O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

A importância da base emocional e da educação psíquica

Os homens não se conhecem e não aprenderam a distinguir as diferentes partes de seu ser; pois habitualmente eles as reúnem indiscriminadamente sob o nome de mente, porque é por meio de uma percepção e de um entendimento mentalizados que eles as conhecem ou as sentem; por isso, eles não percebem seus próprios estados e ações, ou, quando muito, apenas na superfície. Uma parte do fundamento do Yoga (paradigma) é tornar-se consciente da grande complexidade de nossa natureza, ver as diferentes forças que a movem e conseguir sobre ela um controle de conhecimento dirigente. Somos compostos de muitas partes, e cada uma delas contribui com alguma coisa para o movimento total de nossa consciência, de nosso pensamento, vontade, sensação, sentimento e ação, mas não vemos a procedência ou o curso desses impulsos; percebemos apenas seus resultados confusos e tumultuados na superfície, sobre os quais, quando muito, podemos impor apenas uma ordem inconstante. 

[...]Yoga significa entrar em uma consciência em que não se é mais limitado pelo pequeno ego, pela mente pessoal, pelo vital e corpo pessoais, mas se está em união com o Si supremo ou com a consciência universal ou com alguma consciência mais funda dentro de si, em que se tem a percepção de sua própria alma, de seu próprio ser interior, e da verdade real da existência. 

[...] Há um plano vital (auto-existente) acima do universo material que nós vemos; há um plano mental (auto-existente) acima do vital e do material. Esses três juntos — mental, vital, físico — são chamados o triplo universo do hemisfério inferior. 

[...] Atrás de toda a natureza vital do homem, escondido e imóvel, está seu verdadeiro ser vital que é inteiramente diferente da natureza vital de superfície. O vital de superfície é estreito, ignorante, limitado, cheio de obscuros desejos, paixões, anseios, revoltas, prazeres e pesares, alegrias e dores transitórias, exultações e depressões. O verdadeiro ser vital, ao contrário, é amplo, vasto, calmo, forte, sem limitações, firme e inabalável, capaz de todo o poder, todo o conhecimento, toda felicidade, beatitude. Além disso ele é sem ego, pois se sabe uma projeção e um instrumento do Divino: ele é o Guerreiro Divino, puro e perfeito; há nele uma Força instrumental para todas as realizações divinas. É o verdadeiro ser vital que se tornou desperto e veio para a frente dentro de você. Do mesmo modo há também um ser mental verdadeiro, um ser físico verdadeiro. Quando estes se manifestam, então você percebe em si mesmo uma dupla existência: aquela que fica atrás é sempre calma e forte, somente a da superfície é perturbada e obscura. Mas se o ser verdadeiro atrás permanece estável e você vive nele, então a perturbação e a obscuridade ficam apenas na superfície; nessa condição, as partes exteriores podem ser dirigidas mais potentemente, e elas também se tornam livres e perfeitas. 

[...] O ser mental interno vigia, observa e passa em julgamento tudo o que percebe em você. O psíquico não vigia ou observa dessa maneira, como uma testemunha, mas sente e sabe espontaneamente de uma maneira muito mais direta e luminosa, pela pureza mesma de sua própria natureza e do instinto divino dentro de si, e então, sempre que vem para a frente, ele revela imediatamente quais são os movimentos certos e quais os errados em você, em sua natureza.

O ser do homem é composto destes elementos — o psíquico, atrás, sustentando tudo, o mental, o vital e o físico interiores, e a natureza exterior, completamente externa, da mente, da vida e do corpo, que é o instrumento de expressão deles. Mas acima de todos está o ser central, que os usa para sua manifestação: ele é uma porção do Si Divino; mas esta realidade de si próprio está escondida do homem externo, que substitui este seu si e alma mais íntimos pelo ego mental e vital. Apenas aqueles que começaram a conhecer-se (base emocional) tornam-se conscientes de seu verdadeiro ser central; mas ainda assim ele está sempre aí, atrás da ação da mente, da vida e do corpo, e é mais diretamente representado pelo psíquico, que, ele mesmo, é uma fagulha do Divino. É através do conhecimento do elemento psíquico na natureza do homem que este começa a entrar em contato consciente com o seu ser central superior. Quando isso acontece, e o ser central usa uma vontade consciente para controlar e organizar os movimentos da natureza, é que se tem então um real autodomínio, um autodomínio espiritual, oposto a um autodomínio parcial e meramente mental ou moral.

Sri Aurobindo em, A Consciência que Vê -Volume II

O passo decisivo para fora da superficial inteligência humana

Nosso primeiro passo decisivo para fora de nossa inteligência humana, de nossa mentalidade normal, é uma ascensão para uma mente mais alta, uma mente não mais de luz e obscuridade mescladas, ou de semiluz, mas de uma grande claridade do espírito. Sua substância básica é um sentido unitário de ser, com uma poderosa dinamização múltipla, capaz da formação de uma profusão de aspectos de conhecimento, modos de ação, formas e significados de tornar-se, de todos os quais há um espontâneo conhecimento inerente... Ela é uma mente-pensamento luminosa, uma mente de conhecimento conceitual nascido do espírito. Uma percepção-de-tudo emergindo da identidade original, carregando consigo as verdades que a identidade conteve em si, concebendo rapidamente, vitoriosamente, abundantemente, formulando, e, pelo autopoder da ideia, realizando efetivamente suas concepções, é o caráter desta mente maior de conhecimento.

Mas aqui neste Pensamento maior não há necessidade de um raciocínio que busca e se autocritica, nenhum movimento lógico passo passo em direção a uma conclusão, nenhum mecanismo ou deliberada concatenação de ideia com ideia para chegar a uma soma ou produto ordenado de pensamento...

Esta consciência mais alta é um Conhecimento formulando-se numa base de auto-existente percepção-de-tudo, e manifestando uma parte de sua integralidade, uma harmonia de suas significações posta em forma-pensamento. Ela pode expressar-se livremente em ideias singulares, mas seu movimento mais característico é uma ideação em massa, um sistema ou totalidade de visão da verdade num único olhar; as relações de ideia com ideia, de verdade com verdade, não são estabelecidas por lógica mas preexistem e emergem, já vistas pelo si, no todo integral. Há uma iniciação em formas de pensamento sempre presente mas até agora inativo, não um sistema de conclusões vindas de premissas ou dados; este pensamento é uma auto-revelação do Saber eterno, não um conhecimento adquirido.

Esta é a Mente Mais Alta em seu aspecto de cognição; mas há também o aspecto de vontade, de efetuação dinâmica da Verdade: aqui vemos que esta Mente maior e mais brilhante sempre trabalha no resto do ser — na vontade mental, no coração e seus sentimentos, na vida, no corpo — pelo poder do pensamento, pela força-ideia. Ela procura purificar através de conhecimento, criar pelo inato poder do conhecimento. A ideia é posta dentro do coração ou da vida como uma força a ser aceita e elaborada; o coração e a vida tornam-se conscientes da ideia e respondem a seus dinamismos, e sua substância começa a se modificar nesse sentido, de modo que o sentimento e ações se tornam as vibrações deste saber mais alto, são informados por ele, preenchidos com a emoção e o sentido dele: a vontade e os impulsos da vida são semelhantemente carregados com o poder e anseio de auto-efetuação dele; mesmo no corpo a ideia trabalha, de modo que, por exemplo, o pensamento e vontade de saúde potentes substituem a fé do corpo em doença e seu consentimento à doença, ou a ideia de força invoca a substância, poder, moção, vibração de força; a ideia gera a força e forma própria à ideia e a impõe a nossa substância de mente, vida ou matéria. É deste modo que o primeiro trabalhar procede; ele impregna o ser inteiro com uma consciência nova e superior, assenta uma base de mudança, prepara-o para uma verdade superior de existência.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A abertura do indivíduo à consciência cósmica

