O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Que tipo de combustível é você?

Com ajuda dos Sábio compreendemos que o meio direto e imediato para alcançar a Libertação é a Busca do Ser Real, através de retirar a mente do mundo — isto é, desviá-la de tudo que possa ser objetivado — e dirigi-la para o Ser no Coração. Mas achamos que isso não é fácil, porque na mente há apegos a objetos, densos ou sutis, e pensamentos condicionados, em sua maioria latentes, mas que entram em fervente atividade um após outro e trazem a mente de volta ao mundo. São vícios mentais, porque foram adquiridos por contato íntimo com objetos, e permanecem na mente, como o cheiro do conteúdo de uma vasilha que permanece numa vasilha após ser esvaziada.  Por que esses "odores" das coisas estão mais em uns que em outros, há uma grande diferença entre um discípulo e outro. O Sábio diz que há quatro tipos de discípulos, comparáveis à pólvora, carvão seco, combustível comum e combustível molhado. O primeiro tipo de discípulo (pólvora) precisa apenas de uma palavra, como uma faísca para consumir a ignorância de uma só vez. O segundo (carvão seco) precisa de algum ensinamento e de esforço pessoal. O terceiro (combustível comum) necessita de um logo curso de instrução, treinamento e prática. O quarto (combustível molhado) tem que adaptar-se à condição de discípulo através de práticas adequadas à sua condição. Por conseguinte, a maioria dos discípulos precisaria perseverar na Busca por longo tempo, antes que possa confiar na obtenção do êxito final. Muitos poderiam se desencorajar com a falta de êxito e tenderem a desistir da empresa. Que devem esses discípulos fazer, a fim de que possam progredir na direção do objetivo? A resposta é: devem praticar a devoção a Deus.

(...) A devoção já existe em todos os homens. Só precisa ser refinada e dirigida a objetos adequados. Quando dirigida a objetos ignóbeis chama-se apego; mas quando desviada deles e fixada em objetos ou finalidades sagradas chama-se devoção. É natural que o homem comum sinta devoção a uma pessoa mas torna-se mais refinada se dirigida a uma pessoa de grande mérito. Aproveitando-se desse fato, os Sábios e Santos apresentam-nos uma pessoa de mérito excepcional e inigualável — Deus — e quem entrar em qualquer contato com Ele torna-se seu devoto.

A virtude da devoção não é forçada. É espontânea. Natural. Deus não determina que O amemos. Amamo-Lo por ser inevitável. Se temos a sorte de sentir-nos atraídos para Ele com amor, nos entregamos livremente a esse impulso, quanto mais livremente possível, porque já nos submetemos muito mais livremente a impulsos de outra natureza. Conta-se que um devoto legendário chamado Prahlada, orava assim: "Que eu possa sentir sempre por Vós o amor que os ignorantes sentem pelos prazeres mundanos." E não apenas deve haver devoção a Deus, mas ela deve ser pura também — livre de interesses. A devoção não deve ser concebida como meio de atingir alguma finalidade; do contrário não seria devoção a Deus.

(...) "Enquanto houver divisão, deve haver devoção; enquanto houver separação, deve haver um método de unificação. Enquanto houver dualidade haverá também um Deus e um devoto. Na Busca da Verdade há também dualidade até que a Fonte seja alcançada. Assim também ocorre na devoção. Quando Deus é alcançado, não existe mais dualidade... Na verdade, devoção e Busca é a mesma coisa."

MAHA YOGA

A causa do seu sofrimento não está na vida exterior

D.: Nesta vida repleta de limitações, poderei realizar a Beatitude do Eu superior?

R.: Essa Beatitude do Eu superior encontra-se sempre com você, que a encontrará para si, se a buscar sinceramente. 

A causa do seu sofrimento não está na vida exterior; ela se encontra em você, como o ego. Você impõe limitações a si mesmo e, em seguida, luta em vão para transcendê-las. Toda infelicidade origina-se do ego; com ele surgem todos os problemas. De que serve atribuir aos acontecimentos da sua vida a causa do sofrimento que, na verdade, se encontra dentro de você? Que felicidade você pode obter de coisas externas a si mesmo? Se a obtém, quanto tempo ela dura? 

Se você negar o ego e o abandonar, ignorando-o, você será livre. Se o aceitar, ele lhe imporá limitações e o lançará na luta vã para transcendê-las.(...)

SER o Eu superior que você de fato é consiste no único meio de realizar a Beatitude que sempre foi sua. 

