O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Coração como a sede da Consciência

D: Sri Bhagavan fala do Coração como a sede da Consciência e como sendo idêntico ao Eu superior. O que significa exatamente o Coração? 

M: A pergunta sobre o Coração surge porque você está interessado em descobrir a fonte da consciência. Para todas as mentes que pensam profundamente, a questão sobre o Eu superior e sua natureza tem uma fascinação irresistível.

Chame-o por qualquer nome — Deus, Eu superior, Coração ou sede da consciência — é a mesma coisa. O ponto a ser compreendido é este: que Coração significa o próprio âmago do ser do indivíduo, o Centro, sem o qual não há coisa alguma, qualquer que seja. 

D: Mas Sri Bhagavan especificou um lugar particular para o Coração, dentro do corpo físico, dois dedos à direita do plano mediano. 

M: Sim, esse é o Centro da experiência espiritual, de acordo com o testemunho de sábios. Esse Coração-centro espiritual é completamente diferente do órgão muscular propulsor de sangue, conhecido pelo mesmo nome. O Coração-centro espiritual não é um órgão do corpo. Tudo o que se pode dizer do Coração é que ele é o âmago mesmo do seu ser. Isso com o qual você é realmente idêntico (como a palavra em sânscrito significa literalmente), quer você esteja acordado, dormindo ou sonhando, quer esteja trabalhando ou imerso em samadhi

D: Nesse caso, como pode ele ser localizado em alguma parte do corpo? Fixar um lugar para o Coração implicaria em impor limitações fisiológicas a isso que está além do espaço e do tempo. 

M: Está certo. Mas, a pessoa que faz a pergunta sobre a posição do Coração considera-se como existindo com ou no corpo. Fazendo a pergunta agora, você diria que somente seu corpo está aqui, mas que você está falando de algum outro lugar? Não, você aceita a sua existência física. É desse ponto de vista que qualquer referência a um corpo físico vem a ser feita. 

Em verdade, a Consciência Pura é indivisível, não tem partes. Ela não tem forma alguma nem contorno algum, nenhum “dentro” e nenhum “fora”. Não há “direita” nem “esquerda” para ela. A Consciência Pura, que é o Coração, inclui tudo; e nada está fora ou separado dela. Esta é a Verdade final. Desse ponto de vista absoluto, o Coração, Eu superior ou Consciência, não pode ter lugar algum designado para ele no corpo físico. Qual a razão? O corpo é, ele próprio, uma simples projeção da mente, e a mente não passa de um reflexo empobrecido do Coração radiante. Como pode isso em que tudo está contido se encontrar, ele próprio, confinado como uma pequena parte dentro do corpo físico, que não é senão uma manifestação infinitesimal, fenomênica, da Realidade Única? Mas as pessoas não compreendem isso. Elas não podem deixar de pensar em termos de corpo físico e de mundo. Por exemplo, você diz: “Eu vim para este ashram percorrendo todo o caminho desde o meu país, que se encontra além dos Himalayas”. Mas isso não é verdade. Onde está “ir” e “vir”, ou qualquer outro movimento que seja, para o espírito uno, todo-penetrante, que você realmente é? Você está onde sempre esteve. Foi o seu corpo que se moveu ou foi transportado de um lugar a outro até encontrar este ashram.

Esta é a verdade simples, mas, para um indivíduo que se considera um sujeito vivendo em um mundo objetivo, esta verdade aparece como algo completamente visionário. 

É pela descida ao nível da compreensão comum que um lugar é atribuído ao Coração, no corpo físico.

D: Como poderei então compreender a afirmação de Sri Bhagavan de que a “experiência” do Centro-Coração se dá em um lugar particular do peito? 

M: Uma vez que você aceita que, do ponto de vista verdadeiro e absoluto, o Coração como Consciência Pura está além do espaço e do tempo, será fácil compreender o resto na sua correta perspectiva. 

D: Foi somente nessa base que eu fiz a pergunta sobre a posição do Coração. Estou perguntando sobre a experiência de Sri Bhagavan. 

M: A Consciência Pura, completamente não relacionada ao corpo físico e que transcende à mente, é uma questão de experiência direta. O Sábio conhece sua existência incorpórea e atemporal, assim como o leigo conhece a sua existência corpórea. Mas a experiência da Consciência pode se dar estando-se cônscio ou não do corpo. Na experiência incorpórea da Consciência Pura, o Sábio está além do tempo e do espaço, e nenhuma pergunta sobre a posição do Coração pode então surgir, absolutamente. 

Contudo, uma vez que o corpo físico não pode subsistir separado da Consciência, a percepção corpórea tem de ser sustentada pela Consciência Pura. A consciência corpórea, por sua natureza, é limitada, e não pode jamais ter a amplidão da Consciência Pura, que é infinita e atemporal. A consciência circunscrita ao corpo é simplesmente uma espécie de mônada, reflexo miniaturizado da Consciência Pura com a qual o Sábio realizou a sua identidade. Para ele, portanto, a consciência do corpo é somente um raio refletido, por assim dizer, da infinita e auto-refulgente consciência, que é ele próprio. É somente nesse sentido que o Sábio está cônscio da sua existência física. Uma vez que, durante a experiência incorpórea do Coração como Pura Consciência, o Sábio não está, de forma alguma, cônscio do corpo, aquela experiência absoluta é localizada por ele dentro dos limites do corpo físico por uma espécie de recordação-sentimento produzida enquanto ele se encontra cônscio do corpo.

D: Para homens como eu, que não tiveram a experiência direta do Coração nem a consequente recordação, parece um pouco difícil compreender o assunto. Sobre a posição mesma do Coração, talvez precisemos depender de alguma espécie de adivinhação. 