Uma terceira condição é a unificação do ser todo em torno do verdadeiro si e a abertura do indivíduo à consciência cósmica.
Uma unificação do ser inteiro por um desmoronamento da parede entre a natureza interior e a exterior — um deslocamento da posição e centramento da consciência, do si exterior para o si interior, um firme fundamento sobre esta nova base, uma ação habitual a partir da consciência individual para a consciência cósmica — é outra condição necessária para a mudança supramental. Seria quimérico esperar que a Consciência-Verdade-Suprema pudesse estabelecer-se na estreita formulação de nossa mente, coração e vida de superfície, embora voltados para a espiritualidade. Todos os centros interiores devem ter-se abertos com força e libertado suas capacidades para a ação; o ente psíquico deve ter-se desvelado e assumido o controle. Se esta primeira mudança não tiver sido feita, estabelecendo o ser na consciência interior e mais ampla, uma consciência yóguica em lugar de uma consciência comum, a transmutação maior é impossível
Além disso, o indivíduo deve ter-se universalizado suficientemente, ele deve ter refundido sua mente individual na infinitude de uma mentalidade cósmica, alargado e vivificado sua vida individual no sentido imediato e na experiência direta da moção dinâmica da vida universal, deve ter aberto amplamente as comunicações de seu corpo com as forças da Natureza Universal, antes que ele possa ser capaz de uma mudança que transcenda a presente formulação cósmica e o conduza além do hemisfério inferior da universalidade para uma consciência que pertence ao seu hemisfério espiritual superior. Além disso, ele já deve ter despertado para o que agora lhe é supraconsciente; já deve ser consciente da Luz, do Poder, do Conhecimento, da Tríplice-Consciência espirituais mais altos (Existência-Consciência-Alegria), impregnado de suas influências descendentes, feito novo por uma mudança espiritual.

A evolução espiritual obedece à lógica de um desenvolvimento sucessivo; ela só pode dar um novo passo principal decisivo quando o passo principal precedente foi suficiente dominado: mesmo que certos estágios menores possam ser engolidos ou saltados por uma ascensão rápida e brusca, a consequência atrás para assegurar de que o terreno transposto está solidamente anexado à nova condição. É verdade que a conquista do espírito pressupõe a execução numa única vida ou em poucas vidas, de um processo que no curso ordinário da natureza envolveria uma lenta e incerta marcha de séculos ou mesmo de milênios: mas isto é uma questão da rapidez com que os degraus são transpostos; uma velocidade maior ou concentrada não elimina os próprios degraus ou a necessidade de sua sucessiva transposição. A crescente rapidez só é possível porque a participação consciente do ser interior está aí e o poder da Supranatureza já está operando na natureza mais baixa semitransformada, de modo que os passos, que de outra forma teriam que ser dados em tentativas na noite da Inconsciência ou da Ignorância, podem agora ser dados em uma crescente luz e poder de Conhecimento.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A importância da confiança e entrega a um Poder Superior

Uma segunda condição consiste na obediência consciente, na entrega de nosso ser todo à luz, à verdade e à força de cima.
Mas esta mais alta condição é difícil e deve evidentemente levar muito mais tempo para produzir efeito; pois a participação e o consentimento do Puro Ser à transição não é suficiente, deve haver também o consentimento e participação da natureza inferior. Não somente o pensamento e a vontade centrais têm que aquiescer, mas todas as partes de nosso ser devem assentir e entregar-se à Lei da Verdade espiritual; tudo tem que aprender e obedecer ao governo do Poder Divino consciente, nos membros. Há em nosso ser dificuldades obstinadas, nascidas de sua constituição evolucionária, que militam contra este assentimento. Pois algumas destas partes ainda estão submetidas à inconsciência e subconsciência e ao automatismo mais baixo do hábito ou da assim chamada lei da natureza — o hábito mecânico da mente, hábito de vida, hábito de instinto, hábito de personalidade, hábito de caráter, os arraigados impulsos, necessidades, desejos mentais, vitais e físicos do homem natural, os velhos funcionamentos de todos os tipos, que lá estão enraizados tão fundo que parece que teríamos de cavar alicerces abissais para conseguir arrancá-los... A cada passo da transição o assentimento do Puro Ser é necessário, e deve haver também o consentimento de cada parte da natureza à ação do poder mais alto, para sua mudança. Deve haver então uma consciente autodireção do ser mental em nós rumo a esta mudança, a esta substituição da velha natureza pela Supranatureza, a esta transcendência. A lei de obediência consiste à verdade mais alta do espírito, a entrega do ser todo à luz e ao poder provenientes da Supranatureza, é uma segunda condição que tem que ser cumprida lentamente e com dificuldade pelo próprio ser, sem a qual a transformação supramental não pode tornar-se possível

Segue-se que a transformação psíquica e a espiritual devem estar bastante avançadas, ou mesmo tão completas quanto possível, antes que possa haver um início da terceira e consumadora mudança, a supramental; pois é somente por esta dupla transmutação que a autovontade da Ignorância pode ser totalmente alterada para uma obediência espiritual à verdade e vontade remodeladora da Consciência maior do Infinito. Um longo, difícil estágio de esforço constante, manutenção de energias, austeridade da vontade pessoal, concentração de energias por meio de práticas disciplinares, tem ordinariamente que ser atravessado antes que se possa alcançar um estágio mais decisivo, em que um estado de autodoação de todo o ser ao Ser Supremo e à Natureza Suprema se torne total e absoluto. 

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

O trabalho de base e a transformação Supramental

Qual seria a preparação para a transformação supramental? Primeiro, um controle cada vez maior do indivíduo sobre sua própria natureza e uma participação mais e mais consciente na ação da Supranatureza. 
Uma primeira condição desta mudança é o que o Homem mental, que agora somos, deveria tornar-se interiormente desperto e em posse da lei mais funda de seu ser e seus processos; ele deve tornar-se o ser psíquico e mental interior, mestre de suas energias, não mais um escravo dos movimentos da natureza mais baixa, mas controlando-a, seguramente situado em uma livre harmonia com uma lei mais alta da Natureza.

Na mente humana, há o primeiro aparecimento de uma inteligência observadora que olha o que está sendo feito, e de uma vontade e escolha que se tornaram conscientes; mas a consciência é ainda limitada e superficial: também o conhecimento é limitado e imperfeito, ele é uma inteligência parcial, um semi-entendimento, em grande parte tateante e empírico, ou, se racional, então racional por construções, teorias, fórmulas. Não há até agora uma visão luminosa que conheça as coisas por apreensão direta e as arranje com uma precisão espontânea de acordo com a visão, de acordo com o esquema de sua verdade inerente; embora haja um certo elemento de instinto, intuição e insight que tem algum começo deste poder, o caráter normal da inteligência humana é uma razão inquiridora ou um pensamento refletivo, que observa, supõe, infere, conclui, chega através de um duro trabalho a uma verdade construída, um esquema de pensamento construído, uma ação deliberadamente ordenada, de sua própria fabricação. 

Somente uma consciência intuitiva inteira e livre seria capaz de ver e de aprender as coisas por um contato direto e uma visão penetradora ou senso de verdade espontâneo nascido de unidade ou identidade subjacente, e de ordenar uma ação da Natureza de acordo com a verdade da Natureza. Isto seria uma participação real do indivíduo no trabalho da Força-Consciência universal; o Puro Ser individual se tornaria senhor de sua própria energia executiva e ao mesmo tempo um parceiro, agente e instrumento consciente do Espírito Cósmico no trabalhar da Energia Universal; a Energia Universal operaria através dele, mas também ele operaria através dela, e a harmonia da verdade intuitiva faria deste duplo trabalho uma única ação. Uma participação consciente cada vez maior deste tipo mais alto e mais íntimo deve ser um dos acompanhamentos da transição de nosso presente estado de ser para um estado de supranatureza. 

A individualidade tornar-se-ia, assim, cada vez mais poderosa e efetiva à proporção que se compreendesse como um centro e formação do Ser e Natureza Universal e transcendente. Pois à medida que a progressão da mudança se processasse, a energia do indivíduo liberto não seria mais a energia limitada de mente, vida e corpo, com a qual ele começou; o ser emergiria dentro de uma maior Luz de Consciência e de uma maior ação de Força e as assumiria — como elas emergiriam nele e desceriam para dentro dele, assumindo-o para dentro de si mesmas: sua existência natural seria a instrumentação de um Poder Superior, uma Força-Consciência sobremental e supramental, o poder da Energia Divina original. Todos os processos da evolução seriam sentidos como a ação de uma Consciência suprema e universal, uma orça suprema e universal trabalhando em qualquer modo que escolhesse, em qualquer nível, dentro de quaisquer limites autodeterminados, um trabalho consciente do Ser transcendente e cósmico, a ação da onisciente Mãe-Mundo erguendo o ser para dentro de si mesma, para sua supranatureza. Em lugar da Natureza e da Ignorância tendo o indivíduo como seu campo fechado e instrumento não-consciente ou semi-consciente, haveria uma Supra-Natureza da Gnose divina, e a alma individual seria seu campo e instrumento consciente, aberto e livre, uma participação em sua ação, ciente de seu propósito e processo, ciente também de seu próprio Si maior, a Realidade universal e transcendente, e de sua própria Pessoa como ilimitavelmente uma com isso, e ainda assim um ser individual de Ser ser, um instrumento e um centro espiritual. 

