O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

É preciso estar pronto para o aprendizado de si mesmo

[...]Maharaj: A urgência para descobrir-se é um sinal que você está ficando pronto. O impulso sempre vem de dentro. A menos que haja chegado a hora, você não terá nem o desejo nem a força para começar a auto-investigação com toda confiança. 

P: Não é a graça do guru responsável pelo desejo e seu cumprimento? Não é o rosto radiante do guru a isca na qual somos pegos e arrancados do lodo da aflição? 

M: É o guru interior (sadguru) que o leva para o guru externo, como uma mãe leva seu filho para um professor. Confie nele e lhe obedeça pois ele é o mensageiro de seu ser real. 

P: Como encontro um guru em quem possa confiar?

M: Seu próprio coração dirá a você. Não há nenhuma dificuldade em encontrar um guru, porque o guru o está buscando. O guru está sempre pronto; você não está. Deve estar pronto para aprender; ou pode encontrar seu guru e perder a oportunidade por falta de atenção e teimosia. Tome meu exemplo; não havia nada em mim que prometia muito mas, quando encontrei meu guru, escutei, confiei e obedeci. 

P: Não devo examinar o mestre antes de colocar-me inteiramente em suas mãos? 

M: Certamente, examine-o! Mas o que você pode descobrir? Apenas o que aparecer a você em seu próprio nível. 

P: Observarei se é consciente. se há harmonia entre sua vida e seu ensinamento. 

M: Você pode encontrar muita desarmonia: e daí? Isto não prova nada. Apenas os motivos importam. Como você conhecerá seus motivos? 

P: Deveria ao menos esperar dele que seja um homem com autocontrole, que viva uma vida virtuosa. 

M: Como esse encontrará muitos e não serão úteis a você. Um guru pode mostrar o caminho de volta para casa, para seu ser real. O que tem a ver isso com o caráter, ou temperamento, da pessoa que ele parece ser? Ele não fala claramente a você que não é uma pessoa? O único modo de julgá-lo é pela mudança em você mesmo quando está em sua companhia. Se você se sente mais feliz e em paz, se você compreende a si mesmo com claridade e profundidade maiores que o usual, quer dizer que encontrou o homem certo. Ele toma seu tempo, mas uma vez que você tenha decidido confiar nele, confie absolutamente e siga cada instrução plena e fielmente. Não importa muito se você não o aceita como seu guru e está satisfeito com sua companhia apenas. Só satsang pode também levá-lo à sua meta, desde que seja puro e sereno. Mas, uma vez que você aceita alguém como seu guru, escute, relembre e obedeça. A indiferença é um sério defeito e a causa de muita aflição autocriada. O engano nunca é do guru; é sempre a obtusidade e a contrariedade em relação à disciplina que podem ser acusadas. 

P: O guru então rejeita ou desqualifica um discípulo? 

M: Não seria um guru se o fizesse! Ele aguarda sua hora e espera até que o discípulo, purificado e sóbrio, volte para ele com um ânimo mais aberto às novas ideias.

P: Qual é o motivo? Por que o guru segura tanta confusão? 

M: A aflição e o fim da aflição. Ele vê as pessoas sofrendo em seus sonhos e quer despertá-las. O amor não tolera a dor e o sofrimento. A paciência do guru não tem limites e, portanto, não pode ser derrotada. O guru nunca fracassa

P: É meu primeiro guru também o último, ou tenho que passar de guru a guru? 

M: O universo inteiro é seu guru. Você aprende de tudo se está alerta e é inteligente. Se sua mente fosse clara e seu coração limpo, aprenderia de cada transeunte. É porque você é indolente ou inquieto que seu ser interior se manifesta como o guru externo e o faz confiar nele e obedecer. 

P: É inevitável um guru? 

M: É como perguntar: "É inevitável uma mãe?" Para se elevar de uma dimensão à outra, você necessita de ajuda. A ajuda pode nem sempre estar na forma de um ser humano. Pode ser uma presença sutil, ou uma centelha de intuição, mas a ajuda deve chegar. O ser interior está observando e esperando que o filho regresse a seu pai. No momento adequado, ele arranja tudo afetuosa e efetivamente. Onde um mensageiro é necessário, ou um guia, envia o guru para fazer o necessário.[...]

