O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Sobre a voz mansa e delicada que nos chega com o silêncio

Sem levar em conta como podemos nos sentir quando entramos no estado de meditação, finalmente nos instalamos em uma paz interior e, quando isso ocorre, estamos em uma fase importante de nossa meditação porque o poder de Deus torna-se manifesto nesse período em que o espírito humano não está pensando. Sabemos que a verdade não é aquilo que cura, é o que acontece quando acabamos conhecendo ou pensando nela conscientemente. Então, nesse período de tranquilidade, a palavra de Deus vem diretamente. 

Declarando que a verdade é apenas um processo de se preparar para uma imobilidade e atenção interiores, então, ou algum pensamento vem a nós ou há apenas um sentimento, às vezes, mais importante do que quaisquer palavras. Quando esse sentimento, que pode ser como um alívio ou um respirar profundo, vem, o Próprio Espírito começa a conduzir a nossa experiência. Maiores os trabalhos de restabelecimento, maiores as obras de restauração e reforma, e maiores são as obras de força espiritual realizadas, quando não há nem palavra nem pensamento, quando há tranquilidade completa. Então, algo, a revelação do Espírito e Sua Força, ocorre no interior.

A iluminação espiritual e a força espiritual vêm através de um completo silêncio do pensamento humano, da vontade e do desejo humanos. Nessa ausência completa do eu, quando há apenas uma paz interior, uma expectativa, lá vem aquele pequeno sobressalto, aquele leve respirar profundo, aquele pequeno suspiro, aquele pequeno alívio. É quando sabemos que o Espírito está em campo e a obra está sendo realizada. 

É egoísmo acreditar que nossa compreensão sempre realiza o trabalho de restabelecimento. É uma excitação interna que realiza o trabalho, uma Presença e uma Força que Se revelam em estado de imobilidade, tranquilidade e serenidade. 

Deus nos alcança no silêncio. Dizem-no que não há força na tempestade, no relâmpago, no trovão, mas somente na "voz mansa e delicada". Eis onde está o Poder de Deus, na "voz mansa e delicada" que fala dentro de nós quando estamos calmos e atentos, pacíficos, quietos e confiantes. O reino de Deus está dentro de nós e Ele revela a Si mesmo. Ele pode revelar-Se na fala, Ele pode revelar-Se como uma luz; Ele pode revelar-Se meramente como um arder íntimo. Mas, quando Ele se revela, alguma coisa acontece. 

Quando entramos em meditação, temos apenas uma obrigação, que é esquecer cada uma e todas as pessoas neste mundo, voltarmos para dentro de nós mesmos e compreendermos que o reino de Deus está dentro de nós. Na tranquilidade e confiança da meditação, ninguém, ou o problema de ninguém, entra em nossa mente. Tudo o que pertence ao Pai será liberado através da "voz mansa e delicada". 

Em tal meditação, eu não estou pensando em ninguém; não estou pensando em mim mesmo. Estou apenas existindo silenciosamente e esperando algum sinal de dentro que me diga que Deus está em campo. E eu espero até que ela venha — uma pausa para respirar, um sentimento de paz, uma sensação de libertação íntima. Então, sei que algo aconteceu porque a palavra de Deus, a presença de Deus, a respiração saiu de mim. 

Joel Goldsmith em, O Despertar da Consciência Mística

Dos problemas que oprimem a auto-absorção mística

[...] O segundo problema que oprime a auto-absorção mística: a sua incapacidade de estabilizar a sua própria visão interior, excepcional mas fugitiva, a sua incapacidade para proporcionar uma sempre ativa consciência da realidade, é também solucionado tão-só pela filosofia. Para compreender isto, devemos primeiro entender que, além da repulsão e compulsão de uma perspectiva do mundo fortemente arraigada, o homem que medita deliberadamente, volta as costas ao seu meio ambiente exterior, e abandona e despreza a sua existência terrena, durante o avanço interior para o seu eu espiritual. 

Primeiro descobre ou capta a existência da intangível e invisível Mente, vazia de imagens, durante um rapto contemplativo, em que se absorve intensamente, esquecendo por completo o mundo exterior. Tão intensa é a sua concentração que temporariamente se desvanecem todas as sensações e pensamentos, todas as imagens mentais, e assim o homem se acha num grande vazio, onde nada existe, e onde ele está, em linguagem teológica, submerso no Espírito Puro. Mas a mente não pode descansar permanentemente neste vazio, como não podem os pulmões interromper a respiração. Inexoravelmente regressa ao oceano da mente universal as ondas de pensamento individual, interrompendo-se assim o estado de absorção em que o homem está sumido, e o mundo se precipita novamente em sua consciência. Só pode permanecer ali por uns breves instantes, pois um simbólico anjo com uma espada flamígera o arroja fora do místico jardim do Éden. Portanto, isto não pode constituir a sua meta final. 

O iogue que atinge este ponto pode lutar arduamente por reter e prolongar este estado de absorção, mas só poderá recobrá-lo novamente, repelindo o mundo e meteno-se outra vez dentro de si mesmo. Todavia, a Natureza com toda a sabedoria voltará a impeli-lo para a vida toda vez que ele tenta apartar-se dela. Equivocando os intentos da natureza, o iogue faz ainda maiores esforços, atribuindo sua incapacidade e causas equivocadas e negando-se a aprender que a natureza plasmou carne para experiência instrutiva, não para repelirmos tontamente. O mundo finito aparece insistentemente ali. O iogue poderá anulá-lo permanentemente. Contudo, consola-se crendo que, enquanto está encarnado, está é a meta final que o homem pode alcançar, e que a perfeita libertação sobreviverá depois da morte. 

A mera quietude mental é um excelente objetivo, neste caminho de ascensão espiritual, mas não é a verdadeira transcendência. O vazio mental, que tão frequentemente constitui o estado de absorção dos iogues comuns, não é o mesmo que a consciência auto-compreensiva, que constitui o estado de absorção do iogue filosófico. A paz do primeiro facilmente determina um debilitamento da visão do mundo e um imenso letargo, enquanto que a paz do segundo só pode determinar um aumento de forças para ajudar o mundo e uma grande inspiração. Observar este estado, de fora, e crer que ambos são uma mesma condição, é ser culpável de um grave equívoco. A negatividade difusa do primeiro é inferior e distinto da inteligência discriminativa e alerta do segundo. 

