: tanto elevada como vulgar ou tanto supostamente espiritual como diretamente materialista. 

Ele joga com suas emoções em toda a sua amplitude, utilizando as mais opostas e conflitantes, em situações diferentes, para que se adequem aos seus propósitos.
 
Um homem poderá ser o maior dos tolos e, mesmo assim, seu ego o será mais ainda, impedindo-o dessa forma que se perceba como de fato é.

Os subterfúgios do Ego - parte 1

Dizer que o ego nos mantém cativos, é somente uma maneira de expor o problema. A outra será a de que nos sentimos enaltecidos com isso.

Os homens não somente se permitem ser iludidos pelas ilusões geradas pelo ego, mas também lhes dão as boas vindas. 

Não há limite para as pretensões do ego. Hoje, se mostra como o humilde aprendiz e, amanhã, como o pomposo mestre. 

Que ele se autoexamine e veja como seu ego conduz o conjunto de suas faculdades, se oculta e se reafirma entre elas e o ilude. Caso o ego possa se perpetuar através da vaidade e grandiosidade, exibirá suas altas virtudes engrandecidas o tornando desagradável e presunçoso; caso isso seja feito pela submissão, realçará seu triste acúmulo de falhas, tornando-o mórbido e neuroticamente autocentrado. 

O ego simula algumas das qualidades do Eu Superior e reflete algo de sua consciência. Mas a imagem assim criada será falsa. 

Ele é compelido a imitar o não ego e assim ocultar a estreiteza de sua atitude por trás de uma máscara de uma suposta justiça, verdade e altruísmo.

Ocultará assim seus motivos obscuros que o estimulam nas suas ações.

Ele sabe do perigo mortal que corre caso permita que o indivíduo penetre no seu refúgio e o encare diretamente em seus olhos. 

Por isso, sabe muito bem como se proteger e impedir que o aspirante escape de seu poder sobre ele. 

Ele é tão poderoso quando é aquiescido como quando é condenado, pois, em ambos os casos, estará mantendo o indivíduo envolvido numa busca autocentrada. 

Cada movimento dele tem sua base no desejo de manter sua própria sobrevivência ou autopreservação. 

Quanto dessas declamações de serviço à humanidade em verdade apontam para uma direção oposta – a de servir ao ego? Quanto nesses palavreados sobre sacrificar o ego na verdade se está é dando excessiva atenção a ele, tornando-o assim mais forte? E quanto disso de fato mascara o desejo de maior poder?

O ego detém muitos esconderijos. Exposto em um, logo ocupa outro. Pois parece ter uma capacidade colossal para o engano e decepção voltados para seus próprios motivos. Chegará a aceitar a disciplina e o sofrimento para que não seja eliminado.

Se essas verdades parecerem demasiado frias para alguns ou cruéis para outros, tal reação emocional será compreensível e perdoável. Mas isso as torna menos verdadeiras?

Pois o ego usará de toda a sua astúcia de seu intelecto lógico, e toda a sedução de sua natureza sensual, para manter o aspirante distante da busca.

Mecanismos de defesa do ego


O ego, que tão rapidamente reage diante dos maus comportamentos dos outros voltados para si, e que é tão lento em reconhecer sua má conduta, é o seu primeiro e maior inimigo.

O ego possui defesas muito poderosas, a maioria de natureza emocional, às quais recorre de forma instantânea. 

Ele sempre buscará, e encontrará desculpas para si mesmo. Fará qualquer outra coisa do que confessar sua própria vileza, fraqueza ou erro. Fixar-se-á obstinadamente a eles em vez de admitir a necessidade de uma mudança radical.

O ego tem uma capacidade infinita de arquitetar construções favoráveis para si ou justificativas para todas as suas ações, não importa quão erradas ou estúpidas possam ser. 

Quando percebe algum perigo à continuidade de sua própria existência, diante de uma decisão ou ação, cria medos, inventa falsas esperanças e exagera as dificuldades, com a intenção de impedi-las. 

