O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

A depuração do desejo e a Vontade Pura

Desejo, pensa-se, é o poder motivo real da vida humana e eliminá-lo poderia ser parar as molas da vida; satisfação do desejo é o único desfrute do homem e eliminá-lo poderia ser extinguir o impulso da vida por um ascetismo quietístico. Mas o poder motivo real da vida da alma é Vontade; desejo é apenas uma deformação da vontade na vida corporal e mente física dominantes. O voltar-se essencial da alma em direção à posse e desfrute do mundo consiste em uma vontade de deleite, e o desfrute da satisfação de ânsias é apenas uma degradação física e vital da vontade de deleite. É essencial distinguirmos entre vontade pura e desejo, entre a vontade interior de deleite e a exterior luxúria e ânsia da mente e corpo. Se nós formos incapazes de fazer esta distinção praticamente na experiência de nosso ser, nós podemos apenas fazer uma escolha entre um ascetismo anulador-de-vida e a grosseira vontade de viver, ou ainda, tentar efetuar um desajeitado, incerto e precário compromisso entre eles. Este é, de fato, o que a maioria dos homens fazem; uma pequena minoria despreza o instinto de vida e se empenha na busca de uma perfeição ascética; muitos obedecem à vontade grosseira de viver com tais modificações e restrições que a sociedade impõe ou que o homem social normal foi treinado para impor à sua própria mente e ações; outros estabelecem um equilíbrio entre austeridade ética e indulgência temperada do si de desejo mental e vital, e vêem nesse equilíbrio o meio dourado de uma mente sã e uma saudável vida humana. Mas nenhum desses modos dá a perfeição que nós estamos buscando, o governo divino da vontade na vida. Desprezar inteiramente o ser vital, é matar a força da vida pela qual a ampla ação da alma encarnada no ser humano deve ser suportada; indulgir a vontade grosseira de viver é permanecer satisfeito com a imperfeição; o comprometer-se entre eles é parar no meio do caminho e não possuir nem terra nem céu. Mas se nós pudermos chegar à VONTADE PURA não deformada por desejo, – que descobriremos ser uma força muito mais livre, tranquila, firme e efetiva que a saltitante, sufocante, logo fatigada e frustrada chama do desejo –, e à calma vontade interior de deleite não afligida ou limitada por qualquer perturbação de ânsia, nós poderemos então transformar a energia do ser vital, de um tirano, inimigo, assaltante da mente, em um obediente instrumento. Nós podemos chamar essas coisas maiores, também, pelo nome de desejo, se nós assim escolhermos, mas então temos que supor que existe um desejo divino além da ânsia vital, um desejo-de-Deus do qual esse outro e inferior fenômeno é uma sombra obscura e no qual esse tem que ser transfigurado. É melhor manter nomes distintos para coisas que são inteiramente diferentes em seu caráter e ação interior.

Desembaraçar-se a energia vital de desejo e incidentalmente reverter o equilíbrio ordinário de nossa natureza e transformar o ser vital, de um problematicamente dominante poder em um instrumento obediente de uma mente livre e não apegada, é então o primeiro passo na purificação. À medida que essa deformação da energia vital física é corrigida, a purificação do restante das partes intermediárias da parte anatômica espiritual — a conexão entre o cérebro físico e o Eu Superior — é facilitada, e quando essa correção é completada, sua purificação também pode ser facilmente tornada absoluta. Essas partes intermediárias são a mente emocional, a mente receptiva sensorial e a mente ativa sensorial ou mente de impulso dinâmico. Todas elas estão unidas em uma interação fortemente interligada. A deformação da mente emocional apoia-se na dualidade inclinação e aversão, atração e repulsa emocionais. Toda a complexidade de nossas emoções e sua tirania sobre a alma surgem das respostas habituais da alma de desejo nas emoções e sensações a essas atrações e repulsas. Amor e ódio, esperança e medo, tristeza e alegria, todos têm sua origem nessa fonte única. Nós gostamos, amamos, recebemos bem, esperamos por alegria em qualquer parte de nossa natureza, o primeiro hábito de nosso ser, ou ainda um hábito formado (frequentemente perverso), a segunda natureza de nosso ser, apresenta à mente como agradável; nós odiamos, temos aversão, medo, repulsa de tristeza ou qualquer coisa que se apresente a nós como desagradável. Esse hábito da natureza emocional entra no caminho da vontade inteligente e a faz frequentemente um escravo desamparado do ser emocional ou pelo menos impede-a de exercer um livre julgamento e governo da natureza. Essa deformação tem que ser corrigida. Pelo eliminar do desejo no ser vital psíquico e sua intermitência no ser emocional, nós facilitamos a correção. Pois então o apego, que é o forte grilhão do coração, afasta-se das cordas do coração; o hábito involuntário de atração-repulsa permanece, mas, não sendo tornado obstinado pelo apego, ele pode ser conduzido mais facilmente pela vontade e inteligência. O incansável coração pode ser conquistado e livrado do hábito de atração e repulsa.

Mas então se isto é feito, pode pensar-se, como em relação ao desejo, que isto será a morte do ser emocional. Certamente será assim, se a deformação é eliminada mas não substituída pela correta ação do ser emocional; a mente irá então passar a uma condição neutra de indiferença vazia ou a um luminoso estado de imparcialidade cheia de paz, sem nenhum movimento ou onda de emoção. O primeiro estado é de nenhuma maneira desejável; o último pode ser a perfeição de uma disciplina aquietadora, mas na perfeição integral, que não rejeita o amor ou evita vários movimentos de deleite, este não pode ser mais que um estágio que deve ser ultrapassado, uma passividade admitida como uma primeira base para a correta atividade. Atração e repulsa, inclinação e aversão são mecanismos necessários ao homem normal, eles formam um primeiro princípio de seleção natural entre os milhares de impactos agradáveis e horríveis, saudáveis e perigosos do mundo ao redor dele. A inteligência discernidora e a vontade iluminada inicia com esse material para trabalhar e tenta corrigir o natural e instintivo por uma mais sábia racional e voluntária seleção; pois obviamente o agradável não é sempre a coisa certa, o objeto a ser preferido e selecionado, nem o desagradável a coisa errada, o objeto a ser evitado e rejeitado; o agradável e o bom, têm que ser distinguidos, e a razão correta tem que escolher e não o capricho da emoção. Mas isto ela pode fazer muito melhor quando a sugestão emocional é recolhida e o coração repousa em uma luminosa passividade. Então também a ATIVIDADE CORRETA DO CORAÇÃO pode ser trazida para a superfície; pois nós descobrimos então que atrás dessa alma de desejo embaraçada-em-emoção estava esperando todo o tempo uma ALMA DE AMOR E LÚCIDA ALEGRIA E DELEITE, UMA PSIQUE PURA, que estava obscurecida pelas deformações de raiva, medo, ódio, repulsa e não podia abraçar o mundo com um imparcial amor e alegria. Mas o CORAÇÃO PURIFICADO é desembaraçado de raiva, desembaraçado de medo, desembaraçado de ódio, desembaraçado de todo recolhimento e repulsa: ele tem um amor universal, ele pode receber com uma imperturbada doçura e clareza os vários deleites que Deus dá a ele no mundo. Mas ele não é o fraco escravo de amor e deleite; ele não deseja, não tenta impor a si próprio como o mestre das ações. O seletivo processo necessário à ação é deixado principalmente à inteligência discernidora e a vontade iluminada e, quando a inteligência discernidora e a vontade iluminada tiver sido ultrapassada, ao espírito na vontade, conhecimento e Bem-Aventurança supramentais.


Sri Aurobindo

Deixe de ser escravo do mecanismo da Natureza

No plano da matéria e no plano da consciência ordinária você está de pés e mãos atados. Um escravo do mecanismo da Natureza, você está amarrado às cadeias do Carma e aí, nesta cadeia, qualquer coisa que aconteça é rigorosamente a consequência do que tiver sido feito antes. Existe uma ilusão de movimento independente, mas na verdade você repete o que todos os outros fazem, você reflete os movimentos-mundo da Natureza, você se resolve indefeso na roda esmagadora da máquina cósmica.

Mas não precisa ser assim. Você pode mudar de lugar, se quiser; em vez de ficar embaixo esmagado pelo mecanismo ou movido como um boneco, você pode se levantar e olhar de cima, e, PELA MUDANÇA DE SUA CONSCIÊNCIA, pode mesmo segurar alguma manivela para mover as circunstâncias aparentemente inevitáveis e mudar as condições fixas. Depois que você sair do redemoinho e colocar-se bem acima no alto, VOCÊ VÊ QUE ESTÁ LIVRE. Livre de todas as compulsões, você não apenas não é mais um instrumento passivo, mas torna-se um agente ativo. Você não está somente desligado das consequências de suas ações, como pode mesmo mudar as consequências. Quando você vê o jogo de forças, quando você SE ELEVA A UM PLANO DE CONSCIÊNCIA ONDE SE ENCONTRAM AS ORIGENS DAS FORÇAS e identifica-se com estas fontes dinâmicas, você não mais pertence ao que é movido, mas ao que move.

