O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

A abertura da consciência à verdade

A leitura de livros e o estudo bíblico é o primeiro passo do caminho pelo qual abriremos nossa consciência ao influxo da Verdade espiritual. O segundo passo é nossa união com aqueles que estão no caminho e, especialmente, com aqueles que já estão um passo à frente de nós. Dentro e fora de seus eus, esses passos não são o Espírito, mas nos levam de volta ao reinado de Deus dentro de nosso próprio ser. Eles nos fazem lembrar nossa verdadeira identidade, nos conduzindo de volta, longe do mesmerismo do mundo que tentava atrair-nos para as crenças da humanidade. Esses passos que tomamos são auxílios e ajudar para nos manter no centro de nosso ser, até que, finalmente, cheguemos ao ponto onde poderemos andar sobre as águas sem ajuda exterior. 

A essência de nosso trabalho é chegar àquele lugar onde o Espírito Santo pode vir até nós, não através de um livro ou de um professor, mas através da MANIFESTAÇÃO E REVELAÇÃO DE NOSSO PRÓPRIO SER INTERIOR. Nós, neste trabalho, devemos evitar a necessidade de afirmação que Jesus tinha de fazer a seus seguidores: "Se eu não for, não virá a vós o Consolador". Em outras palavras: "Enquanto vocês contarem comigo como uma pessoa, enquanto vocês insistirem em vir a mim com todo paciente que não puderem curar, ou com todo pedido que não puderem atender, e continuarem olhando para mim para que eu o faça por vocês, a plenitude desta revelação não virá a vocês". Devemos reconhecer nossa verdadeira identidade como a totalidade de Deus em manifestação. 

Há um passo mais adiante, e este é o da meditação. É através da meditação e na meditação que, essencialmente, nos pomos em contato com o reino de Deus dentro de nosso próprio ser. Durante grande parte de nossas vidas falamos sobre Deus, falamos sobre o Espírito Santo, falamos sobre a Alma e falamos sobre o Cristo. Mas poucos entre nós realmente conheceram a Deus, a Alma, ou o Cristo. Para a maioria de nós, estes ainda são termos de algo distinto e à parte de nosso próprio ser, algo que esperamos, essencialmente, perceber ou atingir. Nesse trabalho, tão logo quanto possível, tentamos terminar com esse pensamento sobre Deus como distinto e à parte de nosso ser, para continuar falando sobre Cristo ou rezando a Cristo ou a Deus, e tentamos chegar tão rápido quanto podemos à percepção de Deus — a uma experiência de Deus. 

Pois Deus pode ser sentido AQUI E AGORA. Deus é uma realidade presente, um ser vivente. Deus não é algo distante. Como o poeta nos diz: "Deus está mais próximo do que a respiração, mais perto do que as mãos e os pés". Não é necessário atravessar a vida falando sobre Deus, esperando, rezando pelo dia que encontremos Deus — às vezes, até mesmo rezando para morrer, a fim de encontrar Deus. NÃO, NÃO E NÃO! Pode se sentir Deus AQUI E AGORA. Deus é uma Alma vivente. Deus é um ser vivente. Deus é uma luz viva. Em vez de toda a universalidade e impessoalidade de Deus, Deus pode se tornar ÍNTIMO E PESSOAL para nós. Por esta razão, Abraão foi capaz de conhecer Deus como Amigo, Jesus foi capaz de conhecer Deus como Pai. Muitos dos grande mestres hindus reconheceram Deus como Mãe, e metafísicos contemporâneos se referem a Deus como Pai-Mãe. Todos eles revelam Deus de um modo íntimo e ainda como a realidade interior de nosso ser. 

Joel Goldsmith    

O essencial estado de receptividade

Pergunta: Todos podemos desenvolver essa receptividade?

Resposta: Sim, todos nós podemos desenvolvê-la de acordo com o grau de fidelidade aos princípios. No entanto, trata-se de uma grande trabalho ao qual devemos devotar nossas vidas, abandonando tudo o que tiver uma NATUREZA DISPERSIVA, tudo o que tiver uma natureza material e tudo o que tiver uma NATUREZA DE OPOSIÇÃO. Você tem de colocar toda a sua vida nisso. Não se trata de algo que possa ser realizado pelo simples desejo de realizá-lo. A intenção deste livro não é deixar você sentado confortavelmente desfrutando por algumas horas de um estudo interessante, mas SACUDI-LO DA CABEÇA AOS PÉS, para fora de sua paz humana, impelindo-o a uma atividade que torna bem-vindo esse sacudir. Se isso acontecer, a partir de então, isso é realmente um trabalho. 

Isso significa renunciar ao tempo e ao dinheiro. É algo em que você põe tudo, para que seja digno de alguma coisa. É chegar àquele lugar onde Cristo vive em você e, se isso é o que você deseja, terá de trabalhar para isso. 

Passar de um ser humano a um ser espiritual não é possível de um salto. Até Saulo de Tarso teve de procurar a verdade durante anos sob a tutela de um mestre hebreu. Ele estava procurando Deus, seu coração estava certo, e porque seu propósito era encontrar a verdade, não importando se seu caminho estava errado, por fim sua vida foi transformada num raio ofuscante e ele viu o Cristo. 

Assim é conosco. Não importa o caminho que estejamos seguindo. O que realmente vale  é o grau de fervor com que procuramos a verdade. Podemos concordar que não estamos mais buscando uma demonstração de coisas, mas que estamos buscando a CONSCIÊNCIA DA PRESENÇA DE DEUS e a disposição de deixar que nos sejam dadas por acréscimo? 

Nesse fervor desenvolvemos a consciência espiritual. Eis porque enfatizei que, além além dos seus períodos de meditação, há três coisas essenciais neste caminho: uma é um mestre que tenha capturado uma certa dimensão do Cristo e que possa ficar ouvindo e ouvindo, guiando e guiando; a segunda é estudar livros inspiradores, metafísicos ou escriturais, que lhe sejam atraentes e satisfaçam a sua necessidade, e não o estudo que é bom para alguma outra pessoa; e, terceira, agarrar cada oportunidade de reunir grupos de pessoas que, sem qualquer outro interesse, se juntem com o propósito de aprender mais a respeito de Deus. 

Cada vez que você comparece a uma reunião metafísica ou a uma reunião de uma igreja, você está em companhia de pessoas cujo propósito principal na vida é PROCURAR DEUS, não importando que caminho possam seguir. É possível meditar e experimentar uma sensação daquela paz de Cristo em qualquer igreja e ser feliz com grupos de pessoas de qualquer fé. O importante é estar entre pessoas que amam a Deus e a verdade e estão procurando Deus e a verdade de algum modo. Se você deseja chegar a Deus, você encontrará Deus!

Joel Goldsmith em, A união consciente com Deus    

A preparação para o Grande Despertar

Toda pessoa veste a máscara ocultando sua verdadeira identidade. De fato, a palavra latina PERSONA significa máscara. Mas, quando removemos a máscara da personalidade humana, descobrimos que tudo o que Deus é, o ser que somos é. A personalidade humana, com o seu bem e o seu mal, beleza e feiura, riqueza e pobreza e os demais pares de opostos, desaparece quando se faz a constatação: "Aí está um ser individual, Deus expressando sua perfeição e harmonia". O simples fato de podermos olhar agora para uma pessoa e no próximo minuto ela roubar nossa carteira, não altera a realidade de sua verdadeira identidade; prova apenas que não chegou ainda a despertar para a identidade verdadeira.

Temos o dever — e não só perante nós mesmos — de fazer com que o mundo reconheça a cada um como de fato deve ser reconhecido, não atribuindo qualidades boas ou más, tanto para amigos como para inimigos, cessando de pensar sobre sua história passada, presente e vê-lo em sua real identidade espiritual.

"DEUS É A ALMA DESSE INDIVÍDUO; DEUS É SUA MENTE E INTELIGÊNCIA. é DEUS QUE DERRAMA A SI MESMO PARA SE EXPRESSAR COMO SER INDIVIDUAL".

Haverá no mundo algo mais desejável para a Alma humana do que o reconhecimento do seu verdadeiro SER?"

Num primeiro momento poderemos achar que isso é ser por demais impessoal, mas não é nada disso. Trata-se, isto sim, de ser verdadeiro, pois observando tais princípios estaremos observando as pessoas como elas realmente são.

[...] Quando qualquer um de nós for capaz disso, terá feito a transição entre ser um homem da Terra e ser um filho de Deus.

Sem dúvida, há homens e mulheres que não são do nosso agrado e, contudo, em algum momento da transição ou conversão, o seu passado é varrido longe e, de repente, tornam-se um novo ser. Seu aspecto é o mesmo: têm os mesmos olhos, os mesmos traços, as mesmas pernas e o mesmo corpo e muitas vezes nem reparamos que lhes tenha ocorrido algo diferente, já que a mudança é interior, é uma TRANSFORMAÇÃO DE CONSCIÊNCIA.

A transformação ocorre sem que a pessoa seja transportada para algum tipo de mundo etérico ou transformada em corpo etérico, mas por meio de uma mudança de consciência que leva à reflexão: eu sou um ser, e, uma vez que Deus é o princípio criador de meu ser, tudo o que Deus é, EU SOU — tudo o que o Pai tem, é meu.

Joel Goldsmith em, O Trovejar do Silêncio

Que diremos a respeito da Graça?

Que diremos a respeito da Graça? Foi chamada de presente de Deus, mas Deus só tem um presente: Ele doa a si mesmo para nós. Não podemos saber com a sabedoria humana o que seja a Graça e, por mais que tentemos encaixá-la na linguagem humana e suas significações, nunca seremos capazes de entender a genuína graça espiritual de Deus. 

