O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

O sincero desejo pela Verdade de si mesmo

Libertando-se dos debates da pessoalidade

Sobre o desdobramento da consciência

Vivendo no século da imagem sem entrar em controvérsia

Sobre a paixão pela descoberta da Verdade

Imunizando-se dos símbolos colonizadores

O mundo está quadrado e ninguém reparou

Em busca da natureza real da realidade

O ESPANTOSO MISTÉRIO DA TIRANIA DO ESPAÇO E DO TEMPO

[...] Quando a verdadeira natureza da percepção é trazida a lume vê-se até que ponto podemos ser enganados pelos próprios sentidos que pretendem revelar-nos o mundo externo. Pois os sentidos não apenas podem distorcer a coisa como também nos levar a crer que a nossa experiência direta dessa coisa no espaço e no tempo é física e não mental. Torna-se agora possível compreender por que a revelação de Einstein, conquanto parcial e limitada, estava no caminho certo. Descobriu o sábio que o espaço era uma relação variável e mostrou por que devia ser assim, mas não buscou jamais explicar como era nem como chegou a existir.

Assim, os conglomerados de sensações que constituem as coisas que vemos são automática e inevitavelmente moldados pela mente na forma de espaço-tempo. Em suma, enquanto continuarmos a experimentar o mundo iremos experimentá-lo como uma aparência no espaço e como um acontecimento no tempo. Trata-se de uma condição predeterminada da existência humana, válida com relação a todos e ninguém, nem mesmo o filósofo, pode fugir dela. O próprio princípio que explica o nosso conhecimento da existência deste mundo explica também as suas características de espaço-tempo. Trata-se tão-somente de fatores necessários na formação das nossas sensações. Nós próprios somos a sua fonte. No entanto, a nossa fé no caráter objetivo do espaço e do tempo relativamente à mente é tão arraigada que a sua validade é aceita sem contestações. Apenas um tremendo esforço de investigação poderá conduzir-nos um dia a repudiar tal crença. Covardia não é cautela. A verdade não quer amigos tímidos.

Na prática nós acreditamos, e não temos senão como acreditar, que o livro impresso tão claramente presente diante dos nossos olhos é percebido fora de nós mas dentro do espaço. A própria constituição da consciência humana no-lo diz com irresistível autoridade e nem por um instante colocamos em dúvida tal autoridade. Qualquer outro tipo de afirmativa virá contrariar o bom senso. Contudo, provamos anteriormente que o espaço é um componente da mente, que sem a sua presença a mente se recusaria a funcionar. Em suma, o espaço habita a mente. Isto nos leva inexoravelmente à seguinte conclusão. Se o livro existe no espaço, e se o espaço existe dentro da mente, então o livro só pode existir dentro da mente. Aquilo que a Natureza nos obriga a ver na forma da página impressa externa a nós mesmos (aparentemente o não-eu) não é senão uma percepção do eu propriamente dito, uma refração da sua própria luz, uma apresentação da mente à sua própria visão.

Julgam as pessoas que a mente reside apenas nos limites do crânio. Mas se a mente é a manufatura secreta do espaço, como poderá estar ela própria presa às limitações espaciais? Como poderá estar limitada a este ou àquele ponto do espaço? Como poderá estar colocada tão-somente na cabeça dos homens? Em vão procuraremos uma sonda com que perscrutar as profundezas da mente ou uma trena com que medir a sua largura e o seu comprimento.

Diante de nós existe um mundo de duras realidades, uma panorâmica procissão de objetos sólidos e coisas substanciais. Aquele que, como Sócrates, chega a convencer-nos a arguir a exterioridade dessas coisas — aparentemente tão certa e irrefutável — não tem pela frente uma tarefa fácil. Tal pessoa não será nunca recebida de boa sombra, pois, a serem verdadeiras, não deixam as suas estranhas idéias de ser desagradáveis. Elas parecem tragar o próprio solo sob os nossos pés. Há em tais idéias certas propriedades inerentes que as tornam quimicamente repelentes perante a mentalidade pública, a qual se esquiva à verdade para refugiar-se no auto-engano. Daí haver a filosofia conservado as ditas idéias ocultas no passado para o uso de uns poucos amantes da verdade. O fato de que todas as coisas em torno de nós sejam conhecidas apenas como uma construção mental integral e não como externas e materiais, que sejam vistas como uma imagem produzida na mente, parecerá um milagre às pessoas sem orientação, da mesma forma pela qual o pensamento popular e despreparado — de uma forma natural e inevitável — julga ser a Terra achatada e girar o Sol em torno do nosso planeta. Tal opinião é sustentada com firmeza e a asserção contrária de que existem países antípodas e de que a Terra gira em torno do Sol é encarada como rematada loucura. Como foi então possível estabelecer essa espantosa verdade astronômica entre os homens? Tal coisa foi possível apenas através do relacionamento dessas idéias com certos fatos e a seguir persuadindo-se as pessoas a usar corajosamente sua capacidade de raciocínio com respeito a esses mesmos fatos, de modo a que um significado mais profundo viesse à tona. Exatamente o mesmo problema se nos depara na crença popular de que todas as coisas materiais existem exteriormente, à parte e em separado da mente. A filosofia contesta essa crença ingênua e afasta essa incompreensão, mas só pode fazê-lo quando os homens se dispõem a olhar os fatos que ela oferece e a estudá-los a seguir com profundidade e isenção até o seu extremo limite lógico. Sem esse racionalismo absoluto jamais poderia contar ela triunfar sobre um instinto tão primitivo é poderoso entre os humanos como é o materialismo; o qual não é a verdade mas um arremedo de verdade.

O nosso conhecimento do mundo exterior e a nossa percepção das coisas no espaço e no tempo são as formas assumidas pelos nossos processos mentais. É preciso que absorvamos a dura verdade de que aquilo que é interior à mente pode ser exterior ao corpo. As alegações em seu favor são irrespondíveis. Sua posição é inatacável. Todos os argumentos contrários, todas as opiniões contrárias, podem ser rebatidas. Pois não se trata apenas de uma esquisitice de alguns lunáticos mas de um fato certo e provado no arsenal da ciência. Por isso, essa é a verdade que será reencarnada amanhã.

Aqueles que temem seguir a razão quando esta os leva a estranhos paradoxos estão perdidos para a verdade. Estas doutrinas poderão nos assustar e intimidar, mas como são verdadeiras precisam ser aceitas.

Nós erguemos as vistas para o céu como prisioneiros com os olhos vendados pelo espaço e as mãos atadas pelo tempo, sem sabermos que a liberdade está a apenas um passo. O pensamento nos aprisionou: o pensamento poderá libertar-nos.