M: Se a determinação da posição do Coração tem de depender de adivinhação, mesmo no caso do leigo, a questão não merece grandes considerações. Não, não é de adivinhação que você tem de depender, mas sim de uma infalível intuição. 

D: Para quem é a intuição? 

M: Para cada um e para todos. 

D: Sri Bhagavan atribui a mim um conhecimento intuitivo do Coração? 

M: Não, não do Coração, mas da posição do Coração em relação à sua identidade. 

D: Sri Bhagavan diz que eu conheço intuitivamente a posição do Coração no corpo físico? 

M: Por que não? 

D: (Apontando para si próprio) É a mim pessoalmente que Sri Bhagavan está se referindo? 

M: Sim. Essa é a intuição! De que forma você se referiu a si mesmo, por um gesto, neste momento? Não colocou o seu dedo no lado direito do peito? Esse é exatamente o lugar do Centro-Coração. 

D: Então, na ausência do conhecimento direto do Centro-Coração, tenho de depender dessa intuição? 

M: O que há de errado com ela? Quando um estudante diz “Fui eu que fiz a soma correta”, ou quando ele lhe pergunta: “Devo correr e pegar o livro para você?”, ele aponta para a cabeça que fez a soma correta, ou para as pernas que rapidamente o levarão para pegar o livro? Não, em ambos os casos, seu dedo é apontado, naturalmente, em direção ao lado direito do peito, concedendo, assim, uma inocente expressão à profunda verdade de que nele a fonte da noção “eu” ali se encontra. É uma infalível intuição que o faz referir-se a si próprio dessa maneira, apontando para o Coração, que é o Si Mesmo. O ato é completamente involuntário e universal, quer dizer, é o mesmo no caso de cada indivíduo. De que prova mais forte do que essa você precisa relacionada à posição do Centro-Coração no corpo físico?

Evangelho de Ramana Maharshi

O intelecto jamais pode chegar ao Eu superior

D: A pesquisa sobre Deus vem acontecendo desde tempos imemoriais. Já foi dada a palavra final? 

M: (Mantém silêncio por algum tempo). 

D: (Intrigado) Devo considerar o silêncio do Sri Bhagavan como a resposta à minha pergunta? 

M: Sim. O Silêncio Meditativo é a natureza de Deus. Daí, o texto: “A Verdade do Supremo Brahman proclamada por meio da eloquencia silenciosa”.

D: Diz-se que Buda ignorou tais investigações sobre Deus. 

M: E, por causa disso, ele foi chamado de niilista. Na verdade, Buda se preocupou mais em orientar o aspirante a perceber a bem-aventurança aqui e agora do que com discussões acadêmicas a respeito de Deus, etc. 

D: Deus é descrito como manifesto e não manifesto. Como o primeiro, diz-se que inclui o mundo como parte de seu ser. Se é assim, nós, como parte deste mundo, deveríamos facilmente conhece-lo na forma manifesta. 

M: Conheça a si mesmo antes de buscar decidir sobre a natureza de Deus e do mundo. 

D: Conhecer a mim mesmo implica conhecer a Deus? 

M: Sim, Deus está dentro de você. 

D: Então, qual o obstáculo no caminho de meu conhecimento de mim mesmo ou de Deus? 

M: Sua mente errante e as suas incorretas formas de se conduzir. 

D: Eu sou uma criatura fraca. Mas, por que o poder superior de Deus dentro de mim não remove os obstáculos? 

M: Sim, ele removerá, se você tiver a aspiração. 

D: Por que Ele não cria a aspiração em mim? 

M: Então, renda-se. 

D: Se eu me entregar, nenhuma oração a Deus é necessária? 

M: Entregar a si mesmo é uma poderosa oração. 

D: Mas não é necessário compreender a Sua natureza antes de alguém entregar-se? 

M: Se você acredita que Deus fará por você todas as coisas que você quer que ele faça, entregue-se então a Ele. Caso contrário, deixe Deus de lado e conheça a si mesmo. 

D: Deus ou o Guru tem algum desvelo por mim? 

M: Se você procurar um ou o outro — eles realmente não são dois, mas um só e idênticos — tenha a certeza de que eles o estão buscando com uma solicitude maior do que você jamais pode imaginar. 

D: Jesus contou a parábola da moeda perdida, em que a mulher a procura até que seja encontrada. 

M: Sim, isso representa adequadamente a verdade de que Deus ou o Guru está sempre à procura do buscador sério. Fosse a moeda uma peça sem valor, a mulher não teria realizado essa longa busca. Você percebe o que isso significa? O buscador deve qualificar-se através da devoção, etc. 

D: Mas o indivíduo pode não estar seguro da Graça de Deus. 

M: Se a mente imatura não sente a Sua Graça, isso não significa que a graça de Deus esteja ausente, pois tal situação implicaria que Deus, às vezes, não é benevolente, ou seja, deixa de ser Deus. 

D: Isso é o mesmo que o dito de Cristo “De acordo com a tua fé seja feito a ti". 

M: Isso mesmo. 

D: Os Upanishads, segundo soube, dizem que só conhece o Ser Supremo aquele que o Ser Supremo escolhe. Por que razão deveria o O Ser Supremo escolher? Se ele o faz, por que determinada pessoa? 

M: Quando o sol nasce, apenas alguns botões florescem, não todos. Você culpa o sol por isso? O botão também não pode florescer por si mesmo, ele necessita da luz do sol para fazê-lo. 