Uma primeira abertura a esta participação numa ação da Supranatureza é uma condição da virada rumo à transformação final, a supramental; pois esta transformação é a conclusão de uma passagem da harmonia obscura de um automatismo cego, com a qual a natureza parte para a autêntica espontaneidade luminosa, o movimento infalível da verdade auto-existente do Espírito. A evolução começa com o automatismo da Matéria e de uma vida inferior, em que tudo obedece implicitamente ao ímpeto da Natureza, tudo cumpre mecanicamente sua lei de ser, e por isso consegue manter satisfatoriamente uma harmonia de seu tipo limitado de existência e ação; ela prossegue através da prenhe confusão da mente e da vida de uma humanidade impelida por esta Natureza inferior, mas lutando para escapar de suas limitações, para dominá-la, dirigi-la e usá-la; ela emerge numa maior harmonia espontânea e ação autocumpridora automática, fundada na Verdade espiritual das coisas. Neste estado mais alto a consciência verá essa Verdade e seguirá a linha de suas energias com conhecimento pleno, uma participação forte e uma maestria instrumental, um completo deleite em ação e existência. Haverá uma perfeição de luminosa e desfrutada unidade com todos, em vez da sujeição cega e penosa do individual ao universal, e a todo momento a ação do universal no inidividual e do individual no universal será iluminada e governada pela lei da Supranatureza transcendente.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

O fogo interior que queima no coração

À medida que a crosta da natureza exterior racha, à medida que os muros de separação interior desmoronam, a luz interior irrompe, o fogo interior queima no coração, a substância da natureza e a matéria da consciência refinam-se, chegando a uma maior sutileza e pureza, e as experiências psíquicas mais fundas, aquelas que não têm somente um caráter mental inferior ou vital interior, tornam-se possíveis nesta substância mais sutil, mais pura, mais delicada; a alma começa a se revelar; a personalidade psíquica alcança sua plena estatura. A alma, o ente psíquico, manifesta-se então como o ser central que sustenta a mente, vida e corpo, e é o suporte de todos os outros poderes e funções exteriores do Espírito; ela assume sua função maior como guia e legislador da Natureza. Começa uma guiança, um governo de dentro, que expõe cada movimento à luz da Verdade, repele o que é falso, obscuro, oposto à realização divina: cada região do ser, cada canto e esquina dele, cada movimento, formação, direção, inclinação de pensamento, vontade, emoção, sensação, ação, reação, motivo, disposição, propensão, desejo, hábito do físico consciente ou subconsciente, mesmo o mais escondido, camuflado, mudo, recôndito, é banhado com a luz psíquica que não erra, suas confusões são dissipadas, seus ensinamentos são deslindados, suas obscuridades, ilusões, auto-enganos precisamente indicados e removidos; tudo é purificado, posto no lugar certo, toda a natureza harmonizada, modulada na totalidade psíquica, colocada em ordem espiritual. 

Este é o primeiro resultado, mas o segundo é uma livre afluência de todos os tipos de experiência espiritual, a experiência do Si, experiência Puro Ser e da Energia Divina, experiência da consciência cósmica, um contato direto com forças cósmicas e com os movimentos ocultos da Natureza universal, uma simpatia e unidade psíquica, uma comunicação interior e intercâmbios de todos os tipos com outros seres e com a Natureza, iluminações da ente pelo conhecimento, iluminações do coração pelo amor, devoção, alegria espiritual e êxtase, iluminações dos sentidos e do corpo por experiências mais altas, iluminações da ação dinâmica na verdade e amplidão de uma mente e coração e alma purificados, as certezas da luz e guiança divinas, a alegria e poder da força divina trabalhando na vontade e na conduta. Estas experiências são o resultado de uma abertura, para o exterior, do ser e da natureza interiores e mais íntimos; pois é então que entra em jogo o poder de consciência, inerente e livre de erro, da alma, sua visão, seu contato com as coisas, que é superior a qualquer cognição mental; existe aí, nativo à consciência psíquica em seu trabalhar puro, um senso imediato do mundo e seus seres, um contato interior direto com eles e um contato direto com o Si e com o Divino — um conhecimento direto, uma visão direta da Verdade e de todas as verdades, uma direta emoção e sentir espiritual penetrantes, uma intuição direta da vontade certa e da ação certa, um poder para reger e para criar uma ordem do ser, não pelas hesitações do si superficial, mas a partir de dentro, da verdade interior do si e das coisas, e das realidades ocultas da Natureza. 

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A tríplice transformação rumo à Realidade espiritual

A primeira condição para o completo emergir da alma é um contato direto do ser de superfície com a Realidade Espiritual. Porque vem dela, o elemento psíquico em nós sempre se volta para tudo que na Natureza fenomênica parece pertencer a uma Realidade mais alta, e possa ser aceito como sinal e caráter dela. Primeiro, ele procura esta Realidade através do bom, do verdadeiro, do belo, através de tudo que seja puro e delicado e elevado e nobre: mas embora este toque através de sinais e caracteres exteriores possa modificar e preparar a natureza, ele não pode mudá-la nem inteiramente nem no seu mais interior e profundo. Para uma tal mudança mais íntima, é indispensável o contato direto com a própria Realidade, dado que nenhuma outra coisa pode tocar tão profundamente os alicerces de nosso ser e incitá-lo ou, por meio de seu incitamento, lançar a natureza em um fermentar de transmutação. Representações mentais, figuras emocionais e dinâmicas têm seu uso e valor, a Verdade, o Bem, a Beleza são em si mesmos figuras primordiais e potentes da Realidade, e até mesmo em suas formas, como são vistas pela mente, sentidas pelo coração, realizadas na vida, podem ser linhas de uma ascensão: mas é numa substância e ser espirituais delas e da própria realidade que Aquilo que elas representam tem que vir para dentro de nossa existência. 

A alma pode tentar alcançar este contato principalmente através da mente pensante como intermediário e instrumento; ela coloca uma impressão psíquica sobre o intelecto e sobre a mente mais ampla da inteligência interior e intuitiva, e orienta-os nesta direção. Em seu ponto mais alto, a mente pensante é sempre atraída para o impessoal; em sua busca, ela se torna consciente de uma essência espiritual, de uma Realidade impessoal que se expressa em todos esses sinais e caracteres exteriores, mas é mais do que uma formação ou figuras manifestadoras. Ela sente algo de que ela se torna íntima e invisivelmente ciente — uma Verdade Suprema, um Bem Supremo, uma Beleza Suprema, uma Pureza Suprema, uma Beatitude Suprema; ela guarda o toque crescente, cada vez menos impalpável e abstrato, sempre mais espiritualmente real e concreto, o toque e expressão de uma Eternidade e Infinitude que é tudo isto que existe e ainda mais. Há uma pressão por parte desta Impessoalidade que procura moldar toda a mente dentro de uma forma sua; ao mesmo tempo o segredo e a lei impessoal das coisas torna-se mais e mais visível. A mente se desenvolve até à mente do sábio, primeiro do pensador mental superior, depois do sábio espiritual que foi além das abstrações do pensamento para os começos de uma experiência direta. Como resultado, a mente torna-se pura, ampla, tranquila, impessoal; há uma influência tranquilizadora semelhante sobre as partes da vida: mas quanto ao mais o resultado pode permanecer incompleto; pois a mudança mental conduz mais naturalmente rumo a um status interior e a uma quietude exterior, mas, equilibrada neste quietismo purificador, não sendo atraída, como as partes vitais, a uma descoberta de novas energias de vida, ela não pressiona por um efeito dinâmico pleno sobre a natureza. 