Uma vez que comecemos a compreender o espantoso mistério da tirania do espaço e do tempo, começaremos a compreender por que devemos escutar vozes antigas como a de Jesus e procurar entender a frase repassada de profundidade que ele entregou a um mundo conturbado e lamentoso: — O Reino do Céu está em vós. — O misterioso reino em que os homens podem ver satisfeitas as suas mais elevadas aspirações não se encontrará no futuro, numa vida após a morte terrena, nem no espaço remoto (como uma região além das estrelas), mas aqui, dentro da nossa própria mente e agora, dentro do nosso próprio pensamento.

Tal compreensão do poder inato da mente de contribuir para a feitura do seu próprio mundo elevará os homens — santos ou cínicos — ao nível dos mais equilibrados sábios, acalmará suas mentes aflitas e aliviará os seus corações sofredores.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

A resistência da mente adquirida com abordagens espirituais

Perceba o grupo de se prender a um grupo

Sobre controle, destino, livre arbítrio e tempo espaço

A vivência religiosa é um marco zero na bagagem do conhecido

Da importância do fundo de poço do intelecto

A vivência de uma dimensão vibratória sutil

A sabedoria oculta além da ioga e as tentações do deserto

A energia corre para onde quer até precisar de nós

Um paradigma dentro de um paradigma, dentro de um paradigma

A Inteligência Emocional

Cenas de "MATRIX" E "A TRAVESSIA" e as Colunas da Colonização Mental
Como a Ciência Convencional Descobre as
Potencialidades Ilimitadas da Consciência Humana

Há algum tempo, duas perguntas na aparência simples, colocadas pela ciência, vêm  subvertendo a maneira estabelecida de ver e de pensar a nós próprios:
 
“O que é inteligência? Quantas inteligências possui o ser humano?”
 
As respostas a essas questões nos levam a uma expansão do nosso campo de consciência individual, enquanto integram e harmonizam os diferentes setores do nosso ser.
 
Até 1981, para todos os efeitos havia uma só inteligência: era a capacidade de compreender lógica e racionalmente as coisas, e estava sediada no hemisfério cerebral esquerdo do neocórtex, o grande sistema de tecidos ondulados das camadas superiores do cérebro.
 
Naquele ano, quando o pesquisador Roger Sperry recebeu o prêmio Nobel de Medicina depois de descobrir que o hemisfério cerebral direito também contribui para a inteligência humana, rompeu-se uma ilusão coletiva. Começava uma revolução. O conceito de inteligência passava a ampliar-se radicalmente em direção a níveis ilimitados.
 
Como funciona o hemisfério cerebral esquerdo? Ele é racional. Vê as coisas uma depois da outra, em sucessão cronológica. Estuda as relações diretas de causa e efeito (e se guia por elas), classifica, analisa e rotula. Em relação ao tempo, seu lema é “primeiro uma coisa, depois a outra”. Em relação ao espaço, sua bandeira é “um lugar para cada coisa, e cada coisa em seu lugar”. As perguntas preferidas são as mesmas questões-chave do jornalismo convencional: Quem? O quê? Onde? Quando? Como? Por quê?
 
Antes, no plano do conhecimento comum, tanto as emoções como as intuições e hábitos, apesar de fazerem parte da consciência humana, eram vistos como alheios ao processo da inteligência propriamente dita. “Compreender” era uma coisa, “viver” era outra. Inteligência não tinha nada a ver com instinto ou intuição. A partir dos trabalhos de Sperry sobre o hemisfério direito, passou a surgir no âmbito da ciência ocidental algo que as tradições orientais trazem consigo há milhares de anos: a percepção de que o ser humano tem diferentes consciências, ou inteligências, dentro de si. Cabe a nós próprios desenvolvê-las harmoniosamente. O hemisfério cerebral direito, no neocórtex, por exemplo, tem características opostas e complementares às do hemisfério esquerdo.
 
A ideia é simples.
 
O neocórtex direito é capaz de ver tudo em um relance, subitamente. Não precisa fazer inúmeras operações mentais, cálculos, perguntas ou suposições antes de chegar a uma conclusão. Ele faz associações entre coisas diferentes, entende cada uma das partes a partir do contexto. Chega à verdade de modo direto e misterioso, amplia, intui, adivinha e prevê. A percepção instantânea é a marca registrada do hemisfério direito.
 
Ele responderia do seguinte modo às preocupações do neocórtex esquerdo:
 
“Não importa quem faz o que, nem onde, quando, como e por quê. O que importa é o todo, que é indescritível por palavras e só pode ser percebido diretamente pelo coração humano. O ontem, o hoje e o amanhã só existem na verdade aqui e agora. Só o agora e o eterno são reais, e eles ocorrem ao mesmo tempo. São simultâneos.”
 
A descoberta das funções opostas e complementares dos dois hemisférios cerebrais  - que confirma o ensinamento da teosofia de Helena Blavatsky - criou o primeiro patamar da ampliação revolucionária que está ocorrendo na maneira como a ciência convencional vê a inteligência humana. Mas o comportamento prático e as emoções ainda ficavam do lado de fora da nossa ideia de inteligência. A transformação alcançou níveis mais amplos a partir dos trabalhos de Paul MacLean, que trouxe para dentro do conceito de inteligência o chamado “inconsciente” e mostrou onde estão no corpo humano as suas bases físicas e operacionais.
 
Para MacLean, o cérebro humano inclui três estruturas diferentes:
 
* O neocórtex, com seus dois hemisférios, produz pensamento e imaginação.
 
* Logo abaixo dele, temos o sistema límbico ou cérebro emocional, que nos permite sentir e desejar; e, mais abaixo,
 
* Um terceiro cérebro, que coordena todo o nosso comportamento, nossos hábitos e padrões repetitivos.
 
MacLean escreveu:
 
“Essas três formações (…..) podem ser imaginadas como três computadores biológicos interligados, cada um tendo sua própria inteligência especial, sua própria subjetividade, sua própria memória e movimentação.”
 
Elaine de Beauport escreve no livro “Inteligência Emocional, Três Aspectos da Mente”:
 
“A descrição de MacLean de um cérebro tríplice, com três sistemas física e quimicamente muito diferentes e, no entanto, interconectados em uma única realidade, constitui o mapa de que necessitamos para avançar até a plena consciência humana”. [1]
 
Na verdade, o cérebro tríplice do ser humano é, em si mesmo, um resumo da longa história do reino animal.
 