D: Não podemos dizer que é necessária a ajuda do Ser Supremo porque foi o Ser Supremo que lançou sobre si mesmo o véu da ilusão? 

M: Você pode dizer isso. 

D: Se o Ser Supremo lançou o véu sobre si mesmo, não deve, ele mesmo, remover o véu? 

M: Ele o fará. Veja para quem é o véu. 

D: Por que deveria eu? Que o próprio Ser Supremo remova o véu! 

M: Se o Ser Supremo fala sobre o véu, então o próprio Ser Supremo irá removê-lo. 

D: Deus é pessoal? 

M: Sim, Ele é sempre a primeira pessoa, o eu, ininterruptamente diante de você. Porque você dá prioridade a coisas mundanas, Deus parece ter recuado a um plano secundário. Se você desistir de tudo e buscar apenas Ele, só Ele vai permanecer como o eu, o Si Mesmo. 

D: O estado final de Realização, de acordo com o Advaita, diz-se ser a absoluta união com o Divino; e de acordo com Visishtadvaita, uma união parcial, enquanto Dvaita sustenta que não há união alguma. Qual destas deve ser considerada a correta visão? 

M: Por que especular sobre o que vai acontecer em algum momento futuro? Todos concordam que o "eu" existe. A qualquer escola de pensamento que ele possa pertencer, deixe o sério buscador primeiro descobrir o que é o "eu". Então, haverá tempo suficiente para saber o que será o estado final, se o "eu" vai imergir no Supremo Ser ou permanecer fora dele. Não vamos antecipar a conclusão, mas manter a mente aberta. 

D: Mas, alguma compreensão do estado final não será um guia útil mesmo para o aspirante? 

M: Não serve a propósito algum a tentativa de decidir agora o que será o estado final de Realização. Não há nisso valor intrínseco algum. 

D: Por quê? 

M: Porque você parte de um princípio equivocado. Sua verificação tem de depender do intelecto, que brilha apenas pela luz que obtém do Eu superior. Não é uma presunção da parte do intelecto se por a fazer julgamento sobre aquilo de que ele é apenas uma manifestação limitada, e do qual deriva a sua tênue luz? Como pode o intelecto, que jamais pode chegar ao Eu superior, ser competente para averiguar, e muito menos decidir, sobre a natureza do estado final de Realização? É como tentar medir a luz do sol em sua origem pelo critério da luz emitida por uma vela. A cera derreterá antes de a vela chegar a qualquer lugar perto do sol. Em vez de entregar-se á mera especulação, empenhe-se, aqui e agora, na busca da Verdade, que está sempre dentro de você.

Evangelho de Ramana Maharshi

Por que se sentir desconsolado e infeliz?


Não há, realmente, razão para você se sentir desconsolado e infeliz. Você mesmo impõe limitações à sua verdadeira natureza de Ser Infinito, e então se lamenta por não passar de uma criatura finita. Dessa forma, você se vale desta ou daquela prática espiritual para transcender as limitações inexistentes. Mas se a sua prática espiritual pressupõe, ela mesma, a existência de limitações, como pode ajudá-lo a transcendê-las? Assim, eu digo, saiba que você é realmente o puro Ser Infinito, o Si Mesmo Absoluto. Você é sempre esse Eu superior e nada mais que o Eu superior. Portanto, você jamais pode ser realmente ignorante de Si Mesmo; sua ignorância é apenas uma ignorância formal [...] Saiba, então, que o verdadeiro conhecimento não cria um novo Ser para você; ele só remove a "ignorância ignorante". A Bem-Aventurança não é adicionada à sua natureza — ela simplesmente revela-se como o seu estado verdadeiro e natural, eterno e imperecível. A única maneira de se livrar de sua aflição é conhecer e ser Si Mesmo. Como pode isso ser inatingível?

Evangelho de Ramana Maharshi

Sobre a bem-aventurança do Eu superior

D: Nesta vida cercada de limitações, posso alguma vez perceber a bem-aventurança do Eu superior? 

M: Essa bem-aventurança do Eu superior está sempre com você, e você vai encontrá-la por si mesmo, se a procurar sinceramente. A causa do seu sofrimento não está na vida exterior; está em você como ego. Você impõe limitações a si mesmo e, em seguida, realiza uma luta vã para transcendê-las. Toda infelicidade é devida ao ego; com ele vem todo o seu problema. O que é que adianta atribuir aos acontecimentos da vida a causa do sofrimento, que está realmente dentro de você? Que felicidade você pode obter de coisas exteriores a si mesmo? Quando você a conseguir, quanto tempo isso vai durar? Se você negar o ego e incinerá-lo, ignorando-o, você estará livre. Se aceitá-lo, ele vai lhe impor limitações e irá lançá-lo em uma luta vã para transcendê-las. [...] Ser o Si Mesmo, que você realmente é, eis o único meio de realizar a bem-aventurança que é sempre sua. 

D: Não tendo percebido a verdade de que apenas o Eu superior existe, eu não deveria adotar os caminhos espirituais devoção e yoga como sendo mais adequadas do que a pergunta "Quem Sou eu?" para fins de prática espiritual? Não é a realização do Absoluto Ser do indivíduo, algo praticamente inatingível para um leigo como eu? 

M: A auto-realização Plena não é um conhecimento a ser adquirido, de modo que, ao adquiri-lo, se possa obter a felicidade. Essa é o ponto de vista da ignorância, do qual se deve desistir. O Eu superior que você busca conhecer é, na verdade, você mesmo. Sua suposta ignorância lhe causa uma aflição desnecessária.

Evangelho de Ramana Maharshi

A investigação "Quem sou eu?", não é uma fórmula vazia?