Um empenho mais alto através da mente não muda este equilíbrio; pois a tendência da mente espiritualizada é prosseguir para cima, e como acima dela mesma a mente perde seu domínio sobre as formas, é dentro de uma vasta impessoalidade sem forma e sem feição que ela entra. Ela se torna ciente do Si Imutável, do Espírito Imaculado, da pura nudez de uma Existência Essencial, do Infinito sem forma e do Absoluto sem nome. Esta culminação pode ser alcançada mais diretamente pelo imediato prosseguir para além de todas as formas e figuras, além de todas as ideias de bom ou mau, verdadeiro ou falso, belo ou não-belo, para Aquilo que excede todas as dualidades, para a experiência de uma suprema unicidade, infinidade, eternidade ou outra sublimação inefável da última e extrema percepção que a mente tem do Si ou Espírito. É alcançada uma consciência espiritualizada, e a vida se aquieta, o corpo deixa de necessitar e pedir, a própria alma se funde no silêncio espiritual. Mas esta transformação através da mente não nos dá a transformação integral; a transmutação psíquica é substituída por uma mudança espiritual nos raros e altos cumes, mas isto não significa a dinamização divina completa da Natureza. 

Uma segunda aproximação ao contato direto, feito pela alma, é através do coração: este é seu caminho próprio mais próximo e rápido, porque sua sede oculta está lá, exatamente atrás, no centro-coração (chakra do coração), em contato íntimo com o ser emocional em nós; consequentemente, é através das emoções que no começo ela pode agir melhor com seu poder nativo, com sua força viva de experiência concreta. É através do amor e adoração do Todo-belo e Todo-feliz, o Todo-bom, o Verdadeiro, a Realidade espiritual do amor, que a aproximação é feita; as partes estéticas e emocionais juntam-se para oferecer a alma, a vida, a natureza toda àquilo que elas veneram.Esta aproximação através da adoração só pode obter seu pleno poder e ímpeto quando a mente vai além da impessoalidade para a percepção-consciência de um Ser Pessoal supremo: então tudo se torna intenso, vívido, concreto; a emoção, o sentir, o senso espiritualizado do coração alcançam seu absoluto; uma inteira doação de si torna-se possível, imperativa. O homem espiritual nascente surge na natureza emocional como o devoto; se, em acréscimo, ele tem a direta percepção de sua alma e dos ditames dela, se ele une sua personalidade emocional à psíquica, e transforma sua vida e partes vitais, através de pureza, êxtase de Deus, o amor para com Deus e os homens e todas as criaturas, em algo de beleza espiritual, cheio de luz e bondade divinas, ele se desenvolve até a santidade e alcança a mais alta experiência interior e a mais considerável mudança da natureza próprias deste caminho de aproximação ao Ser Divino. Mas para o propósito de uma transformação integral também isto não é suficiente; tem que haver uma transmutação da mente pensante, e de todas as partes vitais e físicas da consciência, em seu próprio caráter.

Essa mudança maior pode ser em parte atingida se se acrescentar às experiências do coração uma consagração da vontade pragmática, que deve conseguir trazer consigo — pois de outro modo esta consagração não pode ser efetiva — a adesão da parte vital dinâmica, que sustenta o dinamismo mental e é nosso primeiro instrumento de ação externa. Esta consagração da vontade nos trabalhos procede por uma gradual eliminação da vontade do ego e seu poder motivador de desejo: o ego se sujeita a uma lei superior e finalmente se apaga, parece não existir ou existe apenas para servir a um Poder mais alto ou a uma Verdade mais alta, ou para oferecer sua vontade e seus atos ao Ser Divino, como instrumento. A lei de ser e ação, ou a Luz da Verdade que guia então o aspirante, pode ser uma claridade ou poder ou princípio que ele percebe na maior altura de que sua mente é capaz; ou ela pode ser uma verdade da Vontade divina que ele sente presente e trabalhando dentro dele, ou guiando-o por uma Luz ou uma Voz ou uma Força ou uma Pessoa ou Presença Divina. No fim, através deste caminho, chega-se a uma consciência na qual se sente a Força ou Presença agindo dentro e movendo ou governando todas as ações, e a vontade pessoal é inteiramente entregue ou identificada com essa Vontade-Verdade, Poder-Verdade ou Presença-Verdade maiores.

Uma combinação de todas estas três aproximações, a aproximação da mente, a aproximação da vontade, a aproximação do coração, cria uma condição espiritual ou psíquica do ser e natureza de superfície, em que há uma maior e mais complexa abertura à luz psíquica dentro de nós e ao Si espiritual, à Realidade agora sentida acima de nós, e que nos envolve e penetra. Na natureza há uma mudança mais poderosa e múltipla, uma edificação e auto-criação espirituais, o aparecimento de uma perfeição composta do santo, do trabalhador desprendido de si e do homem de conhecimento espiritual.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A verdade espiritual não é uma verdade de pensamento


[...] A verdade espiritual é uma verdade do espírito, não uma verdade do intelecto, não um teorema matemático ou uma fórmula lógica. Ela é uma verdade do Infinito, uma em infinita diversidade, e ela pode assumir uma infinita variedade de aspectos e formações: na evolução espiritual é inevitável que haja uma passagem e um estender-se por múltiplos aspectos rumo à Verdade única, uma apreensão dela por múltiplos aspectos; esta multiplicidade é o sinal da aproximação da alma a uma realidade viva, não a uma abstração ou a uma figura construída de coisas, que podem ser petrificadas em alguma fórmula morta ou rígida. A dura noção lógica e intelectual da verdade como uma só ideia que todos devem aceitar, uma ideia ou sistema de ideias anulando todas as outras ideias ou sistemas, ou um fato limitado singular ou fórmula singular de fatos que todos devem reconhecer, é uma transferência ilegítima da verdade limitada do campo físico para o campo muito mais complexo e plástico da vida, da mente e do espírito.

Esta transferência foi responsável por muito dano; ela traz para dentro do pensamento estreiteza, limitação, uma intolerância para com a necessária variação e multiplicidade de pontos de vista, sem as quais não pode haver totalidade de encontro com a verdade, e através da estreiteza e limitação, muita obstinação no erro. Ela reduz a filosofia a um labirinto infindável de disputas estéreis; a religião foi invadida por este engano e contaminada com dogmatismo, fanatismo e intolerância de credo. A verdade do espírito é uma verdade de ser e consciência e não uma verdade de pensamento: ideias mentais podem somente representar ou formular algumas facetas, algum princípio ou poder dela traduzido pela mente, ou enumerar seus aspectos, mas para conhecê-la deve-se crescer para dentro dela e sê-la; sem este crescer e ser não pode haver conhecimento espiritual verdadeiro. A verdade fundamental da experiência espiritual é uma só, sua consciência é uma só, em toda parte ela segue as mesmas linhas e tendências gerais de despertar e crescer até atingir um estado de ser espiritual; pois estes são os imperativos da consciência espiritual. Mas há também, baseadas nesses imperativos, inumeráveis possibilidades de variação de experiência e expressão: a centralização e harmonização destes possíveis, mas também o intensivo e exclusivo seguir até o fim de cada linha de experiência, são ambos, movimentos necessários da Consciência-Força espiritual, emergente dentro de nós. Além disso, a adequação de mente e vida à verdade espiritual, a expressão desta verdade neles, deve variar com a mentalidade do aspirante, enquanto ele não se tenha elevado acima de toda necessidade de tal adequação ou de tal expressão limitadora. Foi este elemento vital e vital que criou as oposições que ainda dividem os que buscam a espiritualidade, ou que se introduzem em suas divergentes afirmações da verdade que eles experienciam. Esta diferença e variação é necessária para a liberdade de busca espiritual e crescimento espiritual: ultrapassar diferenças é bem possível, mas isto é feito mais facilmente na experiência pura; na formulação mental a diferença deve permanecer até o momento em que se pode exceder por completo a mente e, numa mais alta consciência, integralizar, unificar e harmonizar a verdade multifacetada do Espírito.