O tipo de iogue comum simplesmente deixa de pensar. O iogue filosófico compromete ativamente sua consciência livre de pensamentos, na compreensão de sua própria natureza. O primeiro é todo flores, mas sem frutos. O outro é todo flores e todo frutos. Assim, pois, na Senda Suprema, um texto de normas para os aspirantes, reunidos, há oitocentos anos, no Tibete, que é ainda muito apreciado ali, se faz a seguinte advertência: "A quietude do processo inativo do pensamento (na mente individual) pode parecer, equivocadamente, a meta verdadeira, que em realidade consiste em alcançar a quietude da Mente Infinita". A chave desta situação extremamente sutil é, portanto dupla. Primeiro, a posse ou a ausência de conhecimento metafísico. Segundo, a atitude mental graças à qual o contemplativo entra em estado de auto-absorção. Estes dois fatores estão intimamente relacionados entre si, e não podem separar-se porque um depende naturalmente de outro. 

O momento em que se passa da vigília para o sono ou sonho é, agira sabemos, um momento sumamente crítico. A direção geral da consciência neste momento pode determinar o caráter dos sonhos ou sono posteriores; pode, por certo, transformar um ou outro em algo totalmente superior. Da mesma maneira, é sumamente crítico o momento em que a atividade do pensar submerge na absorção total. Também então a direção geral da consciência pode determinar o caráter do estado seguinte. A atitude mental nesse momento é realmente criativa. O místico atravessa este momento interessado só em suas reações pessoais frente à experiência, isto é, arrastado por seus pensamentos pessoais de grande satisfação. A experiência o torna mais feliz e ele jamais poderá olvidá-la depois. Mas deixou sua tarefa pela metade, fato melancólico testemunhado pelo seu retorno posterior, tarde ou cedo, ao estado prosaico comum, no qual permanece. Devido em parte a esta referência pessoal, e em parte à sua ignorância metafísica, e consequente falta de preparação, entra neste estado de auto-absorção contemplativo, como o homem que se afastasse de uma habitação por uma porta aberta, com os olhos tenazmente fixos no lugar familiar que deixou, negando-se a olhar para a frente. 

Assim como este home só em parte saberá onde está, inclusive quando se acha dentro da habitação, assim também o místico terá só uma parcial da índole da Mente Pura, inclusive quando está imerso na auto-absorção. Além disso, esta referência pessoal faz com que o místico abandone as suas perspectivas preconcebidas e suas crenças dogmáticas, apenas temporariamente no limiar da Mente, por assim dizer, ao invés de mantê-la em sua chama purificadora; assim, pois, volta a retomar as suas crenças anteriores, quando regressa à experiência comum. Pelo contrário, se a meditação é praticada conjuntamente com o treinamento filosófico, isto é, se não é mais um simples exercício místico, senão que está informado pelo conhecimento reflexivo racional, então, a perspectiva equivocada da realidade não volta a aparecer, porque o puro ser a experimentará tal qual é. O divino está persente em ambos os casos, mas no primeiro, seu caráter satisfatório se converte num obstáculo, o que não sucede no segundo caso. Ambos os místicos têm tocado a realidade, mas o primeiro apenas alcançou a superfície, enquanto que o outro penetrou em sua imutável profundidade. 

Paul Brunton em, A sabedoria do Eu Superior

Da transitoriedade dos estados de indescritível felicidade

[...] O estado superior da meditação correta não é um estado mórbido ou perigoso, tal como geralmente se pensa de um transe; é antes um estado de especial exaltação e de felicidade emocional. É o fruto da disciplina mental, não da aberração mental. O leitor ocidental mediano está sujeito a formar-se uma falsa ideia do sentido que aqui damos a este vocábulo. É mais provável que capte o significado correto se utilizarmos em troca o termo "rever", mas aqui existe a implicação de que os processos do raciocínio estão ainda trabalhando ativamente, se bem que de maneira vagamente sonhadora. 

"Samadhi", a palavra sânscrita, também tem sido traduzida pelos orientalistas como "êxtase". Mas este termo também pode provocar más interpretações, quando recordamos que sua etapa posterior está totalmente desprovida de pensamentos. Por conseguinte, o melhor será utilizar aqui a expressão "auto-absorção" ao invés de empregar o termo "transe". Referimo-nos a um estado de rapto ou absorção dos pensamentos, na essência de si mesmo, e uma profunda imersão dos sentimentos, numa indescritível felicidade. Se é empregada falando das experiências iogues, a palavra "transe" deveria ser reservada para aqueles estados catalépticos em que culminam os esforços dos praticantes, nas etapas finais da ioga do controle físico, que aqui não nos interessam, porque este método nunca pode orientar diretamente a realização do Eu Superior, que é o escopo de nossos escritos. 

O estado inconsciente alcançado por esse sistema não é considerado como algo desejável e necessário, no método que aqui desenvolvemos. Em realidade, seria inútil. Os transes dos hatha-yogues, dos faquires que permitem que os enterrem vivos durante horas ou dias, deixam o homem inconsciente, como quando a ideia do "Eu" retrocede até a sua fonte dentro do coração. Quando retornam, não obtêm maior benefício espiritual do que o que obtêm do dormir comum, enquanto que na auto-absorção superior da meditação mística,  o ego se sumerge no coração, porém em plena consciência. Portanto, ninguém deve apartar-se da prática da meditação, pensando que está mais além do alcance comum dos seres humanos, e que só uns poucos a podem realizar, e que será necessário que caiam em transe, no sentido de perder totalmente a consciência. Pelo contrário, a prática mesma não só está dentro da capacidade de todos, senão que, ademais, pretende proporcionar um estado de consciência mais plena, uma condição psicológica de uma captação consciente mais extensa. 

O primeiro problema da auto-absorção é o seu caráter efêmero. Em todas as suas etapas, seja na recordação difusa, ou na última fase de absorção total, quando o mundo se sente remoto e surge o Eu, sempre está caracterizada a transitoriedade. O místico há de subir todas as colinas de uma divina existência durante essa experiência, mas sempre terá que voltar a descer delas. Sua incursão produz magníficos vislumbres de um hábito superior e de suprema luminosidade, mas isso não é permanente. Não pode invernar para sempre na auto-absorção, ainda que o deseje. Ou, como disse o místico chinês Lao Tsé: "Ninguém pode permanecer para sempre parado sobre as pontas de seus pés." Não é possível manter o tempo todo a consciência submersa na contemplação; ela só pode ingressar a intervalos nesta condição. A imobilização interior não é duradoura, e seus transes são transitórios: esta é a queixa constante dos místicos que não se tem dado ao trabalho de analisar as suas próprias experiências. 