As autojustificativas do ego são uma contraparte para todos os seus pecados e estupidez. Suas autocontradições são uma demonstração de aspirações elevadas que são ridicularizadas por suas ações inferiores. 

Quando é ferido, surgem inflados sentimentos de orgulho nele.

Tão forte e profundo é o domínio que mantém sobre o indivíduo que, quando ocorrem lisonjas que o adulam, facilmente as aceita, mas quando são críticas que o enfraquecem, irritadamente as rejeita. 

O ego realiza astutos esforços para persuadi-lo a que transfira seus problemas e irritações a qualquer coisa que não seja a causa primária deles – a qual está dentro dele mesmo – e a qualquer pessoa, contanto que não seja ele mesmo. Ele sabe muito bem como encobrir suas atividades as mais feias com autojustificativas as mais nobres. 

Está tão cercado por mecanismos de defesa que se torna difícil chegar a penetrar em seu esconderijo. Pois teme ser desalojado definitivamente daí. Para evitar isso, entra em guerra usando qualquer arma desde uma resistência direta até insidiosas decepções. É cheio de subterfúgios para impedir que o indivíduo se distancie dele, que vão desde uma total megalomania até a sugestão de que ele mesmo não exista. Ressente-se de críticas a si, embora verdadeiras, mas aceita elogios, embora não merecidos. 

Infelizmente o ego persegue o ser humano aonde quer que ele vá. Isso já é um mal em si, mas quando nega o reconhecimento disso e somente culpa aos outros egos pelos seus problemas, torna-se patético e mesmo entristecedor. 

Se estivesse predisposto a se autocondenar como se autojustifica, ou justificar os outros em vez de condená-los, quão fácil e rápido seria a busca espiritual.

A importância de se desapegar do ego - parte 1


Nossa liberação das misérias da vida dependerá inteiramente de nossa libertação do domínio do ego.

Uma importante razão pela qual os instrutores espirituais sempre impunham aos seus discípulos a necessidade de abandonar o ego, de renunciar ao eu, é a de que quando a mente está continuamente preocupada com suas próprias questões pessoais, ela cria uma limitação estreita sobre suas próprias possibilidades. Assim, ela não poderá chegar à verdade impessoal, a qual é bem diferente e está bem distante dos tópicos trazidos pela mente no dia a dia ou ano após ano. Somente ao romper com sua autoimposta estreiteza é que a mente humana poderá chegar à percepção do Infinito, da alma divina que seu ser mais interno é. 

Uma avaliação correta da força do ego mostrará porque alguns aspirantes conseguem tão lentamente seu progresso. 

Para todas as coisas há um preço equivalente. Para se obter a consciência do Eu Superior, pagamos com o que obstrui o caminho – com o sacrifício do ego.

Nenhum ser humano comum conhece de fato a si mesmo. Ele só conhece a IDEIA que faz de si mesmo. Caso queira conhecer seu verdadeiro eu, primeiro deverá se libertar dessa sua ideia falsa sobre si mesmo, desse eu imaginário.

Ele se identifica com todos os movimentos do pensamento, da emoção ou de suas paixões-deixando assim escapar seu verdadeiro ser. 

Sem que haja esse desenraizamento do ego, todas as nossas soluções de nossos problemas, cedo ou tarde, elas mesmas se tornarão problemas. 

Se o ser humano deseja ter acesso constante ao Eu Superior, deverá lembrar-se que isso não vem livre de um alto preço a ser pago – a submissão contínua do ego. 

Sem uma purgação interna, ele meramente transferirá para o nível religioso ou místico, o mesmo egoísmo que expressava no nível materialista. 

Você poderá erradicar muitos preconceitos e eliminar muitas ilusões como assim quiser; mas, se a origem delas – o ego – permanecer, novas ilusões e preconceitos ocuparão o seu lugar. 

Enquanto não for reconhecido e dominado, o ego é Satã, o demônio, o princípio do mal.

