O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Tomando consciência da realidade do Ser

Muitos são os que hoje em dia tomam consciência da realidade do SER. Como é o caso daquele que havendo chego ao extremo da razão existencial, foi recebido, de certo modo, por algo mais além. Se, por exemplo, num bombardeio aéreo aceita-se o medo da morte, justo nesse momento em que parece ser eminente, de pronto, do medo segue-se uma grande calma; é o núcleo da vida que a morte corporal não poderá destruir, visto que sua experiência é interior. Igualmente, conhecerá a realidade do Ser, pela experiência, aquele que destroçado, destruído por um acontecimento absurdo, seja capaz, num momento de graça, de aceitá-lo. Subitamente experimentará, com a aceitação, um “sentido” mais profundo que provem de outra dimensão. O conhecimento do Ser é ensinado àqueles que havendo perdido tudo e achando-se na mais absoluta solidão, são capazes de aceitar. É também nesse momento quando, inesperadamente, do mais profundo de sua absoluta indigência, lhes chega a graça insuspeita de sentir-se envoltos, protegidos e vivificados com um amor que não é deste mundo.
Nestes três encontros com o Ser, são derrubadas as barreiras do eu. Se o homem conserva e cultiva com piedade o conhecimento que, como um raio, lhe “iluminou”, se transformará, sendo à partir daí capaz de levar humildemente a cruz que até o momento havia carregado. Se se mantém fiel ao tesouro de suas grandes experiências, saberá utilizar todas as suas forças vivas (incluídas as do eu) a serviço de seu Ser.

Pode o homem fazer algo para viver experiências desta ordem? Pode ele criá-las? Certamente que não. O espírito da Verdade sopra quando quer, não por ordenação do homem. Mas o homem pode sim, num constante treinamento, lutar contra aquilo que suponha ser um obstáculo para esse desenvolvimento do Ser; pode aprender a dominar sua vontade, a ultrapassar o temor frente a dor, e a tomar sobre si a dolorosa realidade da existência. Assim vai exercitando-se em fazer-se permeável ao Ser, e em afinar seu olho e ouvido interiores. Havendo recebido o toque do Ser, irá se purificando no silêncio, no senso do sofrimento, servindo-se dele como instrumento que lhe permita ir deixando descoberto a transparência de seu Ser. Poderá também, e prioritariamente, aprender a não levar em conta as enganosas vozes que costumam criar a dúvida no que se refere a verdade interior, pretendendo dizer que a realidade perceptível é só a realidade, e que “as experiências do Ser profundo são produto de uma ignorância subjetiva”.

Se a partir de ter recebido o toque de um raio de luz eterna o homem, sumido até então na obscuridade de sua existência temporal, não fecha os olhos para esta luminosa experiência de seu Ser, poderá perceber, nele, um espaço infinito que excede os estreitos limites do edifício de seu eu. O que está fechado se abre, a imensidão vem ao seu encontro regando-o como a fértil chuva primaveril. Odor de terra lavrada, sopro de vida superior, chama de luz transformante que a tudo renova, purificando-lhe, dando-lhe calor, iluminando-lhe, inundando-lhe de felicidade.

Mas o homem é uma criatura que a tudo quer entender. Seja porque não suporte ainda a luz infinita ou porque não possa separar-se de seu pequeno eu definidor, sempre de novo intercala entre ele e seu Ser a tela de seu pensar racional, sobre a qual projeta, reduzindo-as a objetos, as imagens que o Infinito vai fazendo nascer. E no princípio o eterno, mais além de toda representação, cai reduzido a imagens finitas. Não cabe dúvidas que o infinito segue ainda projetando um débil fulgor através das muitas criações do espírito humano, mas o homem tem uma marcada tendência para cair em suas próprias imagens. E é assim como encerra de novo a inaudita abertura para o infinito, da qual nasce a salvação.


Só compreenderá que se trata do espírito infinito aquele que possa sustentar a resplandecente luz e que sabe escutar a voz marcada de força que lhe chama. Por acaso não temos o direito de dizer que nas experiências desta ordem temos recebido o espírito de Deus? E que nelas se reflete o espírito daquelas palavras do Cristo: “Convém que eu me vá, porque se eu não me for, não virá a vós o Consolador, porém se eu me for o lhes enviará...”Quando Ele vier, o Espírito da Verdade, os guiará até a Verdade”. 

Karlfried Graf Dürckheim em, O Despertar do Ser - Etapas de Maturação

O núcleo da nostalgia do Ser

A Grande Unidade da Vida divina está muito além de todos os opostos, em que se quebra através do prisma do pequeno eu. Quebra-se a si mesmo o ser autêntico, que forma parte desta Unidade Divina. O espírito de nosso ser, que cruza verticalmente o caminho que percorre o eu através dos opostos existenciais, não permite provar manifestamente a incompatibilidade da representação do absoluto que se forma o pequeno eu, com a Grande Unidade da Vida. Este conceito do absoluto, armado dos pés à cabeça ao nível do eu, representa o incondicionado em relação com o condicionado, o mais além do tempo como oposto às inumeráveis limitações temporais, a ideia pura em relação com as aparências, a eternidade com respeito ao efêmero, etc... Este conceito não é senão uma projeção imaginária do eu, um sonho, cuja finalidade é compensar aquilo do que se priva o homem encerrado em seu eu; é um voo para a morte, a falta de sentido e a solidão. Esta concepção do absoluto, facilmente confundida com Deus, está em radical contradição com a verdadeira Vida; sendo produto do espírito humano, o afasta de sua verdade. Se bem que é certo que justifica a vontade de sobrevivência do eu, dando-lhe seu mais firme apoio, não é resistente aos golpes do destino. Quando o homem se balança na ilusão de ter chego no cume de sua autonomia espiritual, quando orgulhoso brada o fruto de seus dons, de seu poder e de seu saber, coroando o esplêndido edifício de sua própria concepção do absoluto, está, de fato, bem distante de Deus e se situa bem para cá da Grande Vida; porque se bem que é verdade que a Unidade divina suprime os opostos que pode haver no homem, nosso próprio espírito os afirma explicitamente.

Por isso, a distância que separa nosso conhecimento e nossos modos de vida exclusivamente terrenos da verdade luminosa da Vida divina, desperta de pronto ou mais tarde esse sofrer humano graças ao qual tomamos consciência de nossos erros. Porque, quanto mais incrusta o homem na comparação de seu próprio universo, emaranhando-se nos fios tecidos por sua razão e sua vontade, mais asfixiara seu ser. Até o dia em que este ser, anulado até seu limite, experimentará um sofrimento pior do que o temor, a falta de sentido e a solidão; sofrimento tanto maior quanto que ele mesmo sofre por não poder se desapegar em verdade.

O Ser mão é em absoluto um conceito abstrato, ou o fruto de uma piedosa imagem ou de uma especulação metafísica. É uma realidade que nos chama interiormente por meio de um sofrimento particular; é a verdadeira Realidade, em cada homem e em todas as coisas, a verdadeira raiz do sujeito humano diante a qual o eu não é senão um pseudo-sujeito. Este Ser, encoberto pelo eu existencial, é o grande companheiro de nossas vidas; se escutamos sua voz, a nós se manifesta em sua qualidade de espírito salvador. Salvador enquanto nos conduz novamente à unidade essencial, dando-nos de forma totalmente diferente, a segurança, a perfeição, e a totalidade; contanto que o eu, em seu espírito separador, sempre nos conduz a uma situação sem saída, inclusive estando a serviço de uma ideia ou de uma comunidade que trate de colocar, de sua própria vontade, ordem no mundo e na vida. Unicamente a “experiência” que vem do próprio Ser, nos ensina que cada coisa tem sua própria “finalidade”, — inclusive a morte, a falta de sentido e a solidão —, fazendo com que o homem se abra para esse ser nele, e de tal modo que já não lhe irrite sua limitação temporal. Somente mediante a experiência da sabedoria essencial, compreenderá que a morte faz parte da vida, igualmente ao nascer. Assim, no senso dos limites de seus meios pessoais, poderá empreender a luta contra os poderes desconcertantes e ameaçadores da existência; e o fará de um modo que se corresponda com a lei da vida, quer dizer, em espírito de verdade.

Como se manifesta o Ser? De que forma se expressa? Que critérios podemos seguir que nos garantam que aquilo que consideramos expressões do Ser não são pura ilusão?

Um critério seguro é o fato de que nosso Ser exige sempre de nós a aceitação da vida total, conforme se apresente, com sua dor e seu sofrer, e que deixando de lado nossas aspirações egoístas, não admite repouso nem parada, senão, ao contrário, exige do homem que esteja sempre disposto a ir mais adiante de onde já foi, assim como estar pronto para se libertar, para aceitar a morte. O Ser tende a renunciar o eu e as posições adquiridas. Exige pois, a grande conversão e transformação: a metanóia, um novo nascer. Nos chama com sua voz da consciência absoluta. Nos toca através dessa qualidade misteriosa dos “instantes privilegiados” da vida, momentos em que recorrendo de um só passo no caminho do conhecimento, da criação e do amor, ultrapassamos a tensão sujeito-objeto, de onde extraia toda a sua força o edifício do eu. Nos fala através da voz da grande nostalgia, em cujo fundo já vivem nossas mais profundas aspirações, enquanto promessa, uma realidade. O núcleo da nostalgia é uma é uma promessa e esta promessa é “um modo de já estar presente” o Transcendente. O Ser abraça o homem quando este tem coragem de não dar marcha ré diante de um grande sofrimento, senão que, ao contrário, aceita o deixar-se consumir nele, com fé no que lhe espera mais adiante do nada, ainda que esses instantes lhe assuste (o fato de que lhe assusta é justamente o que lhe dá fé).