P: O destino de todos os seres humanos é a perfeição? 

M: De todos os seres vivos, finalmente. A possibilidade torna-se uma certeza quando a noção de iluminação aparece na mente. Uma vez que um ser vivo tenha ouvido e compreendido que a libertação está dentro de seu alcance, nunca esquecerá porque é a primeira mensagem de seu interior. Ela lançará raízes e crescerá e, no devido tempo, tomará a forma abençoada do guru.  

P: Assim tudo que nos interessa é a redenção da mente?

M: O que mais? A mente se perde, a mente retorna para a casa. Mesmo a palavra "perder-se" não é apropriada. A mente deve conhecer-se de todas as maneiras. Nada é um erro a menos que seja repetido.

Nisargadatta Maharaj em, Eu Sou Aquilo

Existem muitas maneiras de se fazer a investigação pessoal

Existem muitas maneiras de se fazer a investigação pessoal. Eu descobri que escrever é efetivo para mim, tanto antes de despertar quanto por um certo período de tempo após despertar. Se eu percebia que estava entrando novamente em identificação, eu ia para uma cafeteria com um pedaço de papel e um lápis e começava a escrever sobre isto. Escrever sobre o que acontecia me ajudava a encontrar o padrão de pensamentos que iniciava a re-identificação. Eu encontrava exatamente o pensamento ou crença que havia me agarrado, e qual a visão de mundo que aquele pensamento formava.

Por exemplo, se eu fazia algo que me fazia sentir bobo ou envergonhado, procurava pensamentos como “eu não deveria ter feito isto” e verificava o sentimento que ele acompanhava, já que descobri que pensamentos e sentimentos são ligados, e assim encontrava o sentimento de raiva ou vergonha. É importante não utilizar este tipo de investigação simplesmente como uma ferramenta mental. Se fizermos isto, tentamos entender tudo apenas no nível mental, e não necessariamente no nível emocional. Podemos entender algo claramente na nassa mente, mas emocionalmente ainda estar em conflito com o fato. Quando investigamos, é importante que utilizemos tanto o corpo quanto a mente, ou seja, tanto os sentimentos quanto os pensamentos. Precisamos ver quais pensamentos geram quais sentimentos, e quais pensamentos são gerados por quais sentimentos. É um ciclo: um pensamento cria um sentimento, e e este sentimento cria um próximo pensamento, que, depois cria novamente outro sentimento.

Constantemente descobrimos que crenças e idéias contidas em nossos pensamentos e sentimentos vêm de nossa infância. Eles podem vir de memórias muito antigas de quando nos sentimos envergonhados, aterrorizados, enraivecidos ou tristes. Se começarmos a investigar em uma maneira meditativa, onde corpo e mente estão ligados, nossa investigação pode começar a desacobertar estas experiências internas mais profundas. Você não deve apenas pensar sobre isto, como “isto é um pensamento, eu sei que não é verdade” e terminar o processo. Ás vezes eu passei horas na cafeteria, me recusando a ir embora até que chegasse ao fim de um único padrão de pensamentos. Eu sabia que se aquele pensamento podia me trazer de volta a re-identificação, então algum outro também poderia.

Quanto mais despertos nos tornamos, mais a re-identificação dói. É como ser arrastado de dentro do céu, de volta ao inferno. Quando você sente que está no inferno, fará qualquer coisa para sair de lá.

Adyashanti em, The End of Your World

Autoconhecimento é um amadurecimento acelerado

Pergunta: Há muitos que aspiram o autoconhecimento seriamente, mas com escassos resultados. Qual pode ser a causa disto?

Maharaj: Não investigaram suficientemente as origens do autoconhecimento, não conhecem profundamente seus sentimentos, sensações e pensamentos. Esta pode ser a causa do atraso. A outra: alguns DESEJOS podem ainda estar vivos. 