O Supremo Si é um, mas as almas do Si são muitas, e tal como é a formulação da natureza da alma, assim será sua auto-expressão espiritual. Uma diversidade em unicidade é a lei da manifestação; a unificação e integração supramental deve harmonizar estas diversidades, mas aboli-las não é a intenção do Espírito na Natureza.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem 

O transmutar do homem mental ao ser espiritual

Somente a realização e experiência espiritual pode consumar a mudança do ser mental e um ser espiritual. 
Nenhuma destas três linha de aproximação (religião, ocultismo e pensamento espiritual) pode, por si mesmas, cumprir inteiramente a intenção maior e ulterior da Natureza; elas não podem criar no homem mental o ser espiritual, a não ser, e não antes, que elas abram a porta para a experiência espiritual. É somente por uma realização interior daquilo que estas aproximações estão buscando, por uma experiência decisiva ou por uma transmutação da consciência, por uma libertação do espírito de seu atual véu da mente, vida e corpo, que, então, o ser espiritual pode emergir. Esta é a linha final do progresso da alma, rumo à qual as outras estão apontadas, e quando ela está pronta para desprender-se das aproximações preliminares, então o trabalho real começou e o ponto decisivo da mudança não está mais longe. Até então, tudo o que o ser humano mental alcançou foi uma familiaridade com a ideia das coisas que estão além dele, com a possibilidade de um movimento de um outro mundo, com o ideal de uma perfeição ética; ele pode também ter estabelecido algum contato com Poderes ou Realidades maiores que ajudam sua mente ou coração ou vida. Pode haver uma mudança aí, mas não a transmutação do ser mental no espiritual. A religião, seu pensamento e ética e culto misticismo, produziu nos tempos antigos o sacerdote e o mago, o homem da piedade, o homem justo, o homem da sabedoria, muitos pontos altos da humanidade mental; mas — só depois que a experiência espiritual através do coração e da mente começou, que nós vemos surgirem o santo, o profeta, o Rishi, o Yogue, o vidente, o sábio espiritual e o místico, e são as religiões em que nasceram estes tipos do estágio humano de espiritualização as que duraram, cobriram o globo e deram à humanidade toda a sua aspiração e culturas espirituais. 

O último ou mais alto estágio é o homem liberto que realizou o Si e Espírito dentro dele, entro na consciência cósmica, atingiu a união com o Eterno e, até onde ele aceita ainda a vida e a ação, age, pela luz e energia do Poder dentro dele trabalhando através de seus instrumentos humanos da Natureza. A mais ampla formulação desta mudança e consecução espiritual é uma libertação total da alma, mente, coração e ação, um lançá-los todos para dentro do sentido do Si cósmico e da Realidade Divina. Foi então que a evolução espiritual do indivíduo achou seu caminho e arranjou para o alto seu pleno alcance de eminência himalaiana e seus cumes da mais alta natureza. Para além desta altura e amplidão abre-se somente a ascensão supramental ou Transcendência incomunicável. 

O objetivo e a consecução final da religião

Há quatro linhas principais que a Natureza seguiu em sua tentativa de começar a abrir o ser interior — religião, ocultismo, pensamento espiritual e uma realização e experiência espiritual interior: as três principais são aproximações, a última é a avenida decisiva de entrada. Todos estes quatro poderes trabalharam em ação simultânea, mais ou menos relacionados, às vezes em colaboração variável, às vezes em mútua disputa, às vezes em uma independência isolada. A religião admitiu um elemento oculto em seu ritual, cerimônia e sacramento; ela se debruçou sobre o pensamento espiritual de apoio — o primeiro é ordinariamente o método ocidental, o último o oriental: mas a experiência espiritual é o objetivo e a consecução final da religião, seu céu e ápice. 

Cada um desses meios ou organizações corresponde a algo em nosso ser total, e portanto a algo necessário ao objetivo total de sua evolução. Há quatro necessidades da auto-expansão do homem, para ele não permanecer este ser de ignorância de superfície, procurando obscuramente a verdade das coisas, coletando e sistematizando fragmentos e secções de conhecimento, a pequena criatura limitada e semicompetente da Força cósmica, que ele é agora em sua natureza fenomênica. Ele deve conhecer-se, descobrir e utilizar todas as suas potencialidades: mas para conhecer a si próprio e ao mundo completamente, ele tem que ir atrás de si mesmo e de seu exterior, tem que mergulhar fundo, abaixo de sua superfície mental e da superfície física da Natureza. Isto ele só pode fazer conhecendo seu ser mental, vital, físico e psíquico interior e seus poderes e movimentos, e as leis e processos universais da mente e Vida ocultas que estão atrás da fronte material do universo: este é o campo do ocultismo, se tomarmos a palavra em sua significação mais ampla. Ele deve também conhecer o Poder ou Poderes escondidos que controlam o mundo: se existe um Si Cósmico ou Espírito ou um Criador, ele deve ser capaz de entrar em relação com Ele ou com Isto, e ser capaz de se manter em qualquer contato ou comunhão possível, entrar em algum tipo de sintonização com Seres mestres do universo, ou com o Ser universal e sua vontade universal, ou com um Ser supremo e Sua suprema vontade, seguir a Lei que Ele lhe dá e o objetivo assinalado ou revelado de sua vida e conduta, erguer-se em direção à maior altura que Ele lhe exige em sua vida de agora ou em sua existência posterior; se não existe um tal Espírito ou Ser universal ou supremo, o homem deve saber o que existe e como erguer-se até isso, saindo de sua presente imperfeição e impotência.Esta aproximação é o objetivo da religião: seu propósito é ligar o humano com o Divino, e com isso sublimar o pensamento e a vida e a carne, de modo que eles possam admitir e o governo da alma e do espírito. Mas este conhecimento deve ser algo mais do que um credo ou uma revelação mística; a mente pensante do homem deve ser capaz de aceitá-lo, de correlacioná-lo com o princípio das coisas e a verdade observada do universo: este é o trabalho da filosofia, e no campo da verdade do espírito ele só pode ser feito por uma filosofia espiritual, seja intelectual em seu método ou intuitiva. Mas todo conhecimento e esforço só pode alcançar sua fruição se convertido em experiência e se chegou a ser parte integrante da consciência e de suas operações estabelecidas; no campo espiritual, todo esse esforço e conhecimento religioso, oculto ou filosófico, deve, para ser fecundo, terminar num abrir da consciência espiritual, em experiências que fundamentam e continuamente elevam, expandem e enriquecem esta consciência, e na edificação de uma vida e ação que está em conformidade com a verdade do espírito: este é o trabalho da realização e experiência espiritual.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

Levando adiante o processo de autodescoberta

Espiritualidade é algo diferente de intelectualidade; seu aparecimento é o sinal de que um Poder maior do que a mente está lutando para emergir a seu tempo.
É inteiramente verdadeiro que, para uma visão de superfície, a vida parece ser apenas uma operação da Matéria, a mente uma atividade da vida, e poderia parecer que em consequência disso o que nós chamamos alma ou espírito é apenas um poder das faculdades mentais, a alma uma forma mais sutil da mente, a espiritualidade uma atividade mais elevada do ser mental corporificado. Mas esta é uma visão superficial das coisas, devido ao fato de o pensamento se concentrar sobre a aparência e processo, não observando o que está por trás do processo.

