O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Solte-se à linda e bendita experiência do Vazio

Antes de você poder começar a adorar Deus, precisa esquecer-se de si mesmo, e antes de poder esquecer-se de si, deve aprender a controlar seus pensamentos e silenciar sua mente. É tarefa muito difícil fazê-lo completamente, mas tem de ser feita — pelo menos nalguma extensão.Se puder silenciar a mente apenas cinquenta por centro, terá conseguido alguma coisa. Mas você pode fazer o esforço, e depois de te-lo feito por algum tempo, um dia começará a ser bem sucedido. 

Você terá menos pensamentos durante seus períodos de meditação. Quando Deus ver que está fazendo esforços suficientes, Ele virá até você e gradualmente você começará a sentir Sua Presença. Perceberá uma atmosfera de quietude divina, e os poucos pensamentos que restam serão provavelmente exaltados. 

O Espírito Infinito está em toda a parte; por que tão poucas pessoas o percebem? Por que é que os homens parecem tão fechados à Presença de Deus? A primeira e mais clara razão é que eles mergulharam tão fundo em seus corpos e intelectos que perderam o hábito de se lembrarem do que realmente são e ao que realmente pertencem. Formaram o hábito de pensar em si mesmos como corpos e intelectos. O Infinito ali está, presente neles, e em toda a parte, mas, tendo perdido o hábito de se lembrarem de que realmente são Espírito, não lhes resta nenhuma esperança a não ser que encontrem alguma pessoa que lhes recorde o que perderam. 

Tais pessoas desempenham o papel de ministros para a Humanidade. Se a religião estivesse efetivamente exercendo sua função, cada clérigo, cada sacerdote, seria um ministro de Deus ao lembrar ao homem o que ele realmente é. Os pregadores devem tornar-se profetas antes de poderem lograr algo de valioso. O fato de se achar a Humanidade tão desesperançadamente perdida neste particular, é sinal de que os sacerdotes não se acham mais cônscios daquilo que realmente são. E deste modo temos cegos condutores de cegos. É esse o motivo de terem fracassado as religiões atuais. O Espírito Infinito necessita de uma passagem, de um foco através do qual ele possa atingir o intelecto do homem, se tiver de ser redespertado. O Espírito está presente em toda a parte, mas tem de ser concentrado por meio de um conduto para ser efetivo. A eletricidade existe, mas a não ser que a possa transformar e concentrar por meio de um gerador, ela não fluirá pelos fios para iluminar suas lâmpadas. 

Coisa análoga se dá com o Espírito. Ele precisa encontrar um meio, um fio pelo qual flua e se revele aos que necessitem de luz. Se o Espírito é para ajudar os seres humanos, precisa encontrar uma passagem através de um outro ser humano. Assim, quando Deus delibera fazer que Sua Presença seja sentida, Ele usualmente o faz utilizando-se de algum indivíduo como Seu canal. 

Isto nos conduz ao terceiro elemento de adoração. Nós precisamos de ministros, porém eles devem ter encontrado Deus. Se não o fizeram, não poderão ajudar-nos; se o fizeram, então nos são necessários e se tornam como que elos entre nós e Deus. Desse modo, a terceira condição de adoração é um intermediário entre você e Deus, o qual será um foco até que você mesmo seja suficientemente forte e iluminado para agir sem ajuda alheia. Ao chegar essa hora, o intermediário se retrairá humildemente e lhe deixará, porque ele não deseja permanecer em sua própria luz, nem entre você e Deus. Mas até você puder encontrar Deus diretamente, ele estará ali pronto para auxiliar-lhe. Portanto, a terceira condição na verdadeira adoração é um laço interno com alguém que tenha encontrado Deus. Assim, pois, se você tem estas quatro qualificações: humildade e a atitude como a de uma criança para principiar; esquecimento de sua vida pessoal durante o tempo da adoração; quietude mental e suas próprias relações pessoais com algum intermediário humano que lhe auxilie a efetuar a conexão com Deus até que você seja capaz de obtê-lo por si mesmo, então estará preparado para adorar. Você terá um crescente esquecimento da vida pessoal e crescentes momentos de divina quietude, quando sentir que dentro desse silêncio há um Poder Superior descendo sobre si. Tal é o segredo da verdadeira adoração: o sentimento de que está sendo soerguido por um Poder Superior. 

