O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

O sincero desejo pela Verdade de si mesmo

Libertando-se dos debates da pessoalidade

Sobre o desdobramento da consciência

Vivendo no século da imagem sem entrar em controvérsia

Sobre a paixão pela descoberta da Verdade

Imunizando-se dos símbolos colonizadores

O mundo está quadrado e ninguém reparou

Em busca da natureza real da realidade

O ESPANTOSO MISTÉRIO DA TIRANIA DO ESPAÇO E DO TEMPO

[...] Quando a verdadeira natureza da percepção é trazida a lume vê-se até que ponto podemos ser enganados pelos próprios sentidos que pretendem revelar-nos o mundo externo. Pois os sentidos não apenas podem distorcer a coisa como também nos levar a crer que a nossa experiência direta dessa coisa no espaço e no tempo é física e não mental. Torna-se agora possível compreender por que a revelação de Einstein, conquanto parcial e limitada, estava no caminho certo. Descobriu o sábio que o espaço era uma relação variável e mostrou por que devia ser assim, mas não buscou jamais explicar como era nem como chegou a existir.

Assim, os conglomerados de sensações que constituem as coisas que vemos são automática e inevitavelmente moldados pela mente na forma de espaço-tempo. Em suma, enquanto continuarmos a experimentar o mundo iremos experimentá-lo como uma aparência no espaço e como um acontecimento no tempo. Trata-se de uma condição predeterminada da existência humana, válida com relação a todos e ninguém, nem mesmo o filósofo, pode fugir dela. O próprio princípio que explica o nosso conhecimento da existência deste mundo explica também as suas características de espaço-tempo. Trata-se tão-somente de fatores necessários na formação das nossas sensações. Nós próprios somos a sua fonte. No entanto, a nossa fé no caráter objetivo do espaço e do tempo relativamente à mente é tão arraigada que a sua validade é aceita sem contestações. Apenas um tremendo esforço de investigação poderá conduzir-nos um dia a repudiar tal crença. Covardia não é cautela. A verdade não quer amigos tímidos.

Na prática nós acreditamos, e não temos senão como acreditar, que o livro impresso tão claramente presente diante dos nossos olhos é percebido fora de nós mas dentro do espaço. A própria constituição da consciência humana no-lo diz com irresistível autoridade e nem por um instante colocamos em dúvida tal autoridade. Qualquer outro tipo de afirmativa virá contrariar o bom senso. Contudo, provamos anteriormente que o espaço é um componente da mente, que sem a sua presença a mente se recusaria a funcionar. Em suma, o espaço habita a mente. Isto nos leva inexoravelmente à seguinte conclusão. Se o livro existe no espaço, e se o espaço existe dentro da mente, então o livro só pode existir dentro da mente. Aquilo que a Natureza nos obriga a ver na forma da página impressa externa a nós mesmos (aparentemente o não-eu) não é senão uma percepção do eu propriamente dito, uma refração da sua própria luz, uma apresentação da mente à sua própria visão.

Julgam as pessoas que a mente reside apenas nos limites do crânio. Mas se a mente é a manufatura secreta do espaço, como poderá estar ela própria presa às limitações espaciais? Como poderá estar limitada a este ou àquele ponto do espaço? Como poderá estar colocada tão-somente na cabeça dos homens? Em vão procuraremos uma sonda com que perscrutar as profundezas da mente ou uma trena com que medir a sua largura e o seu comprimento.

Diante de nós existe um mundo de duras realidades, uma panorâmica procissão de objetos sólidos e coisas substanciais. Aquele que, como Sócrates, chega a convencer-nos a arguir a exterioridade dessas coisas — aparentemente tão certa e irrefutável — não tem pela frente uma tarefa fácil. Tal pessoa não será nunca recebida de boa sombra, pois, a serem verdadeiras, não deixam as suas estranhas idéias de ser desagradáveis. Elas parecem tragar o próprio solo sob os nossos pés. Há em tais idéias certas propriedades inerentes que as tornam quimicamente repelentes perante a mentalidade pública, a qual se esquiva à verdade para refugiar-se no auto-engano. Daí haver a filosofia conservado as ditas idéias ocultas no passado para o uso de uns poucos amantes da verdade. O fato de que todas as coisas em torno de nós sejam conhecidas apenas como uma construção mental integral e não como externas e materiais, que sejam vistas como uma imagem produzida na mente, parecerá um milagre às pessoas sem orientação, da mesma forma pela qual o pensamento popular e despreparado — de uma forma natural e inevitável — julga ser a Terra achatada e girar o Sol em torno do nosso planeta. Tal opinião é sustentada com firmeza e a asserção contrária de que existem países antípodas e de que a Terra gira em torno do Sol é encarada como rematada loucura. Como foi então possível estabelecer essa espantosa verdade astronômica entre os homens? Tal coisa foi possível apenas através do relacionamento dessas idéias com certos fatos e a seguir persuadindo-se as pessoas a usar corajosamente sua capacidade de raciocínio com respeito a esses mesmos fatos, de modo a que um significado mais profundo viesse à tona. Exatamente o mesmo problema se nos depara na crença popular de que todas as coisas materiais existem exteriormente, à parte e em separado da mente. A filosofia contesta essa crença ingênua e afasta essa incompreensão, mas só pode fazê-lo quando os homens se dispõem a olhar os fatos que ela oferece e a estudá-los a seguir com profundidade e isenção até o seu extremo limite lógico. Sem esse racionalismo absoluto jamais poderia contar ela triunfar sobre um instinto tão primitivo é poderoso entre os humanos como é o materialismo; o qual não é a verdade mas um arremedo de verdade.