Enquanto seu ego for o que estiver na frente em cada situação, ele estará impedindo as suas melhores oportunidades. 

Renascimentos, memórias, poderes ocultos – todas essas coisas existem e continuarão a existir porque elas perpetuam o ego; o elemento do qual deveríamos tentar escapar. 

A consciência como ego nos separou da Origem. Mas não precisa ser assim para sempre. Através da busca espiritual, poderemos chegar mais e mais perto da reintegração do ego com sua Origem, a qual a partir de então agirá através de nós.

A importância de se desapegar do ego - parte 2


Enquanto o ser humano estiver apegado à crença de que seu ego é real e permanente, ou pensa e age como se o fosse, ele continuará a estar apegado às posses materiais e aos desejos mundanos. Pois um é a raiz do outro.

Se quiser o melhor do que a vida lhe possa oferecer, ele deverá, em retorno, oferecer o melhor que possui – deverá oferecer a si mesmo. Não poderá haver nesta oferta, para que ela seja aceita, quaisquer reservas ocultas ou subterfúgios astutos. 

O ego terá de ser descartado antes que o Eu Superior possa ser descoberto.

Esse pequeno ego poderá sofrer diante da verdade tão dura e implacável. Mesmo assim, no final, ele deverá reconhecer que a verdade não e tão implacável, pois ela se encaixa perfeitamente dentro da ordem divina. 

Somente quando o ego houver definhado é que ele conhecerá o que a verdadeira paz interna é. 

O Eu Superior sempre exige esta relação consciente; o ego sempre se recusa a cumprir com tal exigência. 

Enquanto o eu inferior se julga sábio o suficiente para tomar todas as decisões e solucionar todos os problemas, sempre haverá uma barreira entre ele e o Poder Superior. 

O ser humano só pode manter um pensamento  de cada vez na mente . Mesmo quando parece manter dois pensamentos diferentes (ao fazer duas ações diferentes simultaneamente), uma análise mais acurada evidenciará que as ideias são sucessivas, embora tão rápidas que pareçam estar juntas. Utilizando tal constatação, se evidenciará que é devido à manutenção do pensamento do seu ego pessoal separado, SOMENTE, que ele se vê impedido de chegar à identificação com o Eu Superior. Não foi dito isso, de outra maneira, por Jesus?

Essas injúrias causadas ao ego são o preço que teremos de pagar para obter as bênçãos do Eu Superior. 

Teremos que adquirir um padrão de conhecimento que transcenda a mera opinião individual. Só poderemos fazer isso, entretanto, se percebermos as coisas de forma impessoal, e não pessoal. Se excluirmos o ego de nossas medições e cálculos. 

Aquele que vive totalmente dentro do seu ego, vive num mundo fechado, embora dentro de si mesmo. Ele não poderá adquirir o conhecimento direto do Eu Superior divino assim como nenhuma experiência confirmatória daquelas verdades apresentadas nas revelações dos grandes profetas. Esta é uma das razões porque duvida ou mesmo se opõe a elas. 

Deveremos descobrir a verdade sobre quem de fato somos na medida em que descubramos o erro de acreditarmos que somos o ego e somente ele. Essa descoberta acontecerá e nos levará ao caminho da realização e da liberação somente na extensão em que a vivamos; pois a filosofia não será filosofia a não ser que seja posta em prática na vida.

A verdade não pode ser encontrada com o ego

O ser humano que não tem nenhum outro suporte para suas atividades e empreendimentos do que seu ego, assim como nenhum outro centro para seus pensamentos e sentimentos, verdadeiramente é inseguro. Ele prossegue através dos eventos e situações da vida com medos e ansiedades trazidos de seu passado ou relacionados ao seu futuro.

Se você deseja estar em harmonia com a ordem do universo, cooperar com ela e não resistir a ela, terá de parar de impor o ego – seu ego – sobre ela. 