P: Os altos e baixos são inevitáveis no sadhana (prática do autoconhecimento). Mesmo assim o buscador sincero segue trabalhando apesar de tudo. O que pode fazer o gnani (homem realizado) para tal buscador?

M: Se o buscador é sério, a luz pode ser dada. A luz é para todos e sempre está ali, mas os buscadores são poucos e, entre esses poucos, os que ESTÃO PRONTOS são muito raros. O amadurecimento da mente e do coração são indispensáveis. 

P: Você alcançou seu estado de realização por meio do esforço ou pela graça do guru?

M: O ensinamento foi do guru; a confiança, minha. Minha confiança nele fez com que aceitasse suas palavras como verdadeiras, que eu aprofundasse nelas, que as vivesse, e assim é que cheguei a realizar o que sou. A pessoa e as palavras do guru fizeram com que eu confiasse nele e minha confiança as fez frutíferas. 

P: Mas pode o guru dar a realização sem palavras, sem fé, simplesmente assim, sem nenhuma preparação? 

M: Sim, pode ser feito, mas onde está o que toma as decisões? Veja você, eu estava tão harmonizado com meu guru, crendo nele de forma tão completa, com tão pouca resistência em mim, que tudo aconteceu de forma fácil e rápida. Mas nem todo mundo é tão afortunado. A preguiça e a inquietação frequentemente se põem no caminho e, até que sejam vistas e eliminadas, o progresso é lento. Todos os que se realizaram imediatamente, por um mero toque, olhar ou pensamento, estavam maduros para isso. Mas esses são muito poucos. A maioria necessita de tempo para amadurecer. O sadhana (autoconhecimento) é um amadurecimento acelerado. 

P: Que faz alguém amadurecer? Qual é o fator do amadurecimento? 

M: Certamente a seriedade, deve-se estar realmente ansioso. Depois de tudo, o homem realizado é o homem mais sério. Tudo o que faz, faz completamente, sem limitações nem reservas. A integridade o levará à realidade.

Nisargadatta Maharaj em, Eu Sou Aquilo

Quem deseja tomar o que eu desejo dar?

