O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Ninguém é profeta em sua terra

[...]Do silêncio divino parte, intermitentemente, O Verbo. É proferido, não pelo céu, senão pelos lábios de um homem. Não é tão-só um som ouvido ou um documento escrito; é também um poder criativo e transformador. Aquele que profere ou escreve O Verbo torna-se o fundador de uma nova religião, o profeta de uma nova inspiração. A sua tarefa consiste em decifrar cuidadosamente, se nos for lícito expressá-lo dessa maneira, uma mensagem recebida em cifra transumana e apropriar-lhe a linguagem. Tal é a suprema inteligência que tem o mundo sob o seu domínio, que as suas operações ajudam a humanidade promovendo-lhe o nascimento, como, quando, e onde ele é necessário. [...] Um indivíduo assim é como um general na guerra contra o mal. Ele trabalha para derrotá-lo. O seu aparecimento entre nós em intervalos periódicos é tão sábio quanto necessário. Nem isto, nem a difusão final da sua influência é acidental ou dependente da escolha pessoal de quem quer que seja. Ambos são divinamente ordenados através das forças que orientam a evolução humana e da lei da recompensa universal. 

O profeta ou o vidente pode esperar que o seu conselho seja rejeitado por todos, com exceção de uns poucos, mas ele pode ser ainda orientado no sentido de expressá-lo formalmente. Se o for, tal expressão terá mais do que um valor pessoal. Erguer-se-á em relação simbólica com o povo desatento. Será uma espada de dois gumes, que teria podido salvar, mas que será usada para julgar. O seu trabalho pode ser enunciado discretamente a princípio — pode até não ser notado por algum tempo, como a obra de Jesus escapou à observação de todos os historiadores contemporâneos, com exceção de Josephus. Ele próprio reuniu umas poucas centenas de seguidores, e Buda apenas uns poucos milhares, embora os ensinamentos de ambos alimentassem milhões nos séculos subsequentes. Confúcio foi grandemente ignorado, conquanto os seus ensinamentos se tornassem parte do sistema educacional chinês durante dois mil anos. Nos primeiros dez anos da sua missão profética, Zoroastro não encontrou outro discípulo além do seu próprio primo. 

Os verdadeiros discípulos, mais do que os seguidores nominais dos grandes líderes messiânicos do mundo foram sempre uma insignificante minoria. Isto ocorria, em parte porque os escassos meios de transporte e os primitivos meios de comunicação não permitiam, antigamente, que uma mensagem divina se difundisse com rapidez. Hoje em dia, ela poderá espalhar-se muito mais depressa e para o mundo inteiro. Sem dúvida disso, ainda é preciso compreender, lastimosamente, a impossibilidade de que os sonhos de uma milagrosa conversão, da noite para o dia, de toda a humanidade, com que os não iniciados e os sentimentais gostam de brincar venham a realizar-se. O que Jesus não pode fazer, o que Buda não conseguiu, ninguém mais, sem dúvida, poderia executar. Esses grandes luzeiros envoltos em carne humana puseram em movimento a terrível inércia espiritual da humanidade, é verdade, mas o movimento foi diminuto. Os poucos sensíveis responderam vigorosamente, como sempre, mas os muitos que tinham o espírito voltado para a matéria, escassamente foram tocados. 

Poucas pessoas compreenderam que a obra de um profeta se realiza essencialmente dentro de um período de tempo limitado após o seu aparecimento na terra e não perdura para sempre. Pois a sua tarefa fundamental é dupla: plantar alguma coisa no coração dos homens, uma dádiva da sua graça, que será transmitida através dos séculos em ondulações cada vez mais amplas; proferir ou escrever uma mensagem verbal que prudentemente provê às necessidades do momento, às formas de pensamento das pessoas e aos antecedentes históricos da época. A força assim difundida atinge o seu zênite e, em seguida, principia a enfraquecer e a refluir. Em seu zênite, triunfa o espírito, mas em seu nadir impera a letra. No primeiro caso temos a verdadeira religião e os homens lhe sentem a inspiração, mas no segundo temos frequentemente o seu arremedo e os homens lhe sentem o vazio. O profeta possui realmente o poder de conferir a graça, ao passo que, volvidos alguns séculos, muitos dos que falam em seu nome quase sempre carecem dele. Estas é uma das razões por que a religião se evapora durante o longo correr dos séculos, de modo que as pessoas, em sua maior parte, só obtêm dela o seu último resíduo. 