“Ao longo de milhões de anos de evolução”, escreve Daniel Goleman em Inteligência Emocional[2]“o cérebro cresceu de baixo para cima, com os centros superiores desenvolvendo-se como elaborações das partes inferiores, mais antigas. O crescimento do cérebro em cada embrião humano refaz mais ou menos este percurso evolucionário”.
 
Assim, temos um cérebro herdado dos nossos irmãos répteis, ou pelo menos que possui uma relação especial com eles. Não é à toa que dizemos gostar de lagartear  ao sol, acusamos alguém de derramarlágrimas de crocodilo ou pensamos que uma pessoa insincera é perigosa como uma cobra.
 
A consciência reptiliana é nossa íntima conhecida, porque faz parte de nós. Localizado no tronco cerebral, o cérebro herdado dos répteis controla nossas reações e movimentos automáticos, os hábitos, os gestos instintivos, o comportamento condicionado, o nosso ritmo involuntário.
 
Temos um segundo cérebro que é compartilhado com os nossos irmãos mamíferos. Ele é chamado límbico porque em latim limbus significa orla, periferia, e ele está situado nos limites externos do tronco cerebral, que é a sede do cérebro reptiliano. A partir do sentido do olfato, o mamífero despertou e desenvolveu suas emoções, construindo o cérebro emocional.
 
Um cachorro, por exemplo, tem milhares de cheiros catalogados em sua vasta memória. Ele se comporta como um grande botânico quando caminha por um jardim. Para ele, a natureza é uma biblioteca infinita. Ele lê com o focinho. Ele compara, cataloga, classifica, e sente emoções com o que através do seu faro. Se um cachorro verbalizasse o que sabe, poderia dar cursos sobre aromaterapia, para dar um exemplo prático. Mas o neocórtex dele ainda está se desenvolvendo, e ele não coloca em palavras o que sabe ou sente.
 
Os mamíferos - inclusive os mamíferos marinhos, cuja inteligência é sofisticada - têm como tarefa geral e prioritária o desenvolvimento da capacidade de sentir. Esta é uma das razões por que devemos tratar bem os animais, e por isso o carma negativo - a responsabilidade - dos que abatem animais é enorme.
 
Os bichos sentem a aproximação da morte e sofrem - assim como sentem o amor - com intensidade tão grande quanto um ser humano, se é possível medi-la e compará-la. O fato de o animal mamífero não falar verbalmente nada significa. Ele fala com os olhos, fala corporalmente, e a intensa emoção que transmite não só está em completa harmonia com seu comportamento, como também é um discurso perfeitamente compreensível para um ser humano que tenha um pouco de atenção.
 
Os animais têm suas próprias e várias inteligências, e o fato de elas serem diferentes das inteligências a que estamos mais acostumados nos dá uma chance de aprender coisas importantes com esses nossos irmãos menores. A inteligência não é exclusivamente do ser humano, mas está presente em toda a natureza, e o ser humano é que só vem percebendo isso gradualmente, à medida que evolui. [3]
 
Quando surgiu, então, o cérebro tipicamente humano? Os cálculos cronológicos em relação à origem do homem são um terreno pouco firme. Hoje, a ciência convencional calcula que há cerca de 100 milhões de anos o cérebro dos mamíferos deu um salto, fazendo surgir o neocórtex com seus dois hemisférios. A filosofia esotérica ensina outra cronologia, e a ciência convencional só pouco a pouco vem revisando seus cálculos desde o final do século 19 e aproximando-se do que é partilhado nas páginas da obra “A Doutrina Secreta”, de Helena Blavatsky.
 
Quando nasce o homo sapiens da ciência convencional, o ser humano descobre,  pouco a pouco, a solidão, a separação, e o egoísmo ambicioso de um “eu” que pensa que é único no mundo, mas também percebe suas próprias potencialidades ilimitadas no campo da sabedoria e do altruísmo.
 
A principal “descoberta” de MacLean é algo que a teosofia clássica ensina há milhares de anos: o cérebro humano é sede de consciências muito diversas entre si.
 
A grande expansão da inteligência humana que estamos experimentando na fase contemporânea da história consiste, na verdade, na ampliação do nosso foco de consciência para que ele seja capaz de incluir, de um lado, as nossas consciências “animais” e, de outro, as nossas consciências divinas; e de perceber, ao mesmo tempo, a harmonia fundamental que há entre elas. Para isso é necessária certa quantidade de sabedoria.
 
O réptil fala em nós através dos nossos hábitos, rotinas, reações automáticas de ataque e defesa.
 
O mamífero fala em nós através dos afetos, dos amores e rancores, apegos e rejeições, das euforias e frustrações.
 
O neocórtex direito fala através das intuições, e pela elevação religiosa e mística.
 
O nosso eu pensante, apoiado no neocórtex esquerdo, usa como instrumento as palavras, e pode ficar preso a elas, convencido de que a sua forma “concreta” e “racional” de perceber a realidade é o único acesso possível à verdade.
 
O choque entre esses diferentes níveis de consciência, que são relativamente independentes entre si, tem sido durante milhares de anos uma fonte terrível de conflitos para a alma humana.
 
Cada pessoa se identifica mais com determinados setores do cérebro, por uma questão de temperamento. E frequentemente despreza - ou teme - outros níveis de consciência, aos quais procura negar. Isso cria não só conflitos psicológicos dolorosos, mas choques entre as pessoas. Não raro, essa luta dramática entre as naturezas humana, animal e divina dentro de nós prossegue até um estágio avançado do caminho espiritual. No Novo Testamento, o apóstolo Paulo expressa esse conflito incessante entre nossas diferentes inteligências quando escreve:
 
“Querer o bem está no meu alcance; não, porém, o praticá-lo. Com efeito, não faço o bem que quero, mas pratico o mal que não quero.” (Romanos, VII, 18-19).
 
Quando as diferentes inteligências ou consciências de um ser humano entram em choque, elas ignoram umas às outras, e este conflito entre luz e sombra tem destruído ou afastado do caminho milhares de buscadores da verdade.
 
Ao nível do neocórtex (o cérebro humano), a pessoa tem as melhores intenções, mas o seu cérebro de animal mamífero - límbico - pode ter interesses opostos e desencadear uma luta sem tréguas, causando um conflito no cérebro reptiliano - que, situado no tronco cerebral, controla a nossa saúde física, os ritmos corporais e o comportamento.
 