(...) O Eu superior que você procura conhecer está dentro de você. Sua suposta ignorância causa-lhe um sofrimento desnecessário(...) Não há razão para sentir-se desprezível e infeliz. Você mesmo se impõe limitações à sua verdadeira natureza de Ser infinito e, então, chora porque é uma criatura limitada. Assim, você escolhe esta ou aquela prática a fim de transcender as limitações que não existem. Mas se a sua prática assume a existência das limitações, como ela poderá ajudá-lo a transcendê-las? 

Portanto, eu lhe digo: saiba que você é o verdadeiro Ser infinito e puro, o Eu superior absoluto. Você sempre é esse Eu superior e nada mais do que ele. Por conseguinte, jamais poderá realmente ignorar o Eu superior; sua ignorância não passa de desconhecimento formal...

Portanto, saiba que o verdadeiro Conhecimento não cria um novo Ser para você; ele apenas dissolve a sua "ignorância ignorante". A Beatitude não é acrescentada à sua natureza, mas simplesmente revelada como o seu estado natural e verdadeiro, eterno e imperecível. A única forma de libertar-se do sofrimento é CONHECER E SER o Eu superior. Como é possível que isso seja inatingível?

Evangelho de Ramana Maharishi

A meditação é necessária para o fortalecimento da mente?

Não, se você procurar ter em mente que ela não é trabalho seu. A princípio, é necessário recordar-se disso, mas, depois, essa ideia torna-se natural e contínua. O trabalho prosseguirá por si mesmo, e sua paz não será perturbada. 

A meditação é sua verdadeira natureza. No momento você a chama de meditação porque existem outros pensamentos que o distraem. Quando esses pensamentos são dispersados, você permanece sozinho — isto é, em estado de meditação, livre de pensamentos; e esta é sua verdadeira natureza, a qual você está tentando alcançar agora mantendo afastados outros pensamentos. O ato de afastar outros pensamentos é chamado de meditação. Mas quando a prática torna-se intensa, sua verdadeira natureza revela-se uma meditação efetiva.
D.: Outros pensamentos surgem com mais força quando se tenta meditar!

Ramana: Sim, todos os tipos de pensamentos surgem na meditação. É exatamente isso; pois o que está oculto em você sobre à tona. Se não aflora, como pode ser destruído? Os pensamentos surgem espontaneamente, por assim dizer, embora sejam extintos no devido tempo, fortalecendo, assim, a mente. 

Evangelho de Ramana Maharshi

Controle da Mente

Discípulo: Como posso controlar a mente?

Ramana: Não existe mente a ser controlada se o Eu superior é realizado. O Eu superior brilha quando a mente desaparece. No homem realizado, a mente pode ser ativa ou inativa; existe apenas o Eu superior. Pois mente, corpo e mundo exterior não são separados do Eu superior; e não podem permanecer separados do Eu superior. Podem ser outra coisa senão o Eu superior? Quando se está consciente do Eu superior, por que preocupar-se com essas sombras? Como elas afetam o Eu superior?

D.: Se a mente é apenas uma sombra, então como conhecer o Eu superior?

R.: O Eu superior é o Coração, que ilumina a si próprio. A Iluminação surge do Coração e alcança o cérebro, sede da mente. O mundo é visto com a mente; assim você vê o mundo através da luz refletida do Eu superior. O mundo é percebido por um ato da mente. Quando a mente é iluminada, ela toma consciência do mundo; quando não é tão iluminada, ela não tem essa consciência. 

Se a mente se volta para o interior, para a Fonte da Iluminação, o conhecimento objetivo cessa e apenas o Eu superior brilha como o Coração. 

A Lua brilha refletindo a luz do Sol. Quando o Sol se põe, a Lua mostra os objetos. Quando o Sol nasce, ninguém precisa da Lua, embora seu disco seja visível no céu. Assim acontece com a mente e o Coração. A mente torna-se útil por sua luz refletida. Ela é usada para que se tornem visíveis os objetos. Quando torna ao interior, ela se funde na Fonte de Iluminação, que brilha por Si mesma, e, então, a mente é como a luz durante o dia. 

Quando está escuro, é necessária a lâmpada que fornece luz. Mas quando o Sol nasce, não há mais necessidade da lâmpada; os objetos são visíveis. E para enxergar o Sol, não é preciso luz artificial; basta voltar os olhos em direção ao astro luminoso. O mesmo acontece com a mente: para enxergar os objetos, são necessárias as luzes refletidas da mente. Para divisar o Coração, basta voltar a mente para ele. Então a mente perde a importância e o Coração torna-se fulgurante.

Ramana Maharshi

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)