O nosso conhecimento do mundo exterior e a nossa percepção das coisas no espaço e no tempo são as formas assumidas pelos nossos processos mentais. É preciso que absorvamos a dura verdade de que aquilo que é interior à mente pode ser exterior ao corpo. As alegações em seu favor são irrespondíveis. Sua posição é inatacável. Todos os argumentos contrários, todas as opiniões contrárias, podem ser rebatidas. Pois não se trata apenas de uma esquisitice de alguns lunáticos mas de um fato certo e provado no arsenal da ciência. Por isso, essa é a verdade que será reencarnada amanhã.

Aqueles que temem seguir a razão quando esta os leva a estranhos paradoxos estão perdidos para a verdade. Estas doutrinas poderão nos assustar e intimidar, mas como são verdadeiras precisam ser aceitas.

Nós erguemos as vistas para o céu como prisioneiros com os olhos vendados pelo espaço e as mãos atadas pelo tempo, sem sabermos que a liberdade está a apenas um passo. O pensamento nos aprisionou: o pensamento poderá libertar-nos.

Uma vez que comecemos a compreender o espantoso mistério da tirania do espaço e do tempo, começaremos a compreender por que devemos escutar vozes antigas como a de Jesus e procurar entender a frase repassada de profundidade que ele entregou a um mundo conturbado e lamentoso: — O Reino do Céu está em vós. — O misterioso reino em que os homens podem ver satisfeitas as suas mais elevadas aspirações não se encontrará no futuro, numa vida após a morte terrena, nem no espaço remoto (como uma região além das estrelas), mas aqui, dentro da nossa própria mente e agora, dentro do nosso próprio pensamento.

Tal compreensão do poder inato da mente de contribuir para a feitura do seu próprio mundo elevará os homens — santos ou cínicos — ao nível dos mais equilibrados sábios, acalmará suas mentes aflitas e aliviará os seus corações sofredores.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

A resistência da mente adquirida com abordagens espirituais

Perceba o grupo de se prender a um grupo

Sobre controle, destino, livre arbítrio e tempo espaço

A vivência religiosa é um marco zero na bagagem do conhecido

Da importância do fundo de poço do intelecto

A vivência de uma dimensão vibratória sutil

A sabedoria oculta além da ioga e as tentações do deserto

A energia corre para onde quer até precisar de nós

Um paradigma dentro de um paradigma, dentro de um paradigma

A Inteligência Emocional

Cenas de "MATRIX" E "A TRAVESSIA" e as Colunas da Colonização Mental
Como a Ciência Convencional Descobre as
Potencialidades Ilimitadas da Consciência Humana

Há algum tempo, duas perguntas na aparência simples, colocadas pela ciência, vêm  subvertendo a maneira estabelecida de ver e de pensar a nós próprios:
 
“O que é inteligência? Quantas inteligências possui o ser humano?”
 
As respostas a essas questões nos levam a uma expansão do nosso campo de consciência individual, enquanto integram e harmonizam os diferentes setores do nosso ser.
 
Até 1981, para todos os efeitos havia uma só inteligência: era a capacidade de compreender lógica e racionalmente as coisas, e estava sediada no hemisfério cerebral esquerdo do neocórtex, o grande sistema de tecidos ondulados das camadas superiores do cérebro.
 
Naquele ano, quando o pesquisador Roger Sperry recebeu o prêmio Nobel de Medicina depois de descobrir que o hemisfério cerebral direito também contribui para a inteligência humana, rompeu-se uma ilusão coletiva. Começava uma revolução. O conceito de inteligência passava a ampliar-se radicalmente em direção a níveis ilimitados.
 
Como funciona o hemisfério cerebral esquerdo? Ele é racional. Vê as coisas uma depois da outra, em sucessão cronológica. Estuda as relações diretas de causa e efeito (e se guia por elas), classifica, analisa e rotula. Em relação ao tempo, seu lema é “primeiro uma coisa, depois a outra”. Em relação ao espaço, sua bandeira é “um lugar para cada coisa, e cada coisa em seu lugar”. As perguntas preferidas são as mesmas questões-chave do jornalismo convencional: Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Por quê?
 
Antes, no plano do conhecimento comum, tanto as emoções como as intuições e hábitos, apesar de fazerem parte da consciência humana, eram vistos como alheios ao processo da inteligência propriamente dita. “Compreender” era uma coisa, “viver” era outra. Inteligência não tinha nada a ver com instinto ou intuição. A partir dos trabalhos de Sperry sobre o hemisfério direito, passou a surgir no âmbito da ciência ocidental algo que as tradições orientais trazem consigo há milhares de anos: a percepção de que o ser humano tem diferentes consciências, ou inteligências, dentro de si. Cabe a nós próprios desenvolvê-las harmoniosamente. O hemisfério cerebral direito, no neocórtex, por exemplo, tem características opostas e complementares às do hemisfério esquerdo.
 
A ideia é simples.
 