Quando isso ocorre, o resultado é, em geral, a incoerência de comportamento, a distância entre discurso e prática ou intenção e gesto; a dor; o sofrimento; e, em casos mais graves, a hipocrisia. A hipocrisia e a  falsidade intencional ocorrem quando se quebra parte de antahkarana, a ponte espiritual entre o eu imortal e a personalidade mortal, cuja tarefa é estabelecer uma linha de coerência (imperfeita, porque humana) entre cada setor “terrestre”  do indivíduo e a sua instância divina interior. “O caminho para o inferno está pavimentado com boas intenções”, diz o ditado. Auto-observação e discernimento são essenciais no caminho espiritual. As boas intenções são na verdade o caminho para o céu, mas elas necessitam ser protegidas pelo discernimento.
 
A descoberta científica de que o nosso cérebro é tríplice, com três setores relativamente independentes entre si e com milhões de anos de diferença entre suas idades, permite ir além de uma velha situação de conflito entre a nossa natureza espiritual e a nossa natureza animal. Leva-nos a produzir um acordo entre as três áreas cerebrais. Essa harmonização é mais fácil a partir do momento em que sabemos como cada cérebro funciona.
 
Sempre que há comunicação e harmonia, a natureza animal passa a servir espontaneamente a natureza divina em nosso interior. O animal só se rebela contra o homem quando lhe faltam as condições básicas para viver, ou quando não é amado nem respeitado. Essas várias consciências devem conhecer-se umas às outras e definir um propósito comum que seja razoável para os interesses de cada uma delas. Depois disso, poderão dedicar-se harmoniosamente à busca desta meta central, que integra diferentes objetivos setoriais como rotinas estáveis (réptil), intensidade emocional (mamífero), ordem racional (neocórtex esquerdo) e abertura para o infinito e transcendência (neocórtex direito).
 
É possível, também, traçar um quadro comparativo entre o novo esquema do cérebro tríplice e a tradicional visão esotérica dos vários níveis de consciência humanos. Na tradição cristã, por exemplo, temos o corpo (cujos ritmos são governados pelo cérebro reptiliano), a alma (em relação estreita com o cérebro límbico e o neocórtex esquerdo) e o espírito (que atua tendo principalmente o neocórtex direito como ponto de apoio). Na literatura teosófica, temos o corpo físico denso e o corpo etérico como áreas de atuação prioritária do cérebro reptiliano. Em seguida, os corpos astral (ou emocional) e mental concreto, que são, respectivamente, as áreas de atuação prioritária do cérebro límbico e do hemisfério esquerdo do neocórtex. Até aqui, a parte mortal do ser, que trabalha com faixas vibratórias mais densas. No chamado “eu imortal”, os diferentes níveis de consciência da mente abstrata ou inteligência espiritual (manas), da intuição espiritual (buddhi) e da vontade espiritual (atma) atuam, principalmente, através do hemisfério direito do neocórtex.
 
Vejamos um gráfico a respeito. Na coluna da esquerda, temos a classificação setenária da consciência humana segundo a teosofia original de Helena Blavatsky.
 
Dividimos o quinto princípio, Manas, em seus dois aspectos, superior e inferior, ou Buddhi-Manas eKama-Manas.
 
Na relação dinâmica entre os elementos das duas colunas, é preciso levar em conta que os elementos deste gráfico estabelecem relações dominantes, mas não exclusivas. Cada elemento interage fortemente o tempo todo com os outros fatores, e vale a regra “todos por um e um por todos”:


A interação entre estes vários níveis ou setores da consciência humana é de uma riqueza e complexidade enormes.  Só no corpo físico, são bilhões de células trocando mensagens entre si o tempo todo. Ao longo de milhões de anos, o ser humano vem instalando gradualmente no topo da sua coluna vertebral antenas capazes de captar as energias divinas de maneira cada vez mais clara. A consciência vai transferindo o seu foco desde os níveis animais até faixas vibratórias mais elevadas,  através do velho método da tentativa e do erro, seguidos de nova tentativa.  
 
Deste modo a ciência convencional descobre aspectos significativos da filosofia esotérica, e Elaine de Beauport mostra que o cérebro humano é um sistema de energias e não um conjunto constituído de partes fixas.
 
Cada um dos seus três níveis principais tem diferentes inteligências ou maneiras de perceber a realidade. Este modo abrangente de observar os fenômenos da nossa consciência nos permite economizar a maior parte da energia que vem sendo desperdiçada há milhares de anos em conflitos psicológicos baseados, por um lado,  na ignorância de nós mesmos , e, por outro lado, na crença de que há partes do ser humano que são boas e devem ser aceitas, enquanto há outras que são más e devem ser eliminadas pela violência psicológica ou até física.
 
Todas as perseguições promovidas na história contra dissidentes e hereges decorreram do hábito de pretender eliminar as partes “indesejáveis” do ser humano, seja individual ou coletivamente. Chegamos agora ao ponto em que percebemos o óbvio: a observação e a compreensão valem mais do que a força bruta.
 
O ensinamento milenar de Buddha afirma:
 
“Nesse  mundo a inimizade nunca é eliminada pelo ódio. A inimizade é eliminada pelo amor. Essa é a Lei Eterna.” [4]
 
A ignorância deixa de existir graças à compreensão que surge da luz do eu superior, Buddhi.

Embora nem sempre seja fácil viver à altura desta verdade básica, sempre é possível avançar na sua direção. O caminho teosófico é o caminho do auto-conhecimento.  

Carlos Cardoso Aveline
 
NOTAS:  
 
[1] “Inteligência Emocional - As Três Faces da Mente”, Elaine Beauport, Editora Teosófica, Brasília, 1998, 408 pp.
 
[2] “Inteligência Emocional”, Daniel Goleman, Editora Objetiva, Rio de Janeiro, 370 pp. Do mesmo autor, veja “A Mente Meditativa” (Ed. Ática) e “Mentiras Essenciais, Verdades Simples (Ed. Rocco).
 
[3] Veja o capítulo 13, “A Inteligência dos Animais”, na obra “A Vida Secreta da Natureza”, de Carlos Cardoso Aveline, Editora Bodigaya, Porto Alegre, 2007, pp. 105-113.
 
[4] “O Dhammapada - o Clássico Budista”, obra disponível em  www.FilosofiaEsoterica.com .  A passagem está no Capítulo 1, “Os Versos Gêmeos”.

__________________________
O texto acima foi publicado inicialmente nos anos 1990 pela revista “Planeta”, edição especial “Nova Era”, número 7, pp. 21-25, sob o título “A Revolução da Inteligência Emocional”.  Em fevereiro de 2013, foi revisado e atualizado pelo autor.