Muitos místicos ocidentais, como São Gregório e Santo Agostinho, e não poucos iogues orientais, como Vivekananda, têm-se lamentado do fato de não poderem manter-se como queriam, no que consideravam a etapa mais elevada do misticismo, a etapa de completa desaparição de todas as sensações e pensamentos, por mais de uns poucos minutos, ou umas poucas horas, já que sempre deviam regressar à condição prosaica da vida cotidiana. São Bernardo descreveu muito bem esse sentimento melancólico com as seguintes palavras: "Todos esses poderes e faculdades espirituais começaram a languidescer, como se o fogo fosse apagado pela água derramada de uma marmita fervente. Então minha alma necessariamente ficava sumida na tristeza e na depressão, até que Ele quisesse retornar". 

A transitoriedade da experiência é algo que o místico não pode controlar nem impedir. Por conseguinte, vê-se enfrentando a dificuldade de ajustar essas experiências às necessidades da existência física, dificuldade que nunca supera realmente. A filosofia, compreendendo isto, insiste em que seu método particular de aproximação da realidade última tem alcançado um ponto em que setem esgotado sua servidão a ele, e que, em consequência, a natureza enviou um sinal de advertência. Mas só a filosofia pode interpretar este sinal. 

Deve-se completar a experiência com o desenvolvimento de uma visão interior mais profunda. Assim, a mesma transitoriedade de tal experiência mística se converte em algo útil porque o místico se apercebe de que ela não pode ser a meta suprema, e ao mesmo tempo lhe indica que tem de avançar numa direção diferente. O ensino oculta afirma enfaticamente que o estado de auto-absorção não é o supremo objetivo objetivo para a humanidade, por mais que os iogues comuns afirmem o contrário. É só quando está desperta que a pessoa foi totalmente projetada, e não está de nenhuma maneira projetada quando está sumida no sono profundo. Por conseguinte, unicamente no estado total de vigília, e não no estado de transe — que corresponde ao sonhar ou ao dormir — podem reconhecer-se os propósitos superiores de suas limitações, e alcançar-se a mais ampla consciência da realidade. Assim, pois, ainda que possa ou não atravessar transes, em seu caminho de elevação, o aspirante, por certo, não tem que passar por tais transes quando alcança o cume. O quarto estado de consciência é algo que, em sua finalidade e plenitude, persiste em todo momento e não depende de transes fugazes para sua continuação. [...] 

Paul Brunton em, A sabedoria do eu superior

Sobre os estados de êxtase místicos

Os êxtases místicos devem ser fugazes por sua própria natureza. É totalmente impossível a um ser humano gozá-los permanentemente. É melhor alcançar um estado de equilíbrio constante do que um estado alternado de êxtase exaltador e de pressão nostálgica posterior. O gozo do êxtase implica uma atividade emocional, e toda atividade implica transitoriedade, mudança; de modo que não existe nesse estado repouso final. Que isto é assim resultado evidente através da história do misticismo oriental e ocidental, que conta com numerosas referências acerca da melancólica descida, desde uma etapa muito avançada, ao que se chama " a escura noite da alma", quando todos os êxtases desaparecem por completo e são substituídos por estados de ânimo ensombreados por uma melancólica secura espiritual. A maioria dos místicos nos fala desta queda, de alturas arrebatadoras de grande doçura emocional aos secos vales de recordações enfeitiçadas. Mas isto  é simplesmente o esforço da Natureza para produzir o AJUSTE NECESSÁRIO, afim de estabelecer o equilíbrio num nível superior. E depois da trágica da noite obscura da alma, sobreviverá, se o místico permite, a realização evolutiva e a compreensão de que o êxtase místico só não é mais uma meta suficiente para ele, e que é incomensuravelmente melhor uma serena segurança da PRESENÇA sempre atual do Divino. 

O místico está fundamentalmente preocupado com seus sentimentos pessoais para com Deus. O filósofo se preocupa principalmente com Deus. Mas há uma tremenda diferença. A devoção guiada pelo conhecimento pode logar o que o simples conhecimento jamais há de lograr. Este é um segredo que nem o místico iletrado nem o metafísico que careça de iluminação espiritual, podem compreender. esta é a razão por que, quando o místico alcança o seu mais profundo ponto na meditação, não deveria deixar-se arrastar por seus sentimentos pessoais, ao extremo de esquecer a sua meta superior. Quer dizer que deve gozá-los serenamente, sem enredar-se nesses sentimentos. 

Ao contrário, chegado a este ponto, deveria ter a presença de ânimo de volver sua atenção para a própria Mente, orientando-a ainda mais profundamente para o seu interior, procurando compreendê-lo e buscando a sua própria realidade. Esta atitude crítica não significa que as emoções devam desaparecer, pois constituem uma das grandes forças impulsionadoras da vida ativa de todo homem, em qualquer etapa de sua evolução pessoal. 

Mas enquanto, amiúde, estas emoções correm às cegas no homem que se encontra numa etapa inferior de evolução, em troca, são PURIFICADAS e CONTROLADAS graças a uma cultura bem orientada, numa etapa superior. A veneração é sempre mais importante para o aspirante do que a erudição. Por exemplo, ninguém tem de se envergonhar de chorar, inclusive apesar de seu treinamento metafísico, se chora em nome de coisas exaltadas, por compaixão pelos demais, ou ante a presença divina. Enquanto não alcançar esta meta final, sempre será um aspirante; e enquanto for um aspirante, deve estar preparado para chorar por Deus, para emocionar-se pela divindade e para derramar lágrimas pela ausência de Deus ante a sua consciência; em suma, deve estar preparado PARA SENTIR. Em verdade, não se devem matar tais sentimentos, senão senti-los intensamente. Sem eles o homem jamais realizará a meta suprema, porque há de sentir-se Deus da maneira mais profunda possível, e não alimentar-se um frio conceito intelectual. Contudo, deverá utilizar um conceito de Deus para enfrentar seus sentimentos, e examiná-los e purificá-los, se é que quer achar o VERDADEIRO Deus. Sentimento e razão devem equilibrar-se mutuamente, porque desta interação surgirá uma atitude mais profunda para com Deus. 