É este precisamente o objetivo do Yoga — sair do ciclo do Carma para dentro do movimento divino. Pelo Yoga você deixa a ronda mecânica da Natureza na qual você é um escravo ignorante, um instrumento indefeso e miserável, e ascende a um outro plano onde você se torna uma participante consciente e um agente dinâmico no desenvolvimento de um Destino mais alto. Este movimento da consciência segue uma linha dupla. No princípio há uma ascensão; você se eleva além do nível da consciência material para as esferas superiores. Mas esta ascensão do mais baixo para o mai alto chama a descida do mais alto para dentro do mais baixo. Quando você sobre acima da terra, você também traz para baixo, sobre a terra, alguma coisa do que está em cima — alguma luz, algum poder que TRANSFORMA OU TENDE TRANSFORMAR SUA VELHA NATUREZA. E então estas coisas que eram distintas, desconexas e disparatadas uma das outras — o mais alto em você e o mais baixo, os subextratos interior e exterior do seu ser e consciência — encontram-se e vagarosamente vão se juntando e gradualmente se fundem em uma única verdade, uma única harmonia.

É deste modo que os chamados milagres acontecem. O mundo é construído de inumeráveis planos de consciência e cada um tem suas leis próprias distintas; as leis de um plano não são aplicáveis a um outro. Um milagre nada mais é que uma brusca descida, um irromper de uma outra consciência e seus poderes — mais frequentemente são os poderes do vital — para dentro deste plano de matéria. Há uma precipitação sobre o mecanismo material, do mecanismo de um plano mais alto. É como se o lampejar de um relâmpago irrompesse através da nuvem de nossa consciência ordinária e derramasse dentro dela outras forças, outros movimentos e sequências. Ao resultado chamamos de milagre porque vemos uma repentina alteração, um abrupta interferência nas leis naturais de nosso próprio alcance ordinário, mas a razão e ordem disso não conhecemos nem vemos porque a fonte do milagre está situada em um outro plano. Tais incursões dos mundos do além para dentro de nosso mundo na matéria não são muito incomuns; são até um fenômeno constante, e, se tivermos olhos e soubermos como observar, podemos ver milagres em abundância. Especialmente eles devem ser constantes entre aqueles que estão se empenhando em trazer as esferas mais altas para dentro da consciência-terra embaixo.


A Mãe

A arte de morrer antes de ser morto

A cura pelo espírito, a logoterapia, como dissemos em outro capítulo, depende essencialmente da capacidade que o home tenha adquirido para morrer voluntariamente, antes de ser morto compulsoriamente.

A nossa morte compulsória — por acidente, doença ou velhice — é absolutamente certa, mas ela não resolve o problema central da nossa vida.

O que o resolve é a arte de morrer voluntariamente, isto é, de se esquecer temporariamente de toda existência do corpo e conscientizar unicamente a essência da alma.

Esse estado é, geralmente, chamado meditação, ou, quando altamente intensificada, êxtase,  samadhi.

A consciência exclusiva da essência e a inconsciência total da existência representam o triunfo máximo da verdade sobre o homem, o como toda a verdade é libertadora, essa experiencia liberta o homem de toda e qualquer escravidão, inclusive da escravidão das doenças.

Todos os mestres da humanidade focalizam como sumamente importante essa morte voluntária, esse egocídio do ego existencial. O Cristo diz: “Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril — mas, se morrer, produzirá muito fruto”. Paulo de Tarso escreve: “Eu morro todos os dias, e é por isto que eu vivo — mas não sou eu que vivo, é o Cristo que está em mim”.

Esta morte voluntária torna o homem totalmente indiferente em face da morte compulsória. Todo o medo que o homem profano tem da morte vem de uma grande e funesta ilusão: da confusão entre existência e essência. O homem profano considera a morte como a ausência da vida — quando o iniciado sabe por experiencia própria que a vida é imortal, embora ela possa assumir diversas formas mortais nos vivos.

Pensar nisto, crer nisto, nada resolve — o que resolverá é ter a consciência e vivencia da imortalidade da vida.

A vida é essência de tudo que existe no Universo. A vida é Deus. A vida é essência de todas as existências vivas. Podem as existências perecer, podem mudar de uma forma para outra forma — o que não perece e não muda é a vida. A vida essencial se manifesta em vivos existenciais — estes são vários e variáveis, aquela é uma, eterna e invariável. Os vivos são formas transitórias da vida imutável. A essência da vida está em todas as existências vivas — assim como o mar subjaz a todas as ondas do mar.

Os vivos nascem, vivem e morrem — a vida não nasce nem morre, mas vive sem nascimento nem morte.

Quando o home tem  a experiência do único ponto fixo no meio de todas as coisas movediças, entra ele num ambiente de absoluta firmeza e tranquilidade, de certeza e felicidade.

E esta tranquilidade e firmeza interior do Eu divino pode também afetar beneficamente as intranquilidade e infirmezas ( ou enfermidades ) do ego humano, chamadas doenças.

A intensa consciência da vida pode retificar os vivos, quando falsificados.

Não se trata de substituir os vivos pela vida, trata-se de plenificar todos os canais vazios dos vivos pela plenitude da fonte da vida. O homem é essencialmente vida, que pode manifestar-se existencialmente em forma de vivo. Este vivo pode ser imperfeito, mas a vida é absolutamente perfeita.

O homem na sua essência é perfeita vida e saúde — que pode aparecer como um vivo imperfeito. Quanto mais o homem se convence de que ele é vida, tanto mais pode ele vivificar o vivo que ele tem. O Ser é sempre perfeito; só o Ter pode ser imperfeito.

O homem é saúde — mas pode ter doença.

As doenças só prevalecem sobre o homem quando a saúde não tem plena consciência de si mesma.

Uma vida de consciência 10, 20, 30%, é alérgica a doenças — mas uma vida 100% consciente é totalmente imune a qualquer doença. Assim era a vida de Jesus, e talvez a de Moisés.

Vida e saúde são a nossa essência eterna — vivos e doenças são a nossa existência temporária.

Para que a essência da vida e saúde possa exercer seu impacto decisivo sobra a existência dos vivos e doentes, deve o home habituar-se a eclipsar temporariamente tudo o que ele tem, para que aquilo que ele é, o seu Ser, adquira 100% de poder sobre os seus Teres.

Esse estado de inconsciência do Eu essencial é o segredo de toda a felicidade do homem. Somente durante essa morte do ego pode a vida do Eu manifestar a plenitude do seu poder e conferir saúde também ao ego.

A solução do problema, das dores é fundamentalmente uma questão de metafisica e não de física. A física pode remover certos sintomas externos de doenças, mas não pode jamais abolir radicalmente uma doença.

O homem sofre doenças físicas porque não vive na saúde metafisica.

A total permeação das doenças do ego pela saúde do Eu é a única solução radical e definitiva do sofrimento humano.

Mas essa, por ora, só é do “Filho do homem”.




Contato Consciente com Deus

É psicologicamente claro e lógico que a falta de verdadeira certeza do mundo espiritual gere a necessidade de um rígido sistema de doutrinas dogmáticas, geometricamente delineadas, definidas e sancionadas, doutrinas essas destinadas a compensar a falta de segurança interior. A imensa maioria dos cristãos, e de outros homens, não possui certeza alguma da realidade do mundo espiritual e divino: Deus, Cristo, vida eterna, são para eles palavras sagradas, ideias veneradas, não há dúvida; mas do conteúdo e da realidade objetiva dessas palavras, ninguém, ou pouquíssimos possuem experiência pessoal e imediata, experiência essa que é o único fator capaz de dar ao homem verdadeira e permanente certeza e segurança interior. Os cristãos e outros homens de boa vontade CREEM apenas nestas coisas, quer dizer que admitem a verdade delas, embora a IGNOREM e DESCONHEÇAM pessoal e vitalmente. CREEM tudo, mas não SABEM nada daquilo que creem, porque o saber vem da experiência, da vivência imediata da própria realidade, e essa vivência íntima FALTA A MAIOR PARTE DOS CRENTES. Daí o senso de incerteza e insegurança em face do mundo espiritual, que, para eles, não passa de um árido artigo de fé, mas não se identificou com sua vida por meio de uma ESTUPENDA E JUBILOSA EXPERIÊNCIA VITAL. Ora, nenhuma palavra sagrada, nenhuma ideia teológica, nenhum artigo de fé, embora verdadeiro, me pode dar certeza, segurança, sobretudo, força para viver vigorosa e jubilosamente uma vida a serviço do reino de Deus e da humanidade. Pode a luz vir da crença, mas A FORÇA VEM DA VIVÊNCIA, isto é, DA DIRETA E IMEDIATA EXPERIÊNCIA DE DEUS, DO CRISTO, da vida eterna, vivida aqui e agora e para sempre. Nós, os cristãos deste século, aprendemos e decoramos muitas coisas verdadeiras sobre Deus, e isto é necessário e bom — MAS NÃO RESOLVE O PROBLEMA CENTRAL DA VIDA; ouvir, aprender, crer, são estágios e fatores preliminares, MAS NÃO SÃO FINAIS E DECISIVOS DA NOSSA VIDA. O que resolve e decide, duma vez por todas, e irrevogavelmente, o problema central da nossa vida, É O CONTATO DIRETO, PESSOAL E VITAL COM DEUS. Antes desse contato, tudo é incerto, difícil, obscuro — depois disto, tudo é certo, fácil, evidente. 