Na consciência do ego, o homem compete com o outro e o mais agressivo ou o mais talentoso terá sucesso. Mas na consciência do Eu Superior não existe competição entre eles. 

Se seu Eu Superior continuamente permanece fora do campo de sua consciência, isso será devido a que a consciência de seu ego esteja demasiado dentro dela. 

Quão verdadeira é a afirmação metafórica da Bíblia de que o homem não poderá olhar a face de Deus e permanecer vivo. Sim, ele, o ego, terá de morrer para que Deus se faça presente. 

O que ele acredita ser, como fato egóico, oculta o que em verdade é, como essência espiritual. 

Enquanto seu ego afirmar sua supremacia em tudo o que ele faz, enquanto for ele que organiza todas as coisas para ele, ele será vítima de sua própria ignorância e cegueira.

Existem vários obstáculos ao caminho da verdade, mas o maior deles é o próprio aspirante – suas limitações, seus apegos ao ego.

Ninguém o está impedindo de chegar a esta iluminação a não ser ele mesmo. 

A verdade não pode ser encontrada com base no que traz satisfação ao ego. Esse próprio sentimento de gratificação se tornará um obstáculo à sua descoberta assim como um desvio para a mente. 

Todas as nossas relações com os outros serão marcadas pela maneira como usamos e funcionamos no nosso ego. 

Como podem as pessoas encontrar a paz se vivem com contradições internas, onde a parte mais profunda de seu ser é suprimida pela que é mais superficial?

O ego penetra em todas as emoções e terá de ser retirado delas para que sejamos livres. 

Quando cada pensamento e sentimento são direcionados pelo seu pequeno ego, quando as grandes questões da vida não são levadas em conta por serem consideradas irrelevantes, uma apreciação verdadeira disso terá de concluir que sua vida privada fracassou mesmo que sua vida pública haja sido bem sucedida. 

Perdidos na miséria do ego, ele não ouvirá a voz jubilosa que o chama do nível mais profundo de seu próprio ser e não sabe que existe uma graça da qual possa ter esperança.

Enquanto o ser humano viver à parte da consciência de seu Eu verdadeiro, não poderá viver em paz. Mas quando puder descansar completamente neste Eu, não haverá segunda coisa que o tire dessa paz.

Efeitos após a iluminação


Quando a parede entre seu pequeno ego e o Ser Infinito colapsar, é dito, por alguns orientais, que ele chegou ao Nirvana, ao Vazio, e, por outros, que uniu sua alma a Deus.

É o clímax espiritual da existência, o momento dramático quando a consciência se reconhece e se compreende. Pois, à proporção que o ser humano cresça em compreensão, ele se deslocará de uma mera existência para a autêntica essência.
E será a descoberta de que todo o universo existe na mente, a qual virá com a revelação da Realidade. Será a atualidade da segurança interna, da benção da paz, que veio para ficar.

Ele se verá eclipsado pelo Eu Superior, o qual se apossará de seu corpo; ocorrerá então uma união mística de sua mente com seu corpo e o ego ficará inteiramente subordinado a isso.

A partir do momento em que esta grande mudança de consciência ocorra, esse próprio acontecimento, assim como seus efeitos tremendos, deverão ser mantidos em segredo e revelados somente sobre uma orientação genuinamente superior. Pois, diante daquele que se iluminou, um observador com discernimento poderá perceber tal fato a partir de suas ações e de sua postura corporal, mas um outro ignorante poderá não perceber nada.

Ele não poderá existir neste estado mágico sem que transforme sua experiência no mundo. De um jeito ou de outro, isso servirá ao propósito de Deus, transformando mesmo defeitos externos em vitórias internas.

Compreenderá ele então o que significa não fazer nada por si mesmo, pois claramente perceberá que o poder superior age através dele para que faça o que quer que haja a ser feito, e que o faça corretamente. Enquanto isso acontece, ele apenas observa.

A experiência da iluminação traz consigo um sentimento estupendo de bem estar.