Não procure nada psíquico ou manifestações maravilhosas de natureza oculta. Podem vir, mas não os sobreponha ao divino. Estas coisas provarão ser um obstáculo à sua adoração; são desvios que lhe desencaminharão na senda da verdadeira adoração. Se você os seguir, seduzir-lhe-ão a tomar veredas fascinadoras, mas isso não é real adoração. Quando você encontrar a verdadeira adoração, algo dentro de si lhe falará: algo impessoal, infinito e não-material, pois, durante um breve intervalo, você perderá o sentido de seu corpo. 

No momento em que sente que está soerguido por um Poder Superior, é que a resposta lhe veio, e então você está realmente adorando. Ao sentir isto, deve se deixar ir; não lhe resista nem obstei por qualquer esforço próprio. Deixe-se simplesmente ire que esse Poder lhe leve onde ele desejar. Não lhe levará a qualquer lugar, mas lhe tirará de seu eu pessoal, e parcialmente de seu corpo físico, e numa grande extensão, de seu intelecto. 

É possível que nessas ocasiões, nem sempre, mas quiçá ocasionalmente, você veja uma Luz: uma grande Luz que lhe envolve e que parece estender-se pelo espaço insondável. Parecerá interpenetrar-lhe. Aparentemente flutuará e se tornará uno com ela, de sorte que não saberá se é a Luz ou se desapareceu aquilo que você era. 

Se lhe ocorrer esta experiência, não receie deixar-se ir — a si pessoalmente. Não há nada a temer. Talvez você sinta que irá desvanecer-se no espaço — que há um perigo de morte. Mesmo que houvesse perigo de morte, seria digno morrer por uma tal revelação. Mas você não morrerá; isto não passa de uma experiência temporária. Não lhe ocorrerá frequentemente; aceite-a, pois, com gratidão, quando ocorrer. 

Essa Luz Infinita Universal está tão próxima que você sempre conseguirá ver Deus. Você nunca "verá" a Deus senão como Luz. Deus é infinito e é Espírito. Ele só pode aparecer-lhe de uma maneira infinita, sem quaisquer aparentes limites finitos. A coisa mais próxima do Infinito que podemos conhecer é o espaço. Você não pode ver a extensão do espaço. Você pensa que vê o horizonte, mas se procurar aproximar-se dele, notará que ele sempre recua no espaço. Espaço e Luz são os únicos emblemas pelos quais pode Deus se manifestar a você. Luz é a forma de Deus, e espaço é a Sua casa. 

Se Deus Se lhe revela como Luz, seja grato. É uma linda e bendita experiência. Não lhe virá frequentemente. Há uma explicação da razão de você não poder esperar ter frequentemente esta grande visão. 

Se você tivesse de ver Deus como a grande Luz Universal, O veria como algo além de si, isto é, como algo fora de você, embora, no entanto dentro de sua mente. Você poderia sentir-se como parte desta Luz, mas ela estaria realmente fora de você, e assim, você estaia no entanto vendo essa Luz. Em outras palavras, há uma relação de dualidade; Deus é encarado como algo à parte de seu próprio eu. Ver — seja um anjo ou um objeto material, ou mesmo o próprio Deus como Luz — é ver algo fora de você mesmo. O simples ato de "ver" implica duas coisas: um "vidente" e aquilo que é visto — o que significa dualidade. 

Se Deus lhe premiou dotando-lhe da visão de Sua substância, e se você continua com seus esforços para adorá-Lo, Ele desejará conduzir-lhe um passo mais. Ele quer que você atinja o máximo que é possível a um homem alcançar. E que é o Máximo? É você descobrir que você, você mesmo, é espírito. No entanto, ver Deus "fora" de si é vê-Lo como à parte de si. A visão da Luz que que você tem é uma visão que tem lugar dentro de seu próprio corpo. Quando você vê a Luz, está ainda no mais elevado plano mental. Você tem de ascender mais alto.