Huberto Rohden - Metafísica do Cristianismo

Alarga os teus Horizontes!


Eu era prisioneiro do cárcere do meu corpo — como prisioneiros eram milhares de meus semelhantes. 

E, por haver tantos outros presos, à direita e à esquerda, a minha prisão me parecia coisa normal. 

Estar encarcerado era a condição natural de todo homem, dizia eu — e não procurava a liberdade. 

Olhei em derredor — era tudo grade de ferro...

Comecei a chamar essa minha prisão a minha casa, o meu palácio. 

E, para me iludir mais eficazmente, pintei com todas as cores do disfarce e da auto-sugestão o meu querido cárcere — com pó de bronze, com tintas de prata e de ouro. 

E achei notável conforto na prisão-palácio do meu corpo. 

Iluminei com as luzes da inteligência o meu cárcere físico-mental, instalei-me confortavelmente nesse habitáculo terrestre — totalmente esquecido da minha cidadania cósmica — dos vastos horizontes do além, do azul dos céus acima, da imensa epopeia de vida e alegria que cantava por todas as latitudes e longitudes do universo de Deus. 

Um dia, porém, à complacente sombra do meu cárcere-palácio, ouvi uma voz estranha que estranhamente me falava de coisas estranhas...

Falava de "liberdade" — da "gloriosa liberdade dos filhos de Deus"...

Falava-me da "verdade libertadora" — mundos ignotos para mim...

escutei, escutei, escutei...

Donde vinha essa voz? De fora? — Não, de dentro de mim, das longínquas regiões de dentro, dos profundos abismos do meu próprio ser...

Era minha alma que falava  — com irresistível silêncio...

Minha alma, crística por sua própria essência — imagem e semelhança de Deus, participante da natureza divina...

Fiz calar todos os ruídos em derredor a fim de ouvir o silêncio de dentro.

E o silêncio me falava — e, quanto mais eu me calava, tanto mais ele falava...

Percebi, não com os sentidos; compreendi, não com a mente — vivi com o espírito a grande mensagem de minha alma... 

A bradar silenciosamente os seus "ditos indizíveis"...

E no meio deste trovejante silêncio de dentro desabaram as muralhas de Jericó, diluíram-se, como cera ao sol, as barras de ferro dourado de minha prisão-palácio...

De todas as minhas prisões — que eram "legião"...

E, quando voltei a mim dos mundos longínquos que invadira sobre as asas brancas de minha alma, olhei em derredor — e não havia barreira em parte alguma...

Ante meus olhos se espraiava, ilimitado, o universo de Deus, o Infinito, o Eterno, o Incomensurável...

E eu me sentia um com o Pai dos céus...

E na luz impetuosa dessa consciência cósmica morreram todas as minhas pequenezas e mesquinharias de outrora — o temor e o ódio, as impiedosas críticas e murmurações, as queixas e susceptibilidade, desapareceram a moléstia crônica do "querer-ser-servido" e nasceu a vigorosa saúde do "querer-servir".

O reino dos céus despontara em mim — e eu estava no reino dos céus...

Saíra do estreito cárcere do meu pequenino Eu humano — e entrara no vasto universo do Tu divino...

Alargara os meus horizontes ao Infinito...

Huberto Rohden em, IMPERATIVOS DA VIDA

A ignorância do ego eclipsa a sapiência do Eu

"O homem que disciplinou o seu mundo interior e está consolidado no Eu, totalmente livre do desejo de objetos desejáveis — esse é um homem liberto. Como uma chama colocada num lugar abrigado não bruxuleia, assim é o yogui que disciplinou o seu mundo interno e se firmou no Eu". (Bhagavad Gita, VI, 18 ss.)
Enquanto o homem não rompe caminho rumo ao seu Eu central, vive ele perturbado e a sua força é dispersa. A irredenção do seu Ego se revela, em sua vida externa, de modos vários: como entraves, descontentamentos, tristeza, irritação; porque o Eu é hostil ao homem, enquanto o homem não o reconhece e aceita como soberano da sua vida; mas o Eu é fiel amigo aliado do homem quando ele lhe permite que aja sobre ele com a sua inesgotável plenitude de luz e força. 

Entretanto, não há nenhum caminho que conduza ao Eu senão o próprio Eu — é este o estranho paradoxo da vida. Não é nenhum objeto que, como de fora, possa ser contemplado e invocado — ele tem de evocar o seu próprio sujeito, o seu verdadeiro EU SOU, a sua Onipotência dormente. Quem quer contemplar esse Ser deve sê-lo. O homem que quer chegar ao seu Ser deve realizar em si sua potencialidade central. 
"É com o próprio Eu que se aprende o Eu. O Eu é amigo do ego, mas o ego é inimigo do Eu. O homem que não descobre o Eu considera este Eu seu inimigo e o hostiliza." (Bhagavad Gita, VI, 5 ss.)
A amizade vem da sapiência, a inimizade vem da ignorância. Enquanto a ignorância do ego continua a eclipsar a sapiência do Eu, nada está resolvido; mas, quando a sapiência do Eu ilumina a ignorância do Ego, tudo está resolvido, ou em vias de solução. Somente a verdade total sobre o homem pode libertá-lo de todos os males, de que o Ego é a raiz. A experiência do Eu exerce sobre toda a vida humana uma ação libertadora e beatífica. Quem não atinge o Eu na sua profundeza cósmica deixa-se iludir pelo caráter mental ou emocional dos pensamentos ou sentimentos, que partem do Ego e mantêm o homem ligado ao Ego ignorante e escravizante. "Eu sou senhor de tudo que sei, mas eu sou escravo de tudo que ignoro" (Spinoza). Quem rompe caminho até à profundeza cósmica do Eu, do Espírito Universal no homem, até ao mais profundo Ser ultra-empírico e ali descobre a Realidade, que é ele mesmo em sua essência — esse é atraído para aquela luminosa e silenciosa comunidade da qual irradiam tranquilidade e segurança, plena libertação da escravidão das coisas provisórias e imediatas. 

E então esse homem enxerga não só a si mesmo, mas o Todo, porque o seu Ser humano radica nesse Todo, que é a Realidade Cósmica da Essência e da Existência, do mundo Causante e do mundo Causado. E por isto é ele permeado por uma grande clareza e liberdade, que solve todos os complexos, desperta as forças dormentes, dinamiza a coragem, purifica os desejos, amplia o poder da vontade e dá inefável felicidade em todas as situações da vida. A visão do Eu estabelece contato de profundidade entre o homem e as potências creadoras do Universo, porquanto o Eu é a presença dessa potência eterna do Cosmos Universal dentro do homem individual. 

Assim é que o Eu, uma vez descoberto e realizado, produz aquela última e absoluta entrega do homem à Vontade Universal; e, a partir daí, a serenidade da Divindade penetra e pervade toda a existência e atividade do homem. 

Onde esta experiência é realizada em toda a sua profundeza e plenitude não há mais desperdício de forças, porque todas as forças estão a serviço da Vida Cósmica. 

O homem, assim nascido em Deus, sente despertar em si todas as forças para agir no meio do mundo e da humanidade; liberto de todas as algemas do ego humano, expande a onipotência do Eu divino.
"Para o homem que encontra a sua alegria no Eu, que repousa satisfeito no Eu e nele encontra a sua suficiência, para esse não existe mais o "dever" que o impelia a agir. Não mais procura um "para quê", nem no agir nem no desistir; nenhuma creatura lhe serve de meio para atingir o seu fim. O homem que age sem nenhum interesse atinge a meta e alcança o mais alto". (Bhagavad Gita, III, 17 ss.)    

Segundo o Bhagavad Gita, é na realização do Eu divino que o homem encontra definitiva libertação da lei férrea da causalidade mecânica escravizante, porque se coloca numa zona supra-causal, onde cessa o alo-determinismo passivo, e impera soberana a auto-determinação ativa, que é o livre-arbítrio do Eu. 

Mas se o homem se desescravizou deste mundo de escravidão causal, por que continua a agir no meio desse ambiente de escravidão universal? Aqui estamos diante do maior enigma do livre-arbítrio, que, em face da exultante liberdade que goza plenamente, pode querer voltar externamente ao mundo dos escravos, que ainda não conhecem essa liberdade.
"O amor é a mais alta racionalidade" (Albert Schweitzer)
E esta  suprema racionalidade do amor pode cometer a mais estupenda irracionalidade — escravizando-se por amor...

É este o mais profundo mistério dos avatares, e, sobretudo, do Cristo. "Quem quiser ser grande seja o servidor de todos".

Huberto Rohden em, Roteiro Cósmico
(Clique no nome do autor para adquirir original deste livro)

Da inexperiência para a experiência de si mesmo


[...] O ego, diz a filosofia oriental, é o pior inimigo do Eu; mas o Eu é o melhor amigo do ego. 

O ego é inimigo porque é ignorante — pois toda a inimizade vem da ignorância. 

O Eu é amigo porque é sábio — amizade é filha da sabedoria. 

Enquanto o homem ignora a si mesmo não há solução para o problema fundamental do homem e da humanidade. 

Mas, como levar o homem da ignorância para a sabedoria? Da incompreensão para a compreensão? Da inexperiência para a experiência de si mesmo? 

