O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Os inimigos estão dentro de nossa própria casa

Não devemos perturbar, nem ficar alarmados, quando virmos os erros que aparecem na esteira desses movimentos de vanguarda, como se houvesse alguma dúvida quanto aos seus resultados. Poderia haver dúvida se essas coisas estivessem à mercê do homem; mas não dependem dele, e sim de Deus, que está forçando a passagem, porque sempre haverá os que reagem contra essas mudanças. Não obstante, elas se consumarão, alcançando plenamente seu objetivo, visto que constituem um desdobramento das atividades do Espírito, que é Deus.

Isto se aplica não só ao mundo em geral, mas também ao indivíduo em particular. Só pode aplicar-se ao mundo aquilo que se aplica ao indivíduo. O fato de virmos buscando a verdade durante cinco, dez, vinte ou trinta anos e ainda não termos encontrado a Utopia, esse estado de perfeição ideal, não deveria perturbar-nos.

Quando a luz da verdade irrompe pela primeira vez em nossa consciência, só encontra inimizade dentro de nós. Os inimigos do homem são aqueles que vivem na própria casa do homem, isto é, em sua consciência. Portanto, quando o Espírito, a luz da verdade força sua passagem para dento de nossa consciência, necessariamente terá de eliminar todas as nossas ideias humanas. Muitas delas constituem aquilo que julgamos ser bom para nós, e por isso nos rebelamos contra a própria vida espiritual que procura penetrar em nós.

Se estivéssemos profundamente apercebidos da causa e finalidade desse processo de eliminação de nossas ideias humanas, não haveria luta contra ele, ou, se houvesse, seria breve; mas, como ignorantes o que está ocorrendo dentro de nós, não sabemos que estamos combatendo as ideias espirituais e os impulsos mais elevados que estão chegando à nossa consciência para destruir “o homem velho”.

O “homem velho”, que tem de “morrer diariamente”, deseja apegar-se à vida. Esse apego ao maná de ontem é um instinto humano que vem de muito antes de Moisés. É natural apegar-se à vida aquilo que deve “morrer”.

Foi-nos dito eu o mais elevado instinto humano é o de autopreservação. Entretanto, este é o maior inimigo de nosso desenvolvimento espiritual. O instinto humano mais profundo, o mais forte, é ao mesmo tempo o mais feroz inimigo de nossa evolução espiritual. Por que? Que é o que sempre queremos conservar de nossa personalidade, senão o que julgamos bom para nós? Se isso não é o que nos convém, então, que e o que constitui o apogeu do progresso espiritual? — É não só a “morte” para o “eu”, mas também a perda do senso humano da vida. O instinto humano diz: “preserva-te”! O impulso de desenvolvimento espiritual diz: “perde tua vida”! Ambos estão sempre em luta um com o outro. [...]

A ideia da autopreservação persiste, é o inimigo do progresso espiritual, que no diz: “Dá, reparte, sacrifica, ajuda; se necessário, morre pelo teu próximo. Não há maior demonstração espiritual do que esta.” Os maiores inimigos de nosso progresso espiritual somos nós mesmos, tu e eu, porque insistimos em apegar-nos a essas ideias do passado. Apegamo-nos ao desejo de autopreservação e, com isso, criamos oposição dentro de nós próprios individualmente e coletivamente.

Isto não é dito como julgamento, crítica ou condenação a ninguém, mas para mostrar aquilo que está dentro de nós e que retarda e até impede a nossa própria expansão espiritual, a paz e a prosperidade de todo o mundo. É dito com a intenção de alertar-nos para que não percamos a paciência com nós mesmos e não esperemos alcançar a Utopia, aquele estado de perfeição ideal, logo no dia seguinte, porque dentro de cada um de nós estão esses inimigos que ainda precisam ser derrotados: a autopreservação e o senso pessoal de “eu” ou “ego” e cada uma de suas múltiplas manifestações.