O neocórtex direito é capaz de ver tudo em um relance, subitamente. Não precisa fazer inúmeras operações mentais, cálculos, perguntas ou suposições antes de chegar a uma conclusão. Ele faz associações entre coisas diferentes, entende cada uma das partes a partir do contexto. Chega à verdade de modo direto e misterioso, amplia, intui, adivinha e prevê. A percepção instantânea é a marca registrada do hemisfério direito.
 
Ele responderia do seguinte modo às preocupações do neocórtex esquerdo:
 
“Não importa quem faz o que, nem onde, quando, como e por quê. O que importa é o todo, que é indescritível por palavras e só pode ser percebido diretamente pelo coração humano. O ontem, o hoje e o amanhã só existem na verdade aqui e agora. Só o agora e o eterno são reais, e eles ocorrem ao mesmo tempo. São simultâneos.”
 
A descoberta das funções opostas e complementares dos dois hemisférios cerebrais  - que confirma o ensinamento da teosofia de Helena Blavatsky - criou o primeiro patamar da ampliação revolucionária que está ocorrendo na maneira como a ciência convencional vê a inteligência humana. Mas o comportamento prático e as emoções ainda ficavam do lado de fora da nossa ideia de inteligência. A transformação alcançou níveis mais amplos a partir dos trabalhos de Paul MacLean, que trouxe para dentro do conceito de inteligência o chamado “inconsciente” e mostrou onde estão no corpo humano as suas bases físicas e operacionais.
 
Para MacLean, o cérebro humano inclui três estruturas diferentes:
 
* O neocórtex, com seus dois hemisférios, produz pensamento e imaginação.
 
* Logo abaixo dele, temos o sistema límbico ou cérebro emocional, que nos permite sentir e desejar; e, mais abaixo,
 
* Um terceiro cérebro, que coordena todo o nosso comportamento, nossos hábitos e padrões repetitivos.
 
MacLean escreveu:
 
“Essas três formações (…..) podem ser imaginadas como três computadores biológicos interligados, cada um tendo sua própria inteligência especial, sua própria subjetividade, sua própria memória e movimentação.”
 
Elaine de Beauport escreve no livro “Inteligência Emocional, Três Aspectos da Mente”:
 
“A descrição de MacLean de um cérebro tríplice, com três sistemas física e quimicamente muito diferentes e, no entanto, interconectados em uma única realidade, constitui o mapa de que necessitamos para avançar até a plena consciência humana”. [1]
 
Na verdade, o cérebro tríplice do ser humano é, em si mesmo, um resumo da longa história do reino animal.
 
“Ao longo de milhões de anos de evolução”, escreve Daniel Goleman em Inteligência Emocional[2]“o cérebro cresceu de baixo para cima, com os centros superiores desenvolvendo-se como elaborações das partes inferiores, mais antigas. O crescimento do cérebro em cada embrião humano refaz mais ou menos este percurso evolucionário”.
 
Assim, temos um cérebro herdado dos nossos irmãos répteis, ou pelo menos que possui uma relação especial com eles. Não é à toa que dizemos gostar de lagartear  ao sol, acusamos alguém de derramarlágrimas de crocodilo ou pensamos que uma pessoa insincera é perigosa como uma cobra.
 
A consciência reptiliana é nossa íntima conhecida, porque faz parte de nós. Localizado no tronco cerebral, o cérebro herdado dos répteis controla nossas reações e movimentos automáticos, os hábitos, os gestos instintivos, o comportamento condicionado, o nosso ritmo involuntário.
 
Temos um segundo cérebro que é compartilhado com os nossos irmãos mamíferos. Ele é chamado límbico porque em latim limbus significa orla, periferia, e ele está situado nos limites externos do tronco cerebral, que é a sede do cérebro reptiliano. A partir do sentido do olfato, o mamífero despertou e desenvolveu suas emoções, construindo o cérebro emocional.
 
Um cachorro, por exemplo, tem milhares de cheiros catalogados em sua vasta memória. Ele se comporta como um grande botânico quando caminha por um jardim. Para ele, a natureza é uma biblioteca infinita. Ele lê com o focinho. Ele compara, cataloga, classifica, e sente emoções com o que através do seu faro. Se um cachorro verbalizasse o que sabe, poderia dar cursos sobre aromaterapia, para dar um exemplo prático. Mas o neocórtex dele ainda está se desenvolvendo, e ele não coloca em palavras o que sabe ou sente.
 
Os mamíferos - inclusive os mamíferos marinhos, cuja inteligência é sofisticada - têm como tarefa geral e prioritária o desenvolvimento da capacidade de sentir. Esta é uma das razões por que devemos tratar bem os animais, e por isso o carma negativo - a responsabilidade - dos que abatem animais é enorme.
 
Os bichos sentem a aproximação da morte e sofrem - assim como sentem o amor - com intensidade tão grande quanto um ser humano, se é possível medi-la e compará-la. O fato de o animal mamífero não falar verbalmente nada significa. Ele fala com os olhos, fala corporalmente, e a intensa emoção que transmite não só está em completa harmonia com seu comportamento, como também é um discurso perfeitamente compreensível para um ser humano que tenha um pouco de atenção.
 