Pergunta: Os ocidentais vêm vê-lo ocasionalmente, e encontram uma dificuldade peculiar. A própria noção de um homem liberado, de um homem realizado, um conhecedor do ser, um conhecedor de Deus, um homem além do mundo, é algo que desconhecem. Tudo o que têm em sua cultura cristã é a ideia do santo, um homem pio, cumpridor da lei, temeroso de Deus, que ama os demais, algumas vezes propenso a êxtases, e confirmado por alguns poucos milagres. A própria ideia do gnani¹ é alheia à cultura ocidental, algo exótico e considerado incrível. Inclusive quando sua existência é aceita, ele é olhado com desconfiança, como um estado de euforia auto-induzida causada por posturas físicas e atitudes mentais estranhas. A própria ideia de uma nova dimensão na consciência parece-lhes inconcebível e improvável.
O que os ajudará é a oportunidade de ouvir um gnani relatar sua própria experiência de realização, suas causas e começos, progressos e sucessos, e sua prática atual na vida diária. Muito do que ele disser seguirá sendo estranho, inclusive não terá sentido, mas permanecerá neles um sentimento de realidade, uma atmosfera de experiência real, inefável mas muito real, um centro a partir do qual se possa viver uma vida exemplar.
Maharaj: A experiência pode ser incomunicável. Alguém pode comunicar uma experiência?
P: Sim, se é um artista. A essência da arte é a comunicação do sentimento, da experiência.
M: Para receber a comunicação, você deve ser receptivo.
P: Certamente. Deve existir um receptor. Mas se o transmissor não transmite, de que serve o receptor?
M: O gnani pertence a todos. Dá-se a si mesmo incessantemente e por completo a quem quer que venha a ele. Se não é um doador não é um gnani. Qualquer coisa que tenha, ele compartilha.
P: Mas, pode compartilhar o que ele é?
M: Quer dizer se pode converter a outros em gnani? Sim e não. Não, já que os gnanis não são feitos, realizam-se eles mesmos como tais quando regressam para sua origem, sua natureza real. Eu não posso transformá-lo no que você já é. Tudo o que posso dizer-lhe é que caminho percorrer, e convidá-lo a que o tome.
P: Isto não responde a minha pergunta. Penso no ocidental cético e crítico que nega a própria possibilidade de estados de consciência superiores. Recentemente, as drogas abriram uma brecha incredulidade dessa gente, mas sem afetar sua visão materialista do mundo. Com drogas ou sem drogas, o corpo segue sendo o fato primário, e a mente, o secundário. Além da mente não veem nada. De Buda para a frente, o estado de auto-realização tem sido descrito em termos negativos, como “isto não, isto não”. É inevitável? Não é possível exemplificar se não o descrever. Admito que nenhuma descrição verbal será adequada quando o estado descrito está além das palavras. Mas, de outro modo, também está nas palavras. A poesia é a arte de pôr em palavras o inefável.
M: Não faltam poetas religiosos. Recorra a eles para o que você quer. No que concerne a mim, meu ensinamento é simples: confie em mim por um momento e faça o que lhe digo. Se perseverar, descobrirá que sua fé estava justificada.
P: E o que fazer com a pessoa que está interessada, mas não pode confiar?
M: Se pudessem estar comigo, chegariam a confiar em mim. Uma vez que confiem em mim, seguirão meu conselho e descobrirão por si mesmos.
P: Não estou lhe pedindo agora que descreva a prática, mas seus resultados. Você tem ambos. Você está disposto a dizer-nos tudo sobre a prática, mas quando chega a hora dos resultados, você se nega a compartilhar. Ou nos diz que seu estado está além das palavras, ou que não há nenhuma diferença; que onde vemos diferenças você não vê nenhuma. Em ambos os casos ficamos sem ter visto nada de seu estado.
M: Pode você ver o meu estado quando não pode ver o seu próprio? Quando falta o próprio instrumento da visão, não é importante encontra-lo primeiro? É como um homem cego que quer aprender a pintar antes de recuperar a visão. Você quer conhecer o meu estado mas conhece o estado de sua mulher ou de seu empregado?
P: Só estou pedindo algumas indicações.
M: Bem, dar-lhe-ei uma pista muito significativa: onde você vê diferenças, eu não vejo. Para mim é suficiente. Se você pensar que não é suficiente, eu só posso repetir: é o bastante. Pense muito bem nisto e chegará a ver o que eu vejo.
Parece que você quer uma compreensão instantânea, esquecendo que o instante é precedido sempre de uma ampla preparação. O fruto cai de repente, mas o amadurecimento leva tempo. Depois de tudo, quando falo para confiar em mim, é só por um tempo curto, o suficiente para que comece a mover-se. Quanto mais sério for, menos fé necessita, já que logo descobrirá que sua fé em mim será justificada. Você quer que eu prove que eu sou digno de confiança! Como posso fazê-lo e por quê? No fim, o que eu ofereço a você é o acesso operacional tão corrente na ciência ocidental. Quando um cientista descreve um experimento e seus resultados, você aceita usualmente suas afirmações e repete o experimento tal como ele o descreve. Uma vez que obtém os mesmos resultados, ou similares, não necessita seguir confiando nele; você acredita em sua própria experiência. Animado por ela, segue adiante e chega no final a resultados substancialmente idênticos.[...]

Para ter a experiência direta de um país tem-se que ir e viver nele. Não peça o impossível. A vitória espiritual de um homem beneficia , sem dúvida, toda a humanidade, mas para beneficiar outro indivíduo é necessário uma relação íntima. Tal relação não é acidental e nem todos a exigem. Por outro lado, a visão científica é para todos. “Confie-comprove-saboreie”. Que mais necessita? Por que enfiar à força garganta abaixo uma verdade que não desejam? De todos os modos isto não pode ser feito. Sem alguém que receba, que pode fazer o que dá?[...] Doadores há muitos, onde estão os receptores?[...] São necessários dois para compartilhar. Quem deseja tomar o que eu desejo dar?

Nisargadatta Maharaj em, EU SOU AQUILO (página 159 à 163)
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¹ Sábio; o que conhece as coisas; o auto-realizado

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)