É evidente que nós não podemos vencê-los, mas, à medida que nos expomos à luz da verdade, absorvendo-nos na leitura dos escrito místicos e espirituais que existem no mundo — os quais lemos porque a Luz que é Deus, já nos tocou a alma e a mente, — essas leituras inspiradas vão despertando em nosso íntimo algo que lhes responde: “Sim, sim, sim, é isto mesmo”. Então vamos entrando em sintonia com elas, e sua essência se vai transfundindo em nós e modificando nossa maneira de sentir.

Esta é a garantia de que fomos tocados pela Consciência divina, infinita, a qual, pacientemente, está abrindo caminho e estabelecendo o cerco decisivo para a vitória sobre os nossos inimigos internos. Ela destruirá, por nós, aquilo que dentro de nós se apega ao maná de ontem, às ideias e ideais do passado, e extirpará a crença em nós enraizada de que a autopreservação é a primeira lei da Natureza, permitindo-nos, assim, compreender que, pelo contrário, a mais importante lei da expansão espiritual  é o auto-sacrifício, isto é, o sacrifício do interesse particular, pessoal, pelo Universal, divino, que é o da fraternidade.

O Mestre revelou que de nada nos aproveita orar, pedir, para nós mesmo. Para sermos filhos de Deus, para que essa Consciência divina efetivamente se expresse em nós, precisamos orar pelos nossos inimigos. Em outras palavras: o “eu”, o “ego” humano precisa esvaziar-se a tal ponto que a dedicação do nosso tempo e de nossas orações, exclusivamente em favor de nós mesmos e de nossos amigos, se amplie e converta num estado de consciência em que haja o verdadeiro amor ao próximo.

Joel Goldsmith - Setas no "Caminho do Infinito"

Sobre destruição e paciência

Aonde quer que tu vires um grande fim, fica seguro de um grande começo. Onde uma monstruosa e dolorosa destruição estarrece tua mente, consola com a certeza de uma grande e vasta criação. Deus está não apenas na pequenina voz tranquila, mas também está no fogo e no turbilhão. Quanto maior a destruição, mais profusas são as chances de criação, mas a destruição é frequentemente longa, demorada e opressiva. A criação tardia em seu aparecimento ou interrompida em seu triunfo. A noite retorna outra vez e mais outra e o dia tarda a chegar ou parece mesmo ter sido um falso alvorecer. Não te desesperes, portanto, mas vigiai e trabalhai. Aqueles que esperam impacientemente, desesperam-se rapidamente, não esperes nem tenha medo, mas fique certo do propósito de Deus e de Sua vontade em realizar. Deus tem todo tempo diante de si e não necessita estar sempre correndo, e ele está certo de Seu objetivo e sucesso e não se importa em quebrar seu trabalho centenas de vezes para trazê-lo mais perto da perfeição. Paciência é a nossa grande lição, mas não é aquela paciência apática, lenta que move o tímido, o cético, e nem o fraco, nem o preguiçoso, nem o débil; mas uma paciência cheia de força, calma, concentrada, que observa e prepara-se para a hora das grandes passadas rápidas, poucas mas suficientes para mudar o nosso destino. Você pergunta porque Deus martela tão fortemente seu mundo, pisa-o, trabalha-o como se fosse uma massa e lança-o tão frequentemente num banho de sangue, no calor de um inferno rubro de uma fornalha, é porque a massa da humanidade é ainda um minério duro, grosseiro e de outra forma não será fundido e moldado. Este é o seu método, que isso ajude a transmuta-lo, esse mental num metal mais nobre, mais puro, e a sua maneira de trata-la será sempre mais gentil e mais suave. Eu pergunto porque Ele selecionou ou fez tal material quando tinha todas as infinitas possibilidades de escolha? É por causa de sua divina ideia, que viu diante de si não apenas beleza, doçura e pureza, mas também força, vontade, grandeza. Então não despreze a força nem a odeie pela feiura de algumas de suas faces, nem pense que Deus é apenas amor; toda perfeição perfeita deve ter algo de si, do estofo do herói e mesmo do titã. Mas eu afirmo, a maior força nasce da sua maior dificuldade. 