Por que logram tantos estudantes fugazes vislumbres do estado supra-sensorial e logo o perdem? Por que são tão esporádicos tais vislumbres, e aparecem tão raramente? Por que não pode o aspirante fixá-los? Por que, quando tenta retê-los, nota que só tem na mão a fria cinza morta de uma mera recordação? Por que não pode recuperar esses maravilhosos momentos que dele fogem, inclusive quando quase os tem apressado? A resposta é que, em parte, estes momentos são refrescantes perguntas de uma conquista que ainda está muito longe, e que são enviados pelo Eu Superior para alentar as esperanças, para atuar como incentivos ao prosseguimento da busca e para mostrar aos iniciantes como é a culminação de uma busca. Logo a Natureza os tira da meditação com o fim de que esses vislumbres se reajustem em seus outros dois aspectos, a ação inspirada e a reflexão metafísica, porque é só graças à fusão integral desses três aspectos que a percepção interior pode surgir e ser retida. 

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

O ensino oculto é constrangido pela mente cartesiana

A Mente Absoluta é qualificada de incognoscível somente no sentido de que nem o intelecto, nem os sentidos podem conhecê-la diretamente. É preciso empregar outro meio de aproximação. O princípio da consciência sendo independente de qualquer ideia ou formas particulares, deve ser conhecido de outra maneira que as ideias e as formas que são seus objetos. Onde a razão fracassa miseravelmente em pensar o Eu Superior, porque está fora de suas possibilidades, ela pode tornar-se, entretanto, o Eu Superior, imergindo humildemente nele. Quando isso acontece, um ser luminoso fornece a resposta que o pensamento limitado não pode dar. Devemos nos absorver, e conosco todo a bagagem de pensamentos, naquilo que é a base oculta de nosso intelecto e de nossa experiência. Procurar conhecer o observador oculto deve cessar para procurar tornar-se ele próprio. Em outras palavras, a diferença entre o observador e o observado deve desaparecer, o objeto do pensamento deve dissolver-se no Pensamento Original, o conhecimento e o ser devem fundir-se. O "eu" e seu pai transcendente, o ego e sua testemunha eterna, devem unir-se de qualquer maneira. É somente então que existirá um conhecimento interior por identificação do mais baixo com o mais elevado. Então somente o "eu", se torna consciente da Presença Sagrada em seu santuário mais profundo. Tal é a via que a  filosofia indica. 

O elemento de percepção deve levar a uma introspecção, a personalidade terrestre deve unir-se à fonte celeste que procura conhecer. A psicologia ocidental considera ordinariamente como absurda esta exigência. Sua ciência só conhece uma percepção particular, e por isso se recusa a admitir que pode existir uma atividade de consciência pura. Ela tem perfeita razão do ponto de vista de suas experiências táteis, mas não do ponto de vista da experiência mística, que transcende os sentidos. O ensino oculto é por isso constrangido a separar-se aqui da ciência, a qual, pela própria natureza de suas atividades, tem visão muito curta para discernir as moscas no seu âmbar intelectual. Ele sabe definitivamente, por sua tradição às experiências modernas, que esta introspecção é possível; sabe que, se realizadas as condições necessárias, pode desenvolver-se este poder de tornar este elemento autoconsciente, independente que qualquer objeto de percepção.

Um tão exaltado objetivo a filosofia coloca diante de si através de uma tripla aproximação que resulta na visão interna da Superconsciência. Não é de espantar que exista algo cuja natureza é tão transcendental que escapa ao alcance do raciocínio humano. Que esse algo possa ser apreendido por uma forma de percepção mais profunda não nos espantará quando nosso curso intelectual estiver completo. Este poder de apreensão que está latente em todos os homens, embora só ativo em poucos, é essa forma. 

Empregamos a palavra "visão interna", porque aquele que a possui pode ver o que é, não somente o que parece, mas  ver no interior a realidade, atrás da aparência que nossa faculdade de construir imagens lhe superpôs, e sentir a essência eterna da avida além de todas as formas transitórias deste mundo. 

Ver é uma função do corpo, compreender é uma função da inteligência, mas penetrar é uma função do "Eu Superior". 

O antigo ensino oculto dizia que por em ação esta faculdade era "abrir os olhos ao conhecimento transcendental". 

Entre a verdade obtida intelectualmente e a penetração filosófica há a mesma diferença que entre o conhecimento de Roma obtido pelo estudo de um mapa e o obtido por uma visita pessoal.

A razão opera avançando de ideia em ideia, a penetração atravessa de um só jato a aparência mais espessa.

Quando o homem raciocina sobre um assunto, não chega ao conhecimento senão ao fim do raciocínio, passo a passo; isto é, depois de um certo tempo, enquanto que, quando  o mesmo objeto, o conhecimento de sua existência é imediato e instantâneo.

A penetração suprema é como retirar um véu e ver, sentir, compreender instantaneamente alguma coisa que não se conhecia. Onde o intelecto luta em vão para apanhar o que está acima do pensamento e da explicação, esta visão percebe num simples relâmpago.

Quando ela alcança sua plena maturidade, não se tratará mais de verdades relativas, porque fornece uma que é o Todo único encerrando-as todas. Onde o intelecto deve constantemente coligir e comparar parcelas de conhecimento, a visão interna desdenha todos os pormenores porque ela percebe a possibilidade de tudo conhecer e que é a base de todas as coisas experimentadas — a própria Mente Secreta.