Karlfried Graf Dürckheim em, O Despertar do Ser - Etapas de Maturação 

A finalidade da prática da meditação

A finalidade da prática da meditação é a prática em si mesma. O fim de toda prática meditativa é a transparência e a transcendência imanente, a grande transparência do Ser essencial, presente em nós e em todas as coisas, e que tende a manifestar-se. A preparação para esta busca exige, no princípio, uma resposta para as seguintes perguntas:
  • Como posso abrir-me ao Ser essencial?
  • Como percebê-Lo?
  • Como acolhê-Lo?
  • Como deixar ser penetrado por sua Presença? 
  • Como afastar os obstáculos que me paralisam (minha própria vontade e a sombra)?
  • Como deixar que o Ser essencial tome forma em minha vida e através de mim, segundo meu modo individual de perceber o mundo? Em outros termos, como vou perceber o mundo em sua verdadeira profundidade, para logo estruturar minha vida e esse mundo conforme essa Verdade?

Trata-se de duas coisas: por uma parte, do encontro com o Ser essencial como experiência e, por outra, do tornar-se, quer dizer, da transformação, através do Ser essencial.

O fim de todo exercício meditativo o tornar-se UNO com o Ser divino. Quanto mais avança o meditante, mais apto está para perceber a voz do grande CAMINHO, para arraigar-se nele e viver sua vida caminhando por ele, quer dizer, para sentir, conhecer e formar o mundo em que vive em conformidade com este Outro divino.

Se a grande transparência é a finalidade do exercício, o meditante deve, pois, tentar destruir aquilo que bloqueia seu caminho e favorecer o que o faz possível.

Karlfried Graf Dürckheim

O mestre e o sábio

A verdade essencial da VIDA pode tomar forma, no mundo humano, em duas figuras: na do Sábio e na do Mestre. Eles não são personagens históricas reais, senão que foram “transformados” desde o profundo do Ser supra-natural. No meio de um mundo condicionado, ambos se sentem livres de toda contingência. Ultrapassaram as provas fundamentais da existência humana: o medo, o desespero, o abandono.

No mestre, a VIDA não é só a força viva que lhe transformou e o levou a um plano superior de humanidade, senão que também o capacita de modificar aos outros. O mestre não é unicamente um homo divinans, é mais o homo faber (homem artífice). Nele, como no sábio, a VIDA transcendente, interiormente consciente como uma fé viva, está também presente como um processo de retomada de consciência e de metamorfose sempre crescente. O que há de sobrenatural no mestre, é a experiência de saber luminoso e uma força ativa de evolução.

Ao sábio e ao mestre se acrescenta um terceiro personagem. Sua tomada de consciência da vida toma forma especialmente pelo saber. Ele é “homem douto” — na Índia é chamado de “Pandita¹” — não é no sentido de nossos “cientistas”, porque ele se interessa por um saber que vai mais além da razão. Sem ser ele mesmo um “transformado” perfeito, pode transmitir, sem dúvida, o conhecimento esotérico. Participa, pois, do sábio e do mestre, mas vive buscando, explorando, absorvido pelas coisas secretas, pelas leis ocultas, pelo sentido primitivo dos símbolos. Quem sabe, C.G. Jung foi um desses “homens doutos”.

O sábio e o mestre possuem uma categoria superior ao do homem corrente. Humanos como são, vivem num nível supra-humano. Se podemos chegar a pressentir algo de sua natureza e de sua realidade é porque em cada um de nós vive algo — uma promessa, um conhecimento essencial, uma missão — que também está mais além do horizonte do homem corrente: é o mestre interior. O homem, em seu centro, é sempre potencialmente um homem douto, um sábio e um mestre. A previsão desta potencialidade está aumentando no mundo. É a fonte luminosa desse “arrebatamento súbito” para a transformação que faz vibrar o espírito ocidental; sua fonte de trevas é esse potencial reprimido.

Os princípios tradicionais estão desaparecendo radicalmente, e num sentido que até agora não havia nunca ocorrido. Os antagonismos e os choques não se limitam a uma tensão entre os partidários da realidade racional e técnica e aqueles que buscam alcançar a plenitude de sua vida religiosa por meio de uma fé interiorizada e desprendida do mundo. O desacordo situa a ambos os grupos como opostos aos homens que buscam no mundo a experiência da realidade divina, e em Deus a verdade do mundo.
O antagonismo tradicional entre a fé e a ciência, já está caducando. Faz parte de um estado de tomada de consciência superados por homens evoluídos de nosso tempo. Os mestres de todos os tempos, também os mestres cristãos, já haviam franqueado este umbral. O aspirar a uma experiência interior e a uma transformação essencial, graças ao contato com pessoal com a transcendência, chega agora, por cima das fronteiras, a todos os países. Responder a esta aspiração é a eterna tarefa do mestre. Para que um mestre seja aceito no Ocidente, não deve, portanto, liquidar a oposição entre a vida interior e o mundo a favor de uma vida interior totalmente separada deste. Senão que deve resolvê-la com uma atitude que permita que “o espírito se faça carne” e que o sobrenatural essencialize o mundo em sua multiplicidade e em sua historicidade.

Karlfried Graf Dürckheim em, O Mestre Interior
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¹ s.m. Título honorífico dado na Índia aos brâmanes possuidores de conhecimentos linguísticos, religiosos e filosóficos.
P. ext. Sábio, mestre, letrado.

Da angústia inicial ao conhecimento iniciático

Uma prodigiosa evolução separa o sentido da vida e o homem que se sente dependente dos poderes mundanos e tenta fazer-se com eles — mediante um intercessor, súplicas e sacrifícios — e a fé num Deus pessoal cujo amor salva o mundo das forças negativas.

Há também um extraordinário desenvolvimento a partir da consciência limitada ao pensamento mágico e mítico, que passa depois para o mental, para chegar à consciência integra que encerra todos os estágios. E que distância há entre a visão do homem, insignificante grão de areia no Todo e a que faz dele um microcosmos, reflexo do universo macrocósmico, destinado a manifestar em sua forma humana-supra-humana, a plenitude do Todo!

E entre a imagem de um destino transpassado de angústias, que vê o inimigo nas forças alheias, e o homem que descobre em si mesmo o adversário dessa realização que ele pode tornar possível; entre o “feiticeiro” que tenta seduzir, mediante sacrifícios sangrentos, a longínquas divindades e aquele para quem o fosso aberto entre aqui e mais além se preenche em sua própria interioridade. Entre o homem que no sofrimento e nas dificuldades só vê as mãos das forças contrárias à vida e aquele que as reconhece como ajudas no caminho de união com esse SER, que não somente está “mais além” da vida, senão mais além da vida e da morte.

A forma de considerar a relação entre o aqui e o mais além, reflete o nível e o grau de consciência humana da VIDA. Observa-se também, em nossos contemporâneos, uma decisiva oposição entre os que seguem estando presos ao tangível, ao material, e os que são capazes de pressentir e respeitar aquilo que só pode desvelar uma visão interior. Entre os homens cujos critérios de realidade, teóricos e práticos, se reduzem ao real, compreendido com a consciência objetiva, e dominado pela técnica e aqueles para quem os verdadeiros valores estão mais além do tempo e do espaço. Só a consciência do interior tem acesso a esta realidade que não se deixa nem compreender nem dominar, e cujo conhecimento é a condição para toda ação superior. A realidade tangível, mais que revela-la, a oculta. Esta realidade não se deixa ver senão pelo olhar interior.

A diferença entre essas duas classes de homens destaca-se claramente hoje. Uns se contentam com desenvolver conhecimentos que lhe são ensinados, as aptidões e os comportamentos a serem adotados no mundo. Outros vão mais longe e buscam a maturidade de seu verdadeiro SI. Este homem não exige nem fornece um “mais” a um nível de um saber profano, do poder e dos bens, senão a nível de contato com o SER supra-terrestre, o qual supõem outra classe de conhecimento que, a mercê de uma experiência, toca o mistério do SER e descobre o caminho interior que o leva à ele. É o caminho iniciático: iniciar quer dizer abrir a porta do mistério. Aquele que aporta, transmite e trona realidade este conhecimento é o mestre.

Karlfried Graf Dürckheim em, O Mestre Interior

O elemento decisivo na prática do exercício iniciático

O homem que se compromete pela via do exercício iniciático, nele participa de três formas: com o corpo, a alma e o espírito. Seu trabalho está determinado por sua vez pelo estado físico e a saúde, pela disposição afetiva e pelo nível de relação com o absoluto. Toda prática pressupõe um conhecimento da problemática do caminho, o qual é consequência da tensão entre os dois polos humanos: o eu existencial, condicionado pelo tempo e espaço, e o Ser essencial, absoluto, acima do espaço-temporal. Para responder ao Ser essencial permitindo-lhe manifestar-se em sua forma pessoal, é preciso uma transformação do homem total, físico e psíquico. Mas o homem coloca obstáculos à exigência do Ser essencial, tanto no plano físico como no psíquico. À falta de transparência do corpo soma-se a opacidade psíquica nascida da obstinação e da sombra, e daí resulta, no início, uma atitude fundamentalmente falsa. Esta atitude deve ser, portanto, o objeto de uma modificação, concedendo prioridade à promessa e a missão do Ser essencial sobre a felicidade e as exigências do mundo.