D: Mas não é engraçado que o "eu" deva sair em busca do "eu"? A investigação "Quem sou eu?” não se transforma, ao final, em uma fórmula vazia? Ou devo colocar a questão para mim incessantemente, repetindo-a como um mantra? 

M: A auto-investigação não é, certamente, uma fórmula vazia; é mais do que a repetição de qualquer mantra. Se a investigação, "Quem sou eu?" fosse um mero questionamento mental, não seria de muito valor. O propósito de auto-investigação é concentrar toda a mente na sua fonte. Não é, assim, um caso de um 'eu' em busca de outro "eu". Muito menos é a auto-investigação uma fórmula vazia, pois envolve uma intensa atividade de toda a mente para mantê-la constantemente estabelecida em Pura autoconsciência. A auto-investigação é o único meio infalível, o único direto, para perceber o Ser incondicionado, absoluto, que você realmente é. 

D: Por que só a auto-investigação deve ser considerada o meio direto para o Conhecimento? 

M: Porque todo tipo de prática espiritual, exceto a pergunta "Quem Sou Eu?", pressupõe a retenção da mente como o instrumento para o exercício da prática espiritual, e sem a mente ela não pode ser praticada. O ego pode tomar formas diferentes e mais sutis nas diferentes fases da prática do indivíduo, porém ele mesmo jamais é destruído.

[...] A tentativa de destruir o ego ou a mente através de práticas espirituais distintas da pergunta "Quem Sou Eu?" é o mesmo que um ladrão assumir o papel de um policial para prender o ladrão, que é ele próprio. Somente pergunta "Quem Sou Eu?" pode revelar a verdade que nem o ego nem a mente realmente existe, e capacitar o indivíduo a realizar o puro, indiferenciado Ser do Si-mesmo ou o Absoluto. Tendo realizado o Eu superior, nada sobra para se conhecer, porque ele é perfeita Bem-aventurança, é o Todo.

Evangelho de Ramana Maharshi

O que fazer para realizar o Si Mesmo?

Discípulo: O que fazer para realizar o Si Mesmo? 

Maharshi: O Si Mesmo de quem? Descubra. 

D: Meu, mas quem sou eu? 

M: Descubra você mesmo. 

D: Eu não sei como. 

M: Basta pensar sobre a questão. Quem é que diz: "Eu não sei"? Quem é o "eu" em sua declaração? O que não é conhecido? 

D: Alguém ou alguma coisa em mim. 

M: Quem é esse alguém? Em quem? 

D: Talvez algum poder. 

M: Descubra. 

D: Por que eu nasci? 

M: Quem nasceu? A resposta é a mesma para todas as suas perguntas. 

D: Quem sou eu, então? 

M: (sorrindo.) Você veio para me arguir? Você deve dizer quem você é. 

D: Por mais que eu tente, não parece que eu consiga pegar o 'eu'. Ele nem sequer é claramente perceptível. 

M: Quem é que diz que o "eu" não é perceptível? Há dois 'eus' em você, um que não é perceptível para o outro? 

D: Em vez de perguntar "Quem sou eu?", posso perguntar a mim mesmo ‘Quem é você?’, pois assim, então, a minha mente pode ser fixada em você, que eu considero ser Deus na forma de Guru? Eu estaria mais perto do objetivo da minha busca com essa investigação do que perguntando a mim mesmo ‘quem sou eu?’. 

M: Qualquer que seja a forma adotada sua investigação, você deve ao final chegar ao eu único, o Si Mesmo. Todas estas distinções feitas entre "eu" e "você", mestre e discípulo, etc., são apenas um sinal da ignorância do indivíduo. Só há o Eu Supremo. Pensar de outra maneira é enganar a si mesmo.

Evangelho de Ramana Maharshi

Como posso conseguir a paz?

D: Como posso conseguir a paz? Parece que não consigo obtê-la por meio da pergunta "Quem sou eu?"

M: A paz é o seu estado natural. É a mente que obstrui o estado natural. Sua pergunta "Quem sou eu?" tem sido feita apenas na mente. Investigue o que a mente é, e ela vai desaparecer. Não existe tal coisa como “mente” à parte do pensamento. No entanto, por causa do surgimento do pensamento, você supõe algo a partir do qual ele aparece e nomeia a isso “mente”. Quando você sonda para ver o que ela é, você descobre que realmente não existe tal coisa como “mente”. Quando, dessa forma, a mente evanesce, você percebe a Paz eterna. 

D: Por meio da poesia, da música, japa , bhajana, da visão de belas paisagens, da leitura de versos de natureza espiritual, etc., se experimenta, às vezes, um sentido verdadeiro de total unidade. Esse sentimento de profunda e bem-aventurada quietude (em que o eu pessoal não tem lugar) é o mesmo que o mergulhar no coração de que Bhagavan fala? A prática desse estado levará a um samadhi mais profundo e, por fim, a uma visão completa do Real? 

M: Há felicidade quando coisas agradáveis são apresentadas à mente. Essa felicidade é inerente ao Ser, e não existe, de forma alguma, outra felicidade. E não se trata de coisa estranha e longínqua. Você está mergulhado no Eu superior nessas ocasiões que você considera prazerosas; esse mergulho tem como resultado a felicidade auto-existente. Mas a associação de idéias é responsável por impingir a crença de que a felicidade se encontra em outras coisas ou acontecimentos, quando, na verdade, essa bem-aventurança se encontra dentro de você. Nessas ocasiões você está mergulhando no Si Mesmo, embora inconscientemente. Se você faz isso conscientemente, com a convicção que vem da experiência de que você é idêntico à felicidade que é, na verdade, Si Mesmo, a Realidade única, você o chama de Realização. Quero que você mergulhe conscientemente em Si Mesmo, isto é, no coração.