Esta realidade que se conserva finalmente por trás desta terra poeirenta, por trás desta flor purpúrea, por trás dos homens que penam; que os faz assemelharem-se as simples sombras projetadas passageiramente sobre uma tela; que caçoa de todos os esforços feitos pelos cientistas para detectá-la que os teólogos rodearam de mistério impenetrável e os metafísicos contemplaram, desesperados, de longe; que constitui o enigma central que dá vertigem aos sábios e enlouquece os fracos; que conduziu Herbert Spencer, desconcertado, a declarar finalmente que era e ficaria eternamente incognoscível; que não cede nem aos progressos ousados do intelecto trabalhando a sós, nem aos apelos apaixonados da emoção; este grande arcano não pode, entretanto, nos escapar indefinidamente porque é a Mente em nossa mente, o Eu Superior ensombreando o nosso eu inferior.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Cuidados necessários quanto a manutenção da graça

Quem recebe a graça do Eu Superior sai de seu torpor moral ou mental, e experimenta, ordinariamente por certo tempo, e às vezes definitivamente, uma notável mudança de caráter. A cabeça é afetada mais que o coração, os pensamentos mais que os sentimentos, a vontade mais que os desejos. Porque, na verdade, o Eu Superior é a consciência mais alta de cada ser humano, é seu verdadeiro anjo da guarda, que do alto vela por ele. Intervém, às vezes, na vida pessoal, em caso de comportamento moral pernicioso para si e para os outros, dando aviso claro e nítido. Por alguns instantes eleva a pessoa a seu ponto de vista transcendental e a faz perceber a verdade oculta da situação, com uma luminosidade marcante. Um sentimento de exaltação estranho acompanha necessariamente a experiência que se torna bastante intensa e toma um caráter de devaneio profundo. Mas, isso desaparece depressa, infelizmente, e o homem recai quase sempre em seu antigo ponto de vista familiar, continuando a enganar-se em seu raciocínio, sem compreender a paixão, a emoção, o interesse particular, as aparências; a falta de experiência pode permitir que se dissimule nele o verdadeiro estado das coisas. è preciso meditar longo tempo sobre elas e interessar-se fundamente por elas, por essas visitas raras do Eu divino, porque se não tivermos cuidados, o Eu Superior falará outra vez com voz mais firme — a do sofrimento kármico. Temos sempre o direito de esperar do Eu Superior socorro para nossas dificuldades, até mesmo ajuda milagrosa, se estivermos no bom caminho que nos indica. Contrariamente, se não tomamos em consideração, veremos cedo a manhã cinzenta levantar-se em nossos dias, cobrindo a rósea cor de nossos sonhos. 

Se a resistência egoísta do homem é muito obstinada, se preocupa-se demais com seus negócios ou com seus prazeres, e seu espírito não se desprende deles um momento sequer, durante sua vida desperta; se o falacioso prestígio de sua personalidade o impede de ver a mensagem recebida de outro modo, o Eu Superior pode lançar-lhe aviso durante o sono. Aqui, o homem receberá a comunicação, em seu espírito consciente, algumas vezes no curso de um sonho, simbólico ou não, mas muitas vezes ao sair imediatamente de um sono sem sonhos. É então muito importante examinar atentamente as ideias que num período de exaltação do espírito surgem de modo inesperado, e não deixar escapar sua significação. 

O Eu Superior age, em silêncio e segurança, e modifica a vida do ser profundamente e sem teatralidade. Toma conta do homem sem anúncios berrantes; as outras conversões são apenas turbações emotivas. O divino age de maneira profunda. Por que não manifesta ele mais abertamente seu poder, não intervém com mais clareza na vida da consciência? É porque, sabendo-se imortal e conhecendo a natureza efêmera da pessoa, pode permitir-se esperar com maravilhosa paciência que cresça, amadureça e desapareça a força da pessoa. Isso explica porque não podemos obrigar que a graça desça sobre nós. Ela vem à sua hora não à nossa; bruscamente, sem a esperamos. É dom que não se obtém, nem por manhas nem com lutas e artifícios. Mas, podemos nos preparar para sua vinda e tirar da espera o maior proveito, preparando-nos tão somente. A vinda da graça se ressente de modo reconhecível, mas somente depois que o homem foi humilhado e castigado, tornado modesto. Quando descobriu, pois, que os resultados obtidos na via oculta eram de valor duvidoso, se não perigoso, e constatou que tinha necessidade de socorro exterior, que não lhe chega senão é solicitado com efusão. Momento de saturação moral em que a intervenção celeste se manifesta abruptamente. A manifestação, pois, não nos chega sem o preparo prévio, sem a maturação dos esforços e sem, finalmente, a solicitação fervorosa. A base da atração entre aquele que pede e o que dá, deve ser a fé e o amor. Desde seu sonho inicial até o seu êxito definitivo, o aspirante deve crer indefectivelmente que esse Eu Superior existe, alcançá-lo constitui a meta de sua encarnação. 

Precisamos mudar de atitude  erguer os olhos com amor para o Eu Superior. Devemos nos prender a ele mais que qualquer outra coisa. Este poder que dirige a vida universal pode igualmente dirigir a nossa vida, se o deixamos que pense, sinta e aja através de nós; devemos dizer ungidos  — "Que tua vontade seja feita". Em verdade a graça vem do céu como o orvalho, mas os homens não a recebem. Somente a humildade ante este Eu Superior pode abrir as barreiras que trancam o acesso aos subterrâneos do rei, na pirâmide em que reside.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

Sobre o bem-aventurado efeito do toque místico da Graça

(...) O que é a graça? É uma descida do Eu Superior na zona da consciência. É a visita de uma potência tão inesperada e imprevisível, quanto feliz e fecunda. É mão visível que se estende até nós para nos guiar no meio das trevas em que titubeamos. É a voz do Eu Superior falando de repente através do silêncio cósmico que nos rodeia. É como um raio glorioso de esperança que rebrilha no instante em que tudo parece perdido. 

Mais precisamente, é a energia mística, o princípio ativo emanando do Eu Superior, que pode dar resultados no campo do pensamento, do sentimento, mesmo da carne, em parte, e nas relações kármicas, de outra parte. É uma vontade cósmica e não um piedoso desejo ou pensamento amável, que pode produzir verdadeiros milagres, de acordo com suas leias desconhecidas. Sua potência é tal que pode conferir a capacidade de penetração até a realidade última, tão facilmente como dar vida ao moribundo e dar a um outro, e de novo, o uso de um membro paralisado. 

Por existir em cada homem o Eu Superior, a graça existe em estado potencial. Quando nele desperta, dá-lhe imediatamente a consciência de mudança enorme no sentido em que opera; trata-se de mutação moral, física, sentimental ou material. Esta potência é tal que pode frequentemente destruir seu equilíbrio no domínio sentimental ou intelectual. 

O Eu Superior não está muito longe, além do coração. Se se julga de outra maneira, é uma ilusão, da qual devemos libertar-nos para a busca metafísica, ou a prática mística. A afirmação de que Deus reside no coração do homem não é somente de caráter poético, mas de caráter científico. E, portanto, o nascimento da graça é primeiro sentido no coração, não na cabeça, porque o coração é o mais íntimo habitat no corpo humano. 