A Graça Divina se desdobra por caminhos que desconhecemos, em direções impensáveis, de formas desconhecidas ou, mesmo que saibamos algo sobre ela, nunca sonhamos que venha a fazer parte da nossa existência de vida. Em qualquer caso, a Graça é uma revelação individual. Não acontecerá para alguém sob aspecto de rosas se esse alguém não gostar de rosas, e nem como uma passagem para uma volta ao mundo se a pessoa se achar mais satisfeita com um pequeno chalé na praia ou na montanha. A Graça de Deus flui como atividade espiritual, mas ela governa os nossos negócios humanos por caminhos que não nos é possível esboçar ou desenhar. 

Ao ponderar sobre a Graça, cresce dentro de nós um senso de independência das preocupações e das coisas deste mundo. Começamos a sentir que se não houver uma pessoa sequer na vida que possa nos trazer qualquer coisa, apesar disso, pela manhã todas as necessidades terão sido satisfeitas, o que acontece pela Graça de Deus. 

Se mantivermos a consciência em Deus, perceberemos que nada há a não ser Deus mesmo, se manifestando como flores ou como alimento sobre nossa mesa, ou como roupa sobre nosso corpo; Deus parecendo como relação harmoniosa, como perfeito funcionamento de nosso corpo e de nossa mente. Lutar e batalhar não nos proporcionará isso tudo. Tudo o que temos a fazer para que isso ocorra em nossa vida é pendurar a espada, ficar quieto e aguardar a manifestação da Graça.

Não há na vida terrena objetivo mais alto que a comunicação com essa PRESENÇA, que nunca nos deixa ou desampara. Ela não nos traz o alimento, a roupa ou o abrigo. Ela é o alimento, a roupa, o abrigo. Ela não nos conduz à fortaleza ou à torre mais alta; ela é, literalmente, a fortaleza e a alta torre. Não nos traz nada; não há doação de coisa alguma, a não ser a doação de si mesma. 

Obtida a descoberta da onipresença de Deus, é obtida a libertação do aborrecimento, do medo, da perda e da limitação. Se aparecer uma necessidade, nos recolhemos ao tabernáculo interior com a PRESENÇA e, no momento certo, Ele aparece externamente sob a forma exata do que é necessário para nós. No estágio de consciência no qual somos capazes de abandonar a força e o poder humanos, assim como as opiniões e julgamentos, se manifesta a Graça divina, invisível, embora perfeitamente tangível para quem a vivencia. Não podemos ver esse Espírito transcendental, nem ouvi-lo, saboreá-lo, tocá-lo ou cheirá-lo, embora esteja aqui e agora — nós o sentimos e temos certeza dele. 

Quando abrimos mão dos direitos humanos, vontades e desejos — mesmo os desejos bons — e nos abandonamos completamente à vontade de Deus, esse Espírito nos invade como se encontrasse um vácuo, e, quando isso ocorre, podemos sentir-lhe os movimentos a nos percorrer o corpo, desde os músculos e as veias até as unhas. Somos um com o ritmo do Universo, e tudo está bem.  Tudo que o Pai tem, flui agora, por nosso intermédio, para este mundo como Graça Divina, trazendo-nos tudo o que é nosso, e levando a nós mesmos para todos aqueles a quem pertencemos. Assim aprendemos a não nos preocupar com as coisas do mundo; não precisamos lutar, nem agressiva nem defensivamente. Podemos PERMANECER QUIETOS, SEM PENSAMENTOS, SÓ RECEPTIVOS, deixando Deus fluir através de nós e PERMEAR o nosso ser. 

Então completaremos nosso trabalho, embora deva aqui lembrar que o Espírito nunca trabalha para nós. Trabalha EM NÓS e por nosso intermédio, na medida em que nos ENTREGAMOS E RENDEMOS — mesmo os nossos pensamentos —, de modo que Deus possa se manifestar. 
  
Aqueles que atingiram, mesmo em pequena escala, a cristicidade ou realização espiritual estão no mundo, sem ser do mundo. Pouco sabem de pecado, doença, tortura, perda ou limitações da vida humana, e tais tragédias pessoais não os tocam. Eles estão conscientes de que tais coisas existem e, por causa do seu contato com Deus, podem ajudar os outros — podem alimentar multidões, saná-las e reconfortá-las, mas eles mesmos não necessitam de suprimentos ou conforto, ou qualquer dessas coisas que a raça humana considera tão necessárias. Eles entregaram o poder e os desejos pessoais, e aceitaram o amor de Deus, a Graça de Deus e sua direção como fatos únicos de sua vida. 

Nirmala - A Sabedoria do Coração com Grace Bubeck

Não há por que temer os pensamentos

No momento em que nos elevamos acima do reino mental da vida, percebemos que não há tal coisa como o tempo. Qualquer pessoa que tenha feito contato com Deus terá descoberto que não havia consciência temporal durante tal experiência, e, embora o contato possa ter demorado apenas meio minuto, nesse curto lapso de tempo ocorreu o bastante para convencê-lo de que se haviam passado algumas horas. Outras vezes, feito o contato, parece ter demorado só um minuto, mas, ao olharmos o relógio, percebemos que se passaram duas ou três horas. 

Em outras palavras, não há percepção de tempo e de espaço na consciência da Onipresença. Estamos em um estado mental de consciência quando pensamos e raciocinamos, ou quando observamos coisas e pessoas. Só no reino espiritual é que transcendemos a mente. 

Algumas pessoas acham um modo de transcender a mente por um processo que tem sido descrito como "o silenciar da mente"; acharam que tais esforços têm dado, frequentemente, resultados, se não em atingir a consciência espiritual, ao menos em deixar o efeito oposto, o embotamento da consciência. 

Há um modo, contudo, de subirmos além do nível mental da vida, embora não sejamos capazes de ficar permanentemente nesse estado, que requer anos e anos de dedicação exclusiva; podemos porém nos elevar acima da mente a tal ponto que, mesmo se estivermos no mundo, ela não nos perturbará por muito tempo. 

Podemos começar por não tentar parar o nosso processo de pensamento. Se a mente quer pensar, nós a deixamos ir, e, se for o caso, sentamos e a observamos em seu processo de pensar. Embora os pensamentos venham, eles não podem nos fazer dano. Eles não têm poder, e nada há neles que devamos temer. Se os temermos ou os odiarmos, tentaremos fazer com que parem e, se por outro lado os amarmos, tentaremos segurá-los. Não nos deixemos pois odiar ou temer qualquer pensamento que se apresente à nossa mente, mas não nos permitamos também amá-los ou tentar segurá-los, por mais que nos pareçam bons. Deixemos os pensamentos vir e ir embora, enquanto sentamos e os observamos como expectadores. Tudo o que estamos olhando são sombras que deslizam rapidamente sobre a tela: não há nelas poder nem qualquer substância — não há nelas nenhuma lei ou causa —; são apenas sombras. 

Algumas podem ser muito agradáveis, e nós poderemos querer agarrá-las. Outras poderão nos perturbar ou constranger, mas são apenas pensamentos, pensamentos e nada mais. Podem testificar a doença; podem testificar o pecado ou o acidente, mas, por mais constrangedores que sejam, nós nos quedamos imóveis e os observamos vir e ir embora. "Não há bem nem mal naquilo que estou observando: essas coisas são só figuras; e, mesmo que pareçam ser boas, não são boas porque são apenas figuras". 

Se tentarmos esse pequeno experimento em nossos momentos de meditação, logo perceberemos que estivemos a sofrer por causa dessas imagens e pensamentos que nos submergiram, e ficamos tão aflitos que tentamos fugir deles ou apagá-los; todavia, quando somos capazes de vê-los em sua perspectiva correta, eles são inofensivas nulidades, apenas sombras. Na verdade, por vezes representam teorias ou regras feitas pelo homem, com relativas punições associadas, também produto humano. Quem porém lhes outorgou autoridade? Senão vejamos: este aqui testifica a infecção e o contágio e este outro os falsos apetites. O próximo é uma profecia de desastre, o outro é o medo da carência, e este outro é o medo do medo. Mas a verdade é que aí só há nomes — terríveis nomes, é verdade, pela sua conotação trágica, mas só nomes. Nomes que o homem deu para algo que não compreendia — apenas imagens no pensamento. 

Deixemos de nos amedrontar com nomes. Mesmo que seja uma imagem na máquina de raio X, por que deveríamos temê-la? Continua sendo só uma imagem, uma representação de imagem mental. Quando não mais a temos na mente, não é mais possível sua representação. Nós só podemos fazer figuras daquilo que temos na mente. Se podemos vê-lo, ouvi-lo, tocá-lo, saboreá-lo ou cheirá-lo, será uma atividade da mente, uma imagem mental, o "braço da carne", uma nulidade. É uma falsa criação que Deus nunca fez. 

Sempre que estivermos a pensar nisso, estaremos ainda no reino mental, o reino do conhecimento da verdade; contudo, se continuarmos o nosso exercício, observando honestamente a imagem, começaremos a perceber que se trata de algo sem substância ou causa.[...]

As pessoas, às vezes, seguindo tais práticas parecem vislumbrar imagens bonitas, ou visões, e cometem então o primeiro engano, tentar segurá-las. O segundo engano é querer trazê-las de volta em algum momento futuro. Isso é uma verdadeira insensatez. Nunca devemos fazer isso e nem mesmo segurar uma imagem bonita, pois é só uma imagem. Se é de Deus, o próprio Deus pode nos dar muito mais do que precisamos, e, se for uma imagem desagradável, devemos aprender a não temê-la, uma vez que não tem existência como realidade eternizada, mas apenas uma imagem mental. 