Na base de toda prática iniciática está a decisão tomada pelo principiante para: 1) Seguir o caminho que leva à unidade com o Ser essencial imanente; 2) Aceitar o “morrer e renascer” que se renova constantemente neste caminho; ao ser condição indispensável para esta unidade, assim como para realizar o verdadeiro Si que a unidade torna possível. O homem deve estar disposto a abandonar ou a deixar que se destrua tudo que foi realizado. Tem que assumir um trabalho de saneamento continuo de seu inconsciente, sem o qual se construirá sobre areia toda forma de vida conforme o Ser essencial. Finalmente, o avanço no caminho depende da força moral que só a fidelidade ao exercício garantirá.

No meditante, a constância em sua adesão ao SER sobrenatural está determinada por uma consciência perdurável da experiência pela qual se desvelou o Ser essencial, sua promessa e seu compromisso. E depende sempre da firmeza, que é a que mantém o discípulo em contato permanente com sua essência, apesar das tentações, das exigências e dos perigos do mundo para desviá-lo do caminho.

O “como” da meditação não concerne somente à técnica de numerosos exercícios que se oferecem ao aluno. Depende, desde o primeiro momento, de uma atitude fundamental, base de todos os exercícios, com respeito ao infinito trabalho que o caminho exige, posto que é o mediador na VIDA. Antes de tudo, o que conta é a fidelidade. O caminho iniciático coloca constantemente a prova a liberdade humana, que se manifesta pela força de disciplina humana que permite suportar o duro esforço de um exercício ininterrupto. E sem esforço não é possível nenhum progresso. Não se trata, naturalmente, de uma disciplina fora do discípulo, pela qual este se submete — por boa vontade ou por ambição, por medo ou por entusiasmo — a uma autoridade externa. É preciso que, mediante uma disciplina autônoma a assiduidade ao exercício seja fruto de uma decisão do discípulo, tomada com plena liberdade diante de si mesmo. Inclusive se se coloca sob a direção de outra pessoa, seus progressos não lhe levarão a uma verdadeira transformação, senão no caso em que os conselhos de seu mestre coincidam com seu próprio Ser essencial, se os aceita com uma vontade livre e se a constância no exercício é resultado de uma disciplina própria e independente.

O elemento decisivo segue sendo a adesão a lei fundamental de toda transformação: o grande “morrer e renascer”. Não é possível que algo nasça sem que previamente não seja nada, não é possível renascer sem destruir, nem é possível uma vida nova sem morte. E esta morte é sempre a do que se chegou a ser, que é o adversário do não haver sido, sendo o importante a etapa seguinte, ser o que se é. Sempre que a realização de uma situação satisfatória tranquiliza o homem, está em perigo o seu tornar-se através do Ser essencial. A vida nos leva a todos, continuamente, inevitavelmente, ao limite de nossa própria resistência, até esse ponto em que “já não se pode mais”, em que já não se é capaz de suportar uma obrigação por demais pesada, nem um sofrimento ou uma tristeza. Transpassando esse limite, que compreende a aniquilação das próprias exigências, é como se abre ao homem a porta do mistério. Não se trata neste caso de um sucesso isolado, senão de momentos que se repetem e que aprofundam cada vez mais no profundo. O valor e a paciência são necessários nestes casos. E para isso necessita-se o alento de uma fé inquebrantável, que aumenta com as experiências do sobrenatural e que é a fonte de todos os dons. Sem ela a fidelidade ao caminho não é nada mais do que um simples sonho.

Karlfried Graf Dürckheim

O amor no caminho iniciático

A vida iniciática gira em torno do que a experiência do SER revela ao homem e a evolução que ele pode seguir, a partir desta experiência. A missão que recebe desta experiência consiste em manifestar o SER na vida. O sentido desta vida aparece no triplo aspecto do SER, tal como se vive na própria experiência: a plenitude criadora, a ordem e a lei que dão sentido a vida, e a unidade que enlaça e abarca a todas as coisas. Inclusive a nível pré-iniciático pode-se observar estes três aspectos como força, sentido e amor. Então aparece claramente a diferença entre a existência comum, centrada no eu profano e a vida num nível iniciático. Antes de chegar a este estado a força do homem se apoia no que tem, no que pode, no que possui. Só concede algum sentido para aquilo que compreende e o amor significa sempre para este homem, comunidade e proteção. O homem desperto para o SER sente a plenitude pela força que é em seu Ser essencial, inclusive na debilidade existencial; a razão de sua vida como um SENTIDO mais além do sentido e do absurdo deste mundo, e o amor como uma proteção que lhe envolve, inclusive na precariedade e na solidão da existência.

O ignorante talvez imagina o homem que se encontra, num novo plano, no caminho para si mesmo, como um egocêntrico nublado pelo seu eu e desprovido de amor altruísta. Por efeito, um principiante pode, pesarosamente, dar esta impressão, porque pratica o amor ao próximo de forma muito distinta de como se faz no estado pré-iniciático.

O amor aparece, primeiro sob a forma de solidariedade humana, que consiste numa ajuda mútua para satisfazer os desejos fundamentais do homem, quer dizer, em procurar-se mutuamente segurança, razões para viver e afeto. Este dever é sempre válido. Viver a nível iniciático, não é fazer tábua rasa dos valores éticos. Senão que, ao contrário, afirma-los é o que o autoriza a passar para outro nível. Inclusive o sentido do próximo, quer dizer, o amor na mais ampla acepção do termo, adquire então um valor maior. Porque significa ajudar o outro a desenvolver as condições que lhe permitam, também a ele, alcançar esse nível, e ajudar-lhe a encontrar e levar a sério aquelas experiências em que o SER se lhe manifesta através de sua plenitude, seu sentido e seu amor. Trata-se, pois, de facilitar ao outro as experiências de si mesmo no SER, e de ajudar-lhe a reconhecê-las e a enraizar-se nelas. No sucessivo este amor já não se manifesta com uma atitude serviçal e compassiva segundo o mundo. É um amor que pode ser duro, porque quer ver o outro progredir e comportar-se de outra forma como o faz o homem pré-iniciático diante das dificuldades e os sofrimentos, assim como diante das tentações do mundo. Porque unicamente a aceitação da dor e a negação de certos prazeres é o que permite que apareça uma dimensão que, por cima das alegrias e das penas terrenas, encontra a felicidade em plena realização de uma vocação sobrenatural. No nível iniciático os homens vivem sua solidariedade e sua interdependência num amor responsável de irmãos e irmãs no SER.

Numa vida que a iniciação se polarizou, o amor é o campo mais fecundo para a experiência do SER. Sempre que se trate autenticamente de uma questão de amor, a qualidade de numinoso está próxima. E se manifesta numa profundidade que toca a pessoa e a faz tomar consciência do SER sobrenatural como tal e com particular compromisso. Viver o Eros é uma experiência específica do numinoso, já que o homem se supera a si mesmo na medida em que alcança superar seu eu, sempre em busca de possessão e gozo. O numinoso é, finalmente, o critério que segundo a visão iniciática permite medir a legitimidade e o grau de um amor. Não obstante, este numinoso não começa unicamente no nível do amor entre sujeitos que tenham chego a uma maturidade como pessoas. Existe também quando no encontro erótico se expressa, a força cósmica com que dois seres tenham sido tocados. Porém o luminoso só ocupa seu verdadeiro lugar no amor com que dois seres se encontram na singularidade única de sua qualidade de pessoas. É então a união de dois seres em sua integridade. Quando dois seres se encontram, não só no nível de seu eu ordinário, repleto de paixões e desejos, senão no nível de sua essência transpessoal, ocorre algo verdadeiramente particular. Isto significa que a vivência numinosa em si mesma possui diferentes graus de profundidade. O que se sente quando suas pessoas se encontram em seu Ser essencial é de natureza distinta e de maior profundidade que uma relação sexual, quem sabe mais intensa, mas cujo caráter cósmico nesta é impessoal. Sem dúvida, porque a relação sexual acaba com todas as inibições e as defesas do eu, pode também converter-se em experiências iniciática.

O nexo amoroso se aprofunda ainda mais quando compreende não só a união no Ser essencial, senão também o corpo de destino do outro. No corpo, condicionado pelo mundo, tem que brilhar o resplendor do supra-terrestre para que este corpo de destino se abra enquanto pessoa ao amor iniciático. Porque também o corpo do homem, segundo o modo mediante a qual, sensivelmente, dolorosamente, ou que, quisera manifestar-se o Ser sobrenatural. O amor, no sentido iniciático, não coloca condições. Busca o absoluto inclusive sob esse velho tecido pelas circunstâncias que o homem tem sofrido e que ocultam sua imagem primordial.