[...] o que é necessário estabelecer primeiro é a existência do espírito como algo diferente da mente e maior do que ela, da espiritualidade como algo diferente da mentalidade, e do ser espiritual, portanto, como algo distinto do ser mental...
A espiritualidade é um despertar progressivo para a realidade interna de nosso ser, para um espírito, em si, uma alma, que é diferente de nossa mente, existência e corpo. É uma aspiração interior a conhecer, a entrar em contato e união com a Realidade maior que está além, a qual também preenche o universo e habita em nós, e, como resultado dessa aspiração, desse contato e dessa união, uma virada, uma conversão, o nascimento rumo a um novo ser. 
No animal, a mente não é completamente diferenciada de sua própria matriz-de-vida e matéria-de-vida; os movimentos dela estão tão envolvidos nos movimentos de vida, que ele não consegue desapegar-se deles, não pode estar distanciado e observá-los; mas no homem a mente se tornou separada, ele pode tornar-se consciente de suas operações mentais como distintas de suas operações existenciais, seu pensamento e sua vontade podem desprender-se de suas sensações e impulsos, desejos e reações emocionais, podem tornar-se desapegados deles, observá-los e controlá-los, sancionar-lhes ou cancelar-lhes o funcionamento: ele ainda não conhece suficientemente bem os segredos de seu ser para estar decisivamente e com certeza consciente de si como um ser mental em uma vida e corpo, mas ele tem essa impressão e pode assumir interiormente essa posição. Assim também a alma no homem, primeiramente, não aparece como algo completamente distinto da mente e da vida mentalizada; seus movimentos estão envolvidos nos movimentos da mente, suas operações parecem ser atividades mentais e emocionais; o ser humano mental não está ciente de haver nele uma alma, que se distancia da mente, vida e corpo, desapegando-se, vendo e controlando e moldando sua ação e formação: mas à medida que prossegue a evolução interior, isto é precisamente o que pode, deve, e chega a acontecer — longamente prorrogado, mas inevitável, próximo passo em nosso destino evolucionário. Pode haver uma emersão decisiva na qual o ser se separa do pensamento e vê a si mesmo num silêncio interior como o espírito na mente, ou se separa dos movimento de vida, desejos, sensações, impulsos cinéticos, e é ciente de si como o espírito sustentando a vida, ou se separa do sentido do corpo e se conhece como um espírito dando alma à Matéria; esta é a descoberta de nós mesmos como um ser mental ou uma alma-de-vida ou um si sutil suportando o corpo. Muitos tomam isso como uma descoberta suficiente do si verdadeiro; e em certo sentido eles estão certos; pois é o si ou o espírito que se representa assim em relação às atividades da Natureza, e esta revelação de sua presença é suficiente para para desprender o elemento espiritual: mas a autodescoberta pode ir mais longe, ele pode mesmo colocar de lado toda a relação com forma ou ação da natureza. Pois é claro que estes sis são representações de um Ente Divino, para o qual a mente, a vida e o corpo são apenas formas e instrumentos: somos então a Alma olhando a Natureza, conhecendo todos os seus dinamismos em nós, não por percepção e observação mental, mas por uma consciência intrínseca e seu direto senso das coisas e sua exata visão íntima, capaz então, por sua imersão, de impor um controle estrito sobre nossa natureza e de mudá-la. Quando há um completo silêncio no ser, seja uma tranquilidade no ser todo, ou uma tranquilidade que fica por trás, não afetada por movimentos de superfície, então podemos chegar a ter a percepção de Si, uma substância espiritual de nosso ser, uma existência que excede mesmo a individualidade da alma, expandindo-se na universalidade, ultrapassando toda dependência de qualquer forma ou ação natural, estendendo-se para o alto, para dentro de uma transcendência cujos limites não são visíveis. São estas as libertações da parte espiritual em nós que são os passos decisivos da evolução espiritual na Natureza. 

Quando acontece o emergir decisivo, um sinal dele é o status ou ação em nós de uma consciência inerente, intrínseca, auto-existente, que se conhece a si mesma pelo simples fato de ser, e conhece tudo que nela está desse mesmo modo, por identidade; começa mesmo a ver, ainda da mesma maneira, tudo o que à nossa mente parece ser exterior, por um movimento de identidade ou por uma consciência intrínseca direta que envolve, penetra, entra dentro de seu objeto, descobre-se no objeto, percebe nele alguma coisa que não é mente ou vida ou corpo. Há então, evidentemente, uma consciência espiritual, diferente da consciência mental, e ela testemunha a existência de um ser espiritual em nós, diferente de nossa personalidade mental de superfície.[...] Isto já é uma evolução considerável e significa um começo pelo menos de uma transformação psíquica e espiritual. Mas é possível ir mais longe; porque o ser espiritual, uma vez libertado interiormente, pode desenvolver na mente os estados mais altos de ser que são sua própria atmosfera natural, e trazer para baixo uma energia e ação supramentais, próprias à consciência-Verdade. A instrumentação mental, a instrumentação de vida e mesmo a instrumentação física ordinárias poderiam então ser inteiramente transformadas e tornar-se não mais partes de uma ignorância, conquanto iluminada, mas de uma criação supramental que seria a ação verdadeira de uma consciência-verdade e conhecimentos espirituais. 

Deve-se acentuar, portanto, que espiritualidade não é uma intelectualidade elevada, não é um idealismo, não é um movimento ético da mente ou pureza e austeridade morais, não uma religiosidade ou um fervor emocional ardente e exaltado, nem mesmo um composto de todas estas excelentes coisas; uma crença, credo ou fé mentais, uma aspiração emocional, uma regulação da conduta conforme uma fórmula ética ou religiosa, não são experiência nem conquista espiritual . Estas coisas são de valor considerável para a mente e para a vida; elas têm valor para a própria evolução espiritual como movimentos preparatórios, disciplinando, purificando ou dando uma forma adequada à natureza; m,as ainda pertencem à evolução mental — o começo de uma realização, uma experiência, uma mudança espiritual ainda não está aí. A espiritualidade é em sua essência um despertar para a realidade interior de nosso ser, para um espírito, um si, uma alma que é diferente de nossa mente, vida e corpo, uma aspiração interior a conhecer, sentir, ser isso, a entrar em contato com a Realidade maior que está além, que penetra o universo e habita também nosso próprio ser, a estar em comunhão com Ela, em união com Ela, e é uma guinada, uma conversão, uma transformação de nosso ser inteiro, como resultado da aspiração, do contato, da união, um crescimento ou um despertar para um novo vir-a-ser, ou um novo ser, um novo si, uma nova natureza.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A verdadeira religião e o religionismo

Se a religião falhou, é porque confundiu o essencial com o acidental. A verdadeira religião é a religião espiritual, é uma busca de Deus, é o abri da vida mais profunda da alma para a Divindade que nela habita, a eterna Onipresença. Dogmas, cultos, códigos morais são ajudas e suportes; eles podem ser oferecidos ao homem mas não lhe podem ser impostos. 
Num certo sentido é verdade que a religião deveria ser a coisa dominante na vida, sua luz e lei, mas a religião como ela deveria ser, e como é em sua natureza íntima, em sua lei fundamental de ser: uma busca de Deus, o culto da espiritualidade, o abrir da vida mais profunda da alma a Divindade que nela habita, a eterna Onipresença. Por outro lado, é verdade que a religião, quando se identifica somente com um credo, um culto, uma Igreja, um sistema de formas cerimoniais, bem pode tornar-se uma força de retardamento, e pode, portanto, surgir a necessidade, para o espírito humano, de rejeitar seu controle sobre as diversas atividades da vida. Há dois aspectos da religião, a verdadeira religião e o religionismo. A verdadeira religião é a religião espiritual, aquela que procura viver no espírito, no que está além do intelecto, além do ser estético e ético e prático do homem, e formar e governar estes membros de nosso ser pela luz e lei mais altas do espírito. O religionismo, pelo contrário, se entrincheira em uma estreita exaltação pietista dos membros mais baixos ou coloca ênfase exclusiva em dogmas, formas e cerimônias intelectuais, em algum código moral fixo e rígido, em um sistema religioso-político ou religioso-social. Não que estas coisas sejam inteiramente negligenciáveis ou que elas tenham que ser sem valor ou desnecessárias, ou que uma religião espiritual precisa desdenhar a ajuda de formas, cerimônias, credos ou sistemas. Pelo contrário, elas são necessárias ao homem, porque os membros mais baixos têm que ser exaltados e erguidos antes que possam ser inteiramente espiritualizados, antes que possam diretamente sentir o espírito e obedecer a sua lei. Uma fórmula intelectual é geralmente necessária para a mente pensante e raciocinante, uma forma ou cerimônia o é temperamento estético ou outras partes do ser infra-racional, um código moral estabelecido, para a natureza vital do homem, na virada de todas estas partes para a vida interior. Mas essas coisas são ajudas e apoios, não a essência; precisamente porque pertencem às partes racionais e infra-racionais, elas não podem ser nada mais e, se se insiste cegamente nelas, podem mesmo impedir a luz supra-racional. Tais como são, elas devem ser oferecidas ao homem e por ele usadas, mas não impostas a ele como sua única lei, por uma dominação forçada e inflexível. No uso delas, tolerância e livre permissão de variação  é a primeira regra a ser observada. A essência espiritual da religião, somente, é a única coisa supremamente necessária, a coisa na qual devemos sempre persistir firmemente, subordinando-lhe todos os outros elementos ou motivos.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem  

Corrigindo erros e recompondo o entendimento da religião

Bem frequentemente as religiões organizadas se opuseram ao progresso e tomaram partido das forças de obscuridade e opressão. E foi preciso uma negação, uma revolta da mente e coração humanos oprimidos, para corrigir esses erros e recompor a religião. isto não teria ocorrido se a religião fosse o guia verdadeiro e suficiente do todo da vida humana. 
Não precisamos seguir a mente racionalista ou ateísta através de toda sua agressiva acusa da religião. Não precisamos, por exemplo, colocar uma ênfase excessiva nas superstições, aberrações, violências, crimes mesmo, que Igrejas, cultos e credos favoreceram, admitiram, sancionaram, sustentaram ou exploraram em benefício próprio. Da mesma forma, poder-se-iam citar os crimes e erros cometidos em nome da liberdade ou da ordem como uma condenação suficiente do ideal de liberdade ou do ideal de ordem social. Mas temos que notar o fato de que tal coisa foi possível e encontrar-lhe a explicação... Devemos observar a raiz desse mal, que não está na verdadeira religião, propriamente, mas em suas partes infra-racionais, não em fé e aspirações espirituais, mas, em nosso ignorante confundir humano da religião com um particular credo, seita, culto, sociedade religiosa ou Igreja... 