Chegaremos talvez ao ponto em que não haja mais o que dizer ou pensar. E assim teremos uma última palavra sobre isso: "Independentemente do que pareça ou afirme ser, não há em você (imagem) propriedades intrínsecas de bem e de mal. Todas as propriedades estão na consciência que fez este universo à sua imagem e semelhança, e nem o bem nem o mal existem como forma ou efeito. Qualquer que seja seu nome ou natureza, se você existe no tempo ou no espaço, você é uma imagem mental, uma nulidade. Eu não tenho que temer você, pois não tem existência no meu ser e nem no de ninguém. Só tem existência na mente, e como existência mental não tem forma e é vazio. Não há em você mais bem ou mais mal do que numa sombra que se move na tela da lanterna mágica — você é só uma sombra sem substância". 

Quando atingimos a completa quietude e a paz, a mente já não funciona, nós a transcendemos ao subirmos à atmosfera do espírito, dentro da qual estamos receptivos e sintonizados com qualquer coisa que Deus conceda. Tão logo nos tornemos desapegados, isto é, desprendidos do pensamento da fome, do medo, do amor por pessoas ou objetos, de modo que podem flutuar diante de nossos olhos nos deixando completamente indiferentes, não mais estaremos no reino da mente. Somos atingidos, tocados, e tocamos a nossa própria alma, que é Deus — estamos na atmosfera na qual, quando Deus fala, nós podemos ouvi-Lo. 

Quando Deus faz soar sua voz, o coração derrete e todos os problemas se dissolvem. 

Joel Goldsmith em, O Trovejar do Silêncio

O portal da nossa Essência Interior

Todos os métodos e técnicas, — e naturalmente, os seres humanos que as propõem não são senão meios para ajudar o estudante a alcançar um estado em que não tem mais necessidade de instrutor, de técnica ou método. Que não se deixe amarrar pela ideia de que lhe são necessários. Não confunda as atitudes para com a vida e a própria vida. Que não transforme a via em finalidade, nem os meios em fim. As técnicas foram imaginadas para abrir uma porta na direção da essência interior, mas os indivíduos desprovidos de discernimento se agarram obstinadamente a esta porta e a impedem que se abra. O estudante advertido conservará uma atitude ligeira, desembaraçado de tudo que é dogma. Que não procure, por exemplo, forjar-se cadeias para sua forma de meditação favorita. Que não procure adorar uma técnica ou doutrina em si mesmas. O que deve adorar é a iluminação, a compreensão, a nova consciência que desperta nele, sem o que só dará nós e mais nós psicológicos, que terá que desatar ulteriormente.  Que não se deixe imobilizar por uma forma metafísica particular. Essa fórmula deverá servi-lo e não escraviza-lo. É preciso que se eleve não somente acima de veneração das coisas, mas acima da veneração das ideias, e finalmente, acima da pesquisa da salvação. O lampejo da penetração pode brilhar no céu, no momento mais inesperado, talvez inexplicável e a esse lampejo não deve opor resistência, nem ancorar-se egoisticamente em alguma prática de preferência ou aprisionar-se à tutela de um instrutor.

As pessoas que se prendem com exclusividade a um certo aspecto da vida tendem a tornar-se maníacas. Isto não cabe àqueles que seguem as vias da filosofia visto que esta trata da vida em seu conjunto e insiste em ver e examinar seus aspectos mais contraditórios. A tarefa que seguimos consiste mais em sentir nossa unidade com este princípio sem forma e sem limite da vida, em compreender sua liberdade inata em oposição às limitações de suas expressões formais, sem se deixar apanhar nas laçadas que que elas lançam em tornos de nós. Não chegamos a esta liberdade senão cessando de nos enroscar não somente a nossos bens mas também a nossas concepções e a nossas crenças.

Aqueles que não se sentem atraídos pelos exercícios de meditação e pelo estudo da metafísica, podem, sem dúvida, procurar ou encontrar consolação ou ajuda de outra maneira. Podem praticar um exercício mais simples que substitui todos os outros ou que os acompanha. É tão simples que merece apenas o título de exercício e que, uma vez tornado hábito, é extremamente fácil e não demanda esforços. Do mesmo modo que uma mãe não perde um momento de pensar no filho largado à sua sorte no meio da guerra, quaisquer que sejam ocupações de momento, o estudante não deverá esquecer do divino. Treinar-se-á em conservar seu pensamento no Eu Superior como uma espécie de quadro a todos os outros pensamentos. O exercício é, pois, baseado na significação profunda da lembrança, e utiliza-a para um fim supraterrestre. Consiste em lembrar-se constantemente de sua identidade íntima com o Eu Superior e lembrar-se em todo o lugar, a todo o instante, em todas as condições físicas da presença da grande Mente. Se obtiver o sentimento ou a intuição, embora fugitiva, de uma existência supra-sensorial que vem impressioná-lo profundamente e incitá-lo a empreender a pesquisa, é extremamente importante inserir a lembrança dessa experiência em seu exercício. Em outras palavras, deve procurar reconduzir a sua mente, com a mais forte tensão possível, o sentimento de exaltação que sente.

O fim fundamental é conservar o exercício em permanência e tão frequente quanto possível no plano de fundo da mente, enquanto o estudante se entrega a seus deveres cotidianos e reconduzir a atenção cada vez com mais energia quando se acha afastada dele por momentos. Ele deve tornar-se o centro de gravidade impessoal da personalidade, o “pivot” inalterado, em torno do qual oscila perpetuamente a atividade exterior. Assim, o primeiro plano da consciência trata atentamente dos negócios da vida ordinária, enquanto que o plano de fundo se conserva numa espécie de vazio sagrado onde não pode penetrar nenhum outro pensamento que não seja o Eu Superior. Esta concentração interior para o fundo, e a despeito das atitudes externas, deve tornar-se habitual. Que benefício tirará o estudante daí? O exercício tão diferente dos outros possui um poder particular. Esse pensamento permanentemente dirigido ao Eu Superior uma vez estabelecido com firmeza, é especialmente apto a fazer descer a Graça. Não se trata, com efeito, do poder do ego mas do poder universal. Quando a Graça se faz sentir, ela destrói um certo número de obstáculos interiores e exteriores, às vezes de um modo milagroso, e conduz o paciente a uma consciência de si próprio mais profunda. É preciso que não julguemos da eficácia deste método pela aparente simplicidade.

Se nos recusamos ainda, por ventura, a seguir esta prática, sem falar dos estudos metafísicos ou da meditação mística, podemos recorrer a outro exercício aparentado que exige ainda menos. O paciente, suponhamos, posto bruscamente diante de uma desgraça inesperada ou em circunstâncias penosas, diante de problemas, muito grandes, mesmo em perigo extremo da vida, deve tomar evidentemente todas as disposições necessárias no plano exterior e, entretanto, abandonar sua atitude egocêntrica habitual, e encarregar, enfim, uma potência superior de desafazer, a situação angustiosa. Nascerá dessas medidas, paradoxalmente, um sentido de desprendimento interior durante a ação empreendia para emplantar as circunstâncias. Para ter êxito, é preciso que tenha naturalmente uma fé profunda na existência dessa potência supranatural e também a segurança confiante no resultado da intervenção. O paciente deve cessar de inquietar-se e não encarar com temor as circunstâncias e seu possível desenvolvimento, e até de algum modo, esquecê-los. Se permitir que as inquietações continuem a atormentá-lo, podem interromper a lembrança interior e embaraçar a eficácia da técnica ou da atitude. Além disso, não alcançaria esse resultado plenamente a não ser mantendo-se um tempo assaz longo sob concentração suficiente. Em outras palavras, enquanto faz os esforços pessoais que a situação reclama, o paciente deve dirigir firmemente uma parte de sua consciência para o interior, aí levando o problema hostil (sem negá-lo) e permitir que os pensamentos que constituem esse problema se dissolvam na lembrança do Eu Superior, Impessoal e sempre calmo. O paciente deve procurar conceber este poder como supremo, sem forma e residente num Vazio, sem imagens.

Refugiando-se assim, de um ponto de vista pessoal estreito em outro mais vasto e impessoal, chega-se não somente a dominar a reação emotiva diante do acontecimento, mas, também, talvez, a ajudar a introduzir o elemento superior da Graça e assim ficar senhor da situação externa. Obtém-se deste ato de desprendimento não somente a força para fazer face a esta situação, sem perder seu próprio controle, mas também um apoio super-humano. Sabemos, pelo estudo da experiência mística, que esta Graça pode não somente tomar uma forma imaginativa ou intelectual, mas ainda manifestar-se de outros modos. Pode trazer o homem em perigo um socorro de tal ordem que todo o temor desapareça nele. A guerra, que semeia o pânico em certas criaturas desperta em outros o heroísmo. Milhares de pessoas, soldados e civis, têm disso a experiência através dos terríveis anos que vivemos. Por quê? Porque eles abriram a porta, inconscientemente, há muito aferrolhada, do Eu Superior, e obtiveram a Graça. Diante dos tremendo meios de destruição que as rodeavam, elas compreenderam de repente que estavam à mercê de uma ligeira mudança da roda do Destino ou da vontade de Deus. É assim, portanto, que as entregaram resignados e deliberadamente ao inevitável, à sorte, ao destino ou à Deus, que são três modos de exprimir a mesma coisa. Por este ato de fé suprema, elas evocaram sem o saber o princípio mais profundo de seu ser e puxaram o possante ferrolho que fechava a porta sagrada do Eu Superior. Debaixo dos assobios dos obuses e das bombas, sentiram, se se aperceberem, que, qualquer que fosse a conclusão de sua experiência exterior, quer fossem mortos quer sobrevivessem, tudo seria um bem para elas. Elas se sentiram inexplicavelmente suspensas acima de suas angústias e dos terrores dos acontecimentos trágicos em que se encontravam mergulhadas. Esses momentos deixam traços profundos na alma; não podem mais ser esquecidos. A lição silenciosa que trazem afeta cedo ou tarde as concepções espirituais daqueles que as viveram.