Há um ponto que segue sendo comum a todas as situações em que o amor está em jogo: um ser se sente um com o outro, que está separado, e um impulso o leva a realizar sua unidade com ele. Este élan para “tornar-se uno” tem sua origem na intuição de chegar assim a si mesmo, o encontro total com sua própria essência. O primeiro amor, na puberdade, expressa bem esse mecanismo. Um dia o jovem se converte em homem e tem a necessidade da mulher para realizar-se plenamente. Pode então sentir “o Eros da distância”: vê uma jovem e lhe assola a ideia de união com ela, sem pensar absolutamente em tocá-la, lhe faz pressentir nesta união um pleno e total desenvolvimento de si mesmo. A simples ideia de encontrar novamente assim sua integridade o faz sentir pela primeira vez, com nostalgia, seu próprio Ser essencial. Para muitos adolescentes isto representa, a vez que o fim da etapa precedente, o chegar um novo grau e passar ao umbral que, através da primeira experiência consciente do numinoso, anuncia sempre uma profunda tomada de consciência do SER.

Há algo que é certo. No caminho do Ser essencial o maior amor a que se pode chegar se realiza quando o homem iniciático encontra a sua parceira, ou companheiro de viagem que lhe acompanhe em seu caminho. Se se chega a ser para o outro a justa tábua de ressonância que, não somente com sua aprovação, senão também com os mais duros desacordos, lhe fará perceber a verdade, e não lhe deixará se deter, nem estagnar, sua relação será benéfica para os dois. O encontro se converte na VIA em que se se reconhece no outro, encontra nele seu complemento e, pelo caminho no profundo de si mesmo, chegam a sua própria realização.

O amor que, pela força sobrenatural criadora da essência, permite que o SER, em sua pureza, se converta na estrutura da vida, responde ao porque da meditação iniciática.

AMAR: TORNAR-SE UM COM O SER ESSENCIAL

Karlfried Graf Dürckheim


O sofrimento pela separação do Ser Essencial

O mais profundo sentimento do homem é o que sente quando perde seu país de origem, o reino sobrenatural de seu Ser Essencial. É a nostalgia do homem exilado, longe de sua verdadeira pátria. De sua angústia nasce a necessidade de uma via interior que “caminhando para frente” o leve de novo ao seu país. A maior parte das pessoas não se dá conta deste desassossego interior, desta necessidade e desta oportunidade, sobretudo se estão indo bem no mundo, se estão bem, se fazem um trabalho de seu interesse e se se sentem amparados no seio de comunidade onde são bem considerados. Sem dúvida, no fundo de si mesmos não são felizes. Toda sua segurança externa não os livra da angústia, da culpabilidade que sentem sem que tenham nada do que se reprovarem. Duvidam do sentido de sua existência, em meio de uma vida, de aparência útil, e se sentem isolados, ainda que, objetivamente, estejam rodeados e protegidos. O que lhes falta? Qual é a causa de seu desassossego? Estão separados de seu Ser Essencial e não se dão conta que sua ansiedade é um protesto. Unicamente o enraizar-se no Ser dissipa a angústia essencial, dá um sentido à existência humana e garante um refúgio no meio da insegurança do mundo.

Não há nenhuma neurose que não desapareça quando o Ser Essencial ocupa livremente o lugar que lhe corresponde. A neurose é um mecanismo mediante o qual o eu existencial busca um modo de cobrar segurança diante a repetição de uma decepção ou ferida sofridas no passado. Esta couraça protetora do eu bloqueia o caminho que faz retornar ao Ser Essencial. Mas, uma vez liberado, este Ser invulnerável oferece ao eu abrigo e refúgio, já não necessitando de nenhuma couraça.

Para quem sofre por sua separação do Ser Essencial, aceitar simplesmente o sofrimento não é o suficiente. É preciso eliminá-lo em sua base e assegurar-se na terra da verdadeira vida onde as penas deste mundo não podem enraizar-se. Suprimir este sofrimento é, em primeiro lugar, passar por uma prova e suportar os males terrenos. O eu profano, cuja felicidade depende de suas condições existenciais, tem que desaparecer para deixar surgir ao SI ou ao SER sobrenatural, quer dizer, ao absoluto tomando forma no mundo. No lugar que ocupava o eu contingente, aparece então, um eu superior que ilumina ao Ser Essencial de que é um servidor e a angústia essencial se transforma na porta que abre para uma nova vida.

Sem dúvida, para que a aceitação do sofrimento tenha um valor iniciático, é necessário que com uma firmeza inquebrantável, o homem que sofre faça de seu esforço de unidade com o SER sua motivação essencial. Somente a supremacia absoluta desta inspiração sobre todos os desejos naturais fará que o sofrimento aceito alcance seu fruto iniciático.

Uma atitude de acolhida à prova dolorosa pela que a que se passar para liberar o essencial faz do homem um aliado do SER divino. Todo sofrimento no mundo expressa, de fato, a não manifestação do SER em sua pureza inalterada. Sem passar pelo desamparo não existe para o homem redenção no Ser Essencial. E se não existe um enraizamento do Ser, falta também a força para suportar os males da vida a fim de fazê-los proveitosos. O sofrimento cuja origem é o distanciamento do Ser Essencial exige, diferente do sofrimento do eu existencial, algo mais que um simples consentimento, porque deve suscitar um conhecimento de si mesmo que obrigue a transformação.

Mas também existe — e a vida de todos os santos dá testemunho disso — uma separação de Deus pela qual há que passar. Justamente àquele homem a quem lhe foi concedido a graça da união com o Ser divino — sobretudo se esta graça durou mais que um momento — é a quem se lhe retirará noutro dia essa graça. E é então quando se sente abandonado por Deus. A oração já não lhe é possível, e igualmente como se tivesse sido aniquilado, tem a impressão de ser recusado, devolvido a si mesmo. Não se vê nenhuma causa para uma prova assim. Por isso não é possível trabalhar para fazê-la desaparecer. Só cabe suportá-la com paciência, em silêncio. Há que se estar bem atento para que permaneça, ao menos, um débil resplendor da chispa que testemunha da presença de Deus. Aguentar com fidelidade, sem saber já o porquê... E um bom dia, sem razão aparente, o véu da separação se levanta e se faz novamente a unidade. A atitude iniciática assim resistiu a mais dura prova.

DO EXÍLIO, REGRESSAR À PÁTRIA.  

Karlfried Graf Dürckheim

A atitude iniciática diante do sofrimento

O comportamento do homem diante as três angústias fundamentais de sua vida: o medo da destruição, o desespero diante do absurdo e a tristeza do isolamento, revela claramente a singularidade da relação iniciática no sofrimento.

O homem pré-iniciático busca espontaneamente criar as condições de uma vida segura, sobre o símbolo do sentido e da proteção. Existe uma oportunidade de virada para a iniciação quando fracassa a busca de segurança, própria do homem natural ou quando se encontra abandonado, sem escapatória possível, à destruição, ao absurdo, à solidão. Voltar a encontrar uma vida fecunda e uma razão de ser não é então realizável se não se salvam os limites de uma existência centrada na segurança, o sentido razoável e a proteção. E isto ocorre quando a aceitação de seu sofrimento vem a ocupar um lugar da recusa natural de sofrer. O homem reconhece então que esta atitude, de aparência paradoxal, representa sua oportunidade de alcançar um estado que exige superar o eu natural. É o passo à grande profundidade, quem sabe um salto ao caminho que conduz ao renascimento mediante a unidade com o SÍ, mas que supõem, a princípio, a aniquilação. É o grande “morrer e renascer”, fórmula fundamental em toda transformação.

Para que se manifeste o sobrenatural há que se atravessar os limites naturais de nossa capacidade de sentir e de sofrer. Para perceber uma luz até este momento desconhecida, há que se passar através das trevas. O homem velho, temeroso diante do sofrimento, deve desaparecer dolorosamente, a fim de deixar nascer a pessoa que já não busca livrar-se dele e que através de seu eu que sofre, dá seu testemunho do Ser Essencial que transcende toda dor.

Na via iniciática, quanto maior é o sofrimento, mais fecundo pode ser. E o é ainda mais — até que não destrua ou altere a consciência — quando transporta em si o aniquilamento, o morrer e a morte. Quanto mais insuportável lhe pareça ao homem natural uma situação ou um sofrimento, mais certa está a possibilidade de uma experiência iniciática, contanto que seja aceita a regra do jogo essencial: aceitar o inaceitável. Então, é possível dar um passo, subir para um escalão superior, quem sabe, inclusive, atravessar um muro. Quando o beco se estreita, só permite dar o salto que se faz inevitável. A sabedoria Zen diz o mesmo. A situação não tem saída. Há que aceitá-la? Não: há que ir ainda mais longe, diz o mestre Zen, não somente aceitar, senão comprometer-se na dificuldade total. Exigência paradoxal! Sem dúvida, porém, encerra uma verdade transcendente.

ACEITAR O INACEITÁVEL.

Karlfried Graf Dürckheim


Transcendendo a natureza reprimida

A sombra é a luz sobre a forma que a dissimula. É a força tenebrosa que ameaça a brilhante aparência. A sombra é esta ameaça porque representa o conjunto daquilo que deveria ter feito parte da integralidade do homem, e que não pode desenvolver-se. São todas as inclinações e pulsões reprimidas cuja agitação cai no inconsciente. O núcleo desta sombra é o Ser Essencial abaixo do aspecto do que impede a irradiação de sua luz.

Nossa existência neste mundo está cheia de feridas e de ofensas, cujo reconhecimento não aceitamos. Por debilidade ou por covardia, ou por razões morais nos negamos uma reação natural. Objetivamos não estar feridos, porém, algo permanece em nós. A resposta que teria sido necessária dar permanecer suspensa e continua a nos minar. A ferida não reconhecida se transforma em agressão reprimida.