Os animais têm suas próprias e várias inteligências, e o fato de elas serem diferentes das inteligências a que estamos mais acostumados nos dá uma chance de aprender coisas importantes com esses nossos irmãos menores. A inteligência não é exclusivamente do ser humano, mas está presente em toda a natureza, e o ser humano é que só vem percebendo isso gradualmente, à medida que evolui. [3]
 
Quando surgiu, então, o cérebro tipicamente humano? Os cálculos cronológicos em relação à origem do homem são um terreno pouco firme. Hoje, a ciência convencional calcula que há cerca de 100 milhões de anos o cérebro dos mamíferos deu um salto, fazendo surgir o neocórtex com seus dois hemisférios. A filosofia esotérica ensina outra cronologia, e a ciência convencional só pouco a pouco vem revisando seus cálculos desde o final do século 19 e aproximando-se do que é partilhado nas páginas da obra “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky.
 
Quando nasce o homo sapiens da ciência convencional, o ser humano descobre,  pouco a pouco, a solidão, a separação, e o egoísmo ambicioso de um “eu” que pensa que é único no mundo, mas também percebe suas próprias potencialidades ilimitadas no campo da sabedoria e do altruísmo.
 
A principal “descoberta” de MacLean é algo que a teosofia clássica ensina há milhares de anos: o cérebro humano é sede de consciências muito diversas entre si.
 
A grande expansão da inteligência humana que estamos experimentando na fase contemporânea da história consiste, na verdade, na ampliação do nosso foco de consciência para que ele seja capaz de incluir, de um lado, as nossas consciências “animais” e, de outro, as nossas consciências divinas; e de perceber, ao mesmo tempo, a harmonia fundamental que há entre elas. Para isso é necessária certa quantidade de sabedoria.
 
O réptil fala em nós através dos nossos hábitos, rotinas, reações automáticas de ataque e defesa.
 
O mamífero fala em nós através dos afetos, dos amores e rancores, apegos e rejeições, das euforias e frustrações.
 
O neocórtex direito fala através das intuições, e pela elevação religiosa e mística.
 
O nosso eu pensante, apoiado no neocórtex esquerdo, usa como instrumento as palavras, e pode ficar preso a elas, convencido de que a sua forma “concreta” e “racional” de perceber a realidade é o único acesso possível à verdade.
 
O choque entre esses diferentes níveis de consciência, que são relativamente independentes entre si, tem sido durante milhares de anos uma fonte terrível de conflitos para a alma humana.
 
Cada pessoa se identifica mais com determinados setores do cérebro, por uma questão de temperamento. E frequentemente despreza - ou teme - outros níveis de consciência, aos quais procura negar. Isso cria não só conflitos psicológicos dolorosos, mas choques entre as pessoas. Não raro, essa luta dramática entre as naturezas humana, animal e divina dentro de nós prossegue até um estágio avançado do caminho espiritual. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo expressa esse conflito incessante entre nossas diferentes inteligências quando escreve:
 
“Querer o bem está no meu alcance; não, porém, o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero.” (Romanos, VII, 18-19).
 
Quando as diferentes inteligências ou consciências de um ser humano entram em choque, elas ignoram umas às outras, e este conflito entre luz e sombra tem destruído ou afastado do caminho milhares de buscadores da verdade.
 
Ao nível do neocórtex (o cérebro humano), a pessoa tem as melhores intenções, mas o seu cérebro de animal mamífero - límbico - pode ter interesses opostos e desencadear uma luta sem tréguas, causando um conflito no cérebro reptiliano - que, situado no tronco cerebral, controla a nossa saúde física, os ritmos corporais e o comportamento.
 
Quando isso ocorre, o resultado é, em geral, a incoerência de comportamento, a distância entre discurso e prática ou intenção e gesto; a dor; o sofrimento; e, em casos mais graves, a hipocrisia. A hipocrisia e a  falsidade intencional ocorrem quando se quebra parte de antahkarana, a ponte espiritual entre o eu imortal e a personalidade mortal, cuja tarefa é estabelecer uma linha de coerência (imperfeita, porque humana) entre cada setor “terrestre”  do indivíduo e a sua instância divina interior. “O caminho para o inferno está pavimentado com boas intenções”, diz o ditado. Auto-observação e discernimento são essenciais no caminho espiritual. As boas intenções são na verdade o caminho para o céu, mas elas necessitam ser protegidas pelo discernimento.
 
A descoberta científica de que o nosso cérebro é tríplice, com três setores relativamente independentes entre si e com milhões de anos de diferença entre suas idades, permite ir além de uma velha situação de conflito entre a nossa natureza espiritual e a nossa natureza animal. Leva-nos a produzir um acordo entre as três áreas cerebrais. Essa harmonização é mais fácil a partir do momento em que sabemos como cada cérebro funciona.
 
Sempre que há comunicação e harmonia, a natureza animal passa a servir espontaneamente a natureza divina em nosso interior. O animal só se rebela contra o homem quando lhe faltam as condições básicas para viver, ou quando não é amado nem respeitado. Essas várias consciências devem conhecer-se umas às outras e definir um propósito comum que seja razoável para os interesses de cada uma delas. Depois disso, poderão dedicar-se harmoniosamente à busca desta meta central, que integra diferentes objetivos setoriais como rotinas estáveis (réptil), intensidade emocional (mamífero), ordem racional (neocórtex esquerdo) e abertura para o infinito e transcendência (neocórtex direito).
 