Isto é tua servidão: pratica a meditação”, assim disse o sábio hindu Ashtavakra, que viveu há alguns milênios. Esta citação por nós feita no segundo capítulo do “A Sabedoria oculta além da Ioga”, na maior parte desse capítulo, chocou os sentimentos e alarmou as antecipações de numerosos leitores. Tiveram receio de ensinar que a meditação devia ceder lugar à metafísica. Pode-se ver agora quanto esta emoção era inútil. Seria preciso ter paciência e esperar o conjunto do ensino. Tilopa, sábio tibetano, do século IX, disse do mesmo modo: “Não medite. Mantenha sua mente em estado natural”. Um conselho negativo que não constitui uma revolta; antes é um progresso natural. É dado, não aos neófitos, aos quais poderiam prejudicar, mas aos estudantes mais adiantados, aos quais seria mais proveitoso. É simplesmente uma tentativa para por a meditação no lugar que lhe compete entre todos os outros elementos que compõem a trama complicada da vida; é para lembrar a seus adeptos entusiastas que a pesquisa não termina com ela somente; para lhe lembrar que o que procuram se acha, a partir de agora, no mais profundo de si mesmos.

A percepção interior, com efeito, aparece de repente no homem, mas não é feita por ele. A meditação não tem por fim fabricá-la mas criar as condições nas quais pode surgir. Tomando os meios pelo fim e aí ficando em posição, não a poderemos alcançar. O homem não está na terra por causa da ioga; esta, sim, é que está ali por causa dele. Está aqui para viver.

Sim, a ação constitui uma parte essencial desta pesquisa do Eu Superior. A Natureza não deixará ninguém entrar no seu sacratíssimo santuário sem haver satisfeito a sua tríplice exigência, embora ela esteja disposta a permitir que lance, de tempo em tempo, um olhar de encorajamento sobre seus tesouros, e constate seu valor. Esta exigência é simplesmente para que siga as três linhas de evolução paralelas, pelas quais ela guia tão pacientemente toda a humanidade: atividade, inteligência e contemplação. Se se consente nesta tríplice exigência, deixamos de ser místicos ou metafísicos para tornar-nos filósofos. O homem, sendo um ser tríplice — uma trindade, compreendendo o pensamento, o sentimento e a ação, é inevitável que a pesquisa reclame dele um esforço correspondente à sua natureza. As três direções que deve seguir em harmonia com as divisões de seu próprio caráter são: a metafísica, como exercício do pensamento raciocinante; o misticismo, como exercício do sentimento intuitivo; a atividade altruísta, como exercício da ação corporal. O conhecimento, a meditação e o trabalho desinteressado constituem a trindade santa que pode conduzir o homem à iluminação. Essas três concepções do empreendimento humano — intelectual, mística e prática — não devem entrar em conflito, mas entreajudar-se harmonicamente, agir em conjunto ao mesmo tempo para alcançar o mesmo fim. Devem fundir-se na concórdia, abraçando-se para encontrar a unidade integral da vida filosófica. A sabedoria é, pois, engendrada pelo conjunto da experiência vivida e não por uma das partes. Essas qualidades  não se misturam simplesmente, mas amalgamam-se para produzir uma nova, mais positiva a penetração, que possui uma significação e uma natureza especiais. Se o estudante começa a sua pesquisa de salvação no amor místico e profundo do Eu Superior só, será levado a lhe acrescentar finalmente uma inteligência aguda, e se começa com a inteligência somente, será levado a lhe acrescentar o amor. Se empreende sua pesquisa seguindo a via tríplice e integral, avançará de uma maneira igual e equilibrada; mas seguindo apenas uma, a Natureza o obrigará, ao fim, a fazer uma reviravolta por um brusco retorno de sua vida interior e exterior. Eis porque não se escapa finalmente à integração harmoniosa das três vias. A busca deve efetuar-se também na via prática da vida corrente. Mas este ativismo não deve ser cego. “Eu sou todo ação. A imobilidade é para mim é uma tortura da danação”, dizia Mussolini. Ele esquecia que a ação não é útil se não aliada à sabedoria. Este esquecimento lhe fez prometer grandeza ao povo e o conduziu à pior das catástrofes.

No caso de um aspirante filósofo, a ação prudente consiste em lutar energicamente para o triunfo do Bem. Deve procurar este triunfo, não somente em seu caráter e em sua vida exterior, mas também no caráter e na vida dos outros. Esta dupla finalidade mão pode ser alcançada envolvendo-se ocasionalmente em quimeras fabulosas ou preocupando-se somente com o seu próprio progresso; ela implica necessariamente uma atividade altruísta. Em vez de deixar a contemplação morrer por si mesma, deve fazê-la fecundar seus atos. Resulta daí que a pesquisa é intensamente prática e deve inspirar constantemente a vida quotidiana. Deve acabar por uma ação inspirada. A natureza da verdade filosófica é tal que, uma vez bem compreendida, se exprime por força como uma contribuição daquele que estuda para sua experiência exterior.

[...] Quando o homem adquire consciência de suas possibilidades criadoras; quando sabe que, identificando-se com o que há de melhor em seu pensamento e em seu sentimento, faz manifestar-se, por uma reação natural, o que há de melhor em suas cercanias terrenas;   quando descobre cedo ou tarde que as ideias que alimenta ordinariamente e as imagens que ele forma quase sempre afetam seu caráter e as circunstâncias, torna-se mais atento à sua vida mental. Do mesmo modo que o arsênico pode matar um homem aparentemente cheio de saúde e curar um doente, a concentração sadia e bom uso do poder mental do homem, enquanto que abusado dele, degrada-se. Este poder lhe pertence naturalmente e não pode separar-se dele. O homem ajudará seu aperfeiçoamento e a melhorar o seu destino afeiçoando-se em todas as circunstâncias e compreender que tudo o que vê ele o faz sob a forma de pensamento em seu cérebro; a pessoa que vê é também criada pelo pensamento e a realidade; enfim, por trás de tudo, nada mais é que o Pensamento Puro.[...] Não esqueçamos que as restrições morais pesam sobre o emprego destes métodos; nunca procuremos constranger o livre arbítrio das outras pessoas contra seus interesses particulares. Os motivos devem ser puros, se não o boomerangue do castigo kármico recai naquele que o desencadeou.  

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior  

Sobre o êxtase místico

O estado superior da meditação correta não é um estado mórbido nem perigoso, tal como geralmente se pensa de um transe; é antes um estado de especial exaltação e de felicidade emocional. É o fruto da disciplina mental não da aberração mental. O leitor ocidental mediano está sujeito a formar uma falsa ideia do sentido que aqui damos a este vocábulo. É mais provável que capte o significado correto se utilizarmos em troca o termo “rever”, mas aqui existe a implicação de que os processo de raciocínio estão ainda trabalhando ativamente, se bem que de maneira vagamente sonhadora.

“Samadhi”, a palavra sânscrita, também tem sido traduzida pelos orientalistas como “êxtase”. Mas este termo também pode provocar más interpretações, quando recorramos que sua etapa posterior está totalmente desprovida de pensamentos. Por conseguinte, o melhor será utilizar aqui a expressão “auto-absorção” ao invés de empregar o termo “transe”. Referimo-nos a um estado de rapto ou absorção dos pensamentos, na essência de si mesmo, e uma profunda emersão dos sentimentos, numa indescritível felicidade. Se é empregada falando das experiências iogues, a palavra “transe” deveria ser reservada para aqueles estados catalépticos em que culminam os esforços dos praticantes, nas etapas finais da ioga do controle físico, que aqui não nos interessam, porque este método nunca pode orientar diretamente a realização do Eu Superior, que é o escopo dos nossos escritos.

O estado inconsciente alcançado por esse sistema não é considerado como algo desejável e necessário, no método que aqui desenvolvemos. Em realidade, seria inútil. Os transes dos hatha-yogues, dos faquires que permitem que os enterrem vivos durante horas ou dias, deixam o homem inconsciente, como quando a ideia do “Eu” retrocede até a sua fonte dentro do coração. Quando retornam, não obtêm maior benefício espiritual que o que obtêm do dormir comum, enquanto que na auto-absorção superior da meditação mística, o ego se submerge no coração, porém em plena consciência. Portanto, ninguém deve apartar-se da prática da meditação, pensando que está mais além do alcance comum dos seres humanos, e que só uns poucos a podem realizar, e que será necessário que caiam em transe, no sentido de perder totalmente a consciência. Pelo contrário, a prática mesma não só está dentro da capacidade de todos, senão que, ademais, pretende proporcionar um estado de consciência mais plena, uma condição psicológica de uma captação consciente mais extensa.

O primeiro problema da auto-absorção é o seu caráter efêmero. Em todas as suas etapas, seja na recordação, ou na última fase de absorção total, quando o mundo se sente remoto e surge o Eu, sempre está caracterizada a transitoriedade. O místico há de subir todas as colinas de uma divina existência durante esta experiência, mas sempre terá que voltar a descer delas. Sua incursão produz magníficos vislumbres de um hábito superior e de suprema luminosidade, mas isto não é permanente. Não pode invernar para sempre na auto-absorção, ainda que o deseje. Ou, como disse o místico chinês Lao Tsé: “Ninguém pode permanecer para sempre parado sobre as pontas dos pés”. Não é possível manter o tempo todo a consciência submersa na contemplação; ela só pode ingressar a intervalos nesta condição. A imobilização interior não é duradoura, e seus transes são transitórios: esta é a queixa constante dos místicos que não se tem dado ao trabalho de analisar as suas próprias experiências.