Ela se manifesta de dois modos: primeiramente, por um sentimento que faz considerar a vida exterior como insuficiente por si mesma, em segundo lugar, por um desejo ardente da realidade interior. O nascimento começa por uma chamada da atenção sobre o peito. A força interior age por uma força centrípeta que desvia a atenção do exterior e da ambivalência física. Se o paciente obedece a essa solicitação e a concentra cada vez mais, no sentido interior, achará sua recompensa. Começa a sentir que existe nele alguma coisa oculta de que deve, conscientemente, tomar posse, sob pena experimentar todas as dores da frustração e da privação. A noção do que pode ser essa "alguma coisa" não é nítida na sua mente, mas tem a intuição de que se trata de elemento sagrado da alma divina. O efeito final é, primeiramente, de canteirizar o "eu" pessoal no coração e em seguida, estando assim a via preparada, de conferir a capacidade de penetração na realidade última. O primeiro efeito, por etapas, pode-se estender por vários anos, enquanto que o segundo se produz instantaneamente. 

O homem pode compreender que a primeira atividade acontece nele por causa das agonias que lhe causam os anseios e aspirações nascidas espontaneamente em seu coração, como consequência. Essas agonias são, às vezes, acompanhadas de lágrimas. Em consequência, a graça sobrevém como ponto culminante de uma luta emocional. Em certos casos, manifesta-se sob a forma de luz mística, que é apenas passageira e não se repete. Neste instante sublime em que um poder superior toma conta do ego e o atrai para si, o homem pode compreender que a graça lhe foi concedida. É preciso então que se submeta, sem reticências, ao condutor divino. Se a revelação tem a duração de um relâmpago, as suas consequências se fazem sentir durante semanas e meses e, às vezes, durante anos. Dispondo desta graça, o caminho que segue o aspirante, abre-se em perspectivas até então insuspeitadas. 

É talvez no domínio moral que a ação da graça se faz sentir a princípio com força de natureza revolucionária. Os psicanalistas e seus discípulos são inclinados a considerar o que chama de subconsciente do homem como um poço sem fundo, onde pululam unicamente desejos malsãos e ideias lúbricas. Eles necessitam aprender que encerra um fundo infinito de bondade, verdade e beleza tal, que os esmagaria com sua grandeza, pudessem eles ter conhecimento apenas momentâneo. Muitos falaram dos tormentos causados ao homem por seus desejos sexuais afogados. Suspeitam dos tormentos causados ao homem pelo recalque inconsciente de seu desejo de vida superior, de realidade interior? Sabem eles, porventura, que existe um "subconsciente" muito mais profundo e mais vasto que o que indicam e que espera por ser reconhecido? 

Mesmo no coração do pecador mais endurecido subsiste um núcleo que permanece imaculado; a alma não cessa, silenciosamente, de mostrar a via do bem e da sabedoria. A graça é ao menos tanto, senão mais, para aqueles que um mundo farisaico despreza e que uma sociedade rígida demais rejeita. A seu toque místico, a lembrança dos pecados já passados se apaga, as angústias dos sofrimentos do presente se apaziguam e os tormentos causados pela decepção dos desejos se dissolvem no ar. O fraco recupera forças, o aflito é consolado.

Todas as nossas melhores e mais nobres qualidades, nossas faculdades de pensar, de imaginar, de sentir mais elevadas, se ligam a esta corrente entre o homem e Deus, este intermediário que é capaz de partilhar ao mesmo tempo da vida tanto da pessoa como da Mente-Mundial, e assim ligar o efêmero com o eterno. Para o homem, ele constitui menta a qual devem dirigir-se os seus esforços intelectuais, um foco quotidiano, uma iniciação constante para elevar-se acima de sua natureza animal. Ele o incita a praticar a virtude, a fazê-lo apreciar a verdadeira beleza. É um buraco na fechadura pelo qual o homem pode lançar um golpe de vista sobre a realidade. É o Eu central que o homem tem que descobrir se quiser saber o que É e o que Deus é, verdadeiramente. É também o guia interior de que falam certos místicos. 

Esta luz que não e vista, esta voz que não é ouvida, se acham escondidas por detrás de todas as aspirações humanas. Todas as coisas se esforçam inconscientemente para realizar sua divindade inerente, progredir no sentido do eu ideal, transformar em fato o que elas já são em seu princípio oculto e em sua habilidade final. Por que sua existência garante que o homem se arrependerá um dia e se lançará aos seus pés? Porque agirá um dia como o filho pródigo. escravo ou potentado, uma nostalgia divina invadirá seu coração. esta nostalgia ou, à falta dela, os amargos insucessos da vida, o levarão a se virar para a última esperança que lhe resta, a melhor das esperanças. Cada ser finito é inconsciente e imperceptivelmente atraído para o ser infinito que é o Eu Supremo, como a mosca para a luz. Não existe felicidade, paz verdadeira, satisfação duradoura enquanto esta meta não for alcançada. Ninguém experimentaria esta nostalgia lancinante para a vida beatífica se esta não existisse realmente. Aí se acha a garantia de que cada ego se voltará para a luz a fim de ser salvo, finalmente, e reconquistado.

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior

A consciência individual e a Consciência Cósmica

O Ocidente procura pela consciência individual, pela mente enriquecida, por percepções instantâneas e por memórias, pelas esperanças e medos individuais, ambição, amores, conquistas; pelo eu, o eu localizado em todas as suas fases e formas e sequer desconfia que exista uma consciência universal. O Oriente busca a consciência universal e nos casos em que essa busca é satisfeita, o eu individual e a vida transformam-se em um mero filme e são apenas sombras, veladas pela glória que lhes é revelada do outro lado.

A consciência individual assume a forma do Pensamento, que é fluído e móvel, em estado de permanente mudança, em luta constante com o sofrimento e os esforços. A outra consciência não se manifesta sob a forma de pensamento. Ela toca, ouve, vê e é aquilo que percebe, sem movimento, sem mudanças, sem esforços, sem distinção entre sujeito e objeto, mas com uma Felicidade profunda e indescritível. 

A consciência individual está estreitamente ligada ao corpo. De certa forma, os órgãos do corpo são os seus órgãos. Mas o corpo inteiro é como um só órgão da Consciência Cósmica. Para chegar a essa última, devemos ter o poder de nos conhecer como separado do corpo, entrar, de fato, em um estado de êxtase. Sem isso, a Consciência Cósmica não pode manifestar-se.