Sri Aurobindo

Os padrões que ocultam a "substância do Ser"


O jogo mágico da mente contém todas as 
possibilidades de crescimento e mudança. 

[... ] Enxergamos nossa vida como tendo começo, uma duração e um fim: uma história escrita no tempo. Nós nos sentimos caminhando através do tempo como um ator que caminha através do palco, desempenhando uma cena depois da outra. Vivemos a história da nossa vida, imaginando que estamos avançando, à medida que tentamos realizar nossos sonhos: as coisas que desejamos para nós e para as gerações do futuro. Entretanto, parece que estamos reencenando a mesma história, vez por outra.

Dentro desta história, vemos apenas o resultado final das mudanças. Olhamos e vemos as mesmas imagens, as mesmas formas, as mesmas pessoas, dia após dia. Atravessamos as mesmas rotinas, dizemos as mesmas palavras, fazemos os mesmos gestos, reagindo de acordo com os mesmos padrões, ano após ano. Desejo, prazer, tédio, entusiasmo, decepção, novo desejo, expectativa, frustração — padrões entrelaçados e reforçados por lembranças e associações nos aprisionam; não temos como nos libertar e nos ver tal como somos. Nossa consciência é hipnotizada pela mesmice e pela repetição.

A partir do momento em que nos envolvemos com um pensamento, repetimos padrões arcaicos de rotulação, congelando em conceitos a realidade viva à nossa frente. Dentro de uma infinitude de potencialidades, construímos entidades distintas, por meio de um processo de rotular, delinear, medir, definir, particularizar e nomear. Como é que conseguiríamos sequer funcionar se tivéssemos que renomear todas as coisas a cada instante? Ao dividir o tempo em momentos isolados, e o espaço em formas sólidas, nós apreendemos "coisas reais" movimentando através do tempo e do espaço. 

Estabelecemos regras inquestionáveis para definir as "coisas reais", e nos vemos em um mundo de coisas que "conhecemos e sabemos". "Sabemos" o que é felicidade ou liberdade; "sabemos" o que é sofrimento e "sabemos" quem somos. Quando reunimos todos os nomes que "sabemos", temos o corpo de conhecimento que usamos para viver em nosso mundo. Até o conhecimento se torna uma "coisa" que particularizamos por meio de infindáveis distinções, cada vez mais elaboradas. 

Para onde quer que olhemos, em nosso idioma, podemos dar ênfase no concreto e no real. Damos substância a ideias intangíveis, tais como liberdade e progresso, e a palavras que denotam processos, tais como movimento e mudança. Podemos tornar as coisas ainda mais sólidas ao dizer: "isto é"; "isto não é"; "nós somos". 

Nós ingressamos no mundo "real" e amortecidos das coisas quando dizemos "eu sou". Ignorando o campo aberto e mutável das potencialidades, transformamo-nos em seres isolados e solitários, que existem em um mundo de coisas isoladas e congeladas. Ficamos trancados em uma definição de "real" que não conseguimos mudar sem colocar em questão a nossa própria existência. Nós nos agarramos a estas noções de existência; sustentamos esta visão com a nossa própria vida, acreditando em "eu sou" como o nosso fato mais certo. Ele nos dá um lugar, uma posição, da mesma forma que todas as coisas a que podemos dar nomes têm uma posição. Mas o que sabemos nós sobre a sua substância — qual a natureza do nosso ser?  

