O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

A ascensão espirital do homem

Quando pessoas de todos os níveis de caráter e inteligência, procedimento e intuição são atirados juntos em sociedade, cria-se o problema de conciliar uma fé simples para as massas com uma fé complexa para os poucos capazes de absorvê-la. A maioria não pode ir além dessa simplicidade, mas não deveria obstruir o caminho dos que podem. Por outro lado, estes últimos não deveriam transformar o misticismo num assunto aristocraticamente exclusivo para algumas pessoas privilegiadas, privando grande número de pessoas dos seus mais altos benefícios. Se é um erro oferecer conhecimentos às pessoas antes que elas possam absorvê-los, é igualmente errado deixar de oferecê-los na medida em que elas podem fazê-lo. A solução desse problema exige um processo de filtragem, que proporcionaria todas as oportunidades aos ansiosos por progredir, mas que não confundisse os que não revelassem a mesma ansiedade. 

Os sábios trazem à baila a religião como escola para a ascensão espirital do homem. A casta sacerdotal tende a transformá-la numa prisão. Ela é instituída para faz~e-lo progredir lenta, porém, gradualmente. As organizações humanas, mais tarde, principiam a usá-la para manter o homem em estado de subserviência. As experiências evolutivas da vida lhe dão uma responsabilidade cada vez mais íntima, isto é, individualizam-no mentalmente. Não obstante, certos eclesiásticos de vistas curtas julgam poder conservar-lhe o caráter e a inteligência presos em tenazes artificiais. A vida procura de um estádio a outro de percepção espiritual. Eles, todavia, procuram limitar-lhe a meta sagrada a um estádio só. O devoto religioso deveria ter permissão, e até mesmo ser animado a isso, para dar o passo capaz de levá-lo ao misticismo, para mudar do culto de um Deus remoto e antropomórfico à comunhão com uma alma profunda, divina e interior, assim que se sentir preparado para ela. Ao invés disso, geralmente o tolhem de dar esse passo. E isso acontece porque não se compreende que o misticismo não é inimigo da religião. É um progresso, mas não é um progresso que afaste o homem da religião. 

Quando a religião institucional tem condições para conseguir a largueza de coração que lhe permita manter-se aberta, como uma porta, à religião mística, e não se enclausure como se fosse uma prisão, todos, inclusive ela mesma, serão ajudados pela renúncia. As necessidades contemporâneas o exigem particularmente. A tensão destes tempos é tamanha que até os orgulhosos e os sofisticados, os sensuais e os ignorantes, são incapazes de arrostá-la. A necessidade de alguma coisa que possa dispensar paz, esperança, força e luz ao seu confuso eu interior está começando a fazer-se sentir.

A Filosofia não chama os homens pedindo-lhes que ponham a religião de lado, nem a menospreza pedindo-lhes que tratem a religião como se fosse uma inutilidade. A religião é para todos, inclusive para os filósofos. Mas a Filosofia pede aos homens que estendam a sua religião além do sectarismo, que lhe purifiquem a prática e que lhe aprofundem a compreensão. Coroa o que o misticismo expõe e consuma o que a religião promete, conquanto, ao mesmo tempo, emende os erros e elimine as limitações de ambos. Nunca se opõe à religião — e como poderia fazê-lo, se a religião autêntica nasce do próprio solo da Filosofia? — mas apenas à degeneração e às corrupções da religião, assim como nunca desmerece o misticismo — cujas práticas de meditação são parte do seu próprio princípio essencial — mas apenas as formas extravagantes e néscias que o misticismo tende a assumir. Como a finalidade e a perfeição pertencem exclusivamente ao ponto de vista do Todo não atingido, ela afirma que todos os pontos de vista anteriores são úteis enquanto provisórios apenas e tornam-se imperfeitos como pontos de vista finais.

Uma vez que a compreensão cresce à proporção que o ponto de vista se eleva, um mestre religioso explica a experiência de maneira elementar e o professor místico a explica de maneira mais avançada. Debaixo da superfície convencional da religião e coberto pelos seus imponentes rituais, existe, escondido, um conteúdo místico. Quando princípios elementares religiosos são apresentados como verdades místicas supremas, os resultados são lamentáveis. Eles passam gradativamente da incompreensão e da superstição para a absurdeza e a intolerância. E esta surge porque os não iniciados confundem incriticamente os níveis de referência intelectual, porque eles não estabelecem uma nítida divisão entre o que pertence à esfera da observação exterior e o que pertence à esfera da vida interior.

Ainda mais inauspicioso, porém, do que os crentes religiosos fizeram ao fato místico foi o que lhe fizeram os próprios pretensos místicos e os professores místicos desequilibrados. O estudante cauto, que deseja conservar a sua sanidade mental e chegar ao verdadeiro conhecimento precisa ser avisado de que o reino dos estudos místicos está orlado de atalhos ocultos e ensombrado de tolas superstições. Dele se tiraram verdades e associaram com muita necedade. Essa mistura foi propagada  por movimentos fantásticos, cultos tolos, líderes charlatães e dúbias sociedades secretas. Os que nunca se submeteram a nenhuma disciplina intelectual, quer durante o curso da sua educação formal, quer durante o seu autodesenvolvimento, podem tender facilmente a acreditar no que é puramente fantasioso ou no charco da mania religiosa. O investigador inteligente deverá palmilhar com cautela esses campos, pois ali medram, luxuriantes, ervas daninhas. Tenha ele sempre em mente que, se quiser aceitar a crença num poder superior, poderá fazê-lo sem precisar aceitar, ao mesmo tempo, uma multidão de perigos, superstições, charlatanices e ilusões. Só mesmo quando se atém firmemente à prova científica do fato prático observado poderá ele abrir um caminho seguro através da teoria exposta com eloquência. 

[...] Esses ensinamentos contêm uma curiosa mistura de verdade e fantasia; daí a dificuldade que, às vezes, encontramos na avaliação dos movimentos existentes por detrás deles. Uma das razões por que eles dominam a mente das pessoas é que, a par com os seus exageros e as suas falsificações, e a despeito deles, frequentemente contém elementos úteis. Alguns são o resultado inevitável dos esforços do homem para escapar quando as peias da ortodoxia religiosa se tornam intelectualmente penosas. 

Muitos aderem a esses cultos levados pela esperança, e neles permanecem pela força do hábito. Outros estão apenas satisfazendo à sua paixão pela sensação e imaginam estar satisfazendo à sua paixão pela verdade. Quando o milagre prevalece sobre o místico, há o risco de se perder o verdadeiro valor deste último. Quando o mistério predomina sobre o misticismo, abundam as dificuldades e multiplicam-se os perigos. Quando o bem místico assim degenera, não conduz à esplêndida iluminação a que poderia ter conduzido, mas leva uma vida acrobática, a um coração murcho, a uma indefensibilidade moral e a uma verdadeira atrofia intelectual.

Paul Brunton  

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)