Evangelho de Ramana Maharshi

Sobre a força espiritual da auto-realização

D: O Bhagavan utiliza poderes ocultos para fazer os outros perceberem o Ser, ou o simples fato da realização de Bhagavan é suficiente para isso? 

M: A força espiritual da auto-realização é muito mais poderosa do que o uso de todos os poderes ocultos. Na medida em que não existe ego no sábio, não existem ‘outros' para ele. Qual o maior benefício que pode ser conferido a você? É a felicidade, e a felicidade nasce da paz. A paz pode reinar apenas onde não há perturbação, e a perturbação é devida aos pensamentos que surgem na mente. Quando a própria mente está ausente, há paz perfeita. A menos que a pessoa tenha aniquilado a mente, ela não pode ganhar a paz e ser feliz. E a menos que ela própria seja feliz, não pode conferir felicidade aos "outros". Uma vez que, no entanto, não há "outros" para o sábio que não tem mente, o simples fato de sua auto-realização é, em si, suficiente para fazer felizes os 'outros'.

Evangelho de Ramana Maharshi

Como encontrar o Guru e no que ele nos ajuda?

D: Na Sociedade Teosófica, eles meditam a fim de buscar os mestres para guia-los. 

M: O Mestre é interno. A meditação é feita para remover a ideia ignorante de que só existe externamente. Se ele é um estranho que você espera, está fadado a desaparecer também. Qual a utilidade de um ser transitório como esse? Mas enquanto você pensar que é separado, ou que você é o corpo, o mestre 'externo' também será necessário, e ele vai aparecer como possuindo um corpo. Quando a identificação errônea de si mesmo com o corpo cessar, o Mestre será visto como nenhum outro senão si mesmo. 

D: Será que o Guru nos auxiliará a conhecer o Eu superior por meio da iniciação, etc.? 

M: O Guru lhe toma pela mão e sussurra em seu ouvido? Você pode imaginá-lo ser o que você mesmo é. Porque você pensa que está com um corpo, imagina que ele também tem um corpo para fazer alguma coisa tangível por você. Seu trabalho se processa internamente, no reino espiritual. 

D: Como é que o Guru encontrado? 

M: Deus, que é imanente, em Sua graça tem piedade do devoto amoroso e manifesta-se de acordo com o desenvolvimento dele. O devoto pensa que Ele é uma pessoa e espera interajam como dois corpos físicos. Mas o Guru, que é Deus, ou o Self encarnado, atua a partir de dentro, ajuda-o a ver o erro em suas atitudes e guia-o no caminho certo até que ele perceba o Eu superior. 

D: O que deve fazer então o devoto?

M: Ele tem apenas de agir de acordo com as palavras do Mestre e trabalhar interiormente. O Mestre está tanto "dentro" quanto 'fora'. Assim, ele cria condições para conduzi-lo ao interior e, ao mesmo tempo, prepara o "interior" para puxá-lo para o Centro. Dessa forma, ele dá um empurrão de 'fora' e exerce uma atração a partir de ‘dentro’, para que você se fixe no Centro. 

Você acha que o mundo pode ser conquistado por seus próprios esforços. Quando se frustra externamente e é impelido para dentro, você sente “Oh! há um poder superior ao homem”. 

O ego é como um elefante muito poderoso, que não pode ser mantido sob controle por nada menos poderoso do que um leão, que, neste exemplo, não é outro senão o Guru, cuja figura é suficiente para fazer o ego, símile do elefante, tremer e morrer. 

Você saberá, no momento oportuno, que a sua glória reside ali onde você deixa de existir. A fim de obter esse estado, você deve render-se. Então o Mestre vê que você está em um estado adequado para receber orientação, e ele lhe guia.

D: Como pode o silêncio do Guru que não dá iniciação alguma, nem realiza qualquer outro ato tangível, ser mais poderoso que a Sua palavra, etc.? Como tal silêncio pode ser melhor do que o estudo das escrituras? 

M: O silêncio é a forma mais potente de trabalho. A despeito de quão vastas e enfáticas as escrituras possam ser, elas falham em sua influência. O Guru é silencioso e a Graça predomina. Esse silêncio é mais vasto e mais enfático que todas as escrituras juntas. 

D: Mas o devoto pode obter a felicidade? 

M: O devoto se rende ao Mestre e isso significa que não há vestígio algum de individualidade retida por ele. Se a entrega for completa, todo o senso de “eu” se perde, e então não pode haver sofrimento ou tristeza. O Ser eterno não é coisa alguma, a não ser a felicidade. Isso vem como uma revelação. 

D: Como posso obter a Graça? 

M: A graça é o Eu superior. Não é também para ser adquirida; você só precisa saber que ela existe.

O sol é luminosidade apenas. Ele não vê escuridão. Contudo, você fala das trevas fugindo à aproximação do sol. Assim também a ignorância do devoto, como o fantasma da escuridão, desaparece com o olhar do Guru. Você é cercado pela luz solar; ainda assim, se quiser ver o sol, deve voltar-se em sua direção e contemplá-lo. Da mesma forma, a Graça também é encontrada pela forma adequada de aproximar-se, embora esteja aqui e agora.

D: A Graça não pode acelerar a maturação no buscador? 