Muitos místicos ocidentais, como São Gregório e Santo Agostinho, e não poucos iogues orientais, como Vivekananda, têm-se lamentado do fato de não poderem manter-se como queriam, no que consideravam a etapa mais elevada do misticismo, a etapa da completa desaparição de todas as sensações e pensamentos, por mais de uns poucos minutos, ou umas poucas horas, já que sempre deviam regressar à condição prosaica da vida cotidiana. São Bernardo descreveu muito bem esse sentimento melancólico com as seguintes palavras: “Todos esses poderes e faculdades espirituais começaram a languidescer, como se o fogo fosse apagado pela água derramada de uma marmita fervente. Então minha alma necessariamente ficava sumida na tristeza e depressão, até que Ele quisesse retornar”.

A descontinuidade da experiência é algo que o místico não pode controlar nem impedir. Por conseguinte, vê-se enfrentando a dificuldade de ajustar essas experiências às necessidades da existência física, dificuldade que nunca supera realmente. A filosofia, compreendendo isto, insiste em que seu método particular de aproximação da realidade última tem alcançado um ponto em que se tem esgotado sua servidão a ele, e que, em consequência, a natureza enviou um sinal de advertência. Mas só a filosofia pode interpretar esse sinal.

Deve-se completar a experiência com o desenvolvimento de uma visão interior mais profunda. Assim, a mesma transitoriedade de tal experiência mística se converte em algo útil porque o místico se apercebe de que ela não pode ser a meta suprema, e ao mesmo tempo lhe indica que tem de avançar numa direção diferente. O ensino oculto afirma enfaticamente que o estado de auto-absorção não é o supremo objetivo da humanidade, por mais que os iogues comuns afirmem o contrário. É só quando está desperta que a pessoa foi totalmente projetada, e não está de nenhuma maneira projetada quando está sumida no sono profundo. Por conseguinte, unicamente no estado de total vigília, e não no estado de transe — que corresponde ao sonhar ou ao dormir —  podem reconhecer-se os propósitos superiores de suas limitações, e alcançar-se a mais ampla consciência da realidade. Assim, pois, ainda que possa ou não atravessar transes, em seu caminho de elevação, o aspirante, por certo, não tem que passar por tais transes quando alcança o cume. O quarto estado de consciência é algo que, em sua finalidade e plenitude, persiste em todo momento e não depende de transes fugazes para sua continuação.

O segundo problema que oprime a auto-absorção mística: a sua incapacidade para estabilizar a sua própria visão interior, excepcional mas fugitiva, a sua incapacidade para proporcionar uma sempre ativa consciência da realidade, é também solucionado tão-só pela filosofia. Para compreender isto, devemos primeiro entender que, além da repulsão e compulsão de uma perspectiva do mundo fortemente arraigada, o homem que medita deliberadamente, volta as costas ao seu ambiente exterior, e abandona e despreza a sua existência terrena, durante o avanço interior para o seu eu espiritual.   

Primeiro descobre ou capta a existência da intangível e invisível Mente, vazia de imagens, durante um rapto contemplativo, em que se absorve intensamente, esquecendo por completo o mundo exterior. Tão intensa é a sua concentração que temporariamente se desvanecem todas as sensações e pensamentos, todas as imagens mentais, e assim o homem se acha num grande vazio, onde nada existe, e onde ele está, em linguagem teológica, submerso no Espírito Puro. Mas a mente não pode descansar permanentemente nesse vazio, como não pode os pulmões interromper a respiração. Inexoravelmente regressam ao oceano da mente universal as ondas de pensamentos individual, interrompendo-se assim o estado de absorção em que o homem está sumido, e o mundo se precipita novamente em sua consciência. Só pode permanecer ali por uns breves instantes, pois um simbólico anjo com uma espada flamígera o arroja fora do místico jardim do Éden. Portanto, isto não pode constituir a sua meta final.

O iogue que atinge este ponto pode arduamente por reter e prolongar este estado de absorção, mas só poderá recobrá-lo novamente, repelindo o mundo e metendo-se outra vez dentro de si mesmo. Todavia, a Natureza com toda a sabedoria voltará a impeli-lo para a vida toda vez que ela tenta apartar-se dela. Equivocando os intentos da natureza, o iogue faz ainda maiores esforços, atribuindo sua incapacidade e causas equivocadas e negando-se a aprender que a natureza plasmou carne para experiência instrutiva, não para repelirmos totalmente. O mundo finito aparece insistentemente ali. O iogue poderá anulá-lo permanentemente. Contudo, consola-se crendo que, enquanto está encarnado, esta é a meta final que o homem pode alcançar, e que a perfeita libertação sobrevirá depois da morte.
A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filosófico. A paz do primeiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode determinar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspiração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grande equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo.

O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filósofo compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema, um texto de normas para os aspirantes, reunidos há oitocentos anos, no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: “A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meta verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente Infinita”. A chave desta situação extremamente sutil é, portanto, dupla. Primeiro, a posse ou ausência de conhecimento metafísico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente relacionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente do outro.

O momento em que se passa da vigília para o sono sem sonho é, agora sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar se submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental nesse momento é realmente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas reações pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafísica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma habitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lugar familiar que deixou, negando-se a olhar para a frente.

Assim como este homem só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma consciência parcial da índole da Mente Pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e as suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-las em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar as suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada conjuntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conhecimento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está presente em ambos os casos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no segundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o primeiro apenas alcançou a sua superfície, enquanto que o outro penetrou em sua imutável profundidade. 

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Quem não tem apego que levante a mão

Por que se perdem os “Vislumbres do Incondicionado”?


Por que é que muitos místicos experimentam êxtase no curso de suas manifestações? A resposta é que, quando a graça nos toca nas primeiras etapas, suas emoções se exaltam como consequência natural, e assim repentinamente se vêm transportados a um apaixonado transe de êxtase. Isto é a consequência do impacto de um poder superior, um impacto que por não estarem os noviços acostumados a ele, quebra transitoriamente o seu equilíbrio. Geralmente o êxtase sobrevem, no começo ou no final de uma meditação individual, segundo o tipo de método adotado. No primeiro caso, o êxtase descerá à medida que transcorre a meditação e produzirá a beatifica serenidade de um plano superior. No segundo caso, o êxtase se deve à exaltação da emoção pessoal, enquanto quer a serenidade se deve à experiência de um nível impessoal.

As visões arrebatadoras e os êxtases emocionais geralmente se produzem numa etapa inicial da carreira do futuro místico, porque vêm animá-lo a continuar com uma aspiração ou prática que infelizmente o mundo em geral não aceita. São fenômenos satisfatórios que podem ou não caracterizar as etapas preliminares da ioga mística, e que geralmente desaparecem quando se alcança uma etapa de evolução maior.

Quando o homem se intoxica completamente com os arroubos que surgem da meditação, caiu numa situação extrema tão perigosa para o equilíbrio mental e para a realização interior, como quando se intoxica com a metafísica.

Os êxtases místicos devem ser fugazes por própria natureza. É totalmente impossível a um ser humano gozá-los permanentemente. É melhor alcançar um estado de equilíbrio constante do que um estado alterado de êxtase exaltador e de pressão nostálgica posterior. O gozo do êxtase implica uma atividade emocional, e toda atividade implica transitoriedade, mudança; de modo que não existe nesse estado repouso final. Que isto é assim resultado evidente através da história do misticismo oriental e ocidental, que conta com numerosas referências acerca da melancólica descida, desde uma etapa muito avançada, ao que se chama “a noite escura da alma”, quando todos os êxtases desaparecem por completo e são substituídos por estados de ânimo sombreados por uma melancólica secura espiritual. A maioria dos místicos nos fala desta queda, de alturas arrebatadoras de grande doçura emocional aos secos vales das recordações enfeitiçadas. Mas isto é simplesmente o esforço da Natureza para produzir o ajuste necessário, afim de estabelecer o equilíbrio num nível superior. E depois da trágica experiência da noite escura da alma, sobreviverá, se o místico o permite, a realização evolutiva e a compreensão de que o êxtase místico só não é mais uma meta suficiente para ele, e que é incomensuravelmente melhor uma serena segurança da presença sempre atual do Divino.

O místico está fundamentalmente preocupado com seus sentimentos pessoais para com Deus. O filósofo se preocupa principalmente de Deus. Mas há uma tremenda diferença. A devoção guiada pelo conhecimento pode lograr o que o simples conhecimento jamais há de lograr. Este é um segredo que nem o místico iletrado nem o metafisico que careça de iluminação espiritual, podem compreender. Esta é a razão por que, quando o místico alcança o seu mais profundo ponto na meditação, não deveria deixar-se arrastar por seus sentimentos pessoais, ao extremo de esquecer a sua meta superior. Quer dizer que deve gozá-los serenamente, sem enredar-se nesses sentimentos.

Ao contrário, chegado a este ponto, deveria ter a presença de animo de voltar sua atenção para a própria Mente, orientando-a ainda mais profundamente para o seu interior, procurando compreendê-lo e buscando a sua própria realidade. Esta atitude crítica não significa que as emoções devam desaparecer, pois constituem uma das grandes forças impulsionadoras da vida ativa de todo homem, em qualquer etapa de sua evolução pessoal.