Tratamos deste problema central em outra parte, através de vários livros e em muitas aulas de Filosofia Cósmica. Aqui diremos apenas o seguinte: 

Essa experiência de si mesmo não é fruto de psicoanálise, porque esta não ultrapassa as fronteiras do ego. Algum fator ultra-ego é necessário para que o homem cruze a misteriosa fronteira entre o que ele tem e o que ele é. O grande EU SOU não é ego-manufaturado, não é um produto de análises intelectuais, não é creado pelo consciente, porque é o superconsciente no homem — e o menor não pode produzir o maior, o efeito não é maior que sua causa. Logo, é matematicamente certo que o ego, com toda a sua agudeza e argúcia, não pode produzir a compreensão da verdade sobre a natureza do Eu. 

Essa compreensão deve vir de uma fonte maior — deve vir do próprio Infinito, do Universo, do Todo, do grande Além — embora esse suposto Além-de-fora seja o grande Além-de-dentro, tão tremendamente "de dentro" que parece ser infinitamente "de fora"; o seu além-nismo aparentemente centrífugo é o maior aquém-nismo centrípeto... Mas, inicialmente, o homem experimenta essa centralíssima imanência como a mais periférica das transcendências; algum dia, o verdadeiro inciado saberá que o Infinito Cósmico é idêntico ao EU SOU humano — "eu e o Pai somos um"...

Para que esta grande revelação aconteça ao homem (pois deve acontecer-lhe!) deve o homem crear um ambiente propício ao redor e dentro de si mesmo; pois, segundo as eternas leis do Universo, "quando o discípulo está pronto o Mestre aparece" — quando o homem-ego está pronto o homem-eu se lhe revela. 

E isto é auto-realização. 

Em linguagem teológica se diz: "Quando o homem tem fé, Deus lhe dá a graça". 

Prontidão, fé, não são, causa do advento da verdade, da graça — mas são condição necessária e indispensável para que a causa, o Infinito, possa agir sobre o Finito. Quem não abre uma janela não terá luz solar na sala; quem não liga o seu canal com a fonte não terá água — mas isto não prova que a janela aberta ou canal ligado sejam causadores da luz ou da água; prova apenas que são veículos ou condições necessárias para que a causa (o sol, a fonte) possa agir. 

Esse ambiente propício que o homem deve crear ao redor e dentro de si inclui certos fatores conhecidos, como solidão, silêncio, introspecção, meditação, ego-evacuação e anseio de pleni-ficação cósmica; essa atitude propícia ao autoconhecimento e à auto-realização é algo como um silencioso clamor da alma, uma dolorosa nostalgia do finito pelo Infinito, uma intensa auscultação do viajor telúrico para captar o esvaído eco de uma Voz longínqua, mais adivinhada que ouvida... Na sua vida ética e social deve o candidato à inspiração divina viver como se já fosse agraciado por essa revelação; pois, a vivência ética preludia a experiência mística, e esta, uma vez realizada, transforma totalmente a vivência ética, fazendo compreender a verdade do grande paradoxo: "Meu jugo é suave e meu peso é leve"... 

Quando o homem, através do autoconhecimento e da auto-realização, se despoja totalmente do impuro desejo de gozar os frutos do seu trabalho; quando já não é mau para não cair no inferno, nem é bom para entrar no céu; quando ele compreende que é embaixador de Deus e do Cristo para continuar a creação do mundo e a redenção da humanidade, no espírito desinteressado dos seus divinos Mandantes — então, pela primeira vez, se sente plenamente liberto de todas as inibições heterônomas, e adquiri perfeita autonomia sobre a sua vida terrestre e seu destino eterno. 

E é então que o homem começa a exercer uma atividade 100% dinâmica e benéfica no seio do gênero humano. 

É esta a quintessência dos livros sacros da humanidade. 

Huberto Rohden em, Roteiro Cósmico 
(clique no nome do autor para adquirir o livro original)    

Cosmo-Meditação


A verdadeira meditação, ou cosmo-meditação, é indispensável para a felicidade e plenitude do homem.

A genuína felicidade supõe que o homem se conheça a si mesmo, na sua realidade central, e viva de acordo com este conhecimento.

Autoconhecimento e auto-realização são os dois pólos sobre os quais gira toda a vida do homem integral ou univérsico. "Conhecereis a verdade" — disse o divino mestre "e a Verdade vos libertará."

O autoconhecimento, que é a base da auto-realização, não é possível sem uma profunda cosmo-meditação.

O próprio Cristo, antes de iniciar a sua vida pública, passou 40 dias e 40 noites em cosmo-meditação permanente, no deserto, e durante os três anos da sua vida pública, referem os Evangelhos, Jesus passava noites inteiras na solidão do deserto, ou no cume de um monte, em oração com Deus.

O homem não é o seu corpo, nem a sua mente, nem as suas emoções, que são apenas o seu invólucro, o seu ego periférico. O homem é o seu Espírito, a sua Alma, o seu Eu-central, e para ter disto plena certeza deve o homem isolar-se temporariamente de todas as suas periferias ilusórias, para ter a consciência direta e imediata da sua realidade central, isto é, meditar ou cosmo-meditar. Quando o homem cosmo-medita, ele deixa de ser ego pensante e torna-se cosmo-pensado. Deixa de ser ego-agente e torna-se cosmo-agido. Deixa de ser ego-vivente e torna-se cosmo-vivido ou, na linguagem do Cristo: "Não sou eu que faço as obras, é o Pai em mim que fez as obras, de mim mesmo eu nada posso fazer". Ou na linguagem de Paulo de Tarso: "Eu morro todos os dias, e é por isso que eu vivo, mas já não sou eu que vivo, é o Cristo que vive em mim". "Se o grão de trigo não morrer, fica estéril – diz o Cristo – mas se morrer então produzirá muitos frutos". O ego é simbolizado por um grão de trigo, ou uma semente qualquer, o Eu é a própria vida do gérmen, que está na semente. O gérmen vivo do Eu não pode brotar, se a casca do ego não se dissolver. Quem não tem a coragem de morrer voluntariamente, antes de ser morto compulsoriamente, não pode viver gloriosamente no mundo presente.

É necessário que o homem morra para o seu ego estéril, para que viva o seu Eu fecundo.

Muitos querem saber quando e onde se deve cosmo-meditar. O divino mestre diz: "Orai sempre e nunca deixeis de orar". Orar não quer dizer rezar, que é recitar fórmulas. Orar, como a própria palavra diz, é abrir-se rumo ao Infinito, deixar-se invadir pelo Infinito; isto, segundo os mestres, é orar. Esta meditação permanente, esta meditação atitude, de que fala o Cristo, tem que ser precedida por muitas meditações-ato. A meditação permanente deve começar com meditações intermitentes. A melhor hora para a meditação é sempre de manhã, antes de iniciar qualquer trabalho. Quem não pode meditar de manhã, medite à noite, antes de dormir, mas, cuidado, quando alguém está muito cansado, depois dos trabalhos diurnos, é difícil fazer verdadeira meditação, porque a meditação é um trabalho muito sério. Acrobacia mental ou cochilo devocional não é meditação ou cosmo-meditação.

Convém que cada um tenha um recinto fechado e silencioso para meditar e que faça a sua meditação sempre à mesma hora e no mesmo lugar. A experiência diz que um recinto fechado se transforma, pouco a pouco, num santuário que facilita a meditação e a concentração mental, porque as auras e vibrações deste lugar modificam favoravelmente o próprio ambiente.

Quanto à posição do corpo, observa-se o seguinte: quem não pode sentar-se à maneira dos orientais, em posição de lótus, sobre as pernas dobradas, use uma cadeira de assento firme, de espaldar ereto, mantenha o corpo em atitude natural ereta, não cruze as pernas e coloque as mãos no regaço, junto ao corpo, mantenha os olhos semicerrados para favorecer a concentração. Uma luz suavemente azulada ou esverdeada ou pelo menos uma penumbra são muito favoráveis à concentração.

Antes de iniciar a cosmo-meditação, respire algumas vezes, profunda e vagarosamente para harmonizar as vibrações dos nervos. Durante a meditação, respire normalmente. A perfeita oxigenação do cérebro é uma condição muito importante e necessária.

Qualquer atenção à atividade corporal dificulta a meditação. Deve-se relaxar todas as tensões corporais e esquecer-se da presença do seu corpo. Sem relaxamento físico, não pode haver perfeita meditação ou cosmo-meditação.

Antes de meditar pode-se consciencializar palavras como estas: "Eu e o Pai (Infinito) somos um." O Pai está em mim e eu estou no Pai", ou então: "Eu morro todos os dias e é por isso que eu vivo, mas já não sou eu quem vive, é o Cristo que vive em mim".

Depois de ter feito, muitas vezes, a meditação intermitente, em forma de atos diários, a pessoa verificará que a meditação se transforma, pouco a pouco, numa meditação permanente, sem ela saber, numa meditação atitude, perfeitamente compatível com qualquer trabalho externo, em casa, na escola, no escritório, na fábrica, na loja, em qualquer ambiente.