Hoje, os princípios originais das grandes religiões foram tão alterados, a sua eficácia moral foi tão acentuadamente diminuída, a sua influência antimaterialista foi tão lamentavelmente enfraquecida, que a necessidade de uma vasta renovação interior em todo o mundo e entre todas as classes é incontestável. Quando o credo professado por um homem já não é uma chamejante convicção, mas uma fria conveniência, a necessidade de uma nova dinâmica é indiscutível. É comum, todavia, o erro de ter por axiomático que esse tipo de interesse compete às pessoas especialmente piedosas, excêntricas ou solenes, como se a lamentavelmente mínima atenção que se dá comumente aos assuntos espirituais fosse um sinal de sadia normalidade e excelente equilíbrio. Afinal de contas, não incumbe apenas aos discípulo da Busca a procura e o encontro da felicidade do Eu Supremo, mas a toda a gente. Só que, em se tratando de toda a gente, a incumbência parece imposta de muito longe e é apenas vagamente ouvida, de modo que se julga erroneamente o seu local de origem. 

Deus traçou um caminho evolutivo para o homem que o conduz do que há de mais baixo em seu caráter para o que há de mais nobre, e que se destina a alçá-lo muito acima do nível da animalidade inconsciente. Ele, por fim, terá de percorrê-lo; nisso não lhe resta liberdade de escolha. De ordinário, porém, a velocidade da marcha depende dele em grandíssima parte, e ele poderá fazê-la tão vagarosa ou tão ligeira quanto quiser. A religião é o primeiro passo nessa direção certa mas, mais cedo ou mais tarde, ele terá de prosseguir em sua jornada e percorrer todo o caminho, o que quer dizer que ele precisará passar, em seguida, pela fase da experiência mística pessoal e interior. A primeira e última exigência que a religião faz à humanidade é a fé — simples e incondicional. Não há nada errado nisso. Toda mãe, com razão, faz idêntica exigência aos filhos pequeninos. O homem religioso acredita que um poder divino existe e tudo sustenta. Mas a sua fé pode mudar, entibiar-se ou desaparecer de todo sob a dura pressão de acontecimentos desfavoráveis ou de argumentos céticos. O místico não se satisfaz com essa situação. Vê a necessidade de uma relação mais íntima com Deus. E através da negação de si mesmo, da autodisciplina e da meditação obtém-na, encontrando um reflexo do poder divino no mais profundo do seu próprio eu, e sentindo claramente provada a existência desse poder através da sua própria experiência íntima. Não precisa, para convencer-se, da sedução de coisas externas, pois procura a sua verdade inteiramente dentro dos seus pensamentos e dos seus sentimentos. Onde a religião deriva a sua principal sanção da autoridade externa, o misticismo deriva a sua principal sanção da experiência direta. Que essa passagem é ascendente e progressiva, não se discute. E é essa a passagem que muitíssimas pessoas precisam fazer em nosso tempo. 

Embora sejam, certamente, valiosos e necessários, o conhecimento religioso e os seus esforços preparatórios deixam ainda insatisfeito o mais alto objetivo da existência humana. O circulo um tanto limitado dos que não se satisfazem com um conhecimento meramente preparatório da vida mais elevada, mas querem adquirir-lhe as verdades através da sua própria compreensão interior, assim como os que se sentem vigorosamente impelidos a subir de uma fase inferior a um ponto um pouco mais próximo do cume do conseguimento espiritual, poderão ver as suas aspirações realizadas se concordarem em pagar um preço mais elevado com a moeda do autoconhecimento e da autodisciplina. Assim se fazem dignos da iluminação plena e pessoal pelo Eu Supremo.

Paul Brunton 
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O medo e a dependência psicológica

Conferência Presencial no Centro Cultural São Paulo em 21-02-2016

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)