Assim como este Estado Iluminado não o impede de receber as impressões físicas do mundo ao redor, também não o impedirá de receber as impressões psíquicas das pessoas à sua volta. Mas ele não se prende a nenhuma dessas impressões e nem permite que suas emoções se envolvam com elas.

Sua serenidade na vida será oculta. Não dependerá dos cursos flutuantes da fortuna.

A natureza dos sentimentos de uma pessoa que chegou à iluminação se abrirá para reações puramente impessoais, com um sentimento tranquilo e não cheio de emotividade.

Nesta Mente Universal, aonde agora habita, ele não encontrará nenhum ser humano ao qual possa ser chamado de inimigo, ao qual odeie ou despreze. Ele tornar-se-á amigável com todos, não como uma atitude deliberadamente cultivada, mas como uma compulsão natural a qual não poderá resistir.

O renascimento espiritual


Um dia, o evento misterioso chamado por Jesus de “renascer novamente”, ocorrerá. Acontecerá então um deslocamento sereno do eu inferior pelo Eu Superior. Com isso, no segredo do coração do discípulo, virá um poder estupendo ao qual o intelecto, o ego e o lado animal nele poderão resistir, mas resistirão em vão. Ele foi levado a essa experiência pelo Eu Superior tão logo pôde penetrar nas regiões mais profundas de seu coração.

Somente quando houver abandonado todas as atrações terrenas, todas as expectativas e desejos que, previamente, o dominavam, somente quando tiver a coragem de arrancá-las de si pela raiz e as jogar fora para sempre, somente então é que encontrará essa misteriosa e não terrena compensação por todo esse seu imenso sacrifício. Pois então será untado com o óleo sagrado da nova e mais elevada vida. A partir de então, ele estará verdadeiramente salvo, redimido e iluminado. O eu inferior terá morrido para que desse lugar ao seu sucessor divino. Saberá então que esse foi o dia de seu renascimento espiritual, que a luta da vida foi assim substituída pela serenidade, e que a vida na aparência foi transformada na vida na realidade. Suas capacidades, que haviam sido lentamente  incubadas durante todos esses anos de busca espiritual, irromperão de súbito na consciência no momento em que o Eu Superior se apossar dele.

O que antes fora intermitentes vislumbres espirituais agora se tornam realidade permanente. A presença divina se tornou para ele um presença íntima e imediata. 

Aquilo que tal sábio mantém em seu coração existe para todos sem distinção. Se poucos desejam receber isso, tal falha não está nele. Ele não rejeita nem discrimina a ninguém. São os outros que o rejeitam, que o discriminam.

A necessidade da Graça - parte 1

A subjugação do ego é uma Graça a ser conferida e não um ato que possa ser feito pelo indivíduo.

O ataque frontal sobre as fraquezas e faltas do ego poderá levar a certos resultados benéficos, tais como a redução do tamanho delas e a diminuição de seu poder, ou á total repressão superficial delas, mas não poderá levar à sua total eliminação. Todos os métodos que dissolvem as falhas e fraquezas do eu ainda mantêm o próprio ego não dissoluto. Todas as técnicas que transformam as qualidades e atributos do ego ainda mantêm a raiz do ego sem mudanças.

Ele descobrirá que nenhum indivíduo poderá negar totalmente seu ego e nem sair dele através de suas próprias tentativas; alguma ajuda, alguma intervenção, alguma Graça vinda de fora será necessária.

Não haveria nenhuma esperança de algum dia se livrar dessa posição centrada no ego se não soubéssemos das três coisas seguintes: primeiro, que o ego é somente um acúmulo de memórias e uma série de desejos, quer dizer, ele é pensamento, uma entidade fictícia. Segundo, a atividade do pensamento pode chegar ao fim dentro do silêncio. Terceiro, a Graça – esta radiação do Poder além do ser humano – sempre está presente e irradiando a Si mesma. Se conseguirmos que a mente se torne profundamente silenciosa e profundamente observadora do instinto de autopreservação do ego, abriremos uma porta para a Graça que, amorosamente, nos absorverá.