Esta meditação-atitude, consciente ou inconsciente, não impede, mas até favorece grandemente os trabalhos externos, que ficam como que iluminados e aureolados de um alo de leveza, beleza e felicidade. Então compreenderá o homem o que o divino Mestre quis dizer com as palavras: "Orai sempre e nunca deixeis de orar", isto é, ter sempre a consciência da presença de Deus (Infinito), mesmo sem pensar nada; ter consciência não é pensamento, consciência é um estado do Eu espiritual, mas não é um processo do ego mental. Quando o homem está em verdadeira consciência espiritual, ele não pensa nada, está com 100% de consciência espiritual e 0% de pensamento mental, e então ele entra num verdadeiro estado de meditação-atitude, que tem que ser preludiada por muitas meditações em forma de atos conscientes e supra-conscientes.

Convém preludiar a cosmo-meditação com alguma música de concentração. 

Nem todas as músicas clássicas dos grandes mestres induzem à concentração; há poucas músicas realmente de concentração, como, por exemplo o conhecido Hino a Brahma, também a Ave-Maria, de Schubert, e a melodia mística do Aonde Fores, Eu Irei.

Estas músicas e outras podem servir como prelúdio para a cosmo-meditação. Digo de prelúdio, mas não para acompanhar a meditação. Durante a cosmo-meditação deve haver silêncio absoluto, que é a música da Divindade, a música do Infinito. Este silêncio não deve ser apenas físico, mas deve ser também mental e emocional. O homem não deve fazer nada, não deve pensar nada, não deve querer nada durante a cosmo-meditação, mas ficar simplesmente na consciência espiritual.

Esse homem vai ser invadido, por assim dizer, pela alma do próprio Universo. Este universo não está fora dele, este universo, pelo qual ele vai ser invadido, está no seu próprio centro, é a sua consciência central, o seu Eu, a sua alma, o seu espírito. As suas periferias vão ser invadidas pelo seu centro, porque é regra e lei cósmica: onde há uma vacuidade, acontece uma plenitude.

Se o homem consegue esvaziar-se completamente de todos os conteúdos do seu ego humano, infalivelmente vai ser invadido pela alma do universo, que não está fora dele, mas dentro dele mesmo. Esta invasão é automática, mas o esvaziamento do nosso ego é nossa tarefa própria. E aqui está a grande dificuldade. O nosso querido ego não quer ser esvaziado das sua atividades, porque ele não sabe nada fora disto. Ele defende-se contra este ego-esvaziamento. Mas se alguém consegue este ego-esvaziamento, vai ser invadido pela alma do próprio universo; mas, cuidado, para o principiante é difícil este ego-esvaziamento, sem cair em transe, na sub-consciência. Se isto lhe acontecer, nada vai acontecer de grande na cosmo-meditação, porque no subconsciente não podemos realizar-nos a nós mesmos, só podemos realizar-nos no supraconsciente. Portanto, quando alguém deixar de pensar e de querer alguma coisa – não caia em ou na inconsciência ou sub-consciência, porque isto não resolve nada; tem que subir à supraconsciência, à cosmo-consciência.

A cosmo-meditação, quando praticada por muito tempo, resolve todos os problemas da vida humana. Isto é infalível. *

O meditante sentirá, pouco a pouco, firmeza e segurança, paz e tranquilidade e uma profunda e permanente felicidade. Todos os problemas dolorosos da vida serão resolvidos depois de alguém se habituar a uma profunda e verdadeira cosmo-meditação.

A cosmo-meditação é a base da Auto-Realização.
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* Sobre o assunto leia o livro Cosmoterapia, de Rohden

Huberto Rohden em, Educação Cósmica - Autoconhecimento e Auto-Realização

Como realizar a Cosmoterapia


Sendo que os males do homem vêm do seu ego-consciente ilusório, e todos os bens lhe advêm do verdadeiro cosmo-consciente, segue-se que o homem ego-consciente, para se libertar dos seus males, deve tornar-se cosmo-consciente, ou seja, cristo-consciente, teo-consciente.

Esta invasão cósmica, porém, só é possível se o ego a permitir, se o homem-ego se abrir ao influxo do espírito cósmico.

No meio das ruidosas facticidades de cada dia, que perfazem as 24 horas diárias do homem ocidental, não é possível essa invasão cósmica, essa cosmoterapia.

Por isso é indispensável que o homem modifique o seu programa diário, que inclua no seu diário repleto de ruídos profanos um período de silêncio sagrado.

Essa entrada no santuário do silêncio não é um escapismo – como muitas vezes acontece no Oriente – mas é, ou deve ser uma espécie de "retirada estratégica da vida", com o fim de dar conteúdo e grandeza à vida.

Quem nunca se retirou do ruidoso sansara da vida para o silencioso nirvana da solidão, não tem poder sobre a sua vida, vive ou vegeta uma vida vazia, uma deslumbrante vacuidade. 90% dos homens e das mulheres de hoje, dizem os médicos e psiquiatras, são neuróticos ou neurastênicos – porquê? Porque vivem na vacuidade dos seus ruídos e ignoram a plenitude do silêncio.

Somente uma retirada estratégica da vida confere à vida plenitude de poder, de alegria e felicidade.

Essa retirada não é um escapismo, uma fuga da vida, rumo à plenitude, com o fim de carregar a bateria espiritual e depois utilizar essa energia acumulada para todos os setores da vida profissional.

O homem profano tenta curar as facticidades pelas facticidades, as coisas do ego pelo próprio ego – e não percebe que isto é um círculo vicioso, um processo ineficiente, tão ineficiente como o de quem tentasse mover uma turbina com as águas dum lago no mesmo nível. De nível para nível não há nível, não há força, não há voltagem, porque não há desnível, distância, alteridade.

O homem místico, desiludido desse círculo vicioso do profano, desespera da cura na vida presente aqui na terra e refugia-se numa cura além-túmulo ou além terra; crê numa terapia no futuro e em outros mundos, mas descrê duma terapia aqui e agora.

O homem cósmico ou univérsico, porém, é tão intensamente realista que sente em si o poder de curar as coisas da vida material pelo impacto da consciência espiritual; não é unilateralmente aquém-nista, como o profano; nem é unilateralmente além-nista, como os místicos – o homem cósmico é unilateralmente universalista, univérsico.

O homem profano só se interessa pelo homem-corpo.

O homem místico só crê no homem-espírito.

Mas o corpo sem alma é cadáver – e a alma sem corpo é fantasma.

Homem-cadáver ou homem-fantasma não resolvem o problema.

O homem-cósmico, porém, não quer saber de homem-cadáver nem de homem-fantasma – ele quer o homem-homem, o homem real, o homem integral, o homem-corpo-e-alma.

Esse homem integral não é comum nem no Ocidente nem no Oriente. Será que existe mesmo? No meu livro Cosmorama, tentei dar um retrato autêntico do homem integral, do homem cósmico.

Há quase 2.000 anos que vivia, aqui na terra, um homem cósmico, equidistante do Ocidente e do Oriente – tanto assim que viveu na linha divisória entre os dois hemisférios, na Palestina – porque a sua consciência era universal, síntese de tudo que há de bom no Ocidente e no Oriente. O grosso dos seus discípulos, porém, não compreendeu esse homem cósmico; uns caíram no materialismo ocidental, outros volatilizaram-se no espiritualismo oriental – poucos compreenderam o Realismo Universal do Mestre.

"Haverá um novo céu e uma nova terra... O reino de Deus será proclamado sobre a face da terra"...

Estas palavras proféticas do Apocalipse foram realizadas pelo homem cósmico, que a si mesmo se chamava sempre "o filho do Homem".

Se a humanidade tivesse aceitado a mensagem desse homem integral, não haveria lugar para cosmoterapia, porque nenhuma terapia tem cabimento no homem cósmico, uma vez que nele não há males nem maldades. Mas, como o grosso da humanidade não aceitou a mensagem cristo-cósmica desse homem, é necessário traçar diretrizes para uma cosmoterapia ou cristoterapia.

A alma dessa terapia só pode ser consciencializada em período de profundo silêncio e solidão. Enquanto o homem não tomar a sério o sentido desse silêncio e dessa solidão não haverá cosmoterapia. Todos os grandes iluminados e iniciados, de todos os tempos e países, viveram dias, semanas, meses, e alguns até anos, em profundo e dinâmico silêncio, permitindo que a plenitude cristo-cósmica fluísse para dentro de sua ego-vacuidade.

Enquanto o nosso pequeno ego pensa, fala e ouve falar, ele consegue sobreviver – mas, quando deixa de pensar, de falar e de ouvir falar, começa a agonizar e, se persistir no silêncio, acabará por se afogar nesse Oceano Pacífico do silêncio redentor. E então, após esse egocídio, pode nascer o Eu crístico, e esse homem pode dizer: "Eu morri, e é por isto que eu vivo, mas já não sou eu (ego) que vivo, o Cristo (Eu) é que vive em mim". Eu não sou mais ego-vivente – eu sou Cristo-vivido.

O ego vive no barulho e do barulho — e morre no silêncio.

O Eu, sendo Deus (Infinito) no homem, vive no silêncio como a Divindade. Mas esse silêncio é mil vezes mais fecundo que todos os ruídos. Não é um silêncio vacuidade, é um silêncio de plenitude. Não é um silêncio de ausência, é um silêncio de presença – é a mais poderosa presença, a omnipresença cósmica da Infinita Realidade.