Ao negar a natureza vibrante do mundo, não temos liberdade em relação às coisas que "sabemos". Não temos liberdade em relação às coisas que damos nomes, às coisas que podemos ver e sentir, às coisas que despertam nossos desejos e aversões. Não somos livres de vontades, frustrações e ansiedades; não temos liberdade em relação à solidão, raiva, culpa ou arrependimento. Não temos liberdade em relação aos nossos próprios pensamentos, 

Quando tomamos conhecimento de tudo isso, adquirimos alguma compreensão da nossa situação: durante incontáveis eras de condicionamento, vimos sendo enganados para aceitar a visão da vida que nos deixa presos à repetição de padrões, limita nossa liberdade e perpetua sofrimento. Podemos ver como os nossos próprios sentidos nos apresentam coisas fixas, esquecendo o fluxo cambiante da vida. Podemos começar a ver como nossos pensamentos e desejos nos seduzem e nos induze a repetir os mesmos dramas, até que o nosso tem se esgota e nossas histórias chegam a um final de velhice e morte.

Talvez vejamos a futilidade de ficar repetindo os mesmos temas; talvez queiramos ser livres. Mas onde haveria um conhecimento amplo o suficiente para nos libertar? Nossa forma atual de conhecimento expande-se apenas em direções específicas; seguindo velhos padrões, estamos caminhando inexoravelmente em direção a uma maior especialização. Ao confinar o conhecimento em compartimentos cada vez menores e mais isolados, estamos perdendo de vista o conhecimento que dá sentido à vida humana. Nosso conhecimento é como um grande cone que se abre para uma vasta paisagem, Quanto mais avançamos sobre sua superfície, mais larga parece ser a nossa visão, e maior o sentimento de que dispomos de um potencial ilimitado para estender o seu alcance. No entanto, ao nos limitarmos à superfície do cone, ficamos suscetíveis a uma visão afunilada.

Será que a nossa forma atual de entender a nós mesmos e ao nosso mundo poderá algum dia nos proporcionar real liberdade? Como é que podemos confiar em nosso conhecimento quando ele continuamente nos conta histórias que nos fazem pensar que já somos livres? Embora nossas vidas sejam permeadas de profundo sofrimento e insegurança, negamos nossa falta de conhecimento; rejeitamos a incerteza que poderia nos impelir a iniciar uma busca de conhecimento e liberdade. Mesmo quando tentamos forjar uma abertura no padrão, a mente transfere o foco da atenção de volta para as palavras: em vez de liberdade, recebemos palavras que justificam a nossa dor e pensamentos que nos confinam dentro de padrões que perpetuam o nosso sofrimento. Palavras, porém, não nos colocam em liberdade. Elas nos embalam com razões do nosso sofrimento, razões as nossas limitações, das nossas vontades, ódios, agressões e violência contra nós mesmos e todas as demais coisas do nosso mundo. Nossas apalavras nos faze girar em círculo, enquanto pensamos que estão apontando o caminho para a liberdade. 

Quando enxergamos, em toda a sua extensão, as implicações de continuarmos como somos, e perguntamos "O que podemos fazer?", nossos pensamentos instantaneamente nos exibem um arsenal de soluções, embora todas elas nos envolvam novamente nos mesmos padrões. As noções fixas que temos sobre nós mesmos e sobre o que podemos nos tornar, fecham as portas das possibilidades do que podemos vivenciar, conhecer e fazer. Nossas palavras, nossa linguagem e nossos pensamentos trancaram a porta e esconderam a chave. Dentro dessa prisão interna, nossas escolhas são limitadas e a liberdade é uma palavra vazia. 

Parece que, acidentalmente, não iremos escapar desta prisão que é a nossa forma de conhecer. Suas paredes são mantidas por nossa sensação de separação, nossas ações míopes e nossa incapacidade de enxergar além do interesse próprio. Nossas estruturas e padrões habituais exercem uma força sobre a mente semelhante à atração magnética, puxando-a para imagens, objetos e pensamentos "sólidos", e conservando-a atada a este mundo sólido. Mesmo que consigamos enxergar nossos padrões e tentemos nos libertar, somos arrastados de volta para os mesmos padrões, quase que por reflexo.