Mas enquanto, amiúde, estas emoções correm às cegas no homem que se encontra numa etapa inferior da evolução, em troca, são purificadas e controladas graças a uma cultura bem orientada numa etapa superior. A veneração é sempre mais importante para o aspirante do que a erudição. Por exemplo, ninguém tem de se envergonhar de chorar, inclusive apesar de seu treinamento metafísico, se chora em nome de coisas exaltadas, por compaixão pelos demais, ou ante a presença divina. Enquanto não alcançar esta meta final, sempre será um aspirante; e enquanto for um aspirante, deve estar preparado para chorar por Deus, para emocionar-se pela divindade, e para derramar lágrimas pela ausência de Deus ante a sua consciência; em suma, deve estar preparado para sentir. Em verdade, não se devem matar tais sentimentos, senão senti-los intensamente. Sem eles o homem jamais realizará a meta suprema, porque há de sentir-se Deus da maneira mais profunda possível, e não alimentar-se um frio conceito intelectual. Contudo, deverá utilizar um conceito de Deus para enfrentar seus sentimentos, e examiná-los e purifica-los, se é que quer achar o verdadeiro Deus. Sentimento e razão devem equilibrar-se mutuamente, porque desta interação surgirá uma atitude mais profunda para com Deus.

Por que tantos estudantes conseguem fugazes vislumbres do estado supra-sensorial e logo o perdem? Por que são tão esporádicos tais vislumbres, e aparecem tão raramente? Por que não pode o aspirante fixá-los? Por que, quando tenta retê-los, nota que só tem na mão a fria cinza morta de uma recordação? Por que não pode recuperar esses maravilhosos momentos que dele fogem, inclusive quando quase os tem apressado? A resposta é que, em parte, estes momentos são refrescantes perguntas de uma conquista que ainda está muito longe, e que são enviados pelo Eu Superior para alentar as esperanças, para atuar como incentivos no prosseguimento da busca e para mostrar aos neófitos como é a culminação de uma busca. Logo a Natureza os tira da meditação com o fim de que esses vislumbres se reajustem em dois outros aspectos, a ação inspirada e a reflexão metafísica, porque é só graças à fusão integral destes três aspectos que a percepção interior pode surgir e ser retida.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior         

Mooji - Uma Descoberta Atomica

Sobre os efeitos da ação da Graça


Quem recebe a graça do Eu Superior sai de seu torpor moral ou mental, e experimenta, ordinariamente, por certo tempo, e às vezes definitivamente, uma notável mudança de caráter. A cabeça é afetada mais que o coração, os pensamentos mais que os sentimentos, a vontade mais que os desejos. Porque, na verdade, o Eu Superior é a consciência mais alta de cada ser humano, é seu verdadeiro anjo da guarda, que do alto vela por ele. Intervém, às vezes, na vida pessoal, em caso de comportamento moral pernicioso para si e para os outros, dando aviso claro e nítido. Por alguns instantes eleva a pessoa a seu ponto de vista transcendental e a faz perceber a verdade oculta da situação, com uma luminosidade marcante. Um sentimento de exaltação estranho acompanha necessariamente a experiência que se torna bastante intensa e toma um caráter de devaneio profundo. Mas, isso desaparece depressa, infelizmente, e o homem recai quase sempre em seu antigo ponto de vista familiar, continuando a enganar-se por um raciocínio, sem compreender a paixão, a emoção, o interesse particular, as aparências; a falta de experiência pode permitir que se dissimule nele o verdadeiro estado das coisas. É preciso meditar longo tempo sobre elas e interessar-se fundamente por elas, por essas visitas raras do nosso Eu Divino, porque se não tivermos cuidado, o Eu Superior falará outra vez com voz mais firme — a do sofrimento Kármico. Temos sempre o direito de esperar do Eu Superior socorro para nossas dificuldades, até mesmo ajuda milagrosa, se estivermos no bom caminho que nos indica. Contrariamente, se não tomamos em consideração, veremos cedo a manhã cinzenta levantar-se em nossos dias, cobrindo a rósea cor dos nossos sonhos.

Se a resistência egoísta do homem é muito obstinada, se se preocupa demais com seus negócios ou com seus prazeres, e seu espírito não se desprende deles um momento sequer, durante sua vida desperta; se o falacioso prestígio de sua personalidade impede de ver a mensagem recebida de outro modo, o Eu Superior pode lançar-lhe o aviso durante o sono. Aqui, o homem receberá a comunicação, em seu espírito consciente, algumas vezes no curso de um sonho, simbólico ou não, mas muitas vezes ao sair imediatamente de um sono sem sonhos. É então muito importante examinar atentamente as ideias que num período de exaltação do espírito surgem de modo inesperado, e não deixar escapar sua significação.

O Eu Superior age, em silêncio e segurança, e modifica a vida do ser profundamente e sem teatralidade. Toma conta do homem sem anúncios berrantes; as outras conversões são apenas turbações emotivas. O divino age de maneira profunda. Por que não manifesta ele mais abertamente seu poder, não intervém com mais clareza na vida da consciência? É porque, sabendo-se imortal e conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode permitir-se esperar com maravilhosa paciência que cresça, amadureça e desapareça a força da pessoa. Isso explica porque não podemos obrigar que a graça desça sobre nós. Ela vem à sua hora não à nossa; bruscamente, sem a esperarmos. É dom que não se obtém, nem por manhas nem com lutas e artifícios. Mas, podemos nos preparar para sua vinda e tirar da espera o maior proveito, preparando-nos tão somente. A vinda da graça se ressente de modo reconhecível, mas somente depois que o homem foi humilhado e castigado, tornado modesto. Quando descobriu, pois, que os resultados obtidos na via oculta eram de valor duvidoso, se não perigoso, e constatou que tinha necessidade de socorro exterior, que não lhe chega senão é solicitado com efusão. Momento de saturação moral em que a intervenção celeste se manifesta abruptamente. A manifestação, pois, não nos chega sem o preparo prévio, sem a maturação dos esforços e sem, finalmente, a solicitação fervorosa. A base da atração entre aquele que pede e o que dá, deve ser a fé e o amor. Desde seu sonho inicial até seu êxito definitivo, o aspirante deve crer indefectivelmente que esse Eu Superior existe, alcança-lo constitui a meta oculta de sua encarnação.

Precisamos mudar de atitude e erguer os olhos com amor para o Eu Superior. Devemos nos prender a ele mais que a qualquer outra coisa. Este poder que dirige a vida universal pode igualmente dirigir a nossa vida se o deixamos que pense, sinta e aja através de nós; devemos dizer ungidos — “Que seja feita a tua vontade”. Em verdade a graça vem do céu como o orvalho, mas os homens não a recebem. Somente a humildade ante este Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam o acesso aos subterrâneos do rei, na pirâmide em que reside.


A graça sobrevém unicamente por uma operação do Eu Superior, mas o homem pode recebê-la através de seu desejo constante e a da oração, desviando frequentemente o olhar de sua mesquinha pessoa e pousando-o no Eu Superior. Todo grito sincero que lançamos, no curso de uma crise, no vazio aparente, é ouvido pelo Eu Superior sempre presente. Não esqueçamos de ser sinceros, isto é, que o anseio corresponda aos atos do homem, tanto quanto aos seus pensamentos; que seja uma aspiração permanente e não simplesmente um desejo momentâneo. Quem invoca a potência suprema não deve fazê-lo em vão, embora a resposta possa tomar uma forma inesperada que nem sempre é de seu gosto, e vã, às vezes, além de suas esperanças, agindo sempre em benefício verdadeiro e não somente na aparência. Perde-se, às vezes, muito tempo em reclamar favores imerecidos. A sabedoria prática e a sinceridade moral consistem em acolher no coração esta verdade: arrepende-te e serás remido.    

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Que é a graça?


Que é a graça? É uma descida do Eu Superior na zona da consciência. É a visita de uma potência tão inesperada e imprevisível, quanto feliz e fecunda. É mão invisível que se estende até nós para nos guiar no meio das trevas que titubeamos. É a voz do Eu Superior falando de repente através do silêncio cósmico que nos rodeia. É como um raio glorioso de esperança que rebrilha no instante em que tudo parece perdido.

Mais precisamente, é a energia mística, o princípio ativo emanado do Eu Superior, que pode dar resultados no campo do pensamento, do sentimento, mesmo da carne, em parte, e nas relações kármicas, de outra parte. É uma vontade cósmica e não um piedoso desejo ou pensamento amável, que pode produzir verdadeiros milagres, de acordo com suas leis desconhecidas. Sua potência é tal que pode conferir a capacidade de penetração até a realidade última, tão facilmente como o dar vida ao moribundo a dar a um outro, e de novo, o uso do membro paralisado.

Por existir em cada homem o Eu Superior, a graça existe em estado potencial. Quando nele desperta, dá-lhe imediatamente a consciência de mudança enorme no sentido em que opera; trata-se de mutação moral, física, sentimental ou material. Esta potência é tal que pode frequentemente destruir seu equilíbrio no domínio sentimental ou intelectual.

O Eu Superior não está muito longe, além do coração. Se se julga de outra maneira, é uma ilusão, da qual devemos libertar-nos para a busca metafísica ou a prática mística. A afirmação de que Deus reside no coração do homem não é somente de caráter poético, mas de caráter científico. E, portanto, o nascimento da graça é primeiro sentido no coração, não na cabeça, porque o coração é o mais íntimo habitat no corpo humano.