Somente com esta poderosa presença da Realidade é que o homem pode realizar o homem. Nunca homem algum se realizou a não ser nas profundezas do Silêncio-Realidade.

Até há pouco não tínhamos, aqui no Ocidente, lugares apropriados onde o homem pudesse viver despreocupado em longos períodos de silêncio e solidão. Ultimamente, porém, o movimento mundial, que no Brasil tomou o nome de "Alvorada", (Centro de Auto-Realização), construiu ou está a construir alguns lugares apropriados onde as almas desejosas do seu encontro com Deus (Infinito) encontrarão o ambiente propício para a realização desse anseio.

Os nossos centros e santuários de sintonização cósmica não têm carácter residencial, como no Oriente; servem para retiros temporários, tanto coletivos como individuais. São centros de renovação espiritual, onde o homem poderá carregar a sua bateria e com essas energias acumuladas beneficiar a sua vida e a vida dos outros.

Centros de cosmoterapia.

Huberto Rohden em, Educação Cósmica — Autoconhecimento e Auto-Realização

Logoterapia e Cosmoterapia


Victor Frankl é o campeão da Logoterapia. O que ele diz, sobretudo no seu livro Terapia das Neuroses, apresentando a logoterapia e a introdução à análise existencial, ultrapassa e complementa tudo quanto, até agora, fizera a psicoterapia. O Logos mental-racional é mais poderoso que a Psyché vital.

Joel Goldsmith, de Honolulu, usa o mesmo processo de logoterapia, que ele chama "A arte de Curar pelo Espírito". Frankl é médico, Goldsmith foi um simples negociante, que, quase à sua revelia, se tornou curador.

Ambos, porém, usam o mesmo processo fundamental: evocam, das profundezas do homem, um poder real, mas, geralmente, dormente e desconhecido; e esse poder interno do homem, uma vez acordado, neutraliza os males.

Séculos atrás, dizia Paracelsus: "As doenças vêm da natureza, mas a cura vem do espírito", entendendo por natureza o homem-ego, e por espírito o homem-Eu.

Frankl, como médico, cientista e psiquiatra, prepara o doente e torna-o receptivo para a realidade benéfica do Logos, que neutraliza as facticidades maléficas, chamadas doenças.

Em Goldsmith observamos o fenômeno estranho de que o poder focalizado no próprio curador é que cura o doente, sem que o doente preste a sua cooperação. A cura dá-se a qualquer distância, instantaneamente, sem que o veículo curador conheça sequer o nome do doente ou da doença. Aliás, Goldsmith insiste em asseverar que não é ele que cura, mas que é unicamente a Consciência Infinita, que, através dele, atua como por um canal finito.

Pouco importa a diversidade do procedimento terapêutico; todos admitem duas coisas como base e ponto de partida:

1. que existe no homem uma realidade positiva, sadia, benéfica, que não é atingida pelas facticidades negativas, doentias, maléficas;

2. que as facticidades negativas do homem, chamadas doenças ou males em geral, podem ser influenciadas positivamente por aquela realidade benéfica e, se assim acontecer, a realidade benéfico-positiva neutraliza as facticidades maléfico-negativas.

Com outras palavras: o Real realiza o Factual. E como o Real é benéfico, beneficia o Factual maléfico. A luz lucifica as trevas; mas as trevas não entravam a luz.

O problema da Logoterapia está em como fazer atuar o Real positivo da saúde sobre o Factual negativo da doença; como produzir um impacto ponderável da luz sobre as trevas, do bem sobre o mal, do positivo sobre o negativo.

E é aqui que entra em cena a misteriosa palavra consciência, ou consciencialização. A palavra consciência ou consciente é composta do radical ciência ou ciente e do prefixo com, que denota relação ou companhia. A consciência é pois, uma relação entre dois, entre um cognoscente e um cognoscível (ou cognoscido, conhecido).

Quem se torna consciente de algo, lança uma espécie de ponte, estabelece um vínculo entre o sujeito cognoscente e o objecto cognoscível; no nosso caso entre o homem Finito e o Infinito.

O Infinito está presente em todos os Finitos, assim como a Vida está presente em todos os Vivos.

Mas, a simples presença objetiva do Infinito no Finito não é consciência; é necessário que o homem, no qual o Infinito está, se torne ciente dessa presença, que seja subjetivamente consciente dessa Realidade Infinita, que está objetivamente presente.

A solução do problema está, pois, na consciência da presença. O homem deve sentir, viver, vivenciar a Realidade da presença do Infinito nele – deve ter a consciência desta presença.

Esta consciência ou consciencialização nítida da presença de Realidade Infinita no homem é que é a base da logoterapia.

A Realidade Infinita presente no homem, embora em forma finita, é o Lógos; a consciência da presença do Lógos, quando profundamente vivida, canaliza as águas vivas dessa Fonte através dos canais idôneos. Pode o ego produzir os males, mas somente o Eu pode crear o bem; e, em face do bem, não há males, assim como na presença da luz não existem trevas.

É inútil lutar contra as trevas do mal – é necessário e suficiente acender a luz do bem.

Na logoterapia não se trata de invocar algum poder externo, algum Deus de fora, para que a sua presença benéfica neutralize os poderes maléficos. Quase toda a humanidade chamada cristã, espiritual, crente, vive há séculos, praticando essa invocação de um poder ausente e transcendente — e os males continuam porque a ilusão continua...

O que é necessário, e também suficiente, é evocar um poder interno, presente, sempre-presente, embora geralmente ignorado e, por isso mesmo, inoperante. Essa evocação do poder presente não tem a função de combater e derrotar outro poder, contrário, porque não existem poderes no plural; só existe um único poder, no singular, e esse poder é bom e benéfico. Onde há luz não há necessidade de combater as trevas, porque a treva inexiste onde a luz existe, a treva está ausente onde luz está presente. Portanto, nada há que negar, combater, derrotar – basta afirmar, consciencializar, viver plenamente a realidade positiva e benéfica – e não haverá nenhuma realidade negativa e maléfica.

Não basta, todavia , a simples presença objetiva desse poder positivo no homem; não é a sua simples presença como tal que liberta o homem dos seus males – é necessário e indispensável que o homem tenha plena, pleníssima consciência da presença desse poder bom dentro de si. É essa consciência da presença do poder bom no homem que produz, o efeito benéfico em sua vida.

Consciencializar intensamente a presença do único poder real e positivo – eis a chave mágica para neutralizar todos os males, que não passam de ausências, e não são presença. Presença é somente o bem, e onde há presença não há ausência; onde há luz não há trevas; onde há positivo não há negativo.

Por mais espessas que sejam as chamadas trevas numa sala, na presença da plenitude da luz desaparecem todas as trevas; não há motivo algum para combater as trevas, varrendo-as para fora, ou matando-as com a espada. Não se pode varrer ou matar a ausência  – basta chamar a presença, e a ausência acabou. A luz é, por sua natureza, lucificante; basta que a deixemos agir de acordo com a sua própria natureza – e tudo é luminoso. Não há possibilidade de coexistência entre luz e treva.

De modo análogo, em se tratando de logoterapia, não é necessário combater, destruir alguma coisa real; porquanto o negativo e irreal não é alvo de hostilização, por ser inexistente em si, embora o nosso ego ilusório lhe dê uma pseudo-existência, que atua como se fosse uma verdadeira existência, enquanto o ego ilusório exerce o poder da sua ilusão.

Toda e qualquer tentativa de debelar o mal por meio duma luta direta, é ridículo dom-quixotismo, lembrando a luta que o famoso cavaleiro de triste figura travou, uma noite, contra um suposto regimento inimigo – e de manhã, inspecionando o campo de batalha, viu que lutara contra moinhos de vento, isto é, contra um inimigo imaginário, inexistente na realidade e pseudo-existente apenas na imaginação de Dom Quixote.

O nosso ego é visceralmente dom-quixotesco, e esse dom-quixotismo perpetua-se através de séculos e milênios. Os pseudo males atormentam-nos unicamente porque o nosso ego dom-quixotesco os considera como males reais. E, sendo que o " homem é aquilo que pensa no seu coração", como diz a Bíblia, ele é vítima de males porque assim pensa e crê no seu coração. "Eu sou livre de tudo o que sei – escreve Spinoza - mas sou escravo de tudo o que ignoro". Enquanto o homem ignora a verdade sobre si mesmo, ele é vítima e escravo desta sua ignorância. "Conhecereis a Verdade – disse, o maior dos Mestres – e a verdade vos libertará"

* * *

De acordo com os modernos, usamos o termo "logoterapia".

Entretanto, seria talvez preferível dizer cosmoterapia. Entendemos por cosmos o Universo em toda a sua inteireza e integridade, tanto no seu fator Uno como no seu fator Verso, tanto na sua Realidade causante (Uno) como nas suas Facticidades causadas (Verso). Esse Uno da Essência manifestado no Verso das Existências, é que denominamos Universo ou Cosmos.

Universo ou Cosmos é, pois, a síntese do Real e do Factual, da Essência e das Existências, do Infinito e dos Finitos.

Ora o que se dá no macrocosmo sideral, também acontece no microcosmo hominal: tanto aqui como lá, o Uno atua através dos diversos, o Real se revela nos Factuais.