Na última batalha, quando ficarmos face a face com nosso ego, quando retirarmos todos os seus disfarces de proteção e expusermos sua vulnerabilidade, teremos de apelar para a ajuda da Graça, pois não poderemos vencer essa batalha só através de nossos próprios poderes.

Aquilo que nos mantém ocupados com um tipo de atividade uma atrás da outra – tanto mental como física – até que, cansados, caiamos de sono, não passa do ego. Dessa forma, ele desvia nossa atenção da necessidade de nos engajarmos na atividade de suprema importância – a luta e destruição do próprio ego.

Esta redução do ego poderá ocupar toda uma vida e, mesmo assim, não parecer ter sido bem sucedida. Contudo, ela é da maior importância como um processo preparatório para a total remoção do ego para que a Graça, de súbito, venha a ascender ao coração. 

O interesse do ego na sua própria transcendência é espúrio. Por isso, se faz necessário a Graça. 

O ego terá de ser arrebentado em pedaços, se isso for necessário, para que a Graça desça e abra o caminho, substituindo assim a arrogância pela passividade.

A destruição de nosso egoísmo terá de vir de fora, caso nós voluntariamente, não a façamos de dentro. No primeiro caso, ela virá implacável e esmagadoramente. Pois não há como o ego permanecer.

A necessidade da Graça - parte 2

É tão difícil para o ego julgar-se honestamente e observar as suas ações a partir de uma perspectiva correta, como é, para o ser humano, erguer-se por seus próprios pés. O ego simplesmente não pode fazê-lo; sua capacidade para encontrar desculpas para si próprio é ilimitada – mesmo a desculpa da retidão, mesmo a desculpa da busca da verdade. Tudo o que o aspirante pode esperar fazer é diminuir o volume das influências do ego e enfraquecer a sua força; mas livrar-se do ego inteiramente é algo que está além da sua capacidade. Consequentemente, um poder exterior precisa ser convocado. Existe apenas um poder assim disponível para ele, embora possa manifestar-se de dois modos diferentes – é o poder da Graça. Esses modos são: a ajuda direta do seu próprio eu mais elevado, ou a ajuda pessoal de um ser mais elevado, isto é, um instrutor iluminado. Ele pode buscar o primeiro a qualquer momento, mas não pode, justificadamente, buscar o segundo antes de ter trabalhado suficientemente em si mesmo, antes de ter avançado o suficiente para justificar isso.

Quando o ego é forçado a ajoelhar-se no pó, humilhado aos seus próprios olhos, embora conceituado ou temido, invejado ou respeitado aos olhos dos outros homens, o caminho está aberto para o influxo da Graça. Esteja seguro de que esse ato do indivíduo interior, de tornar-se completamente humilde, acontecerá repetidamente até que ele esteja purificado de todo o orgulho.

Como poderia ele ver na clara luz seu egocentrismo Inabalável, como confessar isso a si mesmo se o ego, por si mesmo, teria de ajudar a fazer emergir tal confissão?

A virtude e a compaixão diminuem o ego, mas não trazem a iluminação.

Os sentidos que o tentam para que se desvie do seu caminho de conduta escolhido, no devido tempo, poderão ser subjugados através dos pensamentos corretos. Os pensamentos que o distraem do caminho de meditação escolhido poderão ser subjugados através do esforço permanente. Mas o ego, que impede sua entrada no reino dos céus, se recusa, e só pretende, subjugar a si mesmo. 

Onde está o homem que não assume a realidade do ego? Ele está iludido, por certo, mas o que mais poderia ele fazer se tem de atender às solicitações da vida diária? A resposta é que ele não pode fazer muito mais – a não ser que a Graça venha e atenda suas necessidades por ele!