Ela se manifesta de dois modos: primeiramente, por um sentimento que faz considerar a vida exterior como insuficiente por si mesma, em segundo lugar, por um desejo ardente da realidade interior. O nascimento começa por uma chamada da atenção sobre o peito. A força interior age por uma força centrípeta que desvia a atenção do exterior e da ambiência física. Se o paciente obedece a essa solicitação e a concentra cada vez mais, no sentido interior, achará sua recompensa. Começa a sentir que existe nele alguma coisa oculta de que deve, conscientemente, tomar posse, sob pena de experimentar todas as dores da frustração e da privação. A noção do que pode ser essa “alguma coisa” não é nítida na sua mente, mas tem a intuição de que se trata de elemento sagrado da alma divina. O efeito final é, primeiramente, de caracterizar o “eu pessoal” no coração e em seguida, estando assim a via preparada, de conferir a capacidade de penetração na realidade última. O primeiro efeito, por etapas, pode-se estender por vários anos, enquanto que o segundo se produz sempre instantaneamente.

O homem pode compreender que a primeira atividade acontece nele por causa das agonias que lhe causam os anseios e aspirações nascidas espontaneamente em seu coração, como consequência. Essas agonias, são, às vezes, acompanhadas de lágrimas. Em consequência, a graça sobrevém como ponto culminante de uma luta emocional. Em certos casos, manifesta-se sob a forma de luz mística, que é apenas passageira e não se repete. Neste instante sublime em que um poder superior toma conta do ego e o atrai para si, o homem pode compreender que a graça lhe foi concedida. É preciso então que se submeta, sem resistências, ao condutor divino. Se a revelação tem a duração de um relâmpago, as suas consequências se fazem sentir durante semanas e meses e, às vezes, durante anos. Dispondo desta graça, o caminho que segue o aspirante, abre-se em perspectivas até então insuspeitadas.

É talvez no domínio moral que a ação da Graça se faz sentir a princípio com força de natureza revolucionária. Os psicanalistas e seus discípulos são inclinados a considerar o que chama de subconsciente do homem como um poço sem fundo, onde pululam unicamente desejos malsãos e ideias lúbricas. Eles necessitam aprender que encerra um fundo infinito de bondade, verdade e beleza tal, que os esmagaria com sua grandeza, pudessem eles ter reconhecimento apenas momentâneo. Muitos falaram dos tormentos causados ao homem por seus desejos sexuais afogados. Suspeitam dos tormentos causados ao homem pelo recalque inconsciente de seu desejo de vida superior, de realidade interior? Sabem eles, porventura, que existe um “subconsciente” muito mais profundo e mais vasto do que o que indicam e que espera por ser reconhecido?

Mesmo no coração do pecador mais endurecido subsiste um núcleo que permanece imaculado; a alma não cessa, silenciosamente, de mostrar a via do bem e da sabedoria. A graça é ao mesmo tanto, senão mais, para aqueles que um mundo farisaico despreza e que uma sociedade rígida demais rejeita. A seu toque místico, a lembrança dos pecados já passados se apaga, as angústias dos sofrimentos do presente se adoçam, o passado abominável se esgarça, os piores rancores se apaziguam e os tormentos causados pela decepção dos desejos se dissolvem no ar. O fraco recupera as forças, o aflito é consolado.

Todas as nossas melhores e mais nobres qualidades, nossas faculdades de pensar, de imaginar, de sentir mais elevadas, se ligam a esta corrente entre o homem e Deus, este intermediário que é capaz de partilhar ao mesmo tempo da vida tanto da pessoa como da Mente-Mundial, e assim ligar o efêmero com o eterno. Para o homem, ele constitui meta para a qual devem dirigir-se seus esforços intelectuais, um foco quotidiano, uma indicação constante para elevar-se acima de sua natureza animal. Ele o incita a praticar a virtude, a fazê-lo apreciar a verdadeira beleza. É um buraco na fechadura pelo qual o homem pode lançar um golpe de vista sobre a realidade. É o eu central que o homem tem que descobrir se quiser saber o que é e o que Deus é, verdadeiramente. É também o guia interior de que falam certos místicos.

Esta luz que não é vista, essa voz que não é ouvida, se acham escondidas por detrás de todas as aspirações humanas. Todas as coisas se esforçam inconscientemente para realizar sua divindade inerente, progredir no sentido do eu ideal, transformar em fato o que eles já são em seu princípio oculto e em sua probabilidade final. Por que sua existência garante que o homem se arrependerá um dia e se lançará suplicante aos seus pés? Porque agirá um dia como o filho pródigo. Escravo ou potentado, uma nostalgia divina invadirá seu coração. Esta analogia ou, à falta dela, os amargos insucessos da vida, o levarão a se virar para a última esperança que lhe resta, a melhor das esperanças. Cada ser finito é inconsciente e imperceptivelmente atraído para o ser finito que é o Eu Supremo, como a mosca para a luz. Não existe felicidade, paz verdadeira, satisfação duradoura enquanto esta meta não for alcançada. Ninguém experimentaria esta nostalgia lancinante para a vida beatífica se esta não existisse realmente. Aí se acha a garantia de que cada ego se voltará para a luz a fim de ser salvo, finalmente, e reconquistado.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

O seu Coração é Sol


Há algo que é tão real que não pode ser esquecido. Não pode sequer ser lembrado. Nós temos a ilusão de lembra e esquecê-lo. Nós aprendemos a ignorância e aplicamos a ignorância a isso.

Quando este corpo, que não era sequer este corpo, a minha mãe não deu à luz a este corpo. Se tivesse dado à luz este corpo, não poderia aqui estar. Ok? Ela deu à luz algo assim pequeno, ok?  Quando este corpo apareceu pela primeira vez, não tinha um nome nele. Não trazia gravado um Mooji, ou John, ou Harry nele. Deus não disse: “Eu Mando-lhes um Mooji, mando-lhes um George”. Não, ele veio sem nome. E depois foi oferecido um nome a este corpo, antes da Consciência estar suficientemente madura para manter a impressão de um nome. Era apenas um som, como outro som qualquer. Enquanto bebê, você não sabia que mãe é ou que pai é, ou que médico é, ou dia, ou noite. Você não sabia nada de nada. Mas um nome foi posto neste corpo — John! E a certa altura, algo agarrou o nome, John. Uma “associação” aceitou o nome John. E assim que aceitou o nome e começou a responder ao som... J-o-h-n... Então o nome apareceu: John. Assim que aceitou a marca, a impressão do nome, nunca mais o esqueceu.

Não interessa o que o John tem feito, o que o corpo tem feito; tocando um saxofone, escrevendo uma carta ou enviando um e-mail, ou subindo uma colina. Alguém chama John... Se tivessem dito George, nada. Harry... John... Hã? Você se lembrou que é John? Como, você não disse: “Deixe-me pensar... Ãh! Sou eu!” Não! É como John?... “Ãh, sim!” Lembrou-se? Nem houve tempo para refletir sequer no nome. Então, se o nome não necessita ser lembrado, você não vai sair hoje e, “Ok! Olho para o espelho, eu sou John! Ok, agora posso sair.” Você não faz isso. Pode sair correndo, atrasado para o emprego... Paul! John!... “Ãh!” Ok? Então não demora nada lembrar. Se não demora tempo nenhum para lembrar, o nome John, que não era original para você, então, quanto tempo ou esforço é preciso para você lembrar a coisa que lembra de John? Que é a Consciência. Sem ela, não existe John; nenhum George, nenhum Harry, nenhuma Susan, nada.    

Então, é sinônimo de que assim que a Consciência está disponível e a função da percepção circula, que você é essa Consciência. E agora, nós, Consciência, estamos à procura para encontrar a Consciência. Não é estranho?

Então, deve ter sido parte da nossa doutrinação, do nosso condicionamento, acreditar que você é John. Acreditar! Eu lhe chamo John, mas você não é John, ok? O seu nome verdadeiro é “Eu Sou”. Ok?

Porque todos os seres dizem, “Eu sou John”, “Eu sou Harry”, “Eu sou Susan”, “Eu sou Pablo”, “Eu sou...” Não! Mas o teu nome é “Eu Sou” e “Eu Sou” não é um John. Não é nenhum John, não é nada. “Eu Sou” é o nome da Consciência, é o que nós somos. Mas quando a Consciência, que é “Eu Sou”, acredita mais em “eu sou John”, então tem de fazer algum esforço para se lembrar que é “Eu Sou”. Será que estão me seguindo?

Então, toda esta farsa é uma concussão e isso é o que você chama o jogo. Nós aprendemos a ser pessoais. Fomos condicionados e nenhum ser humano é responsável por isso. Somos todos responsáveis coletivamente. Mas não há culpa. No mundo de verdade não existe culpa, existe apenas oportunidade, existe apenas verdade, porque não há nada a ganhar com a culpa.

Lembre-se de quem você é!... Então, naquilo que partilhamos, possam as sementes dessa compreensão germinar em vocês, brotar e dar frutos e sombra.   

Participante: Obrigada, obrigada!

Mooji: Muito bem!

Participante: Amo-lhe! Obrigada! Graças à você!... Resta pouco tempo. Este é o meu último Satsang. Tenho estado em Portugal nos últimos seis meses e não sei quando voltarei. Mas não é um final, sempre está presente.

Mooji: Sim!

Participante: A última vez que falei com você, há 3 ou 4 meses, arranjei imediatamente uma data de problemas na minha vida. (risos)... Mas como você disse hoje, sou grata por isso. Foi muito importante para mim.