A raiz inteira da insuficiência histórica da religião como um guia e controle da vida humana reside nisto. Igrejas e credos, por exemplo, obstruíram o caminho da filosofia e da ciência, queimaram um Giordano Bruno, encarceraram um Galileu, e geralmente se conduziram tão mal no que diz respeito a isto, que a filosofia e a ciência, em defesa própria, tiveram que atacar a religião e despedaçá-la a fim de obterem um livre campo para seu legítimo desenvolvimento; e isto porque os homens na paixão e escuridão de sua natureza vital,  escolheram pensar que a religião tinha de estar amarrada a certas concepções intelectuais fixas sobre Deus e o mundo, que não podiam suportar investigação, e portanto a investigação tinha que ser posta abaixo, pelo fogo e pela espada; a verdade científica e filosófica teve de ser negada para que o erro religioso pudesse sobreviver. Vemos também que um espírito religioso estreito frequentemente oprime e empobrece a alegria e beleza da vida, seja a partir de um intolerante asceticismo, ou da maneira como os puritanos o tentaram: pois não conseguiram ver que austeridade religiosa não é o todo da religião, embora possa ser um lado importante dela, não é a única aproximação ético-religiosa a Deus, uma vez que o amor, caridade, tolerância, bondade, são também, e mesmo mais, divinos, e eles esqueceram ou nunca souberam, que Deus é amor e beleza, da mesma forma que pureza. Na política, a religião frequentemente recorreu ao lado do poder e resistiu à vinda de ideais políticos mais amplos, porque ela mesma era, na forma de uma Igreja, sustentada por poder, e porque confundiu a religião com a Igreja, ou porque representou uma falsa teocracia, esquecendo que a verdadeira teocracia é o reino de Deus no homem, e não o reinado de um Papa, um clero, ou uma classe sacerdotal. Do mesmo modo, ela também suportou frequentemente um sistema social rígido e desgastado, pois julgou sua própria vida amarrada a formas sociais com as quais aconteceu ter estado associada durante boa parte de sua própria história, e erroneamente concluiu que mesmo uma mudança necessária seria uma violação da religião e um risco para a sua existência. Como se um poder tão imenso e íntimo como o espírito religioso no homem pudesse ser destruído por algo tão pequeno como a mudança de uma forma social, ou tão exterior como um reajustamento social! este erro, em suas muitas formas, foi a grande fraqueza da religião tal como praticada no passado, e a oportunidade e justificação para a revolta da inteligência, no sentido estético, do idealismo social e político, e mesmo do espírito ético do ser humano, contra o que deveria ter sido sua própria tendência mais alta e lei  

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

Por que a real religião está fora dos domínios da razão?

O coração mais profundo, a essência mais íntima da religião, à parte sua maquinaria externa de credo, culto, cerimônia e símbolo, é a busca de Deus e o encontro de Deus. Sua aspiração é descobrir o Infinito, o Absoluto, o Um, o Divino, que é tudo isto e ainda assim nenhuma abstração, mas um Ser. Seu trabalho é um sincero vivenciar de verdadeiras e íntimas relações entre o homem e Deus, relações de unidade, relações de diferença, relações de um conhecimento iluminado, um amor e deleite extáticos, uma absoluta entrega e serviço, um lançar de cada parte de nossa existência para fora de seu status normal e para dentro de um ímpeto de ascensão do homem para o Divino, e uma descida do Divino para dentro do homem. Tudo isso nada tem a ver com o domínio da razão ou suas atividades normais; seu objetivo, sua esfera, seu processo supra-racional. O conhecimento de Deus não pode ser alcançado pensando-se os débeis argumentos da razão a favor ou contra sua existência: ele só pode ser alcançado por um transcender de si mesmo e uma consagração, aspiração e experiências absolutas. Tampouco essa experiência procede através de algo como o experimento científico racional ou o pensar filosófico racional. Mesmo naquelas partes de disciplina religiosa que mais parecem assemelhar-se ao experimento científico, o método é uma verificação de coisas que excedem a razão e seu tímido alcance. Mesmo naquelas partes de conhecimento religioso que mais parecem assemelhar-se a operações intelectuais, as faculdades iluminadoras não são imaginação, juízo lógico e racional, mas revelações, inspirações, intuições, discernimentos intuitivos que saltam para nós descendo de um plano de luz supra-racional. O amor de Deus é um sentimento infinito e absoluto que não admite nenhuma limitação racional e não usa uma linguagem de veneração e adoção racional; o deleite em Deus é aquela paz e alegria que excede todo entendimento. O render-se a Deus é o render-se do ser inteiro a uma luz, vontade, poder e amor supra-racionais, e seu serviço não leva em conta os compromissos com a vida, que a razão prática do homem usa como a melhor parte de seu método na conduta comum da existência mundana. Onde quer que a religião realmente se encontre a si mesma, onde quer que ela se abra para seu próprio espírito — há muito daquele tipo de prática religiosa que é vacilante, imperfeita, semi-sincera, pouco segura de si mesma, e na qual a razão pode insinuar uma palavra — seu caminho é absoluto e seus frutos inefáveis. 

[...] Uma vez que o infinito, o absoluto e transcendente, o universal, o Um, é o secreto cume da existência, e alcançar a consciência espiritual e o Divino, a última meta e objetivo de nosso ser, e portanto do desenvolvimento inteiro do indivíduo e da coletividade em todas as suas partes e todas as suas atividades, a razão não pode ser o último e mais alto guia... Pois a razão se detém antes de chegar ao Divino, e só se compromete com os problemas da vida... Onde então podemos encontrar a luz que guia e o princípio regulador e harmonizador? 

A primeira resposta que nos vem, a resposta constante dada pela mente asiática, é que devemos encontrá-la diretamente e de imediato na religião. 

Uma certa preeminência da religião, o sombrear ou ao menos o colorir da vida, um exceder em altura todos os outros instintos e ideias fundamentais pelo instinto religioso e a ideia religiosa, não é, podemos notar, peculiar às civilizações asiáticas, mas tem sido sempre mais ou menos o estado normal da mente humana e de sociedades humanas... Devemos então supor que nessa orientação, nessa parte predominante atribuída à religião pela coletividade humana normal, há alguma grande necessidade e verdade de nosso ser natural, para a qual devemos sempre retornar, seja qual for a duração de uma infidelidade. 

[...] Por outro lado, devemos reconhecer o fato de que em um tempo de grande atividade, de alta aspiração, de profundo semear, de rica frutificação, tal como a era moderna com todas as suas falhas e erros foi — um tempo especialmente em que a humanidade se livrou de muitas coisas cruéis, más, ignorantes, escuras, odiosas, não pelo poder da religião, mas pelo poder da inteligência despertada e do idealismo e simpatia humanos — esta predominância da religião foi violentamente atacada e rejeitada por aquela porção da humanidade que durante esse tempo foi o porta-estandarte do pensamento e do progresso, a Europa após a Renascença, a Europa moderna.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

Um silêncio incompreensível

Quando se atinge a iluminação, a visão total atingida é tão clara que o indivíduo não faz mais do que rir e até, em aparência, ser irreverente, quando vê a fantástica superestrutura de superstições, ilusões e mistérios que está erigida (pelas nossas crenças e religiões, tradições, costumes e cultura, suposições e sociedade) sobre e em torno da simplicidade elementar que é a Verdade.