M: Deixe tudo para o Mestre. Renda-se a ele sem reservas. Uma das duas coisas deve ser feita: render-se, porque você percebe sua insuficiência e precisa da ajuda de uma força maior para auxiliá-lo; ou investigar a causa do sofrimento, ir à fonte e, assim, fundir-se no Eu superior. De uma maneira ou da outra, você estará livre do sofrimento. Deus ou Guru nunca abandona o devoto que se rendeu.

D: Qual é o significado de prostração ao Guru ou Deus? 

M: A prostração significa o desaparecimento do ego, e isso significa fundir-se na Fonte. Deus ou Guru não pode ser enganado por genuflexões, reverências e prostrações. Ele vê se o ego está ali ou não.

Evangelho de Ramana Maharshi

O Guru e sua Graça

D: O que é a graça do guru? Como ela conduz à autorrealização? 

M: Guru é o Eu superior. Às vezes, um indivíduo se torna insatisfeito com sua vida e, descontente com o que ele tem, busca a satisfação de seus desejos por meio da oração a Deus, etc. Sua mente gradualmente se purifica até que ele anseia por conhecer a Deus, mais para obter Sua graça que para satisfazer desejos mundanos. Em seguida, a graça de Deus começa a se manifestar. Deus toma a forma de um Guru e aparece ao devoto, ensina-lhe a verdade e, além disso, purifica sua mente pela associação. A mente do devoto ganha força e é então capaz de voltar-se para dentro. Através da meditação, torna-se ainda mais purificada e permanece sem a menor ondulação. Essa calma vastidão é o Eu superior. 

O Guru é tanto 'externo' quanto 'interno'. Do 'exterior', ele dá um empurrão para que a mente se volte para dentro; do ’interior’ ele puxa a mente para o Self e auxilia para que ela se aquiete. Isso é a graça do guru. Não existe diferença entre Deus, Guru e o Eu superior.

Evangelho de Ramana Maharshi

Não é nosso dever ser patriotas?

D: Não é nosso dever ser patriotas? 

M: Seu dever é ser e não ser isso ou aquilo. "EU SOU ESSE EU SOU" resume toda a verdade; o método está sintetizado em 'aquiete-se'. 

E o que a quietude significa? Significa "destruir a si mesmo"; porque todo nome e forma é a causa do problema. "Eu-Eu" é o Eu superior. "Eu sou isso e aquilo" é o ego. Quando o "eu" é mantido apenas como o "eu", ele é o Eu superior. Quando sai pela tangente e diz 'eu sou isso ou aquilo, eu sou tal e tal’, é o ego. 

D: Quem é Deus então? 

M: O Eu superior é Deus. "EU SOU" é Deus. Se Deus está à parte do Eu superior, ele tem de ser um Deus sem Si-Mesmo, o que é absurdo. Tudo o que é necessário para realizar o Eu superior é estar quieto. O que pode ser mais fácil do que isso? Daí que o conhecimento de si mesmo é o mais fácil de obter.

Evangelho de Ramana Maharshi

Eu não deveria tentar ajudar o mundo sofredor?

D: A minha realização ajuda os outros? 

M: Sim, e é a melhor ajuda que você pode prestar aos outros. Aqueles que descobriram grandes verdades o fizeram nas profundezas tranquilas de Si Mesmo. Mas realmente não há 'outros' para serem ajudados. Pois, o ser realizado vê apenas o Eu superior, assim como o ourives vê apenas o ouro enquanto o avalia em várias jóias feitas desse material. Quando você se identifica com o corpo, o nome e a forma estão lá. Mas quando você transcende a consciência do corpo, os "outros" também desaparecem. O realizado não vê o mundo como diferente de si mesmo. 

D: Não seria melhor se os santos se misturassem com os outros? 

M: Não há 'outros' com quem se misturar. O Eu superior é a única realidade. 

D: Eu não deveria tentar ajudar o mundo sofredor? 

M: O Poder que o criou fez o mesmo com o mundo. Se ele pode cuidar de você, pode igualmente cuidar do mundo... se Deus criou o mundo, é trabalho dele cuidar do mundo, não seu.

Evangelho de Ramana maharshi


Como alcançar a auto-realização

D: Como posso alcançar a auto-realização? 

M: Realização não é nada de novo a ser ganho; já está lá. Tudo o que é necessário é se livrar do pensamento 'eu não realizei'. 

Quietude ou a paz é Realização. Não existe um momento em que Si Mesmo não esteja. Enquanto houver dúvida ou a sensação de não realização, a tentativa deve ser feita para livrar-se desses pensamentos. Eles são devidos à identificação do Si-Mesmo com o não-Si-Mesmo. Quando o não-Si-Mesmo desaparece, apenas o Si-Mesmo permanece. Para criar espaço, é suficiente que o atulhamento seja removido; o espaço não é trazido de outros lugares. 

D: Uma vez que a realização não é possível sem a destruição das tendências latentes, como posso realizar o estado em que as tendências latentes são efetivamente destruídas? 

M: Você está nesse estado agora! 

D: Isso significa que, atendo-me ao Eu superior, as tendências latentes devem ser destruídas assim que apareçam? 

M: Elas se destruirão se você permanecer como você é. 

D: Como posso alcançar o Eu superior?

M: Não há alcançar o Eu superior. Se fosse para ser alcançado, isso significaria que o Eu superior não está aqui e agora, mas que ainda está para ser obtido. O que é obtido como novo, também será perdido. Assim, será impermanente. Não vale a pena lutar pelo que não é permanente. Então, digo, não se alcança o Eu superior. Você é o Eu superior; você já é Isso. O fato é que você é ignorante de seu estado bem-aventurado. A ignorância sobrevém e lança um véu sobre o puro Si-Mesmo, que é bem-aventurança. As tentativas são feitas tão somente para remover o véu da ignorância, que é apenas conhecimento errôneo. O conhecimento errôneo é a falsa identificação do eu com o corpo, a mente, etc. Esta identificação falsa tem de desfazer-se, e então apenas o Si-Mesmo permanece. Portanto, a realização é para todos; a realização não faz diferença entre os aspirantes. A própria dúvida sobre sua capacidade de realizar e a noção de “eu não realizei" são, elas próprias, obstáculos. Livre-se desses obstáculos também.