Não são somente os revezes sofridos na vida o que alimenta a força da sombra. Existe também tudo quanto destrói nossa confiança original. Tudo quanto deveria ter suscitado nossa resistência, sem que se tenha produzido nenhuma reação; tudo quanto tem limitado nossas naturais reivindicações legítimas. Tudo isto se transforma numa agressividade asfixiada que perturba ao inconsciente. Muito mais do que se suspeita e do que se quer dar-se conta, o homem está carregado de uma animosidade inconsciente que pode chegar até o ódio contido. Para o Oriente, este ódio, junto com a avidez e a ignorância (ignorância do Ser Essencial) é um dos três pecados capitais do homem prisioneiro de seu eu.

As reações reprimidas e as ofensas, os ataques, as decepções e as resistências do mundo não são a única causa que engendra o poder da sombra. São também esses chamamentos para coisas belas que nos trariam alegria e que não temos aceitado. Porque não nos atrevemos a empreende-las — também por covardia, debilidade ou por razões morais — uma parte de vida não vivida engendra amargura.

Seja qual for a vida reprimida que envenena o inconsciente, representa sempre um obstáculo à manifestação do Ser Essencial. Liberar-se deste obstáculo não significa somente resolver as tensões originadas pela força da sombra. Necessita-se também conseguir sua transmutação e integrar as energias que encerram.

ATENÇÃO À SOMBRA.

Karlfried Graf Dürckheim

Sobre o lado sombra

A força que leva o homem para a meditação nasce de seu sofrimento diante a ausência de sua unidade total. Em nossa civilização esta unidade está obstruída por diversas causas. As principais são a rejeição dos desejos e das pulsões naturais, o desconhecimento do feminino em favor do masculino — tanto na mulher como no homem —, a repressão da personalidade criadora por causa da organização de uma sociedade que faz do indivíduo um servidor de leis, de sistemas e de empresas impessoais.

Mas o fato decisivo do fracasso desta integralidade é a rejeição de sua essência sobrenatural. O homem contemporâneo, pela primeira vez, é consciente disso.

Estes obstáculos para a realização total do homem se devem ao fato de que, por trás de uma aparência alegre e brilhante com que se apresenta ao mundo, milhões de seres humanos estão doentes. Sofrem o tormento de estarem sujeitos com a impossibilidade de chegarem a ser eles mesmos porque aqueles aspectos primordiais de sua totalidade não tem o direito de exteriorizar-se, convertendo-se assim, na sombra que castiga as mentiras da aparência luminosa. Quem buscar a iniciação acreditando poder evitar a sombra e avançar diretamente para o Ser Essencial está condenado ao fracasso na metade do caminho.

NÃO É POSSÍVEL UM TORNAR-SE AUTÊNTICO SEM UMA TOMADA DE CONSCIÊNCIA DA SOMBRA.

Karlfried Graf Dürckheim


A perda e o redescobrimento do Todo

Quando o tornar-se começa a fazer-se consciente, descobre-se a percepção e o sentido da importância dos opostos, através dos quais o Todo primordial penetra a consciência humana da vida. Entre outros, encontra-se a oposição do Ser Essencial e do eu existencial, do Yin e do Yang, do masculino e do feminino, do espaço-tempo e do supradimensional, da força profunda e dos dons profanos. O motor do tornar-se é o esforço para um retorno à unidade, num plano superior. Ao perder o todo e a visão que se conforma com esse todo, a vida humana sofre as seguintes consequências:

O ocultamento do Ser Essencial, em todo modo de presença do Todo que vivem no homem.

Uma falta de profundidade — é a perda do Todo o que produz a primeira tensão entre a consciência superficial e o profundo.

O estreitamento do horizonte do eu, condicionado pelas pulsões, os sentimentos e o intelecto.

O endurecimento do eu que define, ao situar-se em primeiro plano, pois quer adquirir e conservar posições seguras.

A pobreza interior, já que a plenitude é reprimida pela multiplicidade.

A secularização: quando desaparece a consciência do Todo primordial da VIDA intervém a oposição entre o sagrado e o profano.

Não existe o retorno ao Todo original. Mas é possível redescobrir-Lo num nível superior de consciência. Este descobrimento é fruto de uma maturidade interior. Antes de tudo é necessário haver sentido a separação do Todo. Estes reencontros a suprimem e superam, situando-a num segundo término de uma visão que prenuncia um estado de consciência mais elevado.

A meditação, exercício iniciático, deve ser, primeiramente, uma percepção dos opostos em toda sua intensidade. Um esforço prematuro para a harmonia compromete o resultado de todo trabalho iniciático. Só ao sair da tela de fundo dos opostos, reconhecidos com lucidez e vividos dolorosamente, é quando a nova tomada de consciência converte-se numa experiência fecunda. Unicamente depois, é quando será legítimo abolir os opostos, graças a união com o Ser Essencial, e dentro de uma consciência interiorizada do Todo sobrenatural. Naturalmente, estas noções vão ao encontro de uma tradição que pede um esforço direto de elevação para a luz divina, para o que não conta a voz baixa de uma consciência não purificada de suas contradições. A percepção, o respeito, a diferenciação e a integração dos opostos são as condições para uma transformação estável.

O CAMINHO PARA O TODO PASSA POR SUA DESTRUIÇÃO

Karlfried Graf Dürckheim


A liberação do homem

A emancipação do homem, que compreende toda sua pessoa, determina a nova era. Ocorre em duas etapas: a primeira resgata o homem natural, a segunda libera sua essência sobrenatural. Os homens que constituem a nova era se atrevem a redescobrir e liberar sua natureza.

A sociedade dos tempos modernos tem se convertido numa sociedade de eficácia e rendimento. O que conta é o que o homem possui, o que pode e o que sabe, o que produz e a forma com que se comporta a respeito de outros homens. Não se leva em consideração o saber o que o homem é e ao que está destinado a tornar-se totalmente. Por isso, sua oportunidade de tornar-se um homem total está em perigo sobre dois aspectos: por uma parte está limitada a expressão espontânea das pulsões e dos desejos naturais, e por outra, nossa cultura lhe separa também do Ser Essencial sobrenatural que, de fato, deveria caracterizar e determinar o espírito humano. Assistimos atualmente a um duplo esforço de restauração do homem. Desde a medicina e a psicoterapia, até as formas mais elaboradas de tomada de consciência de si mesmo — nas técnicas de grupo de Gestalt psicológica e psicodrama — todos os métodos buscam sobretudo liberar o indivíduo de suas inibições e de suas inveteradas deformações e dar-lhe sua espontaneidade humana natural. Do ponto de vista iniciático, os métodos que conduzem a uma liberação da natureza só adquirem um valor verdadeiro se ajudam a clarear o caminho para o Ser Essencial.

É recente que além dos direitos do homem natural, seu centro, seu núcleo essencial está reclamando, também, por ser satisfeito. Por esta razão, os educadores, os terapeutas e os que estão encarregados das almas enfrentam-se com uma tarefa totalmente nova. Pela primeira vez, este trabalho requer um guia espiritual no caminho interior, o guru, o mestre. O exercício cuja finalidade é a evolução interior, ocupa o lugar que tem as práticas que tinham outro objetivo. Não se trata aqui simplesmente de exercícios de meditação limitados no tempo; é um treinamento para uma atividade meditativa fundamental, no que múltiplas práticas de meditação transformam o cotidiano.

LIBERDADE PARA A NATUREZA E PARA A SOBRENATUREZA.


Karlfried Graf Dürckheim

A iniciação caracteriza um dado nível de evolução humana

A iniciação caracteriza um dado nível de evolução humana. Este grau pode ser mais ou menos inato ou adquirido. Quando é inato, o homem, a princípio, tem um contato subconsciente com o Ser Essencial. Em tal momento haveria a tentação de dizer que sua alma, num destino anterior, tivera alcançado uma vida habitada pelo SER num grau elevado e que começa sua existência atual num grau que outra pessoa teve que conquistar. Na mesma medida em que a tomada de consciência do Ser essencial se lhe outorga muito antes que outra, este homem está, desde o princípio, pré-determinado por e para o Ser Essencial. E desde muito cedo tem a oportunidade de alcançar uma maturidade cujo fruto é viver nesse estado. Nos demais casos, o contato e a vida iniciático são o resultado de intervenções e golpes do destino, assim como fruto de um incansável trabalho. O progresso do homem dotado no terreno iniciático, tanto como daquele a quem o destino o fez despertar neste sentido, não se consegue tampouco sem esforço. De modo inverso, também o homem não iniciático em sua origem necessita um certo laço inicial, uma tendência e uma aspiração vivas que o levem até o caminho e o façam reconhecer a luz que ilumina esta rota nos momentos mais sombrios, se é que tem a coragem de suportá-los.

Há também homens que devem viver toda sua vida sem dom e sem contato iniciático. Não estão prontos para madurar. Contudo, uma nostalgia neles presente, e quem sabe bem mais do que em outros, os inclina para a busca. Ao se interessar pelas questões sobrenaturais, pela leitura de livros esotéricos ou por qualquer tipo de prática, como por exemplo, a yoga, tentam se aproximar do mistério. Porém, tudo o que experimentam com isso desaparece como o bolor com o vento.