É possível, também, traçar um quadro comparativo entre o novo esquema do cérebro tríplice e a tradicional visão esotérica dos vários níveis de consciência humanos. Na tradição cristã, por exemplo, temos o corpo (cujos ritmos são governados pelo cérebro reptiliano), a alma (em relação estreita com o cérebro límbico e o neocórtex esquerdo) e o espírito (que atua tendo principalmente o neocórtex direito como ponto de apoio). Na literatura teosófica, temos o corpo físico denso e o corpo etérico como áreas de atuação prioritária do cérebro reptiliano. Em seguida, os corpos astral (ou emocional) e mental concreto, que são, respectivamente, as áreas de atuação prioritária do cérebro límbico e do hemisfério esquerdo do neocórtex. Até aqui, a parte mortal do ser, que trabalha com faixas vibratórias mais densas. No chamado “eu imortal”, os diferentes níveis de consciência da mente abstrata ou inteligência espiritual (manas), da intuição espiritual (buddhi) e da vontade espiritual (atma) atuam, principalmente, através do hemisfério direito do neocórtex.
 
Vejamos um gráfico a respeito. Na coluna da esquerda, temos a classificação setenária da consciência humana segundo a teosofia original de Helena Blavatsky.
 
Dividimos o quinto princípio, Manas, em seus dois aspectos, superior e inferior, ou Buddhi-Manas eKama-Manas.
 
Na relação dinâmica entre os elementos das duas colunas, é preciso levar em conta que os elementos deste gráfico estabelecem relações dominantes, mas não exclusivas. Cada elemento interage fortemente o tempo todo com os outros fatores, e vale a regra “todos por um e um por todos”:


A interação entre estes vários níveis ou setores da consciência humana é de uma riqueza e complexidade enormes.  Só no corpo físico, são bilhões de células trocando mensagens entre si o tempo todo. Ao longo de milhões de anos, o ser humano vem instalando gradualmente no topo da sua coluna vertebral antenas capazes de captar as energias divinas de maneira cada vez mais clara. A consciência vai transferindo o seu foco desde os níveis animais até faixas vibratórias mais elevadas,  através do velho método da tentativa e do erro, seguidos de nova tentativa.  
 
Deste modo a ciência convencional descobre aspectos significativos da filosofia esotérica, e Elaine de Beauport mostra que o cérebro humano é um sistema de energias e não um conjunto constituído de partes fixas.
 
Cada um dos seus três níveis principais tem diferentes inteligências ou maneiras de perceber a realidade. Este modo abrangente de observar os fenômenos da nossa consciência nos permite economizar a maior parte da energia que vem sendo desperdiçada há milhares de anos em conflitos psicológicos baseados, por um lado,  na ignorância de nós mesmos , e, por outro lado, na crença de que há partes do ser humano que são boas e devem ser aceitas, enquanto há outras que são más e devem ser eliminadas pela violência psicológica ou até física.
 
Todas as perseguições promovidas na história contra dissidentes e hereges decorreram do hábito de pretender eliminar as partes “indesejáveis” do ser humano, seja individual ou coletivamente. Chegamos agora ao ponto em que percebemos o óbvio: a observação e a compreensão valem mais do que a força bruta.
 
O ensinamento milenar de Buddha afirma:
 
“Nesse  mundo a inimizade nunca é eliminada pelo ódio. A inimizade é eliminada pelo amor. Essa é a Lei Eterna.” [4]
 
A ignorância deixa de existir graças à compreensão que surge da luz do eu superior, Buddhi.

Embora nem sempre seja fácil viver à altura desta verdade básica, sempre é possível avançar na sua direção. O caminho teosófico é o caminho do auto-conhecimento.  

Carlos Cardoso Aveline
 
NOTAS:  
 
[1] “Inteligência Emocional - As Três Faces da Mente”, Elaine Beauport, Editora Teosófica, Brasília, 1998, 408 pp.
 
[2] “Inteligência Emocional”, Daniel Goleman, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 370 pp. Do mesmo autor, veja “A Mente Meditativa” (Ed. Ática) e “Mentiras Essenciais, Verdades Simples (Ed. Rocco).
 
[3] Veja o capítulo 13, “A Inteligência dos Animais”, na obra “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, pp. 105-113.
 
[4] “O Dhammapada - o Clássico Budista”, obra disponível em  www.FilosofiaEsoterica.com .  A passagem está no Capítulo 1, “Os Versos Gêmeos”.

__________________________
O texto acima foi publicado inicialmente nos anos 1990 pela revista “Planeta”, edição especial “Nova Era”, número 7, pp. 21-25, sob o título “A Revolução da Inteligência Emocional”.  Em fevereiro de 2013, foi revisado e atualizado pelo autor.

Fonte: 
http://www.filosofiaesoterica.com

A palavra "Espiritual" como pedra de tropeço


[...]Outra palavra que muito tem contribuído para aturdir os homens ou fazê-los cair em armadilhas é a palavra espiritual. Têm-na usado os chefes totalitários para rotular os seus pontos de vista sobre a vida, mas têm-se valido dela por igual os maiores adversários desses ditadores! Há algo de irônico na forma pela qual ditadores de democratas se assacam mutuamente a pecha de materialistas e não-espiritualizados. Obviamente, as ideias dos políticos acerca dessa simpática palavra são deveras confusas. Quando, porém, entramos nas esferas da religião e do misticismo a confusão aumenta ainda mais. Fala-se de experiências espirituais que, submetidas a uma apreciação analítica, demonstram-se magníficas manipulações emocionais, ou fugas extremamente sentimentais, ou visões de seres imateriais e assim por diante. As interpretações possíveis são por isso numerosas. Por fim, se dissermos que determinado homem é muito espiritualizado, um dos ouvintes entenderá que ele é nobre de caráter, outro que ele possui um temperamento tranquilo, um terceiro imaginará que ele leva uma vida de ascética simplicidade, um quarto pensará numa vida extremamente religiosa, ao passo que um quinto ouvinte pensará que ele vive num misterioso estado de consciência desconhecido da maioria dos mortais e assim por diante. Assim, cada definição difere de todas as demais.