Mooji: Na realidade, assim que um ser humano começa a reconhecer dinamicamente, realmente, sente o hálito do Infinito nele mesmo. Inicia-se uma batalha. Começa uma batalha com o velho, a mente, o velho regime que luta para manter você pequeno. Para lhe manter  preocupado com a caspa, e com a falha da internet, todas estas coisas, e comprar uma mala nova ou outra coisa qualquer, dando importância a este tipo de coisa. E outra força puxa-lhe para o seu Ser Infinito. E aí há uma luta. Se você não estivesse firme em seu Ser e não sentir esse puxão dinâmico para a Verdade, a sua vida pareceria que corria muito bem... Porque era tudo o que você conhecia e se movia dessa forma. Mas assim que algo espalha o hálito de algo Infinito, a pequenez aparece. E pode ser sentido como um distúrbio, “Oh! Tudo está começando a correr mal...” Mas algo dentro não pode correr mal. Pela primeira vez em sua vida, alguma coisa não pode correr mal. Um lugar em você não pode correr mal. Você compreende? Quando tudo aquilo que pode correr mal, começa a parecer que pode correr mal, Algo está a emergir e tem um poder imenso dentro de você.

Vir para este planeta, na forma humana, já é considerado em muitos lugares sábios, que isto já é esperançoso, ter uma forma humana. Porque nesta forma a Consciência pode contemplar-se a si mesma. Consegue encontrar o seu caminho, de volta à sua origem divina. Mesmo enquanto você estiver desperto neste corpo. E a Liberdade é de graça mas não é barata. Não é: “Ah! Deixa ver ser me interessa...” Tem de ser algo que desenvolve um impulso. Em algumas pessoas o fogo torna-se muito intenso por dentro que mais nada parece ter importância. Não é? E então você sabe que não pode voltar atrás. Na realidade, para ninguém, na vida, nunca houve um caminho de volta. Não se iluda, só pode haver um caminho de volta para si próprio. Você não pode voltar a ontem, não pode voltar atrás ao passado. Pode acalentar estes sentimentos mas não a Verdade.

A Vida lhe obriga a evoluir. E a evolução da Consciência é em direção à Vacuidade. Como se você voltasse ao espaço. Que num momento você fica vazio por dentro. Você é como o espaço. Vico e andando no espaço. Leve, sem técnica, sem medo, sem projeção. Além da garra da culpa, dos ciúmes e medos, embora possas saborear a sua fragrância. Mas nunca lhe oprimirão. Porque você sabe e merece aquilo que é. Você faz a passagem da morte para a Vida. A Vida real. Porque, como disse antes, a mente lhe oferece uma vida, mas com uma morte no fim. Mas o coração lhe oferece a existência eterna. Você vê? Você escolhe!...

Esta é a grande oportunidade da experiência humana. O meu ponto de vista é que eu não considero nenhuma realização humana acima da conquista da sua divindade. E ninguém está de fora. É só uma questão de tempo. E se alguma coisa lhe chamou, então já está a lhe preparar internamente para a sua visita. Se a voz lhe chamou, já está lhe preparando para a sua visita. Já está anunciando dentro do seu Ser, por isso não tenha medo, porque você não está se tornando noutra coisa. Você só está descobrindo o que nunca poderia deixar de ser.

Então, o convite é apenas para você ter uma atitude no seu coração. Sim, por favor, SIM, SIM!... Eu não preciso saber como, não preciso saber a técnica, estou demasiado fraco para técnicas. Estou demasiado preguiçoso para práticas. Eu tentei mais é apenas a minha mente que o faz. Absorve-me apenas! Absorve-me apenas! Substitui-me contigo!... Você diz isso com a ânsia pela verdade dentro do teu coração.

A semana passada eu disse que quase todo o ser humano pertence a uma espécie de tribo. Uma tribo de nacionalidade, uma tribo de religião, uma tribo de alguma espécie de grupo. Compreende? Só aquele que é livre, é universal! A sua mente torna-se universal, o seu coração é universal. Mas enquanto for uma tribo... Você pode crescer numa tribo, mas se diz, “sou da tribo do cristianismo”, “sou da tribo islâmica”, você não se desloca além da sua pessoa, não cresce dentro da sua universalidade. Porque a Verdade não é cristã, ou muçulmana, ou hindu, não é nenhum grupo político, não é nenhuma tribo. Mas se expressa através de tudo, se expressa através de tudo. Mas aquele que descobre “este aqui”, este é aquele que eu digo, você tem que ser a vaca que salta sobre a Lua. Você tem que ser a vaca que salta sobre a Lua! Algumas pessoas dizem: “Mas a vaca não salta sobre a Lua”. Eu digo, “Bem, você não, neste momento”. Mas o que significa a vaca que salta sobre a Lua?... É saltar para fora da sua mente.

Pare de viver como um cidadão da sua mente. A Vida, a Terra, não lhe impôs nenhuma restrição. Tem sido apenas um hábito e sim, é verdade que até os Budas e os Cristos deste mundo tiveram de ser condicionados. Porque faz parte do jogo que você se esqueça; de certo modo, esquecemos do nosso Ser e o grande jogo é lembrar, despertar para a verdade daquilo que somos. Mas não é necessariamente uma verdade religiosa. É apenas a Verdade. Mas as religiões estão aqui para nos ajudar a chegar àquilo, mas são só um dedo que aponta para o Sol, não se apaixone pelo dedo. Não fique olhando para os anéis do dedo e perca o Sol... E o seu coração é esse sol.

É disso que estou falando. Não o órgão, não o coração da emoção. Este coração ninguém pode ver. Mas você pode apenas saborear a sua evidência. Tal como o vento que você não pode ver, mas pode perceber o seu efeito. Este coração não é apenas físico, ainda que a fisicalidade desdenhe a sua fisicalidade a partir disso.

Não importa para onde você vai. O que quer que tenha lhe mantido aqui, lhe manterá para onde você for, mas ainda que apreciemos a sua forma física. Então, se você sentir que quer voltar, venha. Traga-a de novo, não é isso? É isso!... Já chega por agora.

Participante: Sim, obrigado!

Mooji: Por um momento, apenas um momento...

Em determinado momento, a mente simplesmente circunda o coração e funde-se dentro da paz do coração. A mente perde a sua desconfiança, a sua superstição e sente o abraço do coração. O amor do coração, o poder do coração, a sua infinitude. Então, a dualidade não lhe perturbará dessa forma, porque a mente se torna domesticada pela presença da santidade do coração, de Deus, da Verdade.

Então, os seus sentidos, “Eu estou simplesmente aqui”, “Eu estou simplesmente aqui!” “Não estou envolvido com nada”. Agora, não há nada para fazer ou para desfazer, ou para ajudar, ou para reparar. Não há nada para curar, nada para obter, nada para perder, para tornar-se, nada a acreditar. Só a facilidade de Ser. Está aqui por si só, sem suporte. Este é o nosso estado natural. E há até a Consciência deste estado também. Mas não há nada a relatar da Consciência. Porque é completa. E aquilo que é completo não precisa de nenhuma descrição. Você está em repouso! Você está em repouso no seu próprio Ser. As atividades da vida continuarão a fluir e desenrolar. Isto não é problema seu, é apenas uma atividade, a dança da força vital. Deixe-a atuar. Não diga: “Esta coisa não merece existir”. Deixe tudo ser, da mesma forma que você. Isto é generosidade, compreende? Isto é compaixão para o seu próprio Ser, primeiro. E quando reconhecemos tamanha compaixão, espalha-se e abrange o mundo inteiro. O que estou lhe dizendo agora, partilhando com você, não é poesia. Não é uma profissão, não é uma tarefa.  Mas por tantos anos, vidas até, a humanidade tem-se perdido a si mesma. Temos andado perdidos de nós mesmos. E é por isso que nos tornamos tão desgovernados, tão ingratos, tão magoados.    

Então, é apenas na volta para casa, para o nosso Ser, que este mundo se irá sarar. E isso começa dentro de seu próprio coração. Não compete a você o manuseio da existência. Você não está vivendo a vida, você é a Vida e ao mesmo tempo a testemunha da Vida.

Então, tal como este dia irá continuar, uma expansão do seu espaço interior, uma paz, uma alegria, uma leveza de Ser. Esta é a fragrância, este é o perfume de casa. Isto é tanto a sua volta para casa, como a casa voltando para você. É uma Unidade, é uma harmonia.

Então, permaneça disponível dentro do seu coração e acolhe o seu Ser. Não dê tudo à sua mente para extrair daí alguma espécie d filosofia. Fica simplesmente em silêncio e permanece vazio. E floresça dentro de seu próprio Ser.

Eu espero à medida que avançamos, e eu sinto, essa confiança, que aqueles que entre vocês nos quais esta indicação tocou a sua base, continuarão a irradiar essa compreensão. Eu próprio, ficarei de olho em vocês, mas não vou lhes espiar.

Possa a Graça, onde quer que estejam, quer nesta sala, na sala lá fora, ou a assistir de diferentes lugares do mundo, que a Graça possa continuar a deleitar-se na sua própria presença, no coração de vocês. Que alguns de vocês, que tenha chego a altura, cuja ânsia mais profunda e desejo pela Verdade, rapidamente chegue à realização da Verdade dentro do seu coração. Que possam continuar crescendo em sabedoria, perfeito entendimento e paz e harmonia. E que possam, aqueles que lhe encontram no caminho, sejam tocados pela sua leveza, Graça, entendimento, paz, sabedoria. Pois é dessa maneira que este mundo se torna belo. Não apenas comida que cai das árvores no planeta, mas a comida que cai da árvore do coração humano. Os frutos do amor, e da paz, e sinceridade, e altruísmo, e generosidade, e compaixão de Ser. Você chegou a um lugar como esse!

Assim seja! OM.


Mooji, 15 de dezembro de 2013, Monte Sahaja, Portugal.         

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Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)