Paul Brunton em, A Realidade Interna

A experiência gloriosa por fazer frente ao Vazio do real

Temos de retirar da mente cada coisa, cada pensamento, exceto este único pensamento de tentar alcançar a ausência do que não é o Absoluto. Isso é chamado de "Neti, Neti" (Não é isto), como Sankara o chamou. E o aspirante deve continuar com essa eliminação negativa até que alcance o estágio em que um grande Vazio o envolve. Se conseguir ater-se resolutamente a esse Vazio em concentração contínua — ele irá descobrir que fazê-lo é uma das coisas mais difíceis do mundo — perceberá abruptamente que o Vazio não é uma mera abstração mental, mas algo real; não um sonho, mas a coisa mais concreta na sua experiência. Então, e somente então, ele pode declarar positivamente: "É Isto". Pois terá encontrado o Eu Superior. 

Isso vem como um estado de intensa bem-aventurança, e então você não é mais o seu eu pessoal. O mundo desaparece; só existe o Ser. Esse Ser não tem forma nem figura. É, diríamos, coexistente com o espaço... nele você parece realizar o propósito mais elevado de nosso Ser. Não é o Supremo mas, por causa de sua prática de meditação, você pode considerá-lo como o Supremo. Você retornará algum tempo depois. Não pode permanecer nele por muito tempo. Você retornará e, quando retornar, retornará para o intelecto; começará então a pensar muito, muito lentamente a princípio, e cada pensamento estará carregado de tremendo significado, de tremenda vitalidade, de tremenda beleza e realidade. Você estará vivo e inspirado, e saberá que teve uma experiência transcendente. Sentirá uma grande alegria, e então, por algum tempo, poderá ter de viver da lembrança dessa experiência gloriosa. Essas experiências não ocorrem com frequência, mas vão proporcionar-lhe uma lembrança que agirá em você como inspiração positiva de tempos em tempos. 

Nessa experiência, o praticante se encontra no nada absoluto. Não há nem mesmo o conforto de ter uma identidade pessoal. Contudo, trata-se de uma experiência paradoxal, porque, apesar do nada total, ele não está nem dormindo, nem morto, nem inconsciente. Alguma coisa É, mas o que É, ou como, ou qualquer outra coisa a respeito, permanece um mistério não deslindado. 

Quando todos os pensamentos são extintos; quando até o pensamento da própria busca desaparece; quando cessa até mesmo o pensamento final de procurar controlar os pensamentos, então pode ocorrer a grande batalha com o ego. Mas a última cena desse drama invisível sempre é desempenhada pelo Eu Superior. Porque só quando sua Graça brota e lança por terra esse pensamento final, vem a vitória. 

Tudo o que se intromete na quietude mental nesse estágio altamente crítico deve ser rejeitado, não importa quão virtuosa ou "espiritual" seja a aparência que assume. Somente pelo lapso de todo o pensamento, pela perda de toda a capacidade de pensar, pode o aspirante manter como deve ser mantida essa quietude rígida. Só então a última grande batalha será travada e a primeira grande realização será alcançada. Essa batalha será a que dará o golpe mortal ao ego; essa realização será a união com o seu Eu Superior depois da morte do ego. Tanto a batalha como a realização devem acontecer dentro da quietude; não devem ser apenas uma questão meramente emocional do sentimento. Então, na quietude, tanto o pensamento como a emoção devem morrer, e o ego perderá assim o seu poderoso apoio. Só então, portanto, é possível dominar o ego com alguma possibilidade de vitória. 

O aspirante separa de todos os outros pensamentos o pensamento da sua própria existência; em seguida, ataca-o e o anula com o mais penetrante insight que já manifestou.

Aquele que passa por essas fases mais profundas do Vazio nunca mais pode chamar nada ninguém de seu. Ele se torna secreta e espiritualmente despojado de todas as posses pessoais. Isso ocorre porque compreendeu profundamente a completa ausência de matéria, de espaço, de tempo e de forma do Real — uma compreensão que, consequentemente não lhe deixa nada em que se apegar, nem no mundo nem na sua personalidade. O sentido de posse não abandona apenas a sua atitude com relação às coisas físicas, mas também com relação às intelectuais. 