Alguns sofrem mais do que outros. Porém, os golpes da sorte, que para algumas pessoas lhes faz cair a máscara, não os leva ao umbral iniciático. As experiências seguem sendo infrutíferas. Inclusive ao fim de sua vida não o compreendem e só amargura concebem. Outros, ao contrário, sem encontrar realmente a forma de chegar à consciência e à vida iniciática, adquirem, não obstante, um sentido de vida de caráter numinoso. Sua relação com a transcendência dá passos de diversas maneiras: pela queda da fé no Deus de sua infância, por uma relação especial com os segredos da natureza, por uma abnegação e fidelidade aos valores éticos, e por uma concepção quase religiosa da comunidade. O numinoso sentido desta maneira não conduz, sem dúvida, a uma experiência libertadora de união que lhes comprometa com relação ao Ser Essencial. Não conseguem chegar à grande experiência totalmente transformadora.

A dificuldade com respeito a experiência iniciática tem sua origem, muitas vezes, não numa falta de “disposição” para o caminho interior, senão numa excessiva riqueza. Os dons intelectuais, com a tentação que levam consigo de compreendê-lo e ordená-lo todo em conceitos, são um frequente obstáculo no caminho de uma realidade que não admite uma consciência definidora.

Ao contrário, uma época como a nossa, dominada pelo pensamento racional, não será obstáculo para compreender também por meio de conceitos o conteúdo das experiências do Ser; porém só será capaz de compreendê-las aquele que também possua a experiência supra-intelectual. Desta forma, a experiência espiritual é também a condição para uma exegese válida.

TER OUVIDOS PARA OUVIR PARA OUVIR.


Karlfried Graf Dürckheim

O que distingue o homem pré-iniciático?

O que distingue o homem pré-iniciático do que desperta para a iniciação exige uma importante explicação complementar se se quer compreender bem o que são um e outro. O primeiro — o homem pré-iniciático — vive essencialmente na realidade que ele compreender racionalmente. Deixa a transcendência para um passado distante — embora mesmo em sua vida esta ocupe algum lugar —; tal critério de transcendência o iniciado o percebe interiormente, em todas as coisas. Não obstante, há também que se mencionar o homem que ainda não saiu do seio do SER divino. Ainda que naturalmente tenha chegado a essa visão do real determinada pela razão, e ainda que tenha desenvolvido nele a consciência que define e seus sistemas, este homem mantem um sentido da vida ligado a uma harmonia pré-racional. Para ele, ainda não se tem dividido a unidade original da vida. Na criança há um momento em que a consciência racional do mundo, que vai despertando, não faz contudo desaparecer o sentido pré-racional de uma vida no todo, que forma esse segundo plano de que se desprende a harmonia numinosa da vida. Igualmente há adultos aos quais sua relação com a natureza, seu destino e toda sua existência dão uma confiança primitiva, íntegra, na presença do SER sobrenatural. Contudo vivem numa sintonização fundamental cujo caráter é transcendente. Para estes homens o divino segue sendo uma vibrante realidade interior, inclusive se o exteriorizam mediante uma crença traduzida em fórmulas. A experiência da Graça e até do milagroso, que parecem vir do exterior e respondem a uma oração obedientemente satisfeita, são recebidas sem surpresa e sem temor. Realizam-se, com efeito, no interior de uma consciência da vida em que o destino humano e a ordem supra-humano do Todo que contém todas as coisas não é algo que se pense ou que se sinta como que separado. Este fundamental estado de ânimo numinoso pode também impregnar a vida de um ser que cresce numa comunidade não religiosa, onde nunca tenham lhe mostrado a importância ou a gravidade do divino.

A presença, secretamente vibrante, da inefável filiação a um todo sobrenatural é também, em definitivo, a condição mediante a qual, e apesar de um período de separação, este homem poderá encontrar o segredo perdido, mediante uma experiência particular: a experiência iniciática.

TODOS OS GRAUS ESTÃO CONTIDOS NO UNO.

Karlfried Graf Dürckheim

O caminho iniciático e os sistemas de crença

A fé do homem iniciático não é uma crença em algo, mas sim a fé através desse algo. Essa fé tem o seu fundamento no “conhecimento” sustentado pela experiência, de uma vida sobrenatural. A graça pela qual o indivíduo se comunica com ele, não lhe parece um milagre que se produz nele imprevisivelmente. Sente sua essência inata, como a maior graça que se pode dar, já que através dela, e de um modo individual, o SER divina opera nele. O fim do exercício espiritual é levar a consciência a este SER essencial, ancorar-se nele e aprender a testemunhar sobre ele.

A fé que nasce e cresce através da grande experiência do SER não conhece a dúvida. A língua francesa possui duas expressões para a palavra alemã “Glaube”: “foi” e “croyance”, a língua espanhola “fe” e “creencia”. “Fe” e “la foi” não sabem o que é a dúvida. Repousam na abertura, livres de todas as dúvidas, no que se refere à revelação que fala através das sagradas escrituras. Quando o dom de adesão espontânea se coloca em questão pela intervenção do racional, “fé” se converte em “crença” e “foi” se converte em “croyance”, quer dizer, em obrigação — exposta à dúvida — de ter algo como verdadeiro. A fé absoluta se converte numa crença condicionada. Mais cedo ou mais tarde, reclama argumentos e desmorona assim construída sobre areia. Este é o perigo que ameaça a crença quando a razão começa a determinar o que é ou não real. Mas quando o SER chega ao fundo da consciência do homem distante da menor dúvida, este sente sua conexão com uma nova realidade. A consciência desta realidade tem suas raízes numa experiência, cujo caráter é de revelação, pela qual nenhuma incerteza pode lhe fazer vacilar. Só está exposta à dúvida uma crença que se baseie, não sobre a experiência, senão sobre uma realidade independente dela.

O Espírito santo, ao revelar-se, fala por si mesmo através de uma fé realmente viva que se expressa num sentimento religioso, inconscientemente iniciático por sua própria natureza. Contudo, quando a vida anima a fé, o fato de confessá-la, a oração, os cantos de louvor e os cultos religiosos são sempre expressão e confirmação de uma imanente transcendência. É no crente o testemunho daquilo que há de mais íntimo e elevado de si mesmo e de seu universo. A confiança, o fervor e a própria entrega são suas formas de expressão. Todas as dúvidas desaparecem e supera-se qualquer sofrimento. Só surge uma questão: em que medida uma fé assim impregna a vida cotidiana e resiste aos ataques do racional? E em que medida transforma o homem enquanto pessoa?

O que é uma espiritualidade afastada do atemporal atribui a uma mensagem divina, recebida há séculos, considerando-se lhe como uma tradição sagrada, se bem compreendida, é a revelação atemporal de uma realidade universal contida em toda grande experiência do SER.

No homem iniciático, a consciência da vida, que ultrapassa todo o racional, tem suas raízes na experiência do SER sobrenatural, imanente em nós. Para quem despertou para a iniciação, a vida começa com uma revelação “mística” que reconhece como tal. Segundo já ressaltou Guénon, há sem dúvida uma diferença entre o puro místico e o homem iniciático. Nestas experiências transcendentes o divino se apodera outra vez do místico. O homem iniciático trabalha metodicamente em estabelecer uma atitude de toda pessoa, que não somente desenvolve as condições favoráveis para a experiência do Ser, senão que, tudo o que por meio delas se tem vivido numa estrutura durável da pessoa. Assim é como a vida iniciática é o próprio Ser divino, inato em nós, nesse movimento de aparição progressiva de sua imagem interna. Existem místicos sem pretensão iniciática, porém, nenhum discípulo que avance no caminho pode fazê-lo sem uma experiência mística fundamental. O homem iniciático encontra sua verdadeira vida no Ser Essencial. Sua verdade existencial é o caminho que leva a dar-lhe forma no mundo.

O passo do homem pré-iniciático a iniciado é o salto que faz subir a um novo escalão humano. A importância que vemos toma hoje esta transição faz que a abertura ao Ser Essencial, a possibilidade e a inclusão — uma vez alcançado o grau necessário — é dever de ousar este salto, são um renascimento e um verdadeiro vinho novo para o homem sedento de liberação e de virtualidades criadoras. A forma como se recebe e se vive — timidamente contudo — o expõem, é certo, a um perigo: o de ser deitado em odres velhos, quer dizer, ser utilizado para renovar e avivar as estruturas e fórmulas antigas da vida religiosa, que por si mesmas desviaram-se da experiência. A abertura ao mistério da experiência iniciática descobre perfeitamente o sentido profundo da liturgia e das formas tradicionais da fé e lhes preenche de uma nova vida. Mas compreender a experiência direta com o divino da qual se trata aqui, de tal forma que o espaço vital interior do homem se reduza a seu horizonte natural, não corresponde nem a qualidade nem ao nível do sentido religioso iniciático. O manancial que deveria banhar as regiões secas se esgota assim novamente.

Para o homem pré-iniciático, o espírito de Cristo se manifesta praticando atos de amor ao próximo. Aos olhos do homem pré-iniciático, a exigência primária do espírito crístico é obedecer ao chamado que lhe convida a encontrar Cristo em seu próprio Ser Essencial e a dar testemunho dele em plena liberdade de sua maturidade. Justificar a existência não tem sua origem só nas obras ou na fé, senão, na transformação pelo SER. Por sua vez, esta transformação também se manifesta em seus atos e numa nova fé. Somente então, o homem assim transformado pode alcançar a emancipação que lhe torna livre para participar na criação desse mundo que se deseja. Isto implica também, graças ao Ser essencial, um forte eu diante do mundo, uma “persona” na qual o espírito tenha chegado a ser verdadeiramente carne e sangue. A vida iniciática se cumpre nesta persona, transparente não só a uma experiência continuamente renovada de sua participação no Ser divino, senão também, a manifestação deste através de uma obra que transforma o mundo.