Analisemos agora com maior profundidade as implicações da palavra espiritual. Qualquer que seja a natureza da experiência ou consciência espiritual da pessoa, se nos reportarmos até o seu término verificaremos que é a mente dessa pessoa que lhe fala dessa experiência e lhe mostra tratar-se de uma parte da sua existência. Ora, a mente só nos pode dar consciência de alguma coisa  trate-se de uma minúscula mosca ou de um Deus imponente — se ocupar-se de pensar nessa coisa. Portanto, tudo aquilo que é sabido de alguma forma, é sabido como um pensamento. As experiências espirituais não fazem exceção a esta regra universal. Elas também não passam de pensamentos, por mais inusitadas que sejam as suas demais características. Daí não haver diferença entre as palavras espiritual  e mental. Toda vida consciente é vida-pensamento. O homem mais espiritualizado vive em pensamentos tanto quanto o homem mais materialista. Não lhe é possível agir de outra forma e permanecer desperto. 

Torna-se agora possível compreender não apenas por que as pessoas não formam uma ideia clara e consistente do significado da palavra espiritual, mas também por que sequer chegam a formar alguma ideia. Tudo o que conseguem é construir na imaginação um significado que venha de encontro aos seus gostos e temperamentos. O filósofo deve esquivar-se ao fascínio dessa palavra e, através de um raciocínio mais religioso, deve disciplinar o uso que dela faz, assegurando a clareza daquilo que está dizendo.

Paul Brunton em,  A sabedoria oculta além da ioga

O segundo grau na ascensão do homem rumo a verdade

"Quanto a refutar dogmas já obsoletos, trata-se de um assunto difícil. Não temos o direito de ofender os pequeninos que creem... É perfeitamente inútil tentar elaborar um credo que satisfaça a um só tempo o letrado e a sua criada." — Antigo Deão da catedral de São Paulo, Londres
Este é o segundo grau na ascensão do homem rumo a verdade. O misticismo poderia ser enigmaticamente descrito como um modo de vida que pretende, sem mais loas ao Senhor, aproximar-nos mais Dele do que qualquer um dos métodos religiosos habituais; como uma visão de vida que refuta o Deus demasiadamente humano construído pelo homem segundo a sua própria imagem, substituindo-o por uma atividade amorfa e infinita; e como uma técnica psicológica que procura estabelecer uma comunicação direta com esses espíritos, através do canal de contemplação interior. 

Certos princípios coletivos do misticismo não se limitam a nenhuma fé, nenhum país ou povo em particular, e são mais ou menos universais. Essas posições cardeais do pensamento místico são em número de cinco e poderão ser sucintamente expostas como segue.

Os místicos asseguram inicialmente que Deus não deve ser localizado em nenhum lugar, igreja ou templo em especial, mas que o Seu espírito é onipresente na natureza e que a Natureza está nele em toda a parte. A ideia ortodoxa de que Deus é uma Pessoa determinada entre numerosas outras, com a diferença de que é muito mais poderoso, sem deixar de apresentar gostos e aversões, ódios e ciúmes em profusão é rejeitada por infantil. O panteísmo é, portanto, a primeira nota a ser tocada. O pensamento acertado santifica ou profaniza um lugar, e a verdadeira santidade existe apenas no interior da mente. A seguir, como corolário do primeiro princípio, asseguram os místicos que Deus está presente no coração de todos os homens da mesma forma pela qual o Sol está presente em todos os seus incontáveis raios. O homem não é apenas um simples corpo físico, como acreditam os materialistas, nem um corpo acrescido de uma alma que o abandona após a morte, como acreditam os religiosos, mas aqui vive, divino, na sua própria carne. O reino do céu tem de ser encontrado enquanto vivemos, sob pena de ficar perdido para sempre. Não se trata de um prêmio que talvez nos venha a ser conferido no nebuloso tribunal da morte. A consequência prática desta doutrina acha-se corporificada no terceiro princípio dos místicos, que assegura ser perfeitamente possível a todos os homens que se submetem à inicial da disciplina ascética entrar em comunhão direta, através da meditação e contemplação, com o Espírito de Deus, sem a intervenção de qualquer padre ou prelado e sem a articulação formal de qualquer prece verbal. Isto torna totalmente desnecessário erguer as mãos súplices em prece a qualquer Ser superior. Assim, a aspiração silenciosa substitui a recitação mecânica. O quarto princípio é tão pouco simpático à religião oficial como o terceiro, pois declara que as estórias, as passagens, os incidentes e os ditados que constituem uma escritura sagrada não passam de uma mistura de alegorias imaginárias e acontecimentos reais, uma preparação literária através da qual as verdades místicas são sagazmente transmitidas na forma de mitos simbólicos, personificações lendárias e fatos históricos verdadeiros. Declara, outrossim, que o século vinte poderia muito bem escrever suas novas Bíblias, Corões e Vedas, porque o Espírito Santo poderá tornar a baixar a qualquer momento. Os místicos asseguram, em quinto lugar, que as suas práticas levam em última instância ao desenvolvimento de faculdades supranormais e poderes mentais extraordinários ou mesmo poderes físicos estranhos, seja em razão das dádivas divinas seja em razão dos esforços da própria pessoa. 