No momento sagrado em que um silêncio reverente domina a alma, somos desfeitos. Os pequenos e estreitos tijolos com que construímos nossa casa da vida pessoal desmoronam e caem por terra. As coisas pelas quais trabalhamos e que ardentemente desejamos resvalam para dentro do limbo das relíquias indesejadas e indesejáveis. O mundo das conquistas, fervilhando com as atividades da ambição, dissolvem-se na insignificância de uma peça de terceira categoria.

Paul Brunton

Aviso aos navegantes

Se o ego puder enganar o aspirante a ponto de desviá-lo da questão central de sua própria destruição para alguma questão lateral menos importante, certamente o fará. O número de êxitos nesse esforço é muito maior que os fracassos. Poucos escapam de serem enganados. O ego usa os meios mais sutis para se inserir no pensamento e na vida do aspirante. Trapaceia, engana, exalta e avilta-o alternadamente; basta que ele o permita. Anatole France escreveu que é na habilidade de enganar a si mesmo que se revela o maior talento. É um hábito constante e uma reação instintiva defender o ego contra a evidência dos resultados infelizes de sua própria atividade. O aspirante precisará resguardar-se disso repetidamente, pois os próprios poderes do ego são pateticamente inadequados, e sua própria capacidade de prever está visivelmente ausente.(...) A força adversa presente no seu ego tentará continuamente afastá-lo da concentração positiva no PURO SER, levando-o, pela curiosidade, à consideração negativa de TÓPICOS INFERIORES. Cada vez você deve tornar-se alerta para o que está acontecendo, para a mudança de tendências, e deve RESISTIR IMEDIATAMENTE. Desse conflito exaustivo, nascerá finalmente uma nova força interior, se for bem sucedido, mas apenas mais fraqueza mental, se falhar, porque a meditação é poderosamente criativa. (...)

Se o aspirante deseja entrar no estágio da contemplação, deve deixar ir embora cada pensamento à medida que surge, não importa quão elevado ou sagrado pareça, porque é certo que trará na sua esteira uma sucessão de pensamentos. Por mais interessantes ou atraentes que esses caminhos secundários possam ser em outros momentos, agora eles são apenas isto: CAMINHOS SECUNDÁRIOS. O aspirante deve buscar estritamente o Vazio.

Paul Brunton

Como se torna possível a libertação do ego?

Tanto quanto permanecer na mente o sentido de separação, os pensamentos serão sempre aflitivos. Quando tornar a reaver a Fonte Original, o sentido de separação irá desaparecer por completo. Sobreviverá então a paz. Considere o que acontece quando uma pedra é lançada para o alto. A pedra, ao ser lançada, deixou sua fonte e procura cair, estando sempre em movimento até alcançar sua fonte, o lugar onde estava. Assim também ocorre com as águas do oceano que evaporando-se das nuvens movidas elos ventos se condensam em água e caem como chuva; as águas rolam agitadas dos topos de morros em córregos e rios até encontrarem sua fonte original, o oceano, e a ele se juntando, se acalmam. Assim, você percebe que, onde haja o sentido de separatividade da Fonte, há agitação e rebuliço, até que o sentido de separação se perca. O mesmo ocorre com você. Agora, estando identificado com o corpo, pensa estar separado. Você tem que reaver sua Fonte Primeva, antes que essa falsa identidade cesse para que seja feliz. O ouro não é um ornamento, mas o ornamento é feito de ouro e, embora haja diferentes formas de ornamentos, deve sua feição somente a uma realidade, isto é, ao ouro. Conforme foi demonstrado, diz respeito também aos corpos e ao SER. — A Realidade é o SER. Identificando-se com o corpo e ainda procurando a felicidade é como uma tentativa de atravessar nas costas do jacaré um rio pouco fundo onde se pode passar a pé. A identidade-corpo deve-se à extroversão e ao vaguear da mente. Continuar nesse estado, só poderá mantê-lo numa das infinitas massas confusas, e aí não haverá paz. procure sua fonte, mergulhe no SER, no "EU SOU", e permaneça todo UM. O desejo de renascimento significa de fato a insatisfação com o presente estado e quer-se renascer onde não haverá dissabores. O nascimento, sendo do corpo, não pode afetar o SER. "EU SOU" sempre permanecerá, mesmo depois de o corpo perecer. O descontentamento é devido à errada identificação do SER eterno com o corpo perecível. O corpo é um necessário adjuvante do ego. Se o ego morresse, o SER eterno revelar-se-ia em toda a Sua Glória. O corpo é a cruz. Jesus, o Filho do Homem é o ego, ou melhor, a ideia "eu-sou-o-corpo". Quando crucificado, o Glorioso SER, o Cristo, Filho de Deus, ressuscita. "Não te apegarás a essa vida se quiseres viver."

Um ser iluminado esmaga o ego na fonte, desde que surge. O ego porém não deixa de se levantar vezes e mais vezes, tanto num ser iluminado como no ignorante, pois é impelido pela natureza. O ego brota e cresce no ignorante tanto como no ser iluminado, mas com esta diferença: o ego do ignorante, quando surge, é ignorante de sua fonte, ou seja, ele não está cônscio disso nem no sono profundo, nem no sonho e nem tampouco no estado de vigília; enquanto que um ser iluminado, quando seu ego surge, desfruta sua vivência transcendental com esse ego, sempre mantendo a meta nessa fonte. Seu ego não é perigoso, representa meras cinzas do esqueleto de uma corda incinerada, apesar da ineficiência da sua forma. Mantendo constantemente a nossa meta em nossa fonte, faremos com que o nosso ego se dissolva.

P. Como se torna possível esta realização?

Ramana: Há um SER ABSOLUTO do qual vem a centelha como a do fogo. À centelha damos o nome de EGO. No caso do ignorante, que se identifica com algum objeto logo que surge, porque não pode ficar livre de semelhantes associações. Esta associação é ignorância, cuja destruição é o objetivo de nossos esforços. Quando as tendências objetivas do ego estiverem mortas, ele fica também puro e imerge na sua fonte. Podemo-nos separar daquilo que é externo, mas nunca daquilo que está dentro de nós. Consequentemente, o ego não é mais um com o corpo. Isso deve ser conscientizado no estado de vigília. 

A pergunta "Que sou eu?" é um machado que corta fora o ego. 

O intelecto sempre está em busca do conhecimento externo, excluindo o conhecimento de sua própria origem. A mente é apenas identificação do SER com o corpo e é isso que o falso ego inventou e em volta disso gerou falsos fenômenos e nele parece mover-se. Se uma falsa identidade esvanecesse, a Realidade se tornaria aparente. isto não significa que a Realidade não esteja mesmo agora, neste instante. Ela sempre é presente e perenamente a mesma.

Ramana Maharshi em, A Imortalidade Consciente, por Paul Brunton

Eliminando o irreal, o Real aparece

P. Como controlar a mente?

R. A mente é impalpável. De fato ela não existe. O meio mais acertado de controlar a mente é ir em sua busca. Então, as atividades dela cessam. Vá à procura de sua própria mente; uma vez estando perseguida, desaparecerá. A mente é apenas um feixe de pensamentos. Pensamentos surgem porque aí há um pensador. O pensador é ego. O ego desvanece automaticamente, quando o estamos procurando. O ego e a mente são idênticos. Ego é a raiz-pensamento da qual todos os outros pensamentos brotam. Mergulhe em si mesmo. Você agora sabe que a mente surge de dentro. Portanto, afunde-se dentro de si e aí procure. Não precisa eliminar o falso "eu". Aliás, como o "eu" poderia eliminar a si próprio? Todos deveriam fazer o mesmo para descobrir sua origem e aí permanecer. Seus esforços, contudo, não podem se estender além disso. Então, o Além tomará conta de si próprio. Aí você está impotente. Nenhum esforço poderia lho revelar. 

O individual não pode existir sem SER, mas o SER pode existir sem o individual. 

Nossas análises não têm fim, isto é, vão tão longe quão longe o intelecto pode levar. Porém, as nossas análises não são suficientes. Não basta eliminar o "não-eu". O processo é tão-somente intelectual. A Verdade não pode ser diretamente apontada. Daí a necessidade do processo. Agora, a verdadeira busca interior começa. O "pensamento-eu" é a raiz e deve agora ser perseguido até sua fonte. Descubra o que há aí e nela permaneça. 

P. O processo é puramente intelectual, ou faz com que se manifeste uma sensação que predomine?

O "eu" pessoal é um reflexo na mente do "EU" real. Pergunte a si mesmo QUE SOU EU? O corpo e suas funções não são "eu". Persista, vá mais fundo. Os sentidos e suas funções não são "eu".  Vá fundo: a mente e suas funções não são "eu". O passo seguinte é a pergunta: "De onde esses pensamentos surgem?" Os pensamentos são espontâneos, analíticos ou superficiais. Quem está ciente deles? A existência de suas operações se torna evidente para o "eu" individual. A análise leva à conclusão de que essa individualidade é operante como conhecedora da existência dos pensamentos. Isso é ego. Depois pergunte: "O que é aquilo e de onde vem?" Faça a análise do sono: "O Eu-Sou" está subjacente em três estados — sono, vigília e sonho. — Após haver descartado todos os "não-eus", encontramos o resíduo — o SER ABSOLUTO. O mundo e o ego, ambos, sendo objetivos, devem estar eliminados de nossa análise. Eliminando o irreal, o Real aparece. Depois de haver feito esta eliminação, procure eliminar a mente, progenitora da ideia de dualidade e do ego. A mente é uma das formas de manifestação da Vida. 

(...) A indagação deveria estar lá onde o "eu" estivesse. Após haver surgido o "pensamento-eu", vem a falsa identificação do "eu" com o corpo, os sentidos, a mente etc. O Verdadeiro SER os tem perdido longe de vista. Para peneirar o puro "EU" do "eu contaminado", cujo descarte está em pauta. Contudo, isso não significa exatamente o descarte de "não-ser", e sim, significa a descoberta do real "SER". O SER real é o infinito "EU-EU" em perfeição. Ele é eterno. Não tem origem nem fim. O outro "eu" nasce e morre. Ele é impermanente. Observe a quem esses pensamentos mutantes ocorrem. Você os encontrará surgindo depois do pensamento "eu". Mantenha-se no "pensamento-eu"; esses vão sossegar. Seguindo o vestígio da fonte do "pensamento-eu", somente o "EU SOU" permanecerá. 

A  raiz dos pensamentos é ego.(...) O "pensamento-eu" não é puro; é contaminado pela associação com o corpo e os sentidos. Observe a quem isso causa problema. Ao pensamento-"eu". Mantenha-o, então, os outros pensamentos não surgirão.

Ramana Maharshi em, A Imortalidade Consciente - Paul Brunton

A senda que conduz à paz duradoura

A descoberta de uma "estrela" de cinema é celebrada pela imprensa de todo o mundo, ao passo que a descoberta do eu espiritual de um homem se faz em completo silêncio, sem os louvores do mundo nem de seus órgãos escritos. 

Eis a senda que conduz à paz duradoura. Devemos penetrar cada vez mais fundo, com a mente focalizada, até entrarmos no reino onde domina a paz bendita. Uma imensa quietude inundará lentamente nosso ser interno, e sentiremos uma delicada e santa paz cada vez maior.

Conheceremos que estamos ingressando na aura do verdadeiro eu pela experimentação de um sentimento de felicidade. Este é apenas o estágio inicial. O último será uma união estática. 

Pouco a pouco, irão desvanecendo todas as nossas impressões de tudo que nos rodeia, o mundo e seus interesses começarão a afastar-se, pois quando nossas mentes são retraídas do buliçoso tumulto de nossa época e encontram seu estado natural nos quietos momentos, elas são saturadas de uma sublime paz.

Ao ingressarmos no âmago central de nossa mente, chegamos a um estado em que o pensamento se queda silencioso, em que no começo parece não ser nada, exceto a beatífica consciência do Ser, o sublime repouso na Existência Infinita. Este é o eu que realmente somos, o Super-eu. 

"Tendo abandonado as coisas do mundo,
Esqueci castas e linhagens;
Minha tecedura é agora no silêncio infinito.
Kabir, tendo pesquisado e se pesquisado a si mesmo,
Encontrou Deus em seu interior."

Estas linhas foram escritas há muitos anos por Kabir, o poeta-tecelão de Benares.

Quando, em nossas meditações, procuramos descobrir o nosso eu verdadeiro de suas múltiplas máscaras, chegaremos, por último, a um estado interno, que é realmente o mais interessante da vida. 

Não é inconsciência. Não é sono. Não é sonho. Dentro de seu regaço, tornamo-nos conscientes de uma intensa percepção do infinito. Entrar temporariamente nesta condição transfigura toda a natureza humana. Quando nos recolhemos à cidadela da alma, começa a desvanecer-se de nossa vida o movediço panorama das impressões sensórias. Ao penetrarmos intimamente em nós mesmos, começa a desaparecer o quadro do mundo, que até então nos encantava e roubava de nossa verdadeira autoconsciência. Quando colocamos nossa mente em repouso e nos recordamos do que somos, nossos esforços não necessitam mais ser premiados. Garantimos o bálsamo para o dia, e toda a vida nos parece boa. Quando a mente humana se detém em sua atividade incessante; quando ela se esvazia de toda imagem e ideia, então ela se torna um espelho claro, em que se reflete a inefável Divindade. 

Nossos graves e eruditos céticos os dirão que estes êxtases espirituais são meros distúrbios do sistema nervoso, e seus frios irmãos, os médicos, provavelmente rotularão de "excessiva pressão sanguínea", ou outra coisa. Outros confundirão este estado com os devaneios introspectivos de algum sonhador solitário. Contudo, ao invés de rejeitar, com o prejuízo desdenhoso da incompreensão, estes vislumbres das gloriosas possibilidades do homem, seria preferível que eles os admitissem como demasiado estranhos para serem aceitos por sua razão, e os deixassem em paz por enquanto. 

Há os que quererão sentar-se num solene conclave para investigar estas asserções. Mais sábios seriam, no entanto, se investigassem seus próprios eus. Pois não há melhor prova do eu interno do que experimentá-lo praticamente. 

É desta maneira peculiar que o homem que segue a senda da meditação analítica, começa a acordar para a liderança de sua intuição. Quando ele principia a sentir o impulso interior despontar nas profundezas de seu ser; quando começa a obedecer esse impulso, deixando-o conduzir sua consciência mais e mais para o seu interior; quando submete totalmente os seus pensamentos, sentimentos e memórias pessoais, e os carreia para a torrente da vida impessoal que flui espontaneamente; quando se subordina a esse profundo comando, então transporá o umbral do autoconhecimento e ingressará na câmara interna, onde o aguarda o seu ser real. Uma vez obtida esta experiência, ainda que momentânea, ele compreenderá algo do que quero dizer ao falar do ser espiritual no homem. Compreenderá que sem a intervenção dos cinco sentidos nem do sonho, entrou numa condição maravilhosa, em algo que é REAL e transformador, que jamais experimentara.

No silêncio absoluto de sua alma, sentirá que pensar meramente é fazer um ruído sacrílego. Neste estado elevado, ao descobrir a presença de seu eu divino, ele percebe que o melhor pagamento por este privilégio, é reunir todos os seus pensamentos num feixe sobre o sagrado altar e sacrificá-los. Neste raro momento o intelecto é cremado, e de suas cinzas surge a fênix do verdadeiro eu, o imperecível Super-eu no homem.

Paul Brunton em, O Caminho Secreto

Qual é a natureza da Consciência?


Sivaprakasam Pillai: Swami, quem sou eu? E como poderei obter a salvação? 

Ramana Maharishi: Através de uma profunda e incessante investigação "Quem sou eu?", conhecerás a ti mesmo e, consequentemente, conseguirá a salvação. 

S.P.: Quem sou eu?

R.M.: O verdadeiro Eu ou Si não é o corpo, ou nenhum dos cinco sentidos, nem qualquer dos órgãos de ação, nem a respiração ou força vital, nem a mente, nem mesmo o estado de profunda sonolência em que não se tem consciência de tais coisas. 

S.P.: Se não sou nada disso, que mais serei eu? 

R.M.: Após chegar a cada um destes itens e dizer "isto eu não sou", aquilo que restar é o Eu, e isso é Consciência. 

S.P.: Qual é a natureza da Consciência?

R.M.: É Ser Consciência-Bem-aventurança em que não existe o mais leve indício do pensamento-Eu. Chama-se também Silêncio ou Si. Isto é a única coisas que existe. Se a trindade mundo, ego e Deus for considerada como entidades separadas, tudo será mera ilusão como o aparecimento da prata na madrepérola. Deus, ego e mundo são na realidade a forma do Espírito. 

S.P.: Como poderemos nós compreender esse Real?

R.M.: Quando as coisas vistas desaparecem, a verdadeira natureza daquele que vê, ou sujeito, aparece.

S.P: Não será possível compreender isso ao mesmo tempo em que ainda se veem as coisas externas?

R.M.: Não, porque o vedor e a cosia vista são como a corda e a aparência de serpente nela contida. Até que a gente se tenha livrado da aparência de serpente não poderá ver que aquilo que existe é apenas a corda. 

S.P.: Quando desaparecerão os objetos externos?

R.M.: Se a mente, que é a causa de todos os pensamentos e atividades, desaparece, os objetos externos desaparecerão também. 

S.P.: Qual é a natureza da mente? 

R.M.: A mente é apenas pensamentos. É uma forma de energia. Manifesta-se como o mundo. Quando a mente mergulha no Si, então o Si é compreendido; quando a mente faz uma sortida o mundo aparece e o Si não é compreendido. 

S.P.: Como irá a mente desaparecer?

R.M.: Apenas através da investigação "Quem sou eu?". Embora tal investigação também seja uma operação mental, ela destrói todas as operações mentais, incluindo-se a si mesma, assim como pau com que se remexe a pira funerária resulta ele próprio reduzido a cinzas depois que a pira e os cadáveres arderam. Só então vem a compreensão do Si. O pensamento do Eu é destruído, a respiração e os demais indícios da vitalidade diminuem. O ego e a respiração ou força vital têm uma fonte em comum. Faça aquilo que quiser, faça-o sem egoísmo, isto é, sem o sentimento de "estou fazendo isto". Quando um homem chega a tal estado até mesmo sua mulher lhe parecerá como a Mãe Universal. A verdadeira devoção é a rendição do ego ao Eu. 

S.P.: Não há outros meios de destruir a mente?

R.M.: Não há outro método adequado senão a Auto-investigação. Se a mente for sopitada por outros meios ficará quieta durante algum tempo e depois ressurgirá, resumindo sua antiga atividade. 

S.P.: Mas quando serão todos os instintos e tendências, como o de conservação, esmagados?

R.M.: Quanto mais a gente se recolhe dentro de Si tanto mais tais tendências murcham, até finalmente desaparecem. 

S.P.: Será mesmo possível eliminar essas tendências que encharcam nossas mentes através de tantas gerações sucessivas?

R,M.: Jamais concedas lugar em tua mente a tais dúvidas, mas mergulha no Si com firme resolução. Se a mente for constantemente orientada no sentido do Si por essa investigação, ela será eventualmente dissolvida e transformada no Si. Ao sentires alguma dúvida não busques elucidá-la mas antes procure saber quem é aquela pessoa a quem a dúvida ocorre. 

S.P.: Durante quanto tempo se deve proceder a essa investigação? 

R.M.: Enquanto houver em tua mente o mais leve traço capaz de provocar pensamentos. Enquanto o inimigo estiver ocupando a cidadela não cessará de fazer sortidas. Se matares cada um que se apresentar, a cidadela por fim cairá em tuas mãos. Analogamente, cada vez que um pensamento erguer a cabeça esmaga-o com esta investigação. esmagar todos os pensamentos no nascedouro chama-se desapego. Assim, Auto-investigação continua necessária até que o Si seja compreendido. O que se requer é uma contínua e ininterrupta lembrança do Eu.

Ramana Maharshi e o conhecimento do autoconhecimento

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)