Se houvesse apenas o Uno sem o Verso, teríamos monotonia.

Se houvesse Verso sem Uno, teríamos caos.

Mas como o Universo é Uno no Verso, unidade na diversidade, estamos diante duma grandiosa harmonia.

Nem monotonia unitária.

Nem caos diversitário.

Mas harmonia universal, univérsica, cósmica.

Essa harmonia univérsica, resultante da unidade na diversidade, é o característico de todos os reinos da natureza, mineral, vegetal, animal.

Com o advento do homem – inicialmente, do homem ego – apareceu, no cenário cósmico, novo ator – apareceu o fenômeno estranho e misterioso que chamamos consciência ou livre-arbítrio.

Que é livre-arbítrio ?

Livre-arbítrio, disse alguém, "é o poder de ser causa própria".

Livre arbítrio não é determinismo, nem indeterminismo – é autodeterminação. Não é ausência de causalidade (indeterminismo), mas presença de uma causalidade interna, em vez de uma causalidade externa (determinismo).

Autodeterminação é um fator determinante; alo-determinismo é um fato determinado.

Fora da zona hominal, todos os seres obedecem a um poder alheio, a uma causação extrínseca; tudo é alo-determinado, nada é auto-determinante.

Somente na zona hominal há poder próprio, causa intrínseca, auto-determinação; em vez da heteronomia do mundo infra-hominal, temos a autonomia do mundo hominal.

Acontece, porém, que, nesse primeiro estágio de homificação, que é o homem-ego, o livre-arbítrio assume um carácter separatista, hostil, anticósmico; o homem-ego, sentindo-se autônomo, considera-se desligado do Uno e tenta proclamar um Verso separado, independente do grande Todo Cósmico. O homem-ego, consciente e livre, diz ao Cosmos: o meu ego deixou de ser uma peça da grande máquina cósmica e constituiu-se numa entidade independente! eu, o ego, sou uma nova máquina cósmica – eu sou o cosmo! tudo me deve servir!

Esta atitude que o ser hominal assume, na origem da sua homificação consciente (ou semiconsciente), é o célebre "pecado original", o erro da origem do homem-ego, do qual só o poderá redimir um poder superior, que é o homem-Eu.

Se há no homem um elemento luciférico, então é o seu semiconsciente livre-arbítrio.

Se há no homem um fator crístico, então é o seu pleni-consciente livre-arbítrio.

No presente estágio evolutivo, o grosso da humanidade acha-se no plano do homem-ego.

Mas, como o homem-Eu dormita nas profundezas do homem-ego, assim como a planta dorme na semente, existe a possibilidade de evocar o homem-Eu das profundezas do homem-ego, e assim fazer brilhar a luz do bem nas trevas do mal.

E é precisamente neste processo que consiste a logoterapia, que, neste caso, assume o caráter integral de cosmoterapia.

Os grandes gênios da humanidade, como Moisés e Gautama, o Buda indicaram isto em seus escritos: o homem-Eu, que é o homem cósmico, existe implicitamente no homem-ego; mas, enquanto este se acha em consciência explícita, e aquele dorme incubado em consciência implícita, os males que vêm do homem-ego imperam sobre o bem, que é o homem-Eu. Durante o período do ego eclodido e do Eu incubado, "o mundo jaz no maligno", no dizer da Bíblia; "o príncipe deste mundo tem poder sobre vós , mas sobre mim ele não tem poder, porque já venci o mundo", como diz o representante máximo do homem-Eu, o chamado "filho do homem".

A cosmoterapia evoca o homem-Eu das profundezas do homem-ego, opera uma eclosão do Eu após sua longa incubação.

Huberto Rohden em, Educação Cósmica - Autoconhecimento e Auto-Realização

Cosmosofia e Cosmoterapia


A Filosofia Univérsica ou Cósmica pode denominar-se também COSMOSOFIA, ou seja , Sapiência Cósmica.

Se o homem possuísse sapiência cósmica, não necessitaria de COSMOTERAPIA, cura pelo cosmos, porque nada haveria que curar. O homem cosmificado seria um homem integralmente são e sadio, na alma, na mente, no corpo. O Universo é a fonte de todos os bens.

Quando o homem necessita de terapia ou cura, é porque não está harmonizado com o cosmos, a fonte dos bens; o seu "verso" finito não está em perfeita sintonia com o "uno" infinito. Ou, em linguagem de moderna psicologia, o homem-ego não está em sintonia com o homem-Eu, entendendo-se pelo homem-Eu a forma individual do Cosmos Universal. Devido a esta dissintonia, pode haver maldades e males no homem-ego. A maldade, resultante do abuso do livre-arbítrio do homem-ego, é a causa dos males, que são o efeito ou consequência da maldade.

A maldade livremente cometida acarreta os males necessariamente consequentes - é esta a grande lei do karma, de causa e efeito.

Os males (sofrimentos) são a sanção ou reação cósmica contra a maldade do homem-ego. Pode o homem opor-se ao Cosmos, graças ao seu livre-arbítrio (imperfeito), mas, uma vez estabelecida essa desarmonia entre o ego e o cosmos, é inevitável a reação deste contra aquele. Esta reação cósmica contra o ego é o mal, o sofrimento, a doença, a morte, em todas as suas formas.

Desta filosofia cósmica temos um esboço no Gênesis de Moisés, que viveu cerca de milênio e meio antes de Cristo.

Seis séculos antes da era cristã, elaborou Gautama Siddhartha, o Buda, as "Quatro Nobres Verdades", sobre a origem e o fim do sofrimento.

Pelos meados do primeiro século da nossa era, proclamou Paulo de Tarso essa mesma verdade, nas regiões do Oriente Médio e no Sul da Europa, afirmando que a morte é fruto do pecado.

Enquanto houver egoidade anticósmica haverá males. E ainda que o homem individual deixe de cometer maldade, os males continuarão sobre a face da terra, enquanto a humanidade coletiva continuar a praticar maldades.

A maldade de todos é o mal de cada um.

O débito coletivo da humanidade é o sofrimento individual de cada homem.

Verdade é que o homem individual não pode herdar a maldade coletiva, mas pode sofrer o mal individual que a maldade coletiva semeou.

O homem colherá o que a humanidade semeou.

A humanidade jaz no maligno (ego), afirma a Bíblia.

O príncipe deste mundo (ego) — diz o divino Mestre — que é o poder das trevas, tem poder sobre vós.

Enquanto a humanidade continua a jazer no maligno (ego), cometendo maldades; enquanto o príncipe deste mundo, a egoidade anticósmica, mantiver essa sua atitude maléfica, não deixará de haver males para o homem individual, porque a solidariedade do gênero humano é um fato, não só no bem, mas também no mal. "Se um único homem - escreve Mahatma Gandhi - chegar à plenitude do amor, neutralizará o ódio de muitos milhões". Inversamente, poderíamos acrescentar: se um único homem descer às profundezas da maldade, fará mal a muitos milhões. E ainda: se milhões de homens praticam maldades, fazem mal a muitos homens, suposto que estes não se tenham imunizado devidamente contra o impacto das maldades alheias.

Só deixará de haver sofrimento individual quando a humanidade coletiva deixar de praticar maldades.

O homem individual, vítima de males provindos da maldade coletiva, é chamado pelo Cristo "filho de mulher". Por "mulher" entende ele o organismo materno da humanidade coletiva. O homem comum, seja profano, seja místico, é um homem seminato, mas não um homem pleni-nato; é "filho de mulher" , e não "filho do homem". Quando uma criança deixa o organismo materno, mas ainda continua presa a este por meio do cordão umbilical, através do qual recebe o sangue vitalizante da mãe, ela é apenas seminata. Só depois de cortado o cordão umbilical, é que a criança é pleni-nata, possui vida autônoma, independente do organismo materno.

O homem comum é "filho de mulher", prole da humanidade coletiva, no sentido de não ter ainda nascido plenamente, de não possuir ainda autonomia total, de não ser ainda um pleni-Eu, porque ainda ligado à egoidade maléfica da humanidade que "jaz no maligno". O sangue da humanidade flui ainda através das artérias do homem comum, seja profano, seja místico. Verdade é que o homem espiritual, místico, santo, já não é mais autor de maldades, como o homem profano e pecador, mas, devido à sua seminascença, continua a ser afetado pelos males dos maus, porque sofre a solidariedade maléfica do organismo materno da humanidade pecadora; o sangue da humanidade-ego continua a circular nas veias desse homem seminato. Livre de maldades próprias, continua a sofrer os males das maldades alheias, a pagar as dívidas dos outros.

A identidade desse homem, diria Bergson, não passou ainda a uma completa alteridade. Ele é ainda semi-identificado com a humanidade-ego, e por isto ainda é "filho de mulher". "Filho do homem" seria o homem que vivesse a sua total alteridade, a sua pleni-nascença, a sua perfeita autonomia espiritual, à luz do EU crístico.

O homem místico, poderíamos dizer, é como um avião que saiu do hangar e está correndo na pista do aeroporto, tentando descolar – mas ainda está preso à terra pela lei da gravidade universal; mesmo correndo na pista, continua sujeito a essa tara, que tenta neutralizar. Só depois de descolar e voar livremente é que o avião se sente impelido por uma força centrífuga , antigravitacional. Esse avião no ar seria comparável ao homem cósmico, ao "filho do homem"; no hangar e na pista ele é ainda "filho de mulher", da mãe terra, vítima da tara da gravidade. No hangar ele é non-nato; na pista é seminato; só no ar é pleni-nato.