Evangelho de Ramana Maharshi

Como tornar a mente rebelde calma e serena?

D: Como podemos tornar a mente rebelde calma e serena? 

M: Percebendo a fonte da mente, para que ela possa desaparecer, ou realizando a autoentrega, para que ela possa ser abatida. A autoentrega é o mesmo que o autoconhecimento, e qualquer um deles implica, necessariamente, autocontrole. O ego se submete apenas quando reconhece o Poder Superior.

Evangelho de Ramana Maharshi


Meditação é a sua verdadeira natureza

D: Uma meditação obstinada é necessária para o fortalecimento da mente?

M: Não, se você mantiver sempre presente a ideia de que não é trabalho seu. Inicialmente, é necessário um esforço para lembrar-se disso, mas, depois, torna-se natural e contínuo. O trabalho vai continuar por conta própria, e sua paz permanecerá intacta.

A meditação é a sua verdadeira natureza. Você a chama de meditação agora, porque há outros pensamentos a distraí-lo. Quando esses pensamentos são dissipados, você permanece só — isto é, no estado de meditação, livre de pensamentos; e essa é a sua natureza real, que você está tentando adquirir agora afastando outros pensamentos. Tal afastar de outros pensamentos é agora chamado de meditação. Mas quando a prática torna-se firme, a sua real natureza mostra-se como a verdadeira meditação.

D: Outros pensamentos surgem com mais força quando se tenta meditar!

M: Sim, todos os tipos de pensamento surgem na meditação. É assim mesmo, pois o que está escondido em você é revelado. A menos que surja, como pode ser destruído? Os pensamentos surgem espontaneamente, por assim dizer, mas apenas para ser extintos, no devido tempo, fortalecendo, dessa forma, a mente.

Evangelho de Ramana Maharshi

Como posso controlar a mente?

Discípulo: Como posso controlar a mente?

Ramana Maharshi: Não há mente alguma para controlar se o Self é realizado. O Self brilha quando a mente desaparece. No homem realizado, a mente pode estar ativa ou inativa – só o Self existe. Pois mente, corpo e mundo não são separados do Self, e não podem subsistir fora do Self. Podem ser diferentes do Self? Quando se está cônscio do Self, por que se deveria preocupar com essas sombras?
Como elas afetam o Self?

D: Se a mente é apenas uma sombra, como, então, se faz para conhecer o Self?

M: O Self é o coração autoluminoso. A iluminação surge a partir do Coração e atinge o cérebro, que é a sede da mente. O mundo é visto com a mente, de modo que você vê o mundo pela luz refletida do Self. O mundo é percebido por um ato da mente. Quando a mente recebe a luz do Self, fica cônscia do mundo; quando não recebe essa luz, não tem conhecimento do mundo.

Se se volta a mente para dentro, em direção à fonte da iluminação, o conhecimento objetivo cessa e o Self sozinho brilha como o Coração.

A lua brilha refletindo a luz do sol. Quando o sol se põe, a lua é útil para que os objetos sejam vistos. Quando o sol se levanta, ninguém precisa da lua, ainda que seu disco seja visível no céu. Assim também é com a mente e o Coração.

A mente se torna útil por sua luz refletida. Ela é utilizada para que se vejam os objetos. Quando se volta a mente para dentro, ela mergulha na fonte da Iluminação, que brilha por Si Mesma, e a mente é, então, como a lua durante o dia.

Quando está escuro, uma lâmpada é necessária para fornecer luz. Quando o sol se levanta, porém, não há necessidade da lâmpada: os objetos se tornam visíveis. E para ver o sol, nenhuma lâmpada é necessária; é suficiente que você volte os olhos na direção do astro autoluminoso. De forma similar, com a mente: para ver os objetos, a luz refletida da mente é necessária; para ver o Coração, basta que a mente se volte para ele. Então a mente é irrelevante, e o Coração é autorefulgente.

Evangelho de Ramana Maharshi

Sobre pregação e silêncio

Devoto: Por que Bhagavan não prega a Verdade às pessoas em geral?

Maharshi: Como você sabe que não estou fazendo isso? Pregar consiste em subir a uma plataforma e fazer discursos bombásticos? Pregar é simplesmente transmissão do Conhecimento; só pode ser realizada realmente em silêncio. O que pensa de um homem que escuta um sermão durante uma hora e vai embora sem que o sermão tenha causado impressão suficiente para mudar sua vida? Compare-o a outro, que senta-se na presença divina e algum tempo depois afasta-se com a perspectiva de vida inteiramente modificada. O que é melhor: pregar em voz alta sem obter qualquer efeito ou sentar-se em silêncio, enviando a força interior para o exterior? 

Novamente, como surge o discurso? Existe o Conhecimento abstrato, de onde surge o ego, que por sua vez dá origem ao pensamento, e o pensamento à palavra falada. Assim, a palavra é a grande meta da Fonte original. Se a palavra pode produzir efeitos, julgue por si mesmo, como deve ser tão mais poderosa a Pregação através do silêncio! Todavia, as pessoas não compreendem esta verdade simples e evidente, a Verdade de sua experiência diária, sempre presente, eterna. Esta Verdade é do Eu superior. Existe alguém que não tenha consciência do Eu superior? Mas eles nem mesmo gostam de ouvir esta Verdade, embora mostrem-se ansiosos por conhecer o que existe além, o céu, o inferno e a reencarnação.  