Claro está que quando o êxtase místico é forte, logicamente o homem será levado a contemplar-se como um portador da dividade e, em casos extremos, como a própria Divindade. Assim é que um famoso Sufi muçulmano exclamou perante uma assombrada platéia em Bagdá, há coisa de mil anos: — "Eu sou Deus!"

Infelizmente, o Califa pensava de outra forma e puniu aquela impiedade com torturas romanas, acabando por mandar atirar o corpo do místico às águas do Tigre. Foi esse o destino do festejado Hallaj.

O efeito ampliador do misticismo sobre as perspectivas religiosas de um homem é o incentivo à tolerância e, por isso, um notável cabedal neste nosso mundo intolerante. Considerar, por exemplo, a Bíblia como a única base autêntica da verdade religiosa, ignorando por completo a possibilidade de que outras raças, a chinesa e a hindu, entre outras, possam ter produzido escrituras merecedoras de igual consideração, é ter uma visão tacanha. Esse fanatismo religioso que impede o reconhecimento de qualquer outra fé religiosa que não a sua não tem cabimento hoje em dia, quando o estudo da religião comparada pode provar à saciedade a existência de laços parentescos entre as várias crenças do mundo. A elevação religiosa não é privilégio de qualquer indivíduo, movimento ou raça. O místico plenamente desenvolvido compreende que o Sol de Deus aquece a todos por igual, e que todos têm a liberdade de adotar a crença que desejam, se é que pretendem adotar alguma. Aquilo que o indivíduo procura ele precisa encontrar por si mesmo  e em si mesmo através da introversão meditativa.

O inspirador ou fundador de um culto religioso que seja realmente evoluído saberá como escalonar os seus ouvintes e devotos, saberá como dar à populaça entrada não apenas para o primeiro grau, e quando dar aos portadores de uma mentalidade mais mística entrada para o segundo grau. Podemos tomar as palavras de Jesus como exemplo desse tipo de conhecimento, quando ele disse aos seus discípulos mais próximos: "A vós é dado conhecer os Mistérios do Reino do Céu, mas não a eles... Por isso eu lhes falo através de metáforas; porque ouvindo, eles não escutam nem compreendem".

A Palavra Mistérios tem no original a significação de "outrora ocultos mas hoje revelados", ao passo que Moffat não hesitou em classificá-la como verdade secreta na sua tradução do Novo Testamento. Tais mistérios, porém, não têm relação com a filosofia. Que Jesus iniciou alguns dos seus primeiros seguidores, e através destes mais tarde os apóstolos, nos princípios do segundo grau, isto é a ioga e o misticismo, isso se demonstra amplamente nos ditos e nas vidas dos primeiros adeptos, como, por exemplo, nos transes místicos de João e nas sentenças místicas de Paulo.[...]

É evidente que as simpatias de Jesus pela massa ignara eram tão grandes que ele chegou a abrir-lhe de certa forma as portas de um ensinamento místico mais elevado, conquanto tão-somente os seus discípulos mais chegados tenham recebido uma iniciação plena. Buda, sem dúvida alguma, era movido pelos mesmos sentimentos e abriu essas mesmas portas ainda mais do que Jesus.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

Da transitoriedade do estado contemplativo

[...]Depois que emergimos de um estado de transe ou contemplação, o sentimento de exaltação vai gradualmente arrefecendo, deixando por fim APENAS UM ECO. Por essa razão somos obrigados a repetir diariamente a experiência, se é que desejamos voltar a viver nas condições originais, da mesma forma pela qual somos obrigados a repetir cotidianamente as nossas refeições para não vivermos com fome. Aqueles que são peritos no assunto sabem como prolongar durante longo espaço de tempo os doces efeitos residuais do transe, mas é impossível retomar qualquer atividade de ordem prática sem tornar a perdê-los. Assim sendo, as iluminações propiciadas pelo autoconhecimento são sempre passageiras. É preciso que sejam diariamente renovadas ao preço da renúncia temporária aos deveres práticos e às atividades mundanas. 

Essa transitoriedade do estado contemplativo tornou-se um importante problema que ocupou boa parte das minhas considerações mais sérias. O mesmo problema perturbou alguns iogues mais experientes do que eu, foi o que fiquei sabendo há alguns anos, quando de uma das minhas visitas ao grande Ashram de Sri Aurobindo. Lá me mostram algumas cartas escritas por ele a seus discípulos, e uma dessas cartas continha o seguinte parágrafo, cuja veracidade impressionou-me de tal modo que eu o copiei imediatamente. A autoridade da declaração tornar-se-á patente se acrescentarmos que Sri Aurobindo é provavelmente o mais famoso dos iogues hindus vivos e sem nenhuma dúvida o mais culto entre eles. Eis o trecho:

" — O transe é uma forma de fuga — o corpo permanece aquietado, a mente física fica num estado de torpor, a consciência íntima é liberada para dar prosseguimento à experiência. A desvantagem é que o transe se torna indispensável e que, se o problema da consciência desperta não for resolvido, ELE SERÁ IMPERFEITO."