Sobre os pensamentos que vêm na meditação

Sua meditação tem o propósito de chegar ao significado real, ao significado interior da declaração, "Eu e meu Pai somos um". Mas, como principiante, você não pode manter isso por muito tempo. Você perde rapidamente o fio da meada e se surpreende pensando que está perdendo sua entrevista no escritório, ou que vai perder o ônibus ou o trem. A primeira coisa que percebe é que seus pensamentos estão vagando. 

Nesse ponto, traga suavemente de volta seu pensamento para "Eu e meu Pai somo um". Não fique impaciente, não se condene e não pense que não há esperança para você. Não dê atenção a esses passeios da mente, mas suavemente traga seu pensamento ou atenção de volta e comece novamente, refletindo sobre esta ideia, ou até mesmo poderá surgir, nessa ocasião, outra ideia, provavelmente bem melhor para o momento. Quantas vezes seu pensamento fugir da ideia, retorne a ela novamente, sem impaciência, sem crítica ou autojulgamento. 

Neste estado inicial, não só os seus pensamentos vagam, mas se mantêm viajando para dentro e para fora — toda espécie de pensamentos indesejáveis. Você pode pensar que eles são seus pensamentos. MAS NÃO SÃO. Eles estão apenas tocando em você, procurando perturbá-lo, distraí-lo; portanto, NÃO OS COMBATA, NÃO TENTE PARAR DE PENSAR NO QUE ESTÁ PENSANDO porque você não terá êxito, e saber disso pode poupar-lhe uma enorme quantidade de problemas. Você nunca terá êxito parando de pensar; portanto, deixe que esses pensamentos entrem e saiam e faça o que desejam fazer. NÃO SE PREOCUPE COM ELES. Apenas RETORNE AO SEU CENTRO, para o assunto específico de sua meditação. 

Chegará um momento, à medida que você avançar nesta prática, quando não surgirão pensamentos estranhos, poque você os terá eliminado por desatenção, você terá se tornado tão sem receptividade para eles, não os combatendo, que eles não retornarão. Mas se você os combater, eles estarão lá para sempre, porque seu combate contra eles é exatamente o que os mantém vivos. "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele". Todos esses pensamentos errados que sempre surgem não são perigosos nem nocivos; ninguém saberá deles; e eles não lhe causarão nenhum mal. Deixe que venham; deixe que se vão; MAS NÃO LHES DÊ ATENÇÃO. 

Lembre-se sempre de que você está em meditação apenas com um propósito — compreender Deus. E, assim, você reflete sobre essas verdades das escrituras: "Eu e meu Pai somos um... Meu reino não é deste mundo... Conservarás em paz aquele cuja mente está firme em ti". Escolha uma que lhe seja própria, ou você pode chegar a um ponto onde alguma coisa de que necessite para esse determinado dia virá a você, e você refletirá sobre ela. 

Posso lembrar-me por quantos meses vivi com esta declaração: "Não pela força, nem pela violência, MAS PELO MEU ESPÍRITO". Finalmente, cheguei ao lugar onde isso traduziu-se para mim nestas palavras: "Não pela força FÍSICA, nem pela violência MENTAL, mas pelo MEU ESPÍRITO — pela realidade de meu próprio ser." Pratiquei isso durante oito meses, cinco, seis, oito vezes por dia, antes de chegar ao lugar onde houvesse um segundo de paz e sossego dentro de mim. 

Mas você jamais terá de passar pelos vários estágios do desenvolvimento de quem quer que seja... Você pode começar com o mais alto ponto de desenvolvimento alcançado até este momento; você pode começar no mais alto nível revelado à consciência, porque todas as pessoas que passaram por estas coisas aplainaram o caminho para você. 

Assim é com a meditação. Você constatará muito cedo que as ideias ou citações originais virão a você — uso a palavra "originais" no sentido de que essas ideias não foram dadas a você por qualquer pessoa, mas que elas lhe ocorreram diretamente — e você consegue ficar em paz por um minuto, dois, três ou quatro. 

Joel Golsdmith em, União consciente com Deus

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)