Como amam o mistério e não a Verdade, as religiões atendem a eles, até que finalmente chegam ao Eu superior. Sejam quais forem os métodos adotados, você acaba de retornar ao Eu superior; então por que não habitar o Eu superior aqui e agora? O Eu superior é necessário para que exista um espectador ou mesmo para especular sobre o outro mundo; portanto, eles não são diferentes do Eu superior. Até mesmo o homem desconhecedor ao ver os objetos enxerga apenas o Eu superior.

Evangelho de Ramana Maharshi

Não se preocupe se você está fazendo progressos ou não

O devoto pergunta: “Como posso saber se estou fazendo progresso na minha meditação?”

Bhagavan responde: “Aqueles que meditam muito, frequentemente, desenvolvem uma forma sutil de ego. Eles se tornam satisfeitos com a ideia de que estão fazendo progresso; tornam-se satisfeitos com os estados de paz e de bem-aventurança de que gozam; tornam-se satisfeitos com o fato de que aprenderam a exercitar algum controle sobre suas mentes inconstantes; ou podem derivar alguma satisfação do fato de que encontraram um bom Guru ou um bom método de meditação. Todos estes sentimentos são sentimentos do ego. O pensamento ‘Estou meditando’ é pensamento do ego. Se a meditação real estiver ocorrendo, esse pensamento não surgirá. 

Não se preocupe se você está fazendo progressos ou não. Apenas mantenha a sua atenção no Ser vinte e quatro horas por dia. Meditação não é algo que deve ser feito em uma posição particular, em um momento particular. Ela é uma percepção e uma atitude que tem que persistir ao longo de todo o dia. Para ser eficaz, a meditação deve ser contínua. 

Se você quer irrigar um campo, cava um canal no campo e envia água continuamente ao longo dele durante um longo período de tempo. Se você enviar água por apenas dez segundos e então parar, a água escorre para dentro do solo mesmo antes de alcançar o campo. Você não será capaz de alcançar o Ser, e ali permanecer, sem um esforço prolongado e contínuo. Cada vez que você desiste de tentar, ou que se torna distraído, alguns de seus esforços prévios são desperdiçados. 

Inalação e exalação contínuas são necessárias para a continuidade da vida. Meditação contínua é necessária para todos aqueles que querem permanecer no Ser.

Você divide sua vida em diferentes atividades: ‘Eu estou comendo’, ‘Eu estou meditando’, ‘Eu estou trabalhando’, etc. Se você tiver ideias como essas, ainda estará se identificando com o corpo. Livre-se de todas essas ideias e substitua-as pelo pensamento ‘Eu sou o Ser’. Agarre-se àquela ideia e não a deixe ir. Não dê àquelas ideias de ‘Eu sou o corpo’ qualquer atenção. 

‘Eu tenho que comer agora’, ‘Eu vou dormir agora’, ‘Eu vou tomar banho agora’, todos os pensamentos como esses são pensamentos ‘Eu sou o corpo’. Aprenda a reconhecê-los quando surgirem e aprenda a ignorá-los e ou a bani-los. Mantenha-se firmemente no Ser e não deixe a mente identificar-se com qualquer coisa que o corpo faça.” 

O´ Rama!

Vê a verdade, quem vê o corpo como um produto da compreensão ilusória; como a fonte do infortúnio e que entende que o corpo não é o Ser. 

Vê a verdade, quem vê que prazeres e dores do corpo são experienciados de acordo com a passagem do tempo e das circunstâncias nas quais cada um é colocado, mas que estes não lhe pertencem. 

Vê a verdade, quem sabe que o Ser, que é tão sutil quanto a milionésima parte de um fio de cabelo dividido em um milhão de vezes – permeia tudo.

Vê a verdade, quem sabe que não há divisão entre o Ser e o “outro”, e que somente a Infinita Luz da Consciência existe como a Única Realidade. 

Vê a verdade, quem vê que a Consciência não dual, que habita em todos os seres, é Onipotente e Onipresente. 

Vê a verdade, quem não se ilude pensando ser o corpo, que está sujeito à doença, medo e agitações.

Vê a verdade, quem vê que todas as coisas são colocadas no Ser como contas são enfiadas em um fio e que sabe “Eu não sou a mente”. 

Vê a verdade, quem percebe que tudo é Brahman; nem “eu” nem o “outro”. 

Vê a verdade, quem vê todos os seres, nos três mundos, como sua própria família, merecedora de simpatia e proteção. 

Vê a verdade, quem sabe que apenas o Ser existe, e que não há substância na objetividade.

É não afetado, quem sabe que prazer, nascimento, morte, etc, são apenas o Ser. 

É firmemente estabelecido na Verdade, aquele que sente: “O que posso adquirir, a que devo renunciar, quando tudo que existe é apenas o Ser?”

Saudações à morada da auspiciosidade, que é preenchida com a suprema percepção de que todo o Universo é, em verdade, Brahman, que permanece imutável durante toda a aparente Criação, Existência e Dissolução do Universo. 

*
Da Revista “The Maharshi“, traduzido por Vera Carolina.

_________________
Nota - Rama é o sétimo avatar de Vishnu e, assim como Krishna, veio ao mundo para reestabelecer as bases da Religião Eterna e mostrar ao homem o caminho da salvação. Sua vida é descrita no épico Ramayana. 

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)