Enquanto o avião está parado no hangar, ele poderia ignorar a gravidade terrestre; mas, quando começa a correr na pista, verifica a luta entre a gravidade da atração terrestre e a força de repulsão das turbinas ou hélices rumo às alturas. De modo análogo, pode o homem totalmente profano ignorar a sua profanidade; mas o homem que iniciou a sua carreira espiritual sabe como é difícil descolar rumo às alturas, descolar-se das coisas da terra, às quais o ego o "cola" tão firmemente, de maneira que a "descolagem" é sumamente dolorosa. O velho ego é mesmo um "cola-tudo".

O homem que, de seminato, passasse a ser pleni-nato, deixaria de sofrer compulsoriamente os males pelas maldades alheias – mas poderia, se quisesse, sofrer esses males voluntariamente. Sofreria não por anánke (necessidade), mas por agápe (amor, liberdade). O alo-determinismo dos sofredores compulsórios transformar-se-ia na autodeterminação do sofredor espontâneo, como aconteceu no caso de Jesus, o Cristo, o único "filho do homem" que até hoje apareceu sobre a face da terra!

João Batista, segundo o testemunho do Nazareno, é o maior dentre os "filhos de mulher". A expressão "filho do homem" aparece 82 vezes nas páginas do Novo Testamento, e sempre aplicada exclusivamente ao Cristo.

"Filho do homem" significa, pois, o homem plenamente realizado, o homem cósmico, o homem integral, perfeito na alma, na mente e no corpo.

Pode o "filho do homem", como dizíamos, sofrer espontaneamente os males, mas não os sofre obrigatoriamente; sofre por querer, e não por dever. Podem os outros sofredores sofrer com resignação, mas não sofrem voluntariamente. João Batista não foi degolado por querer; Paulo de Tarso não sofreu morte violenta por sua livre escolha; Francisco de Assis não morreu de tuberculose por querer; Mahatma Gandhi não foi assassinado por sua livre vontade; Ramana Maharishi não morreu de câncer porque quisesse; John Kennedy, Luther King e outros não foram mortos por querer, mas por dever, pelo querer dos outros. A sua espiritualidade não os preservou de sofrimentos e morte compulsória, porque todos eles, mesmo os mais espiritualizados, continuavam a ser, como João Batista, "filhos de mulher", semi-natos.

O único "filho do homem" que conhecemos não sofreu compulsoriamente; sofreu não por anánke (necessidade), mas por agápe (amor); e ele insiste em frisar esta plena liberdade do seu sofrimento e da sua morte ; "Ninguém me tira a vida; eu deponho a minha vida quando eu quero, e retomo a minha vida quando eu quero." Quantas vezes quiseram os seus inimigos matá-lo, apedrejá-lo, mas não o conseguiram, porque ele não o permitia – ainda não era chegada a hora.

Podem os sofredores compulsórios funcionar como semi-redentores da humanidade devedora – mas somente o sofredor espontâneo é um pleni-redentor – precisamente por ser um pleni-redento.


* * *

Voltando ao nosso ponto de partida: a verdadeira cosmosofia liberta o homem de qualquer maldade. Se a humanidade coletiva praticasse cosmosofia, toda ela seria liberta de maldades e, consequentemente, também os homens seriam libertos de males. O reino dos céus seria proclamado sobre a face da terra; haveria um novo céu e uma novo terra, segundo as palavras misteriosas do Apocalipse.

E, neste caso, nenhuma terapia teria cabimento. A vitória da cosmosofia tornaria supérflua a cosmoterapia.

Por enquanto, a cosmosofia só poderá libertar o homem das maldades livremente cometidas.

É este o primeiro passo, importante, que a cosmosofia pode realizar, e que está ao alcance de cada um de nós. A Filosofia Univérsica pode levar o homem a uma perfeita harmonia ou sintonização com o cosmos, com o grande UNO , com a alma do Universo, que as religiões chamam Deus. Quando o "Verso" do homem-ego estiver sintonizado com o "UNO" do homem-Eu, então cessará a maldade, e, se essa cessação for total, cessarão também os males.

" Eu já venci o mundo."

Huberto Rohden em, Educação Cósmica

Da egoidade separatista à Cosmicidade Unitiva


[...] O ser hominal, ao aparecer no cenário da história, apareceu como negativamente livre, livre de alguma coisa, mas sem saber para que era livre. Livre da escravidão do instinto vital do mundo infra-hominal, graças ao poder mental, mas ainda não plenamente livre para um fim racional (espiritual). 

Essa zona mental é do homem-ego, primeira etapa evolutiva do ser hominal e na qual o grosso da humanidade se acha até hoje: o homem-ego se sente livre de, mas não se sabe ainda livre para que e perante quem

É esta, a zona crítica da liberdade sem responsabilidade

Todos os males da humanidade podem ser sintetizados neste binômio: liberdade sem responsabilidade. 

Neste plano, o homem age livremente em nome do seu ego separatista, e não age responsavelmente em nome do seu Eu unitivo: age egoicamente, não age conscientemente. E, como todo o mal está na egoidade unilateral e como todo o bem está na cosmicidade onilateral, segue-se com a lógica férrea da lei inexorável de que o homem, no plano da egoidade sem cosmicidade, não pode deixar de ser vítima dos males produzidos por essa egoidade separatista, e nessa zona dos males perseverará o homem enquanto não despertar nele a consciência da sua cosmicidade unitiva, única capaz de o redimir dos males.

A união cósmica é a verdade, a separação egóica é uma ilusão

A ilusão produz os males, a verdade produz os bens e nos libertará dos males. Ilusão é treva, verdade é luz — as trevas só poderão ser dissipadas pela atuação da luz. 

A verdade é o conhecimento consciente da Realidade, da Essência, do Uno do Universo. Conhecer esta Realidade é a verdade, e esta verdade conhecida é libertadora — "conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará". 

Os males da vida humana são, portanto, produto do ego ilusório, e só poderão ser abolidos pelo despertamento do Eu verdadeiro. É perfeitamente inútil e totalmente impossível querer abolir os males ego-produzidos pelo próprio ego, por mais inteligente que ele seja. Nenhum ego pode libertar-nos dos males a que o ego nos escravizou. Escravocrata não abole escravidão; escravocrata faz escravos, mas não liberta escravo. Enquanto o homem escravizado pelo ego ilusório não ultrapassar a dimensão dessa egoidade ilusória escravizante, não haverá redenção dos males que a egoidade engendrou. Querer libertar o ego pelo ego, é funesto círculo vicioso, em que a humanidade vive a milhares de anos. Pode o ego modificar os sintomas dos males por ele creados, mas não os pode erradicar e abolir definitivamente, enquanto não entrar na nova dimensão do Eu redentor. 

Na natureza infra-hominal o Uno do Universo age diretamente, sem encontrar obstáculo, porque a natureza não possui suficiente liberdade para opor obstáculo à atuação do poder cósmico. 

Com o aparecimento do fator consciente ou semiconsciente do ser honimal, em sua fase mental, surgiu a possibilidade duma obstrução; o homem-ego pode fechar os seus canais ao influxo da fonte cósmica. 

Essa obstrução dos canais ocorre toda vez que o ego hominal considera a sua egoidade como fonte da própria Realidade, do Poder, da Vida e Saúde. Esta ilusão egóica é a razão por que o homem sofre os males. A ilusão separatista do ego obstrui os canais entre o homem e o cosmos. 

A libertação desses males é possível unicamente pela transição da ilusão para a verdade, porque só a consciência da verdade liberta o homem dos males que a inverdade creou nele. 

A verdade, porém, é esta: Eu e o Infinito (Pai) somos um; o Infinito está em mim, e eu estou no Infinito; as obras que eu faço não sou eu (o ego finito) que as faz, mas é o Infinito em mim que as faz. 
Quando o homem se convence definitivamente de que o seu ego humano não é a Fonte, mas canal, que deve estar ligado conscientemente à Fonte, ao Infinito, ao Uno, ou Único, à Essência, então fluem para dentro dele, e através dele, as águas da Vida, da Saúde e Felicidade. 

A presença objetiva da Vida, Saúde e Felicidade é um fato permanente e universal; mas a consciência desta presença é um problema. Enquanto o homem não tiver a consciência nítida desta presença cósmica, não será liberto de seus males. O homem pode ter câncer, paralisia, tuberculose, lepra ou outra doença, dentro da presença e onipresença da Vida, Saúde e Felicidade do Cosmos; pode também ser o maior dos malfeitores dentro desta presença. O que o redime desses males e dessas maldades não é o fato objetivo da presença cósmica, é, sim, a consciência subjetiva dessa presença

O homem-ego ignora essa presença — o homem-Eu sabe dessa presença cósmica, divina. Por isto, somente a verdade do Eu pode redimir o homem da ilusão do ego. 

Auto-realização e cosmoterapia são manifestações da consciência da presença de Deus no homem.

Huberto Rohden em, Educação Cósmica - Autoconhecimento e Auto-Realização       

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)