A FÉ, INACESSÍVEL À DÚVIDA.


Karlfried Graf Dürckheim

A revolução iniciática do Ser

A diferença entre a vida pré-iniciática e a vida iniciática manifesta-se especialmente pela dessemelhança de suas exigências diretrizes e de seus critérios de valor. O que dirige a conduta e a consciência moral do homem pré-iniciático são as autoridades externas, como exemplo, os poderes situados fora dele. Quando se dirige para o caminho iniciático adiciona a isto a autoridade do Ser Essencial, que atua na consciência profunda para converter-se finalmente em seu centro e guia.

Uma determinante exigência neste nível marca cada um dos graus da evolução humana. Igualmente que o princípio de toda vida consciente, a evolução obedece, em grau pré-racional, a lei de um todo que a contém. É o momento do crescimento natural que está sujeito à lei da vida. Uma crescente tomada de consciência adiciona às forças de orientação inconscientes da natureza as informações procedentes do exterior. Os desejos e as pulsões pessoais entram então em conflito com as “autoridades” do exterior. Primeiro com os pais e os educadores, e mais tarde com os sistemas de valor que ordenam o comportamento. Este conflito entre as pulsões e obediência, “deveres e tendências” é um fator de sofrimento.

Com o salto iniciático realiza-se a virada decisiva: a dependência para com as autoridades externas cede espaço ao chamado interior determinante do Ser Essencial.

Quanto mais fundamente o homem sua independência em suas forças naturais, em suas capacidades racionais e em seu potencial técnico, mais tentado fica de recusar como crença pueril toda instância divina e sobrenatural. Mas, uma vez que é aí onde se encontra sua pátria original, prontamente ou mais tarde isto lhe atormentará na mesma medida em que dela se afaste, apesar de seu racionalismo e independentemente de todo conceito religioso. É quando então sobrevém uma dessas crises tão frequente hoje em dia. O mistério do SER divino levanta sua voz com tanta força e intensidade novas como se proclama a morte de Deus. As experiências e as promessas do SER afetam vivamente a consciência profunda. Formulado com novos conceitos, manifesta sua realidade mediante movimentos de rebeldia, ou numerosas correntes espirituais, mas, sobretudo aspirando a uma direção e a exercícios espirituais cujo fim comum é a união com o Ser Essencial. A verdadeira raiz de energia em tudo, portanto, também na vida humana, emerge como imanente transcendência. Sucessivamente distingue-se duas classes de homem: para uns, a autoridade divina não existe, ou, e apesar de algumas experiências, só está situada num mais além exterior a si mesmos. Os outros reconhecem uma autoridade interior, inclusive quando, segundo a tradição, esta parece estar exteriorizada na oração, no culto e nos dogmas. Os avanços do reconhecimento iniciático da verdade levam à união dos opostos “interior” e “exterior”. O SER, que nasce na consciência iniciática, está, adiante, mas além destes opostos: trata-se somente de dois modos diferentes de consciência.

Do ponto de vista cristão, a mudança para a autoridade divina interior representa a emancipação realizada por Cristo com respeito à lei. Cristo faz com que o homem desperte para essa fonte viva do Espírito divino, que está presente em sua essência. No lugar de submeter-se a um Deus externo e longínquo, que se expressa por meio de leis e mandamentos, intervém a obediência a um Deus que se manifesta no interior de si mesmo. Esta interiorização é uma chamada para a maturidade. E não impede a ninguém de fazer parte nas orações e cerimonias de culto, nem o abandonar-se confiadamente a esse Todo, no que todas as coisas estão contidas, Todo em que o homem participa, porém o qual, sem dúvida, não se identifica. Trata-se de transformar o servo de um Deus longínquo num filho do Pai. Esta transformação traduz na linguagem cristã a revolução iniciática.

Prepará-la, realizá-la, e através dela, viver em outro nível, é a finalidade da meditação.

O EU SEPARA — O SER ESSENCIAL UNE


Karlfried Graf Dürckheim

Etapas evolutivas para a consciência do Ser

A meditação, exercício iniciático, obedece a uma exigência que se manifesta a certo grau de evolução do homem. Visto a partir desta graduação, todos os que foram precedidos adquirem seu próprio sentido.

A vida humana se realiza ou se aborta pela tensão entre seu Ser Essencial, não contingente, e seu eu orientado e condicionado pelo mundo. Ao tomar consciência de sua independência pela primeira vez, o eu se estabelece em seu próprio poder e se separa, sobretudo, de seu Ser Essencial. Converte-se num eu existencial.

Este eu se desenvolve primeiro de forma natural, satisfazendo suas pulsões primárias de segurança, prazer e bem-estar. Com este fim, reclama a posse de bens, a afirmação de si mesmo, o poder. A formação deste eu é uma etapa necessária para a elaboração no mundo de uma personalidade forte. Não há forma de atuação mais errônea que impedir a uma criança a formação de um eu forte, egocêntrico. A “boa criança”, que não se opõe nem se obstina, que não conhece a rebeldia porque reprime suas pulsações naturais, mais tarde se converte, geralmente, num ser débil e neurótico, e enquanto tal, permanece fechado ao caminho iniciático.

Outra coisa é a formação de um eu existencial, que não permanece obcecado nem por si mesmo nem por satisfazer seus impulsos, senão que domina seu egocentrismo para chegar a ser capaz de servir aos outros ou a uma causa, a um homem ou a uma comunidade. A partir do ponto de vista iniciático, a vitória sobre o pequeno eu egocêntrico, recompensa a uma maior objetividade, a um sentido dos valores e a um desinteressado dom de si mesmo aos outros ou a uma obra, representa um primeiro passo no terreno dos impulsos naturais a uma dimensão transcendente.

Esta etapa é indispensável e ocupa um lugar na evolução de um ser humano, inclusive numa época como a nossa, em que a jovem geração, parece tratar com desprezo os valores e a ordem tradicionais. Sem dúvida, ao chegar a este nível corre-se o risco de ver que o dom de si mesmo, que já possui um caráter numinoso, fazer sombra ao verdadeiro progresso através do Ser Essencial.

Duas tarefas são atribuídas ao homem: uma delas é dominar e estruturar o mundo com seu trabalho, e a outra, amadurecer no caminho interior. A virada decisiva para o caminho iniciático, que se está realizando, situa por fim este trabalho de maturidade no lugar que lhe corresponde. Mas a etapa final da maturidade só pode ser alcançada com a experiência do SER, mediante a abertura ao Ser Essencial através de todos os sistemas do eu existencial. Quando a vocação que desperta — a manifestação do Ser Essencial — adquire um sentido determinante para a nova experiência, então, é somente quando o homem acessa de verdade a fase iniciática de sua vida.

Todas as etapas da evolução são precedidas pelo grau primitivo, no qual predomina, contudo, a inclusão do homem no Todo inicial que lhe protege, inclusive quando o eu, comprometido com a independência, começa a despertar. Depois da etapa de acesso ao descobrimento do Ser Essencial, vem o último escalão na evolução: com um novo sentido, que tem sua origem agora no Ser Essencial, o homem tem que voltar a dar ao mundo a importância que tem. Neste nível, O Ser Essencial já não exige que se relegue a segundo plano o eu profano. Ao contrário, tem que integrá-lo na essência, de onde tem suas raízes. Viver adquire toda sua realidade iniciática quando o Ser, conforme se desenvolve, se converte na força essencial que dá sentido ao eu profano.

Os cinco graus desta evolução não são uma simples sucessão. São também cinco modos de vida que se mesclam e a determinam alternativamente. Sua ação não se faz fecunda nem cumpre sua meta até o momento em que o sentido iniciático toma as rédeas.
A evolução do homem aparece assim como uma sucessão de graus. Conscientemente ou não, o Ser essencial se afirma pouco a pouco, mediante uma progressiva tomada de consciência e também por uma linha de conduta que vai se transformando.

Estes cinco graus de evolução se mostram diferentes se o critério do valor aplicado é a manifestação do Ser Essencial e se a formação de uma personalidade segura, eficaz e sólida, segundo o mundo, já não se considera como a suprema realização humana.

O desenvolvimento da evolução se parece com um jogo de alternativas: tão pronto o homem, captado pelo Ser Essencial, sente e atua debaixo de seu impulso, como desvia deste Ser sua vida e sua atividade. Quanto mais olhamos a existência em seu conjunto, a partir deste ponto de vista iniciático, melhor reconhecemos nela a ação do Ser inicial, em cada uma das etapas. O homem que está absorvido pelo racional, esquecido de suas próprias raízes, cria por esta mesma razão um fundo de sofrimento que lhe afasta, diante de sua consciência, do Ser Essencial. Na medida em que nossos contemporâneos concedam a sua necessidade de progresso, segundo o Ser Essencial, a prioridade sobre o desenvolvimento das capacidades que lhe fazem dominar o mundo, encontrarão ocasiões de realizar eles mesmos neste Ser em todos os aspectos da vida. E será para eles tanto mais de seu agrado quanto que sua energia existencial não diminui, senão que se acrescenta com a união ao Ser. Esta energia permite tornar fecundos os sofrimentos da vida. Há que se somar hoje que os altos resultados técnicos atuais podem conduzir também a um testemunho de realidade transcendente ignorada nos séculos passados.