Quando você está interessado na verdade, na realidade, você deve questionar todas as coisas, mesmo sua própria vida. Ao crer na necessidade de uma experiência sensorial e intelectual emocionante, você limita sua investigação à busca de satisfação e de conforto. (E não vai à busca da Verdade).

Enquanto houver um corpo e uma mente para proteger o corpo, existirão atrações e repulsões (devidos às limitações da mente individual em face de suas ilusões, suposições, crenças, cultura etc.).

Existirão no campo dos fatos, mas não devem trazer preocupação para aquele que está compreendendo. O foco de sua atenção estará em outro lugar (além da mente). Não estará distraído.

Este que vê o tudo isto e também vê o nada, é o mestre interior (aquilo a que damos o nome de Deus). Só ele é; todo o restante parece ser. Ele é seu próprio ser, sua esperança e segurança de liberdade: encontre-o e una-se a ele (isto é, perceba-o), e estará a salvo e seguro (‘... a Verdade vos libertará’).

A Libertação não é uma aquisição, mas uma questão de coragem; coragem de aceitar que você já é livre e de agir com base nisso.

Pergunta: Mas pensar, racionalizar não é o estado normal da mente? A mente pode parar de trabalhar, de funcionar?

Nisargadatta Maharaj - Pode ser o seu estado habitual, mas isso será sempre o seu estado normal? Um estado normal não é doloroso enquanto que o habitual quase sempre leva à dor e ao sofrimento.

Pergunta: Se esse não é o estado natural ou normal da mente, como cessá-lo? Deve haver uma forma de aquietar a mente. Quantas vezes digo a mim mesmo: ‘por favor, pára, chega deste falatório sem fim, de frases repetidas vezes sem conta!’ Mas a minha mente não pára. Sinto que é possível pará-la um pouco, mas não por muito tempo. Até mesmo os assim chamados "espirituais" usam artimanhas para manter as suas mentes quietas. Eles repetem fórmulas, cantam, rezam, fazem respiração forçada ou suave, giram, concentram-se, meditam, buscam transes, cultivam virtudes - trabalham o tempo todo de forma a pararem de trabalhar, pararem de procurar, pararem de se mover (para que a mente pare de operar). Quando isso não é trágico, é ridículo.

Nisargadatta - A mente existe em dois estados: enquanto água e enquanto mel. A água vibra ao mínimo distúrbio enquanto que o mel, embora perturbado, retorna rapidamente à imobilidade.

Pergunta: Pela sua natureza a mente é agitada. Talvez ela possa ser aquietada, mas não é quieta por si mesma, não é isso?

Nisargadatta: Quando tens febre, tremes a toda a hora. São os desejos e os medos (a febre) que fazem a mente inquieta (trêmula). Livre de todas essas emoções a mente fica quieta.

Pergunta: Sim, às vezes sinto isso. Mas sempre que a sensação de perigo se instala, eu me sinto isolado, à parte de todas as relações com os outros. Você entende? É aqui que está a diferença entre as nossas mentalidades. Na mentalidade hindu, a emoção segue o pensamento. Dê a um hindu uma idéia e as suas emoções afloram. Com um ocidental é o oposto: dê-lhe uma emoção e ele irá produzir muitas idéias. As suas idéias são muito atrativas intelectualmente, mas emocionalmente não.

Nisargadatta - Coloca o teu intelecto à parte. Não o uses nestes assuntos (isto é, esqueça o ‘eu’).

Pergunta: De que serve um conselho se não podemos lhe dar continuidade (se não podemos aplicá-lo corretamente)? Tudo isto são idéias e você quer que eu não responda emotivamente às idéias. Sem emoção, como pode haver ação?

Nisaragadatta - Por que falas em ação? Alguma vez ages por conta própria? Algum poder desconhecido age e tu imaginas que és tu que estás a agir. Tu estás meramente a ver o que acontece sem poderes influenciar em nada (és apenas testemunha).

Pergunta: Por que há uma resistência tão grande em mim para a aceitação de que não posso fazer nada, de que não decido nem escolho?

Nisargadatta - Mas, que podes tu fazer? Tu és como um paciente sob anestesia no qual o cirurgião faz uma cirurgia. Quando acordas vês que a operação terminou; podes dizer que fizeste alguma coisa?

Pergunta: Mas fui eu que escolhi submeter-me à cirurgia.

Nisargadatta - Claro que não. Foi a tua doença, por um lado, e a pressão do teu médico e da família, por outro, que te fizeram, aparentemente, decidir. Não tens escolha alguma; apenas a ilusão de que escolhes, de que tu decides; não há escolha.

Pergunta: No entanto, não me sinto tão indefeso quanto você faz parecer. Sinto que posso fazer tudo aquilo que penso; só não sei como fazer. Não é o poder que me falta, é o conhecimento.

Nisargadatta - Não conhecer os meios para fazer é admitido como sendo tão mau quanto não ter o poder! Mas deixemos este assunto por agora; afinal, não é importante o motivo pelo qual nos sentimos indefesos, mas sim que consigamos ver claramente que neste momento somos indefesos.

Eu tenho agora 74 anos e, no entanto, me sinto como se fosse uma criança. Eu sinto claramente que apesar de todas as mudanças eu sou uma criança. O meu Guru disse-me: essa criança, que és tu neste exato momento, é o teu verdadeiro eu. Volta a esse estado de puro ser, onde o "Eu sou" ainda está na sua pureza antes de ter sido contaminado e confundido com "eu sou isto" ou "eu sou aquilo". O teu fardo (os teus problemas) é de falsas identificações - abandona-as todas. O meu Guru disse: "Confia em mim. Eu te digo: tu és divino. 

Toma isto como verdade absoluta. A tua alegria é divina, o teu sofrimento também é divino. Tudo vem de Deus. Lembra-te sempre: Tu és Deus, e sempre é feita a tua vontade." Eu acreditei nele e rapidamente realizei o quão as suas palavras eram verdadeiras e certas.

Não condicionei a minha mente pensando: "Eu sou Deus, eu sou maravilhoso, eu estou além." Simplesmente segui a sua instrução que era focar a mente no puro "Eu sou" e ficar aí. Eu costumava sentar-me durante horas seguidas com nada exceto o "Eu sou" na minha mente e, cedo, a paz e a alegria e um amor profundo e envolvente tornaram-se o meu estado normal. Nisso, tudo desapareceu - eu, o meu Guru, a vida que vivia, o mundo à minha volta. 

Apenas a paz se manteve envolta por um silêncio incompreensível.

Pergunta: Parece tudo muito simples e fácil, mas não é. Às vezes acontece o maravilhoso estado de alegria e eu olho e penso: quão facilmente vem e quão parece íntimo e totalmente meu. Onde estava a necessidade de lutar tão fortemente por este estado que é tão próximo? Mas cedo esse estado se dissolve e deixa-me a pensar se teria sido realidade ou alguma ilusão. Se era realidade, por que se foi embora? Talvez seja necessária alguma experiência singular para se ficar nesse novo estado para sempre e, até que essa experiência crucial aconteça, este jogo de esconde-esconde vai continuando.

Nisargadatta - A tua expectativa de algo singular e dramático, de alguma explosão maravilhosa, está apenas a atrasar (é apenas obstáculo) a tua realização. Não é para esperares uma explosão, pois a explosão (esse milagre) já aconteceu - no momento do teu nascimento, quando te realizaste como sendo ser-conhecimento-sensação. Há apenas um erro que estás a fazer: tu tomas o dentro como sendo o fora e o fora como sendo o dentro.

O que está em ti, tu tomas como estando fora de ti, e, o que está fora, tu tomas como estando dentro de ti (isto é, a tua interpretação sempre incorreta das coisas do mundo).

A mente e os sentimentos são externos, mas tu os tomas como internos, íntimos. Tu acreditas que o mundo é objetivo, mas ele é inteiramente uma projeção da tua psique. 

Essa é a confusão básica e nenhuma explosão a vai esclarecer. Tens de te pensar fora disso. Não há outra forma.

Nisargadatta Maharaj em I Am That

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)