Agora, porém, mais do que nunca, precisamos acordar e reconhecer as limitações do nosso conhecimento, não apenas para nosso benefício, mas também para benefício do futuro de todos os seres humanos. Nas últimas décadas, começamos a direcionar nosso conhecimento por canais que são veículos de destruição, colocando em perigo a sobrevivência de todas as formas de vida no planeta. 

Como é que podemos nos libertar desta prisão, quando os padrões nos mantêm amarrados com tanta força? E,bora talvez difícil de reconhecer e de usar, a chave que abre a porta da prisão encontra-se em nosso interior. O conhecimento que nos amarra pode também ser o conhecimento que abre o caminho para a liberdade. Já possuímos estre conhecimento em profusão: conhecemos a extensão das nossas limitações; conhecemos os ciclos estreitos de vontades e frustrações que restringem a nossa visão; sabemos da inutilidade de continuar onde estamos. Agora precisamos dar o passo seguinte e colocar nosso conhecimento em liberdade. 

Assentando-nos no conhecimento que possuímos, podemos acordar uma determinação de nunca mais ficarmos presos em repetições. Esta determinação é a confiança de que precisamos para romper com os padrões que nos amarram. A cada esforço, aliviamos a pressão das respostas habituais e experimentamos um novo influxo de conhecimento. Embora os nossos esforços iniciais talvez não sejam bem sucedidos, podemos nos encorajar, sabendo que o conhecimento irá nos apoiar. Quando sustentamos a determinação com novos conhecimentos, e os aplicamos imediatamente em nossa vida, fortalecemo-nos com cada experiência. Ao recordar e colocar em prática tudo o que sabemos, refinamos o nosso conhecimento continuamente. Com o tempo, poderemos criar um impulso dinâmico capaz de sobrepujar por completo a força dos nossos padrões. [...]

Depois de termos aliviado os padrões limitativos que marcam o nosso pensamento, poderemos encontrar um meio de abrir as paredes do cone e enxergar todo o campo de potencialidades que o tempo e o conhecimento nos proporcionam. Tudo o que agora parece tão aglomerado e sólido — nosso mundo físico, nossas complexidades, pensamentos, sentimentos, emoções — pode se abrir numa esfera de infinitas possibilidades. Liberados do desgaste da repetição, poderemos encontrar o caminho da liberdade, e convidar um conhecimento maior a entrar em nossa vida.  

Tarthang Tulku em, Conhecimento da Liberdade      

É possível transcender nossas estruturas conceituais?

É possível que a energia da consciência humana possua uma afinidade com a luz que ainda não compreendamos. 

Nestes tempos críticos, em que o ritmo das mudanças talvez esteja ultrapassando a nossa capacidade de dirigi-las com sabedoria, nossas alternativas estão diminuindo rapidamente. O conhecimento que aplicarmos agora irá decidir se o ser humano será dominado ou liberado por tudo o que estamos criando. Estamos diante da necessidade de oferecermos uma nova visão à humanidade, uma visão capaz de elevar os povos de todas as nações, e de servir como base para uma nova compreensão da paz e da prosperidade. 

A inspiração para se criar e sustentar uma visão mais ampla do ser humano somente poderá surgir a partir de um maior conhecimento da consciência humana. No entanto, ao nos concentrarmos nos aspectos da mente que podem ser avaliados e analisados, passamos a crer que não nos é possível conhecer a nossa consciência. Como é que podemos adotar esta suposição com tanta facilidade, se continuamente estamos utilizando a nossa mente? Nós vivemos dentro da nossa consciência: ela é a nossa vida, a nossa morada, a essência do nosso ser humano. Dizer que não podemos conhecer a nossa consciência é como dizer que não podemos ver os nossos lábios se moverem quando falamos. De uma determinada perspectiva isto pode ser verdade, mas a solução é olharmos num espelho. Pode ser que simplesmente não tenhamos ainda descoberto o espelho capaz de revelar a verdadeira natureza da nossa consciência. 