Diz-se que há quatro principais maneiras de iniciação:
  1. O encontro com um Guru;
  2. a consciência da Graça, ou Arul, que pode ser interpretada como a consciência de uma mudança, até mesmo fisiológica, trabalhando dentro do indivíduo. 
  3. a visão de Shiva (Deus), com a qual o conhecimento do próprio eu, como distinto do corpo, está intimamente relacionado;
  4. o encontro com o universo interior. Também se diz que "o sábio, quando seus pensamentos tornam-se fixos, percebe dentro de si mesmo a consciência Absoluta que é Juiz de todas as coisas.
Entre os eruditos, houve grandes disputas quanto ao significado da palavra Nirvana, para saber se ela indicava um estado de não consciência ou um estado de consciência profundo, total. É provável que ambas as opiniões tenham fortes justificativas, pois esse é um assunto que não admite definição em termos de linguagem comum. O que é importante ver e admitir é que sob esse e outros termos similares existe realmente um fato concreto e reconhecível, ou seja, um estado de consciência, que já foi experimentado inúmeras vezes e que, os que por ela passaram, ainda que em leve grau, pareceu superior a toda uma vida de devoção. É claro que é fácil representar a coisa por uma simples palavra, uma teoria, uma especulação do hindu sonhador. Mas as pessoas não sacrificam suas vidas por palavras vazias, nem transformam o destino de continentes com uma simples regra filosófica abstrata. Não, a palavra representa uma realidade, algo básico e inerente à natureza humana. Não se trata, em realidade, de definir o fato, pois não podemos fazê-lo, mas de atingi-lo e passar pela experiência. Nesse ponto, é interessante observar que a moderna ciência ocidental, que até aqui se ocupou, sem grandes resultados, com teorias mecânicas sobre o universo, começa a aproximar-se dessa ideia de existência de outra forma de consciência. 

Edward Carpenter, citado por Richard Maurice Buck em, Consciência Cósmica

Como atingir o núcleo atômico da natureza humana?

É este o doloroso problema de milhares e milhares de homens de boa vontade: como atingir o núcleo atômico da natureza humana...

O nosso ego físico-mental-emocional é, por natureza, centrífugo, extravertido, demandando sempre às periferias do mundo objetivo. O seu ambiente é o mundo externo, dos sentidos, da inteligência, das emoções. O nosso ego é visceralmente exteriorizante

O nosso Eu espiritual é essencialmente centrípeto, introvertido, tendendo, sempre, ao centro da natureza humana. 

Esses dois pólos se acham no Universo. 

O UNO é do Eu, o VERSO é do ego. 

Sendo, porém, o curso da nossa evolução de fora para dentro, é natural que primeiro atinjamos o VERSO e, somente mais tarde, o UNO. 

Para o roteiro da nossa evolução, o Universo é Versouno: os Diversos em demanda do Uno, os Múltiplos em demanda do Simples. 
Enquanto esses dois componentes do cosmos não estiverem harmonizados no composto único, não haverá paz e sossego na vida humana. 
No homem profano prevalece o Verso

No homem místico impera o Uno

O homem cósmico realiza a grande síntese do Universo: ele é universificado — é o homem univérsico

Considerando que a imensa maioria, a quase totalidade, , da atual humanidade pertence ainda ao mundo dos profanos, é lógico que o primeiro passo a dar está em ultrapassar a face caótica da dispersidade do ego, e entrar na zona mística do Eu. 

A primeira etapa, nessa jornada do centrifuguismo ao centripetismo, do ego profano ao Eu Sagrado, está na consciência do Eu místico. Quem parte do antepenúltimo, rumo ao último, terá de passar pelo penúltimo. Esse penúltimo é o total isolamento na zona mística. 

E para chegar a essa zona, vem em primeiro lugar a concentração mental, que passa pela meditação  e culmina na contemplação
Dificílima é a concentração mental.
Difícil a meditação.
Fácil a contemplação.
Mas... para chegar à zona do "jugo suave" e do "peso leve", é indispensável passar pelo "caminho estreito" e pela "porta apertada". Sem isso não há ingresso no reino de Deus. Por vezes, essa porta apertada parece até o "fundo duma agulha", por onde não passa nenhum "camelo", sobretudo quando onerado de muita bagagem profana. Deixe de ser "bagageiro", e deixe de ser "camelo" — e passará pelo "fundo da agulha". 

Esse processo é ensinado pelos mestres da interiorização, que é essencialmente um processo de libertação de toda a bagagem do ego, sobrando apenas o Eu puro e desnudo, a "luz do mundo", que tudo atravessa e pervade.
Na zona 1 os nossos pensamentos correm, suavemente, em direção paralela, sem esforço ou, até, em forma dispersiva indicada pelas letras A A. 

Com algum esforço, consegue o homem disciplinar as tendências do seu ego, reduzindo a dispersividade ou o paralelismo mental a uma ligeira convergência mental, indicada pelo algarismo 2. Em vez de ter 20 ou 10 pensamentos em rápida sucessão, a mente os reduz a 5 ou 2 e, finalmente, a um só pensamento, que enfrenta com o ponto único do algarismo 3. A mente está, então, unipolarizada — grande vitória para o homem habitualmente pluripolarizado, distraído, dispersivo, indisciplinado. 

Este pensamento único pode ser, por exemplo, "eu sou luz"[...] Eu e o Pai somos um...

Pouco a pouco, esse pensamento sucessivo culmina na consciência simultânea: Eu e o Pai somos um. Deixou de existir a sucessividade dispersiva da análise mental, e surge a simultaneidade unitiva da intuição espiritual. [...]

A unipoliaridade do pensamento é, agora, substituída pela unipolaridade da consciência. Morreu a análise mental e nasceu a intuição espiritual

O meditante superou a zona baixa das tempestades e turbulências e entrou na estratosfera da grande quietude e do silêncio. 

A linha vertical pontuada entre os algarismo, 2 e 4, marca a fronteira entre dois mundos: entre o mundo turbulento do ego, sujeito a tempo, espaço e causalidade — e o mundo tranquilo do Eu, que habita no eterno, no infinito. 

Pela primeira vez, o homem chega a saber, então, que céu e inferno não são regiões geográficas ou zonas astronômicas, mas sim, estados de consciência.[...] 

Huberto Rohden em, Runo à Consciência Cósmica

O vazio é a porta de entrada da nova dimensão de consciência

Como pode o homem entrar nessa nova dimensão mística¹?