Fonte: 
http://www.filosofiaesoterica.com

A palavra "Espiritual" como pedra de tropeço


[...]Outra palavra que muito tem contribuído para aturdir os homens ou fazê-los cair em armadilhas é a palavra espiritual. Têm-na usado os chefes totalitários para rotular os seus pontos de vista sobre a vida, mas têm-se valido dela por igual os maiores adversários desses ditadores! Há algo de irônico na forma pela qual ditadores de democratas se assacam mutuamente a pecha de materialistas e não-espiritualizados. Obviamente, as ideias dos políticos acerca dessa simpática palavra são deveras confusas. Quando, porém, entramos nas esferas da religião e do misticismo a confusão aumenta ainda mais. Fala-se de experiências espirituais que, submetidas a uma apreciação analítica, demonstram-se magníficas manipulações emocionais, ou fugas extremamente sentimentais, ou visões de seres imateriais e assim por diante. As interpretações possíveis são por isso numerosas. Por fim, se dissermos que determinado homem é muito espiritualizado, um dos ouvintes entenderá que ele é nobre de caráter, outro que ele possui um temperamento tranquilo, um terceiro imaginará que ele leva uma vida de ascética simplicidade, um quarto pensará numa vida extremamente religiosa, ao passo que um quinto ouvinte pensará que ele vive num misterioso estado de consciência desconhecido da maioria dos mortais e assim por diante. Assim, cada definição difere de todas as demais.

Analisemos agora com maior profundidade as implicações da palavra espiritual. Qualquer que seja a natureza da experiência ou consciência espiritual da pessoa, se nos reportarmos até o seu término verificaremos que é a mente dessa pessoa que lhe fala dessa experiência e lhe mostra tratar-se de uma parte da sua existência. Ora, a mente só nos pode dar consciência de alguma coisa  trate-se de uma minúscula mosca ou de um Deus imponente — se ocupar-se de pensar nessa coisa. Portanto, tudo aquilo que é sabido de alguma forma, é sabido como um pensamento. As experiências espirituais não fazem exceção a esta regra universal. Elas também não passam de pensamentos, por mais inusitadas que sejam as suas demais características. Daí não haver diferença entre as palavras espiritual  e mental. Toda vida consciente é vida-pensamento. O homem mais espiritualizado vive em pensamentos tanto quanto o homem mais materialista. Não lhe é possível agir de outra forma e permanecer desperto. 

Torna-se agora possível compreender não apenas por que as pessoas não formam uma ideia clara e consistente do significado da palavra espiritual, mas também por que sequer chegam a formar alguma ideia. Tudo o que conseguem é construir na imaginação um significado que venha de encontro aos seus gostos e temperamentos. O filósofo deve esquivar-se ao fascínio dessa palavra e, através de um raciocínio mais religioso, deve disciplinar o uso que dela faz, assegurando a clareza daquilo que está dizendo.

Paul Brunton em,  A sabedoria oculta além da ioga

O segundo grau na ascensão do homem rumo a verdade

"Quanto a refutar dogmas já obsoletos, trata-se de um assunto difícil. Não temos o direito de ofender os pequeninos que creem... É perfeitamente inútil tentar elaborar um credo que satisfaça a um só tempo o letrado e a sua criada." — Antigo Deão da catedral de São Paulo, Londres
Este é o segundo grau na ascensão do homem rumo a verdade. O misticismo poderia ser enigmaticamente descrito como um modo de vida que pretende, sem mais loas ao Senhor, aproximar-nos mais Dele do que qualquer um dos métodos religiosos habituais; como uma visão de vida que refuta o Deus demasiadamente humano construído pelo homem segundo a sua própria imagem, substituindo-o por uma atividade amorfa e infinita; e como uma técnica psicológica que procura estabelecer uma comunicação direta com esses espíritos, através do canal de contemplação interior. 

Certos princípios coletivos do misticismo não se limitam a nenhuma fé, nenhum país ou povo em particular, e são mais ou menos universais. Essas posições cardeais do pensamento místico são em número de cinco e poderão ser sucintamente expostas como segue.

Os místicos asseguram inicialmente que Deus não deve ser localizado em nenhum lugar, igreja ou templo em especial, mas que o Seu espírito é onipresente na natureza e que a Natureza está nele em toda a parte. A ideia ortodoxa de que Deus é uma Pessoa determinada entre numerosas outras, com a diferença de que é muito mais poderoso, sem deixar de apresentar gostos e aversões, ódios e ciúmes em profusão é rejeitada por infantil. O panteísmo é, portanto, a primeira nota a ser tocada. O pensamento acertado santifica ou profaniza um lugar, e a verdadeira santidade existe apenas no interior da mente. A seguir, como corolário do primeiro princípio, asseguram os místicos que Deus está presente no coração de todos os homens da mesma forma pela qual o Sol está presente em todos os seus incontáveis raios. O homem não é apenas um simples corpo físico, como acreditam os materialistas, nem um corpo acrescido de uma alma que o abandona após a morte, como acreditam os religiosos, mas aqui vive, divino, na sua própria carne. O reino do céu tem de ser encontrado enquanto vivemos, sob pena de ficar perdido para sempre. Não se trata de um prêmio que talvez nos venha a ser conferido no nebuloso tribunal da morte. A consequência prática desta doutrina acha-se corporificada no terceiro princípio dos místicos, que assegura ser perfeitamente possível a todos os homens que se submetem à inicial da disciplina ascética entrar em comunhão direta, através da meditação e contemplação, com o Espírito de Deus, sem a intervenção de qualquer padre ou prelado e sem a articulação formal de qualquer prece verbal. Isto torna totalmente desnecessário erguer as mãos súplices em prece a qualquer Ser superior. Assim, a aspiração silenciosa substitui a recitação mecânica. O quarto princípio é tão pouco simpático à religião oficial como o terceiro, pois declara que as estórias, as passagens, os incidentes e os ditados que constituem uma escritura sagrada não passam de uma mistura de alegorias imaginárias e acontecimentos reais, uma preparação literária através da qual as verdades místicas são sagazmente transmitidas na forma de mitos simbólicos, personificações lendárias e fatos históricos verdadeiros. Declara, outrossim, que o século vinte poderia muito bem escrever suas novas Bíblias, Corões e Vedas, porque o Espírito Santo poderá tornar a baixar a qualquer momento. Os místicos asseguram, em quinto lugar, que as suas práticas levam em última instância ao desenvolvimento de faculdades supranormais e poderes mentais extraordinários ou mesmo poderes físicos estranhos, seja em razão das dádivas divinas seja em razão dos esforços da própria pessoa. 

Claro está que quando o êxtase místico é forte, logicamente o homem será levado a contemplar-se como um portador da dividade e, em casos extremos, como a própria Divindade. Assim é que um famoso Sufi muçulmano exclamou perante uma assombrada platéia em Bagdá, há coisa de mil anos: — "Eu sou Deus!"