Ademais, o homem que é obrigado a viver e trabalhar neste mundo, que é obrigado a participar das suas atividades, presa da voragem do trabalho, prazer e sofrimento, mais cedo ou mais tarde terá de ABANDONAR A MEDITAÇÃO e voltar à atividade, da mesma forma pela qual abandonou a atividade para entregar-se à meditação. — Fazei o que quiserdes mas pagai o preço — disse certa vez Emerson com helênico discernimento. A prova do acerto dessa declaração reside no fato de que os orientais que começavam a fazer algum progresso na senda da meditação, e cuidavam de aprimorar-se ainda mais, via de regra terminavam por embalar-se ao som da melancólica melodia do asceticismo e FUGIR À ESPOSA, À FAMÍLIA, AO LAR, À PROPRIEDADE E AO TRABALHO; refugiavam-se eles em ashrams, grutas, mosteiros, florestas ou montanhas, de maneira que o mundo sendo deixado bem para trás, seus esforços por alcançar o estado contemplativo podiam tornar-se ininterruptos e contínuos. Ao procurar o GOZO DIÁRIO da paz do autoconhecimento eram obrigados a sacrificar os afazeres da vida cotidiana. 

Ademais, o fato de que a prática reiterada da meditação diária incapacita inevitavelmente o homem para as atividades de ordem prática tornava-se progressiva e intrigantemente mais claro para mim. Na verdade, eu fora obrigado a abandonar minha carreira jornalística durante algum tempo, em parte por haver exagerado na prática da meditação e em parte por causa da hipersensibilidade resultante que transformava quase todas as ambiências em verdadeira tortura. Muito mais fácil era escrever livros, pois se tratava de uma atividade que poderia ser desenvolvida num remoto cume de montanha, se necessário; longe da agitação da vida citadina. Não obstante, dei-me conta de que ao menos noventa por cento da população ocidental vivia involuntariamente presa ao turbilhão de uma existência tumultuada, sem qualquer esperança de escape. Um sistema completo de autoconhecimento não poderia, portanto, ser oferecido como coisa viável ao grosso das pessoas. Como poderia então uma forma de vida que prometia ao mundo apenas uma paz intermitente como recompensa constituir-se na forma perfeita, verdadeira e integral há muito procurada pelas pessoas reflexivas? A combinação da prática da meditação com o trabalho mundano via de regra só tinha valor para aqueles que faziam concessões a um tipo imperfeito de meditação. 

Havia, contudo, uma única exceção. O sistema que outrora prevalecia entre os Zen-Budistas do Japão era sensato e prático. Os jovens que exibiam gosto e predisposição para a meditação eram levados para os mosteiros Zen e ali exercitados durante cerca de três anos. Durante esse período não havia distrações para perturbá-los, de maneira que o trabalho visando ao domínio da mente não sofria solução de continuidade. Os mestres japoneses, com um senso prático que amiúde faltava aos seus colegas hindus, não permitiam que seus discípulos abusassem da meditação ou do transe, mas insistiam na parcimônia. Contrariando a opinião generalizada, as capacidades dos japoneses iam além da imitação pura e simples. Os japoneses jamais se sujeitaram a ser seguidores inconscientes dos costumes nascidos na Índia e veiculados pelos chineses. Eles adotavam aquilo que atendias às suas próprias necessidades e rejeitavam o resto. O objetivo final do Zen medieval era criar homens argutos e determinados, donos de uma mentalidade pronta e lúcida, capazes de manter-se em calma atividade e hábil concentração através de todos os seus empreendimentos; capazes de entregar-se por inteiro ao serviço de seu país. A crassa letargia, a melancolia espectral e o antimundanismo de numerosos monges hindus não convinha a uma raça tão viril, otimista e prática. Não se permitia aos estudantes passar o dia de forma indolente, fútil ou parasitária; pelo contrário, eles recebiam tarefas rigorosas que os mantinham ativos. Sendo o objetivo do Zen uma existência equilibrada, os jovens eram obrigados a trabalhar bastante e meditar muito. Mas, ao final do período disciplinador, exceção feita àqueles que sentiam uma forte e inata vocação para o retiro monástico, os jovens eram devolvidos ao mundo a fim de que casassem, abraçassem uma carreira e tivessem êxito. Dotados do poder de concentra-se instantânea e firmemente, preparados para enfrentar as dificuldades e vicissitudes do viver cotidiano com imperturbável equanimidade, universalmente respeitados por sua elevação de caráter, eles geralmente se destacavam dos demais homens, colhendo enormes êxitos em suas carreiras. Numerosos dentre bos mais famosos soldados, estadistas, artistas e humanistas japoneses eram homens de formação Zen. O seu ideal era um equilíbrio perfeito entre o homem exterior e o interior, sendo a eficiência o traço dominante de ambos. Tão elevada era a qualidade da sua meditação que bastavam trinta minutos diários, depois de deixarem o mosteiro, para mantê-los em permanente paz espiritual. Assim, sua vida mundana não sofria rebate, pelo contrário, enriquecia-se. 

Parecia não haver como acomodar tal coisa à existência moderna, de maneira que éramos obrigados a encarar os fatos tais como são hoje.   

Paul Brunton em, A Sabedoria oculta além da ioga

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)