DE GRAU EM GRAU.


Karlfried Graf Dürckheim

O homem iniciado é um foco de confusão

Aquele que verdadeiramente desperta para o caminho e é fiel ao chamado da via iniciática entra num país totalmente novo. Tudo, absolutamente tudo, é diferente. Diferente por sua qualidade, por seu sentido e pelo objeto de seu conhecimento. Diferente também pelo chamado a certo comportamento e a certa relação com os demais e com toda a vida.

O principiante no caminho pisa um solo novo, cheio de surpresas, de tentações e de perigos. Muitas coisas lhe assustam, outras lhes parecem profundamente familiares. Naturalmente, a princípio, suspenso entre dois universos, entre a promessa e as exigências do novo e o peso do antigo mundo habitual, entre o espírito de aventura que lhe empurra para o inexplorado e a necessidade de segurança que lhe remete aos seus hábitos; entre o impulso de forças ainda desconhecidas e a fidelidade aos antigos valores. Neste momento, tudo depende de uma decisão inequívoca e da tenacidade em leva-la a cabo. Há que atrever-se a sair das estreitas fronteiras de uma ordem tranquilizadora para entrar no vasto terreno da liberdade que não possui nenhum sistema de segurança; aceitar o risco de ser infiel a ordem e as leis estabelecidas para ser fiel ao inaudito, cuja promessa e obediência brota do coração do Ser Essencial; abandonar a rede de relações humanas, superficiais, bem organizadas, para afrontar a solidão que anda de mãos dadas com a profundidade, profundidade donde só encontram lugar aqueles contatos que deixam ressoar sua voz secreta. Quem despertou para o caminho se converte num cidadão de outro reino, que não é deste  mundo, senão é de sua origem para o que começa a retornar. Seus únicos e autênticos laços lhe unem aquelas pessoas que ele sente que são seus irmãos e irmãs no SER.

O novo país em que entra é sempre um país de revolucionários. Os sistemas existentes só são reconhecidos se preparam uma revolução. Se oprimem o que supõem o futuro são combatidos. O homem iniciado é um foco de confusão. Nada o imobiliza, nem incluso, e sobretudo, o fato de encontrar, no curso de sua evolução, o objeto de sua constante busca. Ele também dá razão para a sabedoria búdica: “Se chegas num lugar em que nele não encontras a Buda — vá mais além. Porém, se chegas a um lugar em que encontras a Buda, fica mais longe ainda.”

A vida iniciática é sempre surpreendente e perigosa, para os inimigos, para os amigos e para si mesmo.

SEM DETER-SE — SEM PONTO DE CHEGADA


Karlfried Graf Dürckheim

O contato permanente com o Ser

Aquele a quem tenha sido dado experimentar, realmente, uma vez em si mesmo a presença do SER e, mediante a um constante exercício, seguir a chamada que contém tal experiência, entra numa relação com a transcendência que determina toda a sua vida. Quando o homem pré-iniciático, para quem toda realidade aceita é independente de sua vivência pessoal, situa a transcendência fora de seu eu, quem já despertou sente o SER sobrenatural no interior de si mesmo. A princípio, este interior de si mesmo para ele é só uma interioridade imanente ao homem. Depois, à medida que evolui, percebe esta interioridade como o SER presente em tudo o que é, que está mais além do interior e do exterior tal como o compreendemos comumente. O “lugar” deste interior não tem nada a ver com o espaço no sentido usual do termo. Para o homem pré-iniciático, tudo o que é espacial está relacionado com o eu existencial, tomado como o centro da toda percepção. O centro de experiência do homem iniciático é de outra ordem. O fundo transcendente em que se enraíza suprime as distinções categóricas da visão natural do mundo. O que quer dizer que quem despertou para a experiência iniciática da transcendência está mais além dos “que?”, “onde?”, “quando?”, “de onde?” ou “para onde?”. As categorias de tempo e de espaço, de causalidade e de identidade (kant) que condicionam a consciência natural, se adiciona uma categoria de “mais além do espaço-temporal” que predetermina toda consciência. O condicionado pelo espaço tempo se vê no sucessivo partindo da presença desta categoria e daí se desprende seu significado.

Quanto mais profundamente em sua consciência íntima participa o homem em sua transcendência, mais se impregna de uma particular harmonia a totalidade do Si e do mundo. De tal forma que em todas as coisas e em cada pessoa com quem entra em contato, encontra ressonância o SER sobrenatural. De fato, o discípulo avançado na via iniciática deveria sentir-se em contato permanente com o SER. Resumir continuamente esse contato e viver abaixo de sua luz tudo o que se encontre no caminho implica certa atitude. Adquirir e conservar esta atitude é a meta fundamental do “cotidiano como exercício”.

O contato do SER como realidade, promessa e vocação se converte assim numa qualidade essencial da vida. E quando perde a força sobrevém um sentimento de desassossego interior, de negligência culpável, uma falta de criatividade. Desaparece a tripla unidade de força, harmonia e proteção que se acham ligadas à presença do SER. A pessoa que já está comprometida neste caminho sente esta ausência como uma diminuição de toda a sua força vital. Para quem despertou para a via iniciática é uma chamada para a ordem, para essa ordem que é disposição de espírito para tornar transparente o SER. A realidade do SER essencial atua no homem como um mestre interior e como a consciência absoluta que lhe acompanha sempre no caminho.

A presença íntima do SER permite ao homem guardar uma distância eficaz com respeito a existência espaço-temporal. E todas suas circunstâncias se convertem numa ocasião e num convite, sob essa camada do contingente espaço-temporal, a perceber o absoluto encerrado nessa existência e que tende a manifestar-se.

Desta forma é como vive a pessoa que despertou para a via iniciática, em tudo quanto lhe rodeia, o Ser Essencial não liberado, oculto abaixo dos limites do contingente. Sua relação com o que lhe rodeia é para ele uma tarefa nunca acabada: é contemplar o que está em relação com ele de tal forma que libere assim ao Ser Essencial cativo no espaço-tempo. Igualmente, seu encontro com os homens exerce também sobre eles uma ação tão forte que deixa livre a seu Ser Essencial.

TODO VISÍVEL É UM INVISÍVEL ELEVADO AO ESTADO DE MISTÉRIO (Novalis)

Karlfried Graf Dürckheim

A exigência que percebe o eu profano e o Ser Essencial

Na realidade, quem está preso entre as exigências do eu profano e as do Ser Essencial? Quem deve decidir ou satisfazer umas ou outras? Esta pergunta não é levantada e, sem dúvida, se necessita uma resposta se se quer seguir, responsavelmente, a via iniciática, já que exige constantes decisões dessa ordem. A resposta é uma simples comprovação: o homem — pessoa consciente e responsável — vive em seu centro como um eu que pode e deve fazer duas coisas: discernir e decidir. Ele é exigência de conhecimento e de liberdade. O homem está constantemente obrigado a decidir, por exemplo, se pode ceder às pulsões, aos desejos e as obrigações que guiam seu eu profano, ou obedecer as exigências opostas do Ser Essencial.

Existe, pois, um eu distinto tanto do eu profano como do Ser Essencial, e que se apresenta como exigência decisiva frente a eles. Este eu pode ser o super-eu determinado pela moral, o eu do mundo parental portador de leis estabelecidas em sua sociedade. Ou, oposto a este super-eu está o livre centro de consciência e de decisão, que é a expressão de um Todo ao que está subordinado. Partindo de um ponto de vista em que o homem está inicialmente chamado a realizar um processo de individuação que dá a sua imagem inata uma forma existencial, se pode considerar este centro como a exigência que, pouco a pouco, leva este processo para a consciência responsável.

É decisiva a etapa em que se passa do super-eu moral para esse eu mais profundo. Se entra assim na ordem da transformação iniciática. Quem despertou para este caminho deverá observar constantemente se atua segundo a liberdade de seu Ser Essencial ou se segue dominado por seu eu, ético ou pragmático. E também estudar porque meios alcançará integrar seu eu existencial e seu Ser Essencial. Portanto, o centro que nos ocupa deve possuir a imagem diretriz da integração, que é a vocação do homem, do eu profano e do Ser Essencial.

Por cima deste centro, a experiência do Ser faz com que apareça, todavia, uma exigência superior na estrutura fundamental da consciência. Diante desta exigência o eu é em cada momento responsável pelas opções que tem de fazer entre o eu profano e o Ser Essencial. As decisões tomadas são aceitas ou recusadas por essa exigência mais profunda, verdadeiro núcleo da pessoa, que encarna a presença do SER divino. Mediante ela falam a esperança e a exigência do Ser Essencial que tendem a integrar o eu profano. É a expressão da pessoa, plenamente realizada, que alcançou o nível supra-pessoal a que foi chamada. Para chegar a tomada da consciência do Si que exige o progresso no caminho interior é necessário estar atento ao centro de discernimento e de opções entre o Ser Essencial e o eu existencial. Sem a presença deste centro que vela pela realização do Ser Essencial, o praticante da meditação se encontrará sempre num estado de tensão infrutífera entre a aspiração essencial e os desejos naturais do eu profano.

DISCERNIR! DECIDIR!


Karlfried Graf Dürckheim

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)