Infelizmente, o Califa pensava de outra forma e puniu aquela impiedade com torturas romanas, acabando por mandar atirar o corpo do místico às águas do Tigre. Foi esse o destino do festejado Hallaj.

O efeito ampliador do misticismo sobre as perspectivas religiosas de um homem é o incentivo à tolerância e, por isso, um notável cabedal neste nosso mundo intolerante. Considerar, por exemplo, a Bíblia como a única base autêntica da verdade religiosa, ignorando por completo a possibilidade de que outras raças, a chinesa e a hindu, entre outras, possam ter produzido escrituras merecedoras de igual consideração, é ter uma visão tacanha. Esse fanatismo religioso que impede o reconhecimento de qualquer outra fé religiosa que não a sua não tem cabimento hoje em dia, quando o estudo da religião comparada pode provar à saciedade a existência de laços parentescos entre as várias crenças do mundo. A elevação religiosa não é privilégio de qualquer indivíduo, movimento ou raça. O místico plenamente desenvolvido compreende que o Sol de Deus aquece a todos por igual, e que todos têm a liberdade de adotar a crença que desejam, se é que pretendem adotar alguma. Aquilo que o indivíduo procura ele precisa encontrar por si mesmo  e em si mesmo através da introversão meditativa.

O inspirador ou fundador de um culto religioso que seja realmente evoluído saberá como escalonar os seus ouvintes e devotos, saberá como dar à populaça entrada não apenas para o primeiro grau, e quando dar aos portadores de uma mentalidade mais mística entrada para o segundo grau. Podemos tomar as palavras de Jesus como exemplo desse tipo de conhecimento, quando ele disse aos seus discípulos mais próximos: "A vós é dado conhecer os Mistérios do Reino do Céu, mas não a eles... Por isso eu lhes falo através de metáforas; porque ouvindo, eles não escutam nem compreendem".

A Palavra Mistérios tem no original a significação de "outrora ocultos mas hoje revelados", ao passo que Moffat não hesitou em classificá-la como verdade secreta na sua tradução do Novo Testamento. Tais mistérios, porém, não têm relação com a filosofia. Que Jesus iniciou alguns dos seus primeiros seguidores, e através destes mais tarde os apóstolos, nos princípios do segundo grau, isto é a ioga e o misticismo, isso se demonstra amplamente nos ditos e nas vidas dos primeiros adeptos, como, por exemplo, nos transes místicos de João e nas sentenças místicas de Paulo.[...]

É evidente que as simpatias de Jesus pela massa ignara eram tão grandes que ele chegou a abrir-lhe de certa forma as portas de um ensinamento místico mais elevado, conquanto tão-somente os seus discípulos mais chegados tenham recebido uma iniciação plena. Buda, sem dúvida alguma, era movido pelos mesmos sentimentos e abriu essas mesmas portas ainda mais do que Jesus.

Paul Brunton em, A sabedoria oculta além da ioga

Da transitoriedade do estado contemplativo

[...]Depois que emergimos de um estado de transe ou contemplação, o sentimento de exaltação vai gradualmente arrefecendo, deixando por fim APENAS UM ECO. Por essa razão somos obrigados a repetir diariamente a experiência, se é que desejamos voltar a viver nas condições originais, da mesma forma pela qual somos obrigados a repetir cotidianamente as nossas refeições para não vivermos com fome. Aqueles que são peritos no assunto sabem como prolongar durante longo espaço de tempo os doces efeitos residuais do transe, mas é impossível retomar qualquer atividade de ordem prática sem tornar a perdê-los. Assim sendo, as iluminações propiciadas pelo autoconhecimento são sempre passageiras. É preciso que sejam diariamente renovadas ao preço da renúncia temporária aos deveres práticos e às atividades mundanas. 

Essa transitoriedade do estado contemplativo tornou-se um importante problema que ocupou boa parte das minhas considerações mais sérias. O mesmo problema perturbou alguns iogues mais experientes do que eu, foi o que fiquei sabendo há alguns anos, quando de uma das minhas visitas ao grande Ashram de Sri Aurobindo. Lá me mostram algumas cartas escritas por ele a seus discípulos, e uma dessas cartas continha o seguinte parágrafo, cuja veracidade impressionou-me de tal modo que eu o copiei imediatamente. A autoridade da declaração tornar-se-á patente se acrescentarmos que Sri Aurobindo é provavelmente o mais famoso dos iogues hindus vivos e sem nenhuma dúvida o mais culto entre eles. Eis o trecho:

" — O transe é uma forma de fuga — o corpo permanece aquietado, a mente física fica num estado de torpor, a consciência íntima é liberada para dar prosseguimento à experiência. A desvantagem é que o transe se torna indispensável e que, se o problema da consciência desperta não for resolvido, ELE SERÁ IMPERFEITO."

Ademais, o homem que é obrigado a viver e trabalhar neste mundo, que é obrigado a participar das suas atividades, presa da voragem do trabalho, prazer e sofrimento, mais cedo ou mais tarde terá de ABANDONAR A MEDITAÇÃO e voltar à atividade, da mesma forma pela qual abandonou a atividade para entregar-se à meditação. — Fazei o que quiserdes mas pagai o preço — disse certa vez Emerson com helênico discernimento. A prova do acerto dessa declaração reside no fato de que os orientais que começavam a fazer algum progresso na senda da meditação, e cuidavam de aprimorar-se ainda mais, via de regra terminavam por embalar-se ao som da melancólica melodia do asceticismo e FUGIR À ESPOSA, À FAMÍLIA, AO LAR, À PROPRIEDADE E AO TRABALHO; refugiavam-se eles em ashrams, grutas, mosteiros, florestas ou montanhas, de maneira que o mundo sendo deixado bem para trás, seus esforços por alcançar o estado contemplativo podiam tornar-se ininterruptos e contínuos. Ao procurar o GOZO DIÁRIO da paz do autoconhecimento eram obrigados a sacrificar os afazeres da vida cotidiana. 