Talvez este espelho se encontre dentro da nossa própria consciência. Atrás ou entorno de nossos pensamentos, é possível percebermos um campo refletor, ou uma qualidade cristalina semelhante a um espelho. Talvez o mundo objetivo seja espelhado em nossa mente de modo mais completo do que saibamos. Se desenvolvêssemos meios para examinar nossa mente de forma mais direta, utilizando as nossas descobertas sobre a natureza da realidade física como indicações do que poderíamos encontrar internamente, teríamos oportunidade de descobrir uma maneira inteiramente nova de enxergar a nós mesmos e à nossa relação com o mundo. 

De alguns séculos para cá, vimos utilizando métodos científicos para explorar o mundo à nossa volta. Olhando para o céu, descobrimos que o sol não era o centro, mas apenas uma parte de uma grande galáxia, uma dentre muitas. Atualmente especula-se que a nossa galáxia faça parte de um sistema ainda maior. Ao investigar as formas sólidas, verificamos que eram compostas de moléculas; indo além, descobrimos que as moléculas eram compostas de átomos; indo mais longe, encontramos os elétrons, prótons e, por fim, partículas ainda mais estranhas, que oscilam entre a matéria e a energia. 

Em nenhum momento, encontramos algo que fosse plano, linear ou estático. Desde as menores até as maiores unidades de matéria, o universo físico parece exibir padrões recorrentes. Os corpos giram em ciclos, uns em torno dos outros; a matéria se torna energia, matéria. O espaço vibra com interações dinâmicas que, em última instância, transforma-se em luz. 

Será que a nossa mente também segue padrões semelhantes? Será que os pensamentos são estruturações complexas de energia? Estas questões são hoje apenas especulações, pois não desenvolvemos meios para examinar, a este nível básico, o espectro da consciência humana, em toda sua extensão. 

No passado, nos momentos em que sentimos uma necessidade premente de um maior conhecimento, fizemos árduos esforços para criar melhores meios de observação. Talvez possamos aplicar este mesmo sentido de urgência à compreensão do ser humano, e desenvolver formas de pesquisar nossa consciência mais a fundo. Como ponto de partida das nossas pesquisas, poderíamos começar com os recursos que dispomos: nossos sentidos, processos cognitivos e nossas faculdades analíticas. Vimos utilizando os sentidos para adquirir conhecimentos sobre o mundo físico; talvez sejamos capazes de usar nossa visão para "olharmos para dentro", em um sentido que não seja apenas metafórico; talvez sejamos capazes, também, de dirigir os demais sentidos para o nosso interior. 

Ao "sentir internamente", podemos verificar que nossos sentidos possuem um aspecto sutil que está ligado a uma consciência mais ampla. Normalmente, dizemos que os nossos sentidos estão "cientes de" alguma coisa, o que deixa implícita uma relação entre nós e aquilo que estamos vendo. Talvez também seja possível simplesmente "estar ciente", sem referência a quem está ciente do que, transferindo a ênfase para o "interior" da experiência. Pode ser que haja "ver" e "ouvir" em maior profundidade e amplitude do que saibamos. Porém, até que tenhamos uma experiência mais direta, não dispomos de palavras para expressar a diferença que existe entre nossa compreensão comum da consciência, e a consciência que vai além de um sujeito que interage com um objeto. 

Ao aprender a "ler a linguagem" das nossas capacidades cognitivas mais sutis, podermos encontrar um reino fascinante que havíamos deixado de notar. Por meio de observações e análises continuadas, podemos expandir nossas estruturas conceituais para abarcar novos conhecimentos a respeito da consciência humana. Uma vez que nossa perspectiva da consciência humana tenha começado a se modificar, cada nova descoberta do mundo físico poderá nos inspirar a olhar para dentro, equilibrando nossos conhecimentos do mundo observável com conhecimentos sobre o observador. 

Poderá gostar de

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)