Nenhum homem pode, por si mesmo, entrar nessa zona de experiência mística, que não é ego-feita, mas cosmo-dada. Essa dimensão superior entra no homem, quando encontra brecha, porta aberta, quando o homem permite ser invadido, e até pervadido, por essa vibração transcendente. 

Essa atitude de "invadibilidade cósmica" esta receptividade além-nista é importante; sem ela, nada de grande acontece na vida humana, porquanto o ego, por maior que seja, não deixa de ser canal, e nunca Fonte. Fonte é somente a alma do cosmos (Deus); se o canal não for invadido pela Fonte, permanece vazio, estéril, ineficiente — uma deslumbrante vacuidade. 

Enquanto o homem pretende ser 100% ego-faciente, não será cosmo-feito; enquanto ele é ego-pensante e ego-vivente, não será cosmo-pensado, cosmo-vivido. A cosmo-plenitude só deságua na ego-vacuidade — isto é lei inexorável, que ninguém pode modificar. A plenitude cósmica não atua sobre a plenitude egóica, mas tão somente sobre a vacuidade egóica, ou ego-vacuidade

Compete, pois, ao homem sapiente estabelecer esta vacuidade receptiva (humildade), a fim de poder ser plenificado pela plenitude cósmica (graça). 

A entrada nessa nova dimensão de consciência é, pois, uma questão de ser (atitude) e não do fazer (ato). 

Quando o discípulo (ego) está pronto, o mestre (EU) aparece"...

"bem-aventurados os que têm fome e sede de harmonia...

Huberto Rohden

____________________
(¹) A mística é a mais perfeita saúde e sanidade do homem, ao passo que o misticismo é um vício, uma atitude doentia de muitos homens. É deplorável que muitos autores confundam mística com misticismo. 

Como saber se estou na linha reta da iniciação espiritual?

(...) Como pode o homem ter plena certeza de que está no caminho verdadeiro,  na  linha reta da iniciação espiritual? E se tudo aquilo o passasse de simples emocionalismo, ou até de orgulhosa presunção?...

Respondemoquepara o verdadeiro iniciadohá uma certeza imediata, íntima, que não exige provas externas; o homem que teve o seu encontro com Deus tem plena certeza desse encontro, embora não o possa provar aos outros nem ao seu próprio ego humano. A certeza não vem das provas; as provas são apenas uma tentativa, assaz pueril, de querer justificar a certeza espiritual, o que é impossível. Se a certeza íntima dependesse das provas analíticas e silogísticas da inteligência, não haveria verdadeira certeza. Mas a certeza vem duma experiência interna, que o pode ser construída nem destruída ponenhuma demonstração externa. A certeza espiritual está para além de todas as defensivas e ofensivas das provas; habita  no baluarte  inexpugnável da intuição espiritual, que é a voz de Deus dentro do homem.

Quem tenta provar a existência de Deus é ateu, e quem adora um Deus cientificamente demonstrado é idólatra. Nem a realidade de Deus nem a imortalidade da alma podem ser provadas, mas são o resultado de uma experiência Íntima para além de todos os horizontes das operações da inteligência.

Entretanto, esse encontro Íntimo com Deus, além de dar certeza imediata ao iniciado, tem também as suas projeções externas, uma vez que o agir segue ao ser” (agere sequitur esse). O verdadeiro iniciado em seu íntimo ser revela essa iniciação também no seu externo agir, queira ou o queira. E essas consequências externas servem, geralmente, de teste e contra-prova para os de fora; o mundo nada sabe do nosso ser, só conhece o nosso agir, e do modo desse nosso agir infere algo sobre o nosso ser.

Quem se encontrou, de fato, com Deus, na profunda e silenciosa solio da experiência mística, inicia uma nova vida também na vastio do seu procedimento ético. O primeiro mandamento se revela espontaneamente no segundo mandamento”. A mística do verdadeiro iniciado transborda, espontânea e irresistivelmente, na sua ética cotidiana; aquela se realiza na profunda vertical do eterno e do infinito, mas esta se revela na vasta horizontal de todos os temporários e finitos. A experiência da paternidade de Deus produz necessariamente a fraternidade dos homens. O homem iniciado entra em cheio nespírito do Sermão dMontanha, que o é senão o reflexético da experiência mística.

Uma vez que o homem atingiu a altura do seu auto-conhecimento, sente maior prazer em dar e servir do que em receber e ser servido. E, como ultrapassou a velha ilusão de se identificar com o seu ego corporal, mental ou emocional, já o crê numa morte real do seu ser, não se apega freneticamente a objetos materiais, hão se sente ofendido, desprezado, preterido; não se julga infeliz pelo fato de sofrer, nem feliz por gozar. Esse homem perdeu tamm o senso da virtuosidade ou heroicidade; acha natural e evidente todo o bem que faz aos outros, desde que se tornou realmente bom. Quem é bom no seu íntimo ser o se julga merecedor de algum prêmio pelo fato de fazer o bem a seus semelhantes. Esse homem ultrapassou não o inferno dos seus vícios, mas também o céu das suas virtudes. Não evita o mal por medo de castigo nem pratica o bem com esperança de prêmio; ele é incondicionalmente bom, e, como ser-bom é ser-feliz, ele é profundamente feliz.

Esse ser-bom e ser-feliz envolve-o numa como aura de leveza e luminosidade, que contagia beneficamente todos ohomensuscetíveis dessas impondeveis irradiações e vale mais para a redenção da humanidade do que todas as palavras de outros homens.

Ética não pode ser profissão. A verdadeira ética é um transbordamento espontânedmística. O homem realmente místico nãnecessita de professar ética deliberadamente; o pprio fato de ele ser bom pelo contato com Deus faz dele um poderoso foco de irradiação ética, mesmo inconscientemente.

Ningm pode ser genuinamente bom sem fazer bem aos outros.

De maneira que a libertação do homem individual pelo conhecimento da verdade sobre si mesmo, e subsequente vivência dessa verdade, é o único meio seguro para redimir a humanidade de todos os males que a afligem.

Quando o homem descobre dentro de si mesmo essa fonte de segurança pode dispensar todas as seguranças externas. Conhecereis a Verdade e a Verdade vos libertará.” 
Homem, conhece-te a ti mesmo!
Huberto Rohden em, A Grande Libertação

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)