Ademais, o fato de que a prática reiterada da meditação diária incapacita inevitavelmente o homem para as atividades de ordem prática tornava-se progressiva e intrigantemente mais claro para mim. Na verdade, eu fora obrigado a abandonar minha carreira jornalística durante algum tempo, em parte por haver exagerado na prática da meditação e em parte por causa da hipersensibilidade resultante que transformava quase todas as ambiências em verdadeira tortura. Muito mais fácil era escrever livros, pois se tratava de uma atividade que poderia ser desenvolvida num remoto cume de montanha, se necessário; longe da agitação da vida citadina. Não obstante, dei-me conta de que ao menos noventa por cento da população ocidental vivia involuntariamente presa ao turbilhão de uma existência tumultuada, sem qualquer esperança de escape. Um sistema completo de autoconhecimento não poderia, portanto, ser oferecido como coisa viável ao grosso das pessoas. Como poderia então uma forma de vida que prometia ao mundo apenas uma paz intermitente como recompensa constituir-se na forma perfeita, verdadeira e integral há muito procurada pelas pessoas reflexivas? A combinação da prática da meditação com o trabalho mundano via de regra só tinha valor para aqueles que faziam concessões a um tipo imperfeito de meditação. 

Havia, contudo, uma única exceção. O sistema que outrora prevalecia entre os Zen-Budistas do Japão era sensato e prático. Os jovens que exibiam gosto e predisposição para a meditação eram levados para os mosteiros Zen e ali exercitados durante cerca de três anos. Durante esse período não havia distrações para perturbá-los, de maneira que o trabalho visando ao domínio da mente não sofria solução de continuidade. Os mestres japoneses, com um senso prático que amiúde faltava aos seus colegas hindus, não permitiam que seus discípulos abusassem da meditação ou do transe, mas insistiam na parcimônia. Contrariando a opinião generalizada, as capacidades dos japoneses iam além da imitação pura e simples. Os japoneses jamais se sujeitaram a ser seguidores inconscientes dos costumes nascidos na Índia e veiculados pelos chineses. Eles adotavam aquilo que atendias às suas próprias necessidades e rejeitavam o resto. O objetivo final do Zen medieval era criar homens argutos e determinados, donos de uma mentalidade pronta e lúcida, capazes de manter-se em calma atividade e hábil concentração através de todos os seus empreendimentos; capazes de entregar-se por inteiro ao serviço de seu país. A crassa letargia, a melancolia espectral e o antimundanismo de numerosos monges hindus não convinha a uma raça tão viril, otimista e prática. Não se permitia aos estudantes passar o dia de forma indolente, fútil ou parasitária; pelo contrário, eles recebiam tarefas rigorosas que os mantinham ativos. Sendo o objetivo do Zen uma existência equilibrada, os jovens eram obrigados a trabalhar bastante e meditar muito. Mas, ao final do período disciplinador, exceção feita àqueles que sentiam uma forte e inata vocação para o retiro monástico, os jovens eram devolvidos ao mundo a fim de que casassem, abraçassem uma carreira e tivessem êxito. Dotados do poder de concentra-se instantânea e firmemente, preparados para enfrentar as dificuldades e vicissitudes do viver cotidiano com imperturbável equanimidade, universalmente respeitados por sua elevação de caráter, eles geralmente se destacavam dos demais homens, colhendo enormes êxitos em suas carreiras. Numerosos dentre bos mais famosos soldados, estadistas, artistas e humanistas japoneses eram homens de formação Zen. O seu ideal era um equilíbrio perfeito entre o homem exterior e o interior, sendo a eficiência o traço dominante de ambos. Tão elevada era a qualidade da sua meditação que bastavam trinta minutos diários, depois de deixarem o mosteiro, para mantê-los em permanente paz espiritual. Assim, sua vida mundana não sofria rebate, pelo contrário, enriquecia-se. 

Parecia não haver como acomodar tal coisa à existência moderna, de maneira que éramos obrigados a encarar os fatos tais como são hoje.   

Paul Brunton em, A Sabedoria oculta além da ioga

A importância da base emocional e da educação psíquica

Os homens não se conhecem e não aprenderam a distinguir as diferentes partes de seu ser; pois habitualmente eles as reúnem indiscriminadamente sob o nome de mente, porque é por meio de uma percepção e de um entendimento mentalizados que eles as conhecem ou as sentem; por isso, eles não percebem seus próprios estados e ações, ou, quando muito, apenas na superfície. Uma parte do fundamento do Yoga (paradigma) é tornar-se consciente da grande complexidade de nossa natureza, ver as diferentes forças que a movem e conseguir sobre ela um controle de conhecimento dirigente. Somos compostos de muitas partes, e cada uma delas contribui com alguma coisa para o movimento total de nossa consciência, de nosso pensamento, vontade, sensação, sentimento e ação, mas não vemos a procedência ou o curso desses impulsos; percebemos apenas seus resultados confusos e tumultuados na superfície, sobre os quais, quando muito, podemos impor apenas uma ordem inconstante. 

[...]Yoga significa entrar em uma consciência em que não se é mais limitado pelo pequeno ego, pela mente pessoal, pelo vital e corpo pessoais, mas se está em união com o Si supremo ou com a consciência universal ou com alguma consciência mais funda dentro de si, em que se tem a percepção de sua própria alma, de seu próprio ser interior, e da verdade real da existência. 

[...] Há um plano vital (auto-existente) acima do universo material que nós vemos; há um plano mental (auto-existente) acima do vital e do material. Esses três juntos — mental, vital, físico — são chamados o triplo universo do hemisfério inferior. 

[...] Atrás de toda a natureza vital do homem, escondido e imóvel, está seu verdadeiro ser vital que é inteiramente diferente da natureza vital de superfície. O vital de superfície é estreito, ignorante, limitado, cheio de obscuros desejos, paixões, anseios, revoltas, prazeres e pesares, alegrias e dores transitórias, exultações e depressões. O verdadeiro ser vital, ao contrário, é amplo, vasto, calmo, forte, sem limitações, firme e inabalável, capaz de todo o poder, todo o conhecimento, toda felicidade, beatitude. Além disso ele é sem ego, pois se sabe uma projeção e um instrumento do Divino: ele é o Guerreiro Divino, puro e perfeito; há nele uma Força instrumental para todas as realizações divinas. É o verdadeiro ser vital que se tornou desperto e veio para a frente dentro de você. Do mesmo modo há também um ser mental verdadeiro, um ser físico verdadeiro. Quando estes se manifestam, então você percebe em si mesmo uma dupla existência: aquela que fica atrás é sempre calma e forte, somente a da superfície é perturbada e obscura. Mas se o ser verdadeiro atrás permanece estável e você vive nele, então a perturbação e a obscuridade ficam apenas na superfície; nessa condição, as partes exteriores podem ser dirigidas mais potentemente, e elas também se tornam livres e perfeitas. 

[...] O ser mental interno vigia, observa e passa em julgamento tudo o que percebe em você. O psíquico não vigia ou observa dessa maneira, como uma testemunha, mas sente e sabe espontaneamente de uma maneira muito mais direta e luminosa, pela pureza mesma de sua própria natureza e do instinto divino dentro de si, e então, sempre que vem para a frente, ele revela imediatamente quais são os movimentos certos e quais os errados em você, em sua natureza.

O ser do homem é composto destes elementos — o psíquico, atrás, sustentando tudo, o mental, o vital e o físico interiores, e a natureza exterior, completamente externa, da mente, da vida e do corpo, que é o instrumento de expressão deles. Mas acima de todos está o ser central, que os usa para sua manifestação: ele é uma porção do Si Divino; mas esta realidade de si próprio está escondida do homem externo, que substitui este seu si e alma mais íntimos pelo ego mental e vital. Apenas aqueles que começaram a conhecer-se (base emocional) tornam-se conscientes de seu verdadeiro ser central; mas ainda assim ele está sempre aí, atrás da ação da mente, da vida e do corpo, e é mais diretamente representado pelo psíquico, que, ele mesmo, é uma fagulha do Divino. É através do conhecimento do elemento psíquico na natureza do homem que este começa a entrar em contato consciente com o seu ser central superior. Quando isso acontece, e o ser central usa uma vontade consciente para controlar e organizar os movimentos da natureza, é que se tem então um real autodomínio, um autodomínio espiritual, oposto a um autodomínio parcial e meramente mental ou moral.

Sri Aurobindo em, A Consciência que Vê -Volume II

O passo decisivo para fora da superficial inteligência humana

Nosso primeiro passo decisivo para fora de nossa inteligência humana, de nossa mentalidade normal, é uma ascensão para uma mente mais alta, uma mente não mais de luz e obscuridade mescladas, ou de semiluz, mas de uma grande claridade do espírito. Sua substância básica é um sentido unitário de ser, com uma poderosa dinamização múltipla, capaz da formação de uma profusão de aspectos de conhecimento, modos de ação, formas e significados de tornar-se, de todos os quais há um espontâneo conhecimento inerente... Ela é uma mente-pensamento luminosa, uma mente de conhecimento conceitual nascido do espírito. Uma percepção-de-tudo emergindo da identidade original, carregando consigo as verdades que a identidade conteve em si, concebendo rapidamente, vitoriosamente, abundantemente, formulando, e, pelo autopoder da ideia, realizando efetivamente suas concepções, é o caráter desta mente maior de conhecimento.

Mas aqui neste Pensamento maior não há necessidade de um raciocínio que busca e se autocritica, nenhum movimento lógico passo passo em direção a uma conclusão, nenhum mecanismo ou deliberada concatenação de ideia com ideia para chegar a uma soma ou produto ordenado de pensamento...

Esta consciência mais alta é um Conhecimento formulando-se numa base de auto-existente percepção-de-tudo, e manifestando uma parte de sua integralidade, uma harmonia de suas significações posta em forma-pensamento. Ela pode expressar-se livremente em ideias singulares, mas seu movimento mais característico é uma ideação em massa, um sistema ou totalidade de visão da verdade num único olhar; as relações de ideia com ideia, de verdade com verdade, não são estabelecidas por lógica mas preexistem e emergem, já vistas pelo si, no todo integral. Há uma iniciação em formas de pensamento sempre presente mas até agora inativo, não um sistema de conclusões vindas de premissas ou dados; este pensamento é uma auto-revelação do Saber eterno, não um conhecimento adquirido.

Esta é a Mente Mais Alta em seu aspecto de cognição; mas há também o aspecto de vontade, de efetuação dinâmica da Verdade: aqui vemos que esta Mente maior e mais brilhante sempre trabalha no resto do ser — na vontade mental, no coração e seus sentimentos, na vida, no corpo — pelo poder do pensamento, pela força-ideia. Ela procura purificar através de conhecimento, criar pelo inato poder do conhecimento. A ideia é posta dentro do coração ou da vida como uma força a ser aceita e elaborada; o coração e a vida tornam-se conscientes da ideia e respondem a seus dinamismos, e sua substância começa a se modificar nesse sentido, de modo que o sentimento e ações se tornam as vibrações deste saber mais alto, são informados por ele, preenchidos com a emoção e o sentido dele: a vontade e os impulsos da vida são semelhantemente carregados com o poder e anseio de auto-efetuação dele; mesmo no corpo a ideia trabalha, de modo que, por exemplo, o pensamento e vontade de saúde potentes substituem a fé do corpo em doença e seu consentimento à doença, ou a ideia de força invoca a substância, poder, moção, vibração de força; a ideia gera a força e forma própria à ideia e a impõe a nossa substância de mente, vida ou matéria. É deste modo que o primeiro trabalhar procede; ele impregna o ser inteiro com uma consciência nova e superior, assenta uma base de mudança, prepara-o para uma verdade superior de existência.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A abertura do indivíduo à consciência cósmica

Uma terceira condição é a unificação do ser todo em torno do verdadeiro si e a abertura do indivíduo à consciência cósmica.
Uma unificação do ser inteiro por um desmoronamento da parede entre a natureza interior e a exterior — um deslocamento da posição e centramento da consciência, do si exterior para o si interior, um firme fundamento sobre esta nova base, uma ação habitual a partir da consciência individual para a consciência cósmica — é outra condição necessária para a mudança supramental. Seria quimérico esperar que a Consciência-Verdade-Suprema pudesse estabelecer-se na estreita formulação de nossa mente, coração e vida de superfície, embora voltados para a espiritualidade. Todos os centros interiores devem ter-se abertos com força e libertado suas capacidades para a ação; o ente psíquico deve ter-se desvelado e assumido o controle. Se esta primeira mudança não tiver sido feita, estabelecendo o ser na consciência interior e mais ampla, uma consciência yóguica em lugar de uma consciência comum, a transmutação maior é impossível
Além disso, o indivíduo deve ter-se universalizado suficientemente, ele deve ter refundido sua mente individual na infinitude de uma mentalidade cósmica, alargado e vivificado sua vida individual no sentido imediato e na experiência direta da moção dinâmica da vida universal, deve ter aberto amplamente as comunicações de seu corpo com as forças da Natureza Universal, antes que ele possa ser capaz de uma mudança que transcenda a presente formulação cósmica e o conduza além do hemisfério inferior da universalidade para uma consciência que pertence ao seu hemisfério espiritual superior. Além disso, ele já deve ter despertado para o que agora lhe é supraconsciente; já deve ser consciente da Luz, do Poder, do Conhecimento, da Tríplice-Consciência espirituais mais altos (Existência-Consciência-Alegria), impregnado de suas influências descendentes, feito novo por uma mudança espiritual.

A evolução espiritual obedece à lógica de um desenvolvimento sucessivo; ela só pode dar um novo