O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Descubra sua real miséria

As pessoas vêm a mim e eu tenho de lhes dizer para fazer isto e aquilo, porque elas não compreenderão que já são liberadas. Eu tenho de lhes dizer para fazer isto e aquilo, apenas com finalidade de exauri-las, apenas para que um dia elas fiquem tão exaustas com o esforço, que venham a mim e digam: "Eu não quero fazer nada". Somente então, eu posso dizer que não há necessidade de fazer nada. 

Mas vocês precisam fazer muito, quando chegaram, no começo. Vocês precisam fazer muito. E se eu digo que não necessidade de fazer nada, vocês irão para a outra pessoa que possa dizer que há algo a fazer". Não há nada a ser feito. Absolutamente como você é, você já é divino".

"As últimas palavras de Jesus foram: "Deus, perdoe-os, porque eles não sabem o que estão fazendo. Não os puna, porque eles são ignorantes". Este é o maior milagre, na crucificação: o corpo todo sofrendo e ele morrendo - e ainda assim, cheio de amor. A raiva teria sido absolutamente normal. Se ele tivesse gritado e amaldiçoado e dito "Deus, olhe o que estão fazendo com o seu filho! Mate-os todos! isso teria sido comum, humano.

Aquilo foi divino. Na crucificação, ele provou que ele era o filho de Deus, porque a compaixão permaneceu pura. Vocês não puderam destruir seu coração. O que quer que tenham feito, ele os aceitou. Ele não rejeitou. Ele disse: "Perdoe-os, porque eles não sabem o que estão fazendo".

Os milagres acontecem, mas não eram milagres que os olhos pudessem ver, eram da espécie que somente o coração pode sentir. Ele não foi um mágico. Se ele fosse um mágico e realmente tivesse tentado transformar pedra em pão e tentado curar os leprosos em corpos sadios, ele não teria valido muito, eu não me preocuparia com ele absolutamente. A coisa toda teria sido inútil então.

Mas tentem compreender: assim como há uma cegueira interna, há uma lepra interna. Vocês são feios, e vocês mesmo fizeram essa feiúra: tão cobertos de culpa, cheios de medo, ciumentos, ansiosos - essa é a lepra. Ela está comendo seu mundo interno como um verme: você é uma ferida por dentro. Ele curou, mais isso é uma coisa particular. Isso acontece entre um mestre e o discípulo: ninguém mais fica ciente disso. Até o discípulo só se torna ciente somente mais tarde.

O mestre está ciente desde o começo de que a ferida está curada. Leva tempo para o discípulo ficar ciente de que a ferida está curada. Comumente, durante muitos, muitos dias, eles continuam com a velha ideia de que a ferida está ali - mas ninguém mais pode vê-la.

Sua miséria é que você não pode se lembrar de quem você é. 

É preciso lembrar-se de si, nada mais é para ser feito. Você tem de se tornar mais consciente, mais consciente. Você tem de elevar sua consciência ao pico, de onde você possa ver. 

Nesse momento, você se torna iluminado: nenhum canto permanece escuro, todo o seu ser se torna chamejante. Então, você compreenderá Jesus, então você compreenderá Buda, então você me compreenderá, porque todo o esforço é torná-lo consciente de quem você é.

OSHO

Você é o caminho e a meta, não há nada mais a alcançar

Quando você não exigir nada do mundo, nem de Deus, quando você não quiser nada, não buscar por nada, e não esperar nada, então o Estado Supremo virá até você sem ser convidado, e inesperado.

Um sábio comanda uma forma de percepção espontânea, não sensorial, a qual o faz conhecer as coisas diretamente, sem a intermediação dos sentidos. Ele está além do perceptual e do conceitual, além das categorias de tempo e espaço, nomes e formas. Ele não é nem o percebido nem o percebedor, mas o fator simples e universal que torna a percepção possível.

Atualmente, seu Ser está misturado com o experimentar. Tudo o que você precisa é separar o Ser da mistura das experiências. Uma vez que você tenha conhecido o puro Ser, sem ser isto ou aquilo, você vai discerni-lo entre as experiências; e não será mais enganado por nomes e formas. Auto-limitação é a própria essência da personalidade.

O buscador é aquele que está em busca de si mesmo. Logo ele descobre que seu próprio corpo ele não pode ser. Uma vez que a convicção 'Eu não sou meu corpo' se torne tão enraizada que ele não possa mais sentir, pensar ou agir para, e em benefício do corpo, ele descobrirá facilmente que ele é o ser universal, sabendo, agindo; que nele, e através dele, todo o universo é real, consciente e vivo. Este é o cerne do problema. Ou você é corpo-consciência e um escravo das circunstâncias, ou você é a consciência universal em si mesma - e no controle de cada evento. Mesmo assim, consciência, individual ou universal, não é o meu verdadeiro lar; eu não estou nela, ela não está em mim, não há um 'eu' nele. Eu estou além, apesar de não ser fácil de explicar como alguém pode ser nem consciente nem inconsciente, mas apenas além. Eu não posso dizer que eu estou em Deus ou que eu sou Deus; Deus é a luz universal e amor. A testemunha universal; eu estou até mesmo além do universal.
No sono profundo, você não é uma pessoa auto-consciente, mas, mesmo assim, está vivo. Quando você está vivo e consciente, mas não mais auto-consciente, você não é mais uma pessoa. Durante as horas de vigília você está, como se fosse em um palco, atuando em uma peça. Mas o que você é quando a peça termina? Você é o que você é; o que você era antes da peça começar você continua sendo quando ela acaba. Olhe para si mesmo como atuando no palco da vida. A performance pode ser esplêndida ou sofrível, mas você não está nela, você simplesmente a observa; com interesse e simpatia, claro, mas mantendo em mente o tempo todo que você está apenas observando enquanto a peça - a vida - está acontecendo.

A ignorância é como uma febre - faz você ver coisas que não estão ali. O Karma é o tratamento prescrito pela divindade. Dê a ele as boas vindas e siga suas instruções fielmente, que você logo ficará bom. Um paciente deixará o hospital depois de se recuperar. Insistir em liberdade de escolha ou ação imediatas apenas retardará a recuperação. Aceite seu destino e cumpra-o, este é o melhor caminho para se libertar do destino.

Aceitação não significa não-agir, omitir-se. Pelo contrario; somente com a aceitação poderemos escolher como agir construtivamente. Se negarmos o que quer que seja, tal qual uma pessoa que nega estar doente, porque ela tomaria o remédio? A aceitação da situação é condição necessária para o agir corretamente.

Volte ao estado de puro Ser, onde o 'Eu Sou' ainda é puro, antes de ser contaminado pelo 'Eu sou isso' ou 'Eu sou aquilo'. Seu fardo são as falsas auto-identificações - abandone todas elas.
É suficiente que você não se imagine como sendo seu corpo. É a idia 'Eu sou esse corpo' que é tão calamitosa. Ela o cega completamente para a sua natureza real. Nem sequer por um momento pense que você é seu corpo. Não dê a si mesmo nenhum nome, nenhuma forma. A realidade é encontrada na escuridão e no silêncio.

Você não precisa parar de pensar. Apenas deixe de estar interessado. É o desinteresse que liberta. Não se apegue, isso é tudo.

O que no seu caso ocupa todo o campo da consciência, é apenas uma fagulha no meu. O mundo dura apenas um momento. É a sua memória que lhe faz pensar que o mundo continua. Eu não vivo pela memória. Eu vejo o mundo como ele é, uma aparição momentânea na consciência.

Existência e não-existência dizem respeito a espaço e tempo, aqui e agora, lá e então, os quais, novamente, estão na mente.
Onde está a necessidade de mudar alguma coisa? A mente está mudando o tempo todo, de qualquer maneira. Olhe para sua mente desapaixonadamente; isso é o suficiente para acalmá-la. Quando ela estiver silenciosa, você pode ir além dela. Não a mantenha ocupada o tempo todo. Faça parar, e apenas seja. Se você lhe der descanso, ela vai se estabilizar e recobrará sua pureza e força. O pensamento constante a faz decair.

O valor definitivo do corpo é que ele serve para descobrir o corpo cósmico, o qual é o universo na sua totalidade. Na medida em que você se descobre se manifestando, você continua a descobrir que é sempre mais do que tinha imaginado.

Dor e prazer sempre andam juntos. Liberdade de um significa liberdade de ambos. Se você não se importa com o prazer, não terá medo da dor. Mas há a felicidade, a qual não é nenhum dos dois, a qual está completamente além.

No momento, você é dirigido pelo princípio do prazer-dor, que é o princípio do ego. Você está acompanhando o ego; e não lutando contra ele. Você nem sequer está consciente do quão totalmente está envolvido nas suas considerações pessoais. Um homem deveria estar sempre revoltado contra si mesmo, porque o ego, como um espelho rachado, estreita e distorce. É o pior de todos os tiranos, ele o domina absolutamente.

O puro Ser, preenchendo tudo e além, não é a existência, a qual é limitada. Toda limitação é imaginária, apenas o ilimitado é real.
A pessoa é simplesmente o resultado de um equívoco. Na realidade, não existe tal coisa. Sentimentos, pensamentos e ações desfilam ante o observador em uma sucessão sem fim, deixando traços no cérebro e criando a ilusão da continuidade. Um reflexo do observador na mente cria o sentimento de 'Eu' e a pessoa adquire uma existência aparentemente independente. Na realidade não há pessoa, apenas o observador identificando-se a si mesmo com o 'Eu' e o 'meu'.

Não há etapas para a realização. Não há nada gradual sobre ela. Ela acontece repentinamente e é irrevogável. Você entra em uma nova dimensão, vistas a partir da qual as anteriores são meras abstrações. Assim como no nascer do sol você vê as coisas como elas são, da mesma maneira, na auto-realização você vê tudo como é. O mundo da ilusão é deixado para trás.

Acredite em mim, não há meta, nem maneira de alcançá-la. Você é o caminho e a meta, não há nada mais a alcançar, exceto você mesmo. Tudo o que você necessita é compreender, e compreensão é o florescimento da mente. A árvore é perene, mas a florada e o amadurecimento dos frutos vêm no tempo certo. As estações mudam, mas não a árvore. Você é a árvore. Você teve inumeráveis galhos e folhas no passado, e você ainda os terá no futuro - mas você permanece. Você deve conhecer não o que era, ou virá a ser, mas o que É. Seu é o desejo que cria o universo. Saiba que o mundo é sua própria criação, e seja livre.

A vida em si mesma não tem desejos. Mas o eu falso quer continuar - prazeirosamente. Por essa razão, está sempre trabalhando para garantir a sua continuidade. A vida é destemida e livre. Enquanto você tiver a ideia de estar influenciando os eventos, a libertação não é para você; a própria noção de ser o autor, de ser uma causa, é um laço que prende.

Nisargadatta Maharaj em Seeds of Consciousness

O mundo é como o reflexo num espelho

Pergunta: As vezes eu sinto que é egoísmo querer a Auto-Realização. Parece que eu devo seguir a sadhana sozinho e ser indiferente a todas as pessoas sofredoras que vejo a minha volta… Como posso ignorar deliberadamente todo este sofrimento que vejo a minha volta sem sentir-me culpado?

Annamalai Swami: Não há sociedade, não há sofrimento e não há mundo. (Eles) são parte do seu sonho. Eles não tem realidade exceto na sua mente…

O mundo é como o reflexo num espelho. O mundo que vemos é apenas um reflexo de nossas gunas, nosso próprio estado mental. Nós vemos o reflexo, esquecemos o espelho, e imaginamos que estamos olhando para um mundo real que é separado de nós.

Você está constantemente irradiando uma energia mental que afeta tudo e todos a sua volta. Se você está num estado rajastico ou tamasico você está automaticamente infectando o mundo com seu estado mental doentio. O jnana, que está estabelecido na realidade além das gunas, experiencia somente paz e bem aventurança. Ele sozinho pode ajudar outras pessoas irradiando para elas sua paz e bem aventurança. Se você tenta ajudar este mundo com alguma atividade física, o bem que você possa fazer pode ser eliminado pelas vibrações mentais negativas que você infringe a este mundo.

Se você vê sofrimento a sua volta ele é apenas um reflexo do seu próprio sofrimento interior. Se você quer aliviar o sofrimento então vá à causa raiz que é o sofrimento dentro de si mesmo. Mergulhe no EU.

Termine o sonho de maya e desperte para o mundo real do jnana. Sua ideias sobre o mundo são todas erradas porque você o percebe erradamente. Sua mente está processando o que você vê de tal forma que faz você pensar que há um mundo de sofrimento fora e separado de você… Você deve eliminar o processo mental que o faz percebê-lo erradamente. Quando você alcançar o estado de jnana não haverá mais percepções erradas. Sua visão será completamente clara. Você estará consciente de que não há nenhum sofrimento e nenhum mundo. Você será consciente que existe somente o Eu.

-- Ramana Maharshi

Os artistas, os sábios e os místicos da consciência

De todos os seres da natureza, o humano é o único que se pergunta sobre a sua própria identidade. É que à humanidade, nascida há milênios na noite do passado, coube o destino original de reconhecer, a si mesma e ao mundo, a tarefa de emergir progressivamente do paraíso da inconsciência para a contínua elaboração da consciência, sendo esta o espelho que tudo reflete. Dessa forma, o grandioso destino da humanidade é desentranhar pouco a pouco a perfeição que existe na estrutura do universo e, através de si mesma, no seu ser e na sua vida, dar uma visibilidade consciente a essa perfeição, tornando-a humana. Assim, tudo o que existe — universo, natureza, história e, segundo C. G. Jung, até mesmo Deus — passa pelo filtro humano, a fim de se tornar consciente e humanizado. 

O centro do processo é o próprio humano. Mas o que é o humano? Conforme os introvertidos, seria o espelho onde o universo se reflete. Conforme os extrovertidos, ao contrário, o universo seria o grande espelho onde o humano se reflete. Os dois estão certos, e a verdade final estaria no diálogo entre o humano e o universo, um espelho diante do outro, refletindo-se mútua e infinitamente, sem que se possa dizer exatamente onde começa um e termina o outro. Mas a reflexão especular sim começa no humano e é, por excelência, a definição do humano, a capacidade de refletir, de espelhar. 

Quem inventou o espelho? Não sabemos. Talvez Narciso, contemplando o próprio rosto refletido na água. Este é um mito muito significativo. A partir da contemplação narcísica nasceu a tomada de consciência através do jogo de espelhos, e daí por diante ninguém mais pode deter a marcha da consciência. 

Não sabemos quem inventou o espelho, mas reconhecemos logo as pessoas que mais elaboraram a reflexão consciente na história: os artistas, os sábios e os místicos — todos eles se situando no mesmo ponto, o foco central, entre si mesmos e o universo, servindo de retorta alquímica para a elaboração da consciência. São eles que caminham à frente na história da marcha da humanidade. São eles que, tateando, descobrem novos caminhos para todos nós. 

Artistas, sábios e místicos são a fornalha onde o chumbo inconsciente vai alquimicamente se transformando no outro da consciência. Com inspiração e transpiração eles vão humanizando o universo, a natureza e o próprio divino, re-conhecendo e interpretando o impulso infinito que está no âmago da realidade e traduzindo-o em sentido que a tudo ilumina, sentindo que é a verdade, e que significa ver, compreender e amar a realidade, para, finalmente, viver junto e de acordo com ela. 

O sentido último, portanto, está presente em tudo, e no mais íntimo do próprio humano. Está aí, à espera de ser descoberto e vivenciado conscientemente. Está ao alcance de todos, que talvez só estejam esperando que alguém lhes ensine o gesto de Narciso: abaixar-se e debruçar-se para ver o próprio rosto espelhado na água. Quem poderia lhes ensinar isso? Os artistas, os sábios e os místicos. São eles os grandes educadores da humanidade

O que é educar? Não é reprimir, mas, ao contrário, exprimir, liberar. Também não é imprimir, mas, ao contrário, fazer brotar, fazer emergir. Menos ainda seria formar, impondo uma forma; ao contrário, seria desentranhar do mais fundo do ser a sua própria forma. Com efeito, o verbo educar vem do latim educere, e significa tirar fora, levar fora, extrair, desentranhar. Educar o homem significa, portanto, desentranhar a forma humana de dentro do próprio homem, extraindo e revelando a sua própria e íntima essência. 

Artistas, sábios e místicos são os grandes educadores da humanidade. São eles que caminham à frente no tempo, no espaço e na profundidade do próprio ser, a todos revelando os caminhos e os horizontes que todos temos dentro de nós mesmos. Com o trabalho e o suor deles vamos descobrindo que o que está dentro, está fora também, e vive-versa; vamos descobrindo que o infinito está no finito, e vice-versa; vamos descobrindo que o divino está no humano, e vice-versa. Mas, sobretudo, vamos descobrindo com eles que o cerne da realidade é o paradoxo do Uno que se revela no verso, o Invisível no visível, o Ser nos seres, Deus nas criaturas. Tudo inicia no Uno, multiplica-se nos versos, e de novo se encaminha para o Uno. Tudo nasce de um mesmo Amor, se multiplica em muitos amores, e finalmente se reúne de novo no mesmo Amor. Aí está a beleza entrevista pelo artista, a verdade tateada pelo sábio, e o amor universal cultivado pelo místico. Beleza, verdade e amor que revela e educam a humanidade a ser humana, sem nada lhe impor ou mandar, mas simplesmente propondo e convidando. Porque a beleza, a verdade e o amor são frutos de liberdade e dom. Se forem impostos, destroem-se em si mesmos. 

[...] Em outras palavras, tudo vem do Uno e caminha para o Uno. É tempo de descobrirmos a unidade no meio da pluralidade, pois cada criatura é uma versão do Criador, e o mundo seria muito pobre se os seres fossem mera repetição uns dos outros. Cada um deles é um pequeno espelho, e Deus precisa de todos e de cada um dos seres para refletir-se totalmente, revelando completamente a sua beleza, verdade e amor. E a humanidade também precisa de todos eles. Com efeito, não é ela a própria "imagem e semelhança" de Deus?

Ivo Storniolo, no prefácio do livro Sermões, de Johannes Tauler

Iniciação total

Enquanto algo é meu,
Não pode triunfar o EU.
Meus são bens de fortuna,
Meus são amores de homem ou mulher,
Meus são filhos, parentes, amigos,
Meu é o prestígio social de que gozo,
Meus são o corpo e o intelecto.

Nada disto, porém, sou Eu.
Eu sou o sujeito central,
Meus são os objetos periféricos.
E esses objetos são velhos companheiros meus,
Crudelíssimos tiranos,
Desde o meu nascimento,
Poucos decênios atrás.

Esses objetos são velhos companheiros,
Onipotentes ditadores,
Do gênero humano,
Há muitos séculos e milênios.

Haverá esperança de que eu possa
Realizar a minha libertação?
Que eu possa viver, aqui na terra,
Sem esses objetos escravizantes?
Sem esses queridos "meus"?
Sem esses idolatrados fetiches?...

Não! ninguém pode desfazer-se desses ídolos
E continuar a viver.
Já compreendi que iniciação
Não é algo que eu possa adicionar
A minha vida horizontal,
Como um belo enfeite,
Como um colar de pérolas.

Compreendi que iniciação
A morte total desta vida
E algo inédito e inaudito,
Até agora vivida...

Iniciação não é continuação
De algo preexistente
Não!

É o fim de tudo que foi e é
E o início de tudo que deve ser...
Iniciação é algo virgem,
Um novo "fiat lux" creador.
Não é remendo novo em roupa velha,
Não é vinho recente em odres gastos
Não!

Iniciação é morte total
Do "homem velho"
E ressurreição integral
Do "homem novo".
Nem um átomo da bagagem do ego
Passa para além da fronteira.
Porque o ego só conhece o que é "dele"
E ignora o que é "ele".

O meu verdadeiro Eu nada sabe
Desse mundo dos meus,
Desses pequenos e grandes nadas
Que parecem ser algo.
Iniciação é verdade suprema,
Incompatível com a menor das ilusões.

Ergue-te, pois, sobre asas levíssimas,
Meu grande Eu divino,
Meu átomo crístico!
E lá das excelsas alturas
Dominarás todos os "meus",
Sem seres por eles dominado...

Por Huberto Rohden 

Samadhi - Filme Trailer

O filme Samadhi será lançado no outono/inverno de 2015. No espírito dos antigos ensinamentos "Samadhi" será lançado gratuitamente para o benefício de todos os seres. Por favor, assine a este canal Youtube, o canal AwakenTheWorldFilm para receber uma notificação quando for lançado, e se juntar à nossa lista de discussão na www.innerworldsmovie.com. Se você ainda não assistiu a premiada série documentário "Mundos Internos Mundos Cósmicos" pode ser assistido gratuitamente no link acima. Por favor, entre em contato conosco se você pode ajudar a traduzir o filme para outro idioma. O Awaken a Iniciativa Mundial tem como objetivo trazer os antigos ensinamentos de volta ao planeta Terra. Nós confiamos em doações para fazer isso acontecer. Por favor, apoiem-nos em www.innerworldsmovie.com.

Deus não é uma pessoa

Deus não é uma pessoa. Isto é provavelmente o mais longo mal entendido da história. Sempre que uma mentira é repetida por séculos ela parece verdade, mas não é.

Deus é presença, não uma pessoa. É por isso que toda adoração é sem sentido. O espírito de oração é necessário, a oração não. Não existe ninguém para rezar, não existe possibilidade de diálogo entre você e Deus. Diálogo é possível apenas entre duas pessoas, e Deus não é uma pessoa mas uma presença - como a beleza, a alegria... o amor..

Deus simplesmente significa piedade.

Por causa disso é que Buda negou a existência de Deus. Ele quis enfatizar que Deus é uma qualidade, uma experiência - como o amor. Você não pode falar sobre o amor, você precisa vivê-lo. Você não precisa criar templos ao amor, você não precisa criar estátuas ao amor, e se prostrar aos pés dessas estátuas, isso é um contra-senso. O homem tem vivido sob a pressão de um Deus enquanto pessoa, e duas calamidades tem surgido em função disso: Uma é o chamado homem religioso, que acredita que Deus está em algum lugar no céu e você precisa rezar para ele, para persuadi-lo a realizar seus desejos e a saciar suas ambições , para lhe dar prosperidade neste mundo e no outro mundo também. E isso é puro desperdício.

E no pólo, oposto pessoas que vêem a estupidez de tudo isso e se tornam ateístas; negam a existência de Deus. Eles tem um fundo de razão, mas ainda assim estão equivocados. Eles começaram negando não só a personalidade de Deus, mas também a experiência de Deus.

Os teístas estão errados e os ateus estão errados; o homem precisa de uma visão nova, logo ele precisa sair dessas duas prisões.

Deus é a experiência definitiva do silencio, da graça, uma dimensão de celebração profunda incondicionada. Uma vez que você experimente Deus, acontece uma mudança radical em seu Ser. Então oração não é mais válida, a meditação se torna importante.

Martin Buber dizia que orar é um diálogo entre você e Deus.

Ainda existe uma relação entre eu - você, a dualidade persiste.

Buda está mais perto da verdade; você simplesmente salta para fora da mente, escorrega para fora da mente como uma cobra troca de pele. Você se torna profundamente silente. Não existe nenhum diálogo, nenhuma pergunta, nem monólogo tão pouco. Palavras desaparecem da sua consciência. Não existem desejos a serem cumpridos. 

A unicidade é aqui e agora. Nessa tranquilidade, nessa calma total, você se torna consciente da qualidade luminosa da existência.

Então, as árvores, as montanhas, os rios, as pessoas, tudo subitamente resplandece com uma aura luminosa. Tudo é radiante, e tudo é a vida única se expressando sob infinitas formas.

O florescimento da existência em um milhão de formas, em um milhão de flores.

Esta experiência é Deus!

E todo mundo faz parte, porque você pode saber disso ou não, você ainda assim faz parte disso. A única possibilidade que existe é reconhecer isso ou não.

A diferença entre uma pessoa iluminada e outra que não é iluminada, não é uma qualidade, ambas são absolutamente iguais. Existe apenas uma pequena diferença: a pessoa iluminada é ciente, e reconhece o final que permeia a totalidade, reconhece a essência sempre presente permeando tudo, vibrando, pulsando. Ela reconhece a batida do coração do universo. Ela reconhece que o universo não está morto, o universo é VIVO! Essa Vida é Deus!

A pessoa que ainda não alcançou a iluminação ainda dorme, vive nos seus sonhos. É claro, quando você não está desperto para sua própria realidade, como você pode despertar para a realidade dos outros? A primeira experiência precisa ser sua própria. Uma vez que você descubra a luz em você mesmo, você está apto a ver a luz em toda parte.

Deus precisa ser desembaraçado de todos os conceitos de personalidade. Personalidade é uma prisão. Deus precisa ser desembaraçado de qualquer forma particular; só assim pode assumir qualquer forma. Ele precisa ser desembaraçado de qualquer nome particular, só então pode assumir todos os nomes.

Então, a pessoa vive em perfeita oração. (...) No entanto tudo o que ela diz é oração, tudo o que ela faz é oração e nessa oração ela cria seu templo. Ela está sempre se movendo nessa oração viva. Onde ela se senta se torna um lugar sagrado, tudo o que toca se transforma em puro ouro. 

Se permanece em silencio, seu silencio é ouro, se fala então seu som é ouro. Se está só, sua solitude é divina, se está com outras pessoas suas relações são divinas. Meditação possui duas partes, o início e o fim. 

O início é chamado Dhyana, e o fim é chamado Samadhi.

Dhyana é a semente, samadhi é a flor.

Dhyana significa se tornar consciente de todos os trabalhos da mente, e todos os truques da mente - memórias, desejos, pensamentos, sonhos - estar consciente de tudo o que se passa dentro de você.

Dhyana é se tornar consciente, e samadhi é quando o consciente se torna tão profundo, tão total que é como o fogo que consome a mente e todas as funções. Consome pensamentos, desejos, ambições, esperanças, sonhos. Consome todo o complexo que preenche a mente.

Samadhi é a dimensão onde a consciência está presente, mas nada mais resta dentro de você. A luz está presente mas não há mais objetos a serem iluminados.

Não é uma hipótese, é uma experiência.

Você precisa VIVER! 

É o único modo de conhecê-Lo."

( Osho )

Um olhar sobre a vivência do deserto

A palavra "deserto", em hebraico, significa algo ou alguém abandonado — à natureza, às feras —, em russo, deserto, vem de "pusto" "pustota": o vazio. 

Nosso deserto tem seu início quando a Consciência desperta de seu estado de sono profundo, resultante de anos de adulteração psíquica.

Esse deserto se caracteriza pelo que a sociedade acaba rotulando como uma doença, a qual dá o nome de "Depressão". No nosso atual modo de ver — o qual você poderá achar um tanto estranho —, a depressão não tem cura: a depressão é a cura de nosso estado de inversão.

O deserto inicial estaria na perda do antigo estado de ser, o qual era por nós visto como "normalidade".

Nesse estado de depressão, o qual prefiro dar o nome de “crise iniciática”, nos vemos num deserto de uma explicação que nos seja satisfatória para aquilo pelo qual estamos sendo acometidos.

Corremos em vários locais, mas, em nenhum deles, encontramos uma palavra que realmente toque fundo e nos dê um senso de direção diante da enorme confusão aterrorizante na qual nos vemos inseridos.

Aliás, para muitos de nós, cada local que procurávamos para a compreensão daquilo que estávamos vivendo, ampliava ainda mais a nossa imensa sede de respostas; se mostravam como miragens do deserto existencial.

Então, para nosso assombro, conforme vamos nos deparando com materiais que esclarecem a triste realidade na qual estamos inseridos, esse deserto vai se ampliando cada vez mais.

Surge o deserto da compreensão parental; ninguém compreende aquilo que estamos atravessando e, não raro, estes nos trazem suas sugestões que apontam não para o encontro de nós mesmos, mas sim, para um modo de ajustamento ao conhecido insatisfatório.

O mesmo deserto acaba ocorrendo com nossa rede de contatos sociais e relacionamentos, aparentemente mais íntimos (com o caminhar no deserto, descobrimos que não sabemos nada a respeito da verdadeira intimidade).

Esse deserto se amplia no que diz respeito as nossas atividades rotineiras: profissão e Hobbies que antes nos deixavam eufóricos, passam a se mostrar vazios de qualquer sentido e significado, o que, não raro, acaba se mostrando um grande fator de conflito em relação aqueles com quem estamos comprometidos nesses Hobbies e profissões.

Também ocorre para muitos de nós, a tomada de consciência de como estamos espiritualmente estéreis e, mesmo para aqueles que, por causa da influência de seu lar de origem, frequentavam um determinado sistema de crença, o mesmo passa a se mostrar totalmente incapaz de nutrir nossa sede de respostas. Nos vemos vazios daquilo que todos chamam de Deus.

Então, para nossa sorte, em alguma escola iniciática, nos deparamos com nossa “nova família”, aquela que realmente compreende aquilo pelo qual nos vemos inseridos até o pescoço. Com ela começamos a aprender um novo idioma, começamos a ter nosso "bê-á-bá psíquico" (o qual, providencialmente, vai ampliar ainda mais o nosso já enorme deserto existencial).

Então, uma vez despertos, a consciência começa a nos apresentar o falso que temos que deixar pela estrada, o que nos remete a um estado de muita ansiedade, pânico, culpa, ressentimento e incertezas.

Começamos a perceber que muito do nosso investimento foi feito para dar sustentação a uma imagem totalmente irreal de nós mesmos. Nos olhamos no espelho e em nosso guarda roupa, bem como em nossa garagem, nossos hábitos alimentares, e não mais nos encontramos ali... Percebemos que, até então, sempre fomos uma cópia de segunda mão; aqui, muitos de nós mudamos completamente nosso estilo de se vestir, nossos cortes de cabelo, carros e costumes, o que também acaba gerando muito conflito com aqueles com quem de algum modo ainda estamos envolvidos (muitas dessas relações poderão ficar no passado).

Nossos parentes e amigos, quase sempre chegam com frases do tipo: “O que está acontecendo com você? Não vê que esse lugar e essas pessoas com quem você está se relacionando, estão lhe fazendo uma verdadeira lavagem cerebral?” Eles não conseguem aceitar que as pessoas mudam. Eles passam também a hostilizar nossos novos interesses, como nossas leituras, novas preferências musicais, novos amigos,  passeios e atividades. Passam a ter um indisfarçável ciúme agressivo diante de tudo e todos que lhes são desconhecidos.

Apesar do enorme medo do desconhecido, assim como o imenso medo de perder o resto de nossa capacidade de lidar com a distorcida realidade, começamos a perceber a necessidade de abrir mão de vez, e em outros casos, de apenas minimizar o contato com esses ambientes e pessoas que não nos apoiam em nossas novas necessidades mais intrínsecas, o que por sua vez, aumenta ainda mais a nossa sensação de deserto existencial.

A dúvida no que diz respeito se estamos ou não fazendo a coisa certa, nos acompanha a cada passo do processo e, não raro, nos vemos em recaídas comportamentais que acabam sendo providenciais no que diz respeito à confirmação de que temos que “seguir viagem”. Passam a calar fundo em nosso ser, as palavras cantadas pelo poeta: “Amigos a gente encontra; o mundo não é só aqui; repare naquela estrada, que distância nos levará. As coisas que eu tenho aqui, na certa terei por lá; segredos de um caminhão, fronteiras por desvendar. Não diga que eu me perdi, não mande me procurar, cidades que eu nunca vi, são casas de braços a me agasalhar”.

Conforme vamos avançando, entramos em contato com atividades, manias e tendências que alimentam nosso doentio estado de ser e que, dessa forma, impedem o avanço no processo do estado de contato consciente com a realidade que somos. Torna-se clara a necessidade de abrir mão desses comportamentos, os quais durante muito tempo se fizeram de profunda importância para a nossa estabilidade psíquica, e, como resultado, nos vemos jogados no que é conhecido por “síndrome de abstinência”, com seus terríveis sintomas físicos e emocionais, o que se mostra como mais uma enorme duna no deserto do ser que somos.

A primeira fase de deserto se faz compulsória, ou seja, uma imposição natural do próprio processo de crise iniciática; mais adiante, com o maturar de nossa percepção e com a prontificação exercida pelo enorme trabalho de base emocional, chegamos num determinado momento da caminhada, em que nos vemos diante de uma bifurcação: ou nos conformamos ao nível psíquico da consciência coletiva dessas escolas iniciáticas — a quem somos imensamente gratos — ou nos aventuramos de modo totalmente solitário, no deserto do real. Raros são aqueles que conseguem dar esse significativo e tão necessário passo no processo da retomada da consciência que somos. É aqui que serão lançadas as bases de nossa real integridade, de nossa autonomia psíquica. 

Não raro, aqueles que, nessas escolas, nos receberam de braços abertos, do mesmo modo que em nossa família original, passam a hostilizar também nossa nova observação de mundo, nossos novos interesses, nossas novas leituras, nossas novas atividades e, nossa atual necessidade de retiro e solidão. Do mesmo modo que no início do processo, a dúvida ronda sobre nosso espírito, além do doloroso sentimento de que possamos estar sendo ingratos com aqueles que, num momento tão delicado de nossa existência, foram os únicos capazes de nos estender as mãos, de forma realmente significativa. É um momento realmente muito delicado em nossa caminhada rumo ao encontro consigo mesmo. Mas, se tivermos realmente atingido o estado de prontificação — apontado por essas escolas —, não nos sobrará nenhuma opção a não ser, novamente, optar por “levar adiante” o processo de compreensão do sentido de nossa existência. 

Com o avanço de nossa decisão de novamente “seguir viagem”, começamos a perceber lucro, onde até então, devido a nossa enorme dependência emocional dessas escolas, só conseguíamos ver por prejuízo. Aqui, novos mestres, novas escolas se apresentam para nos trazer novas percepções bem mais sutis quanto ao processo de funcionamento de nosso mental e emocional.

Se, no início, já era enormemente difícil encontrar por ouvidos capazes de compreender nossa percepção de mundo, aqui se torna mais difícil ainda. É realmente a trilha menos percorrida, a jornada solitária do herói. Mas, com a continuidade da caminhada, vamos percebendo que isso é algo muito, mas muito providencial. É um modo de fazer com que soframos o mínimo de influências externas em nossa maneira de aprender a observar, tanto a nós mesmos, como a tudo com que entramos em relação. É aqui que vamos nos dedicando cada vez mais a ficarmos firmes nessa nova etapa do deserto, e, sentir de maneira substancial, a necessidade de encontrar “dentro de nós”, a palavra, o sopro que nos confirme cada passo de nosso caminhar. 

Aqui, cada vez mais se apresenta a necessidade de "retiro e solidão", o que também é visto como uma atitude doentia, até mesmo pelos nossos mais recentes contatos, provenientes de nossa busca espiritual. Nossas novas percepções, não se mostram compreendidas pelos atuais companheiros de jornada e, mais uma vez, somos lançados no deserto do real, o que amplia cada vez mais a necessidade de encontrar algo de valor Infinito, realmente substancial, em nós mesmos. Nesta etapa da jornada, livres de qualquer preconceito ou ranço religioso — tão importante para a travessia desse momento —, começamos a entender os dizeres contidos em vários sistemas de crença que apontam para a necessidade da escuta de uma “voz no deserto”, a qual muitos se referem como sendo a voz da verdade, a voz de Deus.

Neste momento de nossa caminhada, dá-se uma enorme necessidade da prática da meditação e da oração, sendo que, por oração, não mais compreendemos como sendo aqueles antigos cacoetes orais petitórios, para determinados pontos de interesse autocentrado. Aqui, o que vemos por oração, é um estado de silenciosa escuta atenta, onde a única coisa que se espera é o conhecimento de nossa real vocação, ou em outras palavras, “da voz do coração”, pela qual possa nos ser apresentado os passos e ações que deem um real sentido e significado a todo o processo, bem como à nossa existência. 

Este também é um momento em que nossa sanidade, em que nossa seriedade entra em questão; a mente nos bombardeia com ideias de que de nada valeu a pena, de que a jornada foi toda em vão. Antes, quando essas dúvidas surgiam em nossa mente, sempre estávamos rodeados de outros caminhantes, os quais acabavam por confirmar e incentivar nosso avanço no processo. Aqui, nosso momento se faz muito semelhante com aquele que é narrado nos textos bíblicos, referentes ao total sentimento de solidão e abandono vivenciado por Jesus, no Getsêmani. As enormes dunas do deserto sensorial, emocional e mental já ficaram para trás; não há a mínima possibilidade de retorno, afinal, quem em sã consciência se entregaria a repetir tudo de novo? Aqui, apesar de termos aprendido a como lidar com suas tempestades de areias psíquicas, ainda não encontramos um local, dentro de nós, que se apresente como um abrigo seguro. Sabemos que a resposta, de modo algum será encontrada no externo, mas, no entanto, ainda não a encontramos de maneira significativa, dentro de nós. Talvez esse, seja o momento de maior deserto em nossa caminhada, momento este que pode ser traduzido pela essência da expressão cunhada por João da Cruz em seu poema intitulado “A noite escura da alma”, ou então, nos dizeres de Agostinho: “Fizeste-nos, Senhor, para ti, e o nosso coração anda inquieto enquanto não descansar em ti”. Aqui, como nos demais momentos do processo, a única opção que nos resta é a de caminhar, com a certeza de que, “muito mais nos será revelado”.

Outsider

Verdade e Liberdade do Ser

A maioria das pessoas está num estado constante de luta consigo mesmas. Tremendamente sobrecarregados pelo passado e em constante antecipação do futuro, a maioria dos seres humanos raramente é capaz de estar plenamente presente, por mais do que momentos muito breves. A tremenda abertura e intimidade necessárias para se estar plenamente presente, está além da capacidade da maioria das pessoas de se sustentarem por mais de poucos momentos, antes de habitualmente se contraírem de volta à sua condição familiar de separatividade e luta, que tanto caracteriza a condição humana.

Este constante estado de luta, se manifesta como uma relação compulsiva e viciosa, com o movimento do pensamento, da emoção e do tempo.

Há uma grande relutância em parar de lutar, porque, na ausência de luta, você de repente começa a perder seus limites e definições sobre quem você é. Para muitas pessoas isso faz surgir medo, já que elas experimentam a perda do seu familiar sentido de si.

Lutar, é a maneira de a personalidade-ego manter sua existência. Quando você deixa de lutar, a identificação com a personalidade começa a desmoronar, e você se conscientiza de sua vacuidade e falta de limites.

A coisa mais difícil de fazer para os buscadores espirituais é parar de lutar, de esforçar-se, de procurar e buscar. Por que será?

Porque na ausência de luta você não sabe quem você é; você perde suas fronteiras, perde a sua separatividade, perde a sua especialidade, perde o sonho que você viveu durante toda a sua vida. Por fim, você perde tudo quanto a sua mente criou, e desperta para quem você verdadeiramente é: a plenitude da liberdade, não limitada por quaisquer identificações, identidades ou fronteiras.

É desta liberdade de ser sem residência fixa, que a maioria da gente espiritualizada está ao mesmo tempo em busca e em fuga, porque a sua natureza sem face, não fornece nenhum ponto de referência fixo ao qual a personalidade possa se apoiar ou no qual possa buscar segurança.

Enquanto permanecer identificado com a personalidade, você sempre estará em busca de segurança à exclusão da Verdade, e permanecerá em constante estado de luta.

É somente quando o seu amor e anseio pela Verdade forem maiores que a necessidade compulsiva de segurança, que tem a personalidade que você pode começar a parar de lutar e deixar-se levar pelos braços de uma revelação florescente e contínua da Verdade e Liberdade do Ser.

Adyashanti

Aceitando o chamado do paradigma holotrópico

O que você espera e o que você quer do seu Messias? Lembre-se de que o seu Messias é o Cristo do seu próprio ser. A questão é se você já chegou ou não àquele ponto em que pode rejeitar a tentação de manifestar pessoas e coisas e voltar-se para o Cristo, para o reino interior, conquistando a sua liberdade espiritual. Ao passar para a vida espiritual, você está procurando o Reino Interior, esse Cristo que está dentro de você, essa Presença divina, uma liberdade espiritual que significa liberdade das leis materiais, da atividade material, das forças materiais, quer a força seja de infecção ou de contágio, quer a força seja dos astros ou de qualquer coisa que alegue ter poder. 

Há uma razão pela qual você está no caminho. Alguma coisa o atraiu para esse caminho, para esse ensinamento; alguma coisa o atraiu para o estudo deste livro. Você não foi atraído por seu conhecimento ou amizade comigo, nem por causa da grande reputação que eu tenho como escritor. Não, não foi por nenhuma destas razões. Foi porque alguma coisa indefinível, uma comunhão invisível, uniu leitor e escritor no nível interior e espiritual. 

É o que o Mestre, Cristo Jesus, mencionou quando disse: "As minhas ovelhas ouvem a minha voz"¹. É o que o místico hindu quer dizer quando olha uma pessoa com este reconhecimento "Você é meu discípulo", e o discípulo olha e replica "Eu o tenho procurado há anos!"

É isso o que ocorre!... Todo relacionamento entre o mestre e o discípulo é um relacionamento de amor. Esse relacionamento sagrado não pode e não vem através da mente que raciocina. Quando você encontra o mestre ou o ensinamento que realmente é seu, você o reconhece imediatamente, talvez por causa de sua comunhão interior. De qualquer forma, trata-se de um reconhecimento — quase como se você encontrasse uma pessoa pela primeira vez, a olhasse nos olhos e dissesse: "Creio que iremos ser amigos para sempre". É uma comunhão num nível interior. 

Em outras palavras, todos os dias da semana você encontrará essas pessoas, circunstâncias e lugares que são levados até você e sem os quais você não poderia prosseguir, nem eles sem você. Você se sentirá atraído para esses lugares onde poderá ser muito útil e exatamente no momento certo. Você está em sintonia com um sistema infinito de telefonia espiritual e é a Central que está enviando ou fazendo os contatos para você. Você não os faz; a Central os envia e os faz para você. Quando você está vivendo essa vida, sempre constata que esse escritório Central, Deus, a sua Consciência interior, é a influência realmente dominante em sua vida. E já não há pensamento que vise a querer ou merecer coisa alguma. De fato, você não se preocupa com nada; você apenas segue as direções que lhe são dadas e entra em contato com as pessoas necessárias para o seu desenvolvimento. 

Este é, verdadeiramente, o primeiro passo da vida espiritual. Você deu o primeiro passo ao ser levado a este livro. Daqui por diante, verá que as pessoas serão levadas até você e que você é levado às outras pessoas. Você se verá sendo conduzido a lugares e lugares, levando você até as pessoas. E dirá: "Essa é justamente a coisa que eu gostaria de ter — se tivesse pensado sobre isso". Mas é sempre alguma coisa maior do que você poderia ter pensado por si mesmo. 

[...] Em outras palavras, trata-se de uma vida totalmente diferente da que vivemos no plano interior  — uma vida jubilosa. Na verdade, somos parte do mundo exterior, mas temos uma atividade interior. Não importa onde possamos estar, no meio de qualquer multidão, grande ou pequena, se nos encontrássemos haveríamos de trocar um pequeno sorriso. Temos alguns pequenos segredos; aprendemos algumas pequenas coisas sobre o mundo e sobre nós; e, por isso, não importa onde nos encontremos — dois ou vinte de nós — haverá apenas esse pequeno sorriso, querendo dizer: "Nós sabemos alguma coisa, não sabemos?"

Sim, realmente sabemos alguma coisa! Sabemos um pouco mais a respeito do Cristo; sabemos um pouco mais a respeito da vida interior; sabemos um pouco mais a respeito daquele Reino que não é deste mundo; e sabemos muito mais sobre como vencer o mundo. Sabemos que, vencendo o mundo, estamos vencendo as crenças, em coisas que estão fora e à parte do nosso próprio ser.

Estamos aprendendo mais do que isso. Estamos aprendendo que o Cristo não era um homem. o Cristo é o sentido do Amor divino que flui entre nós e, se o mundo O deixar, Ele deve fluir de homem para homem e de mulher para mulher, inundando a Terra. Então nunca haveria um homem desejando a propriedade do outro ou a sua esposa; nunca haveria um país desejando dominar o outro, ou a sua mão-de-obra, ou seus recursos naturais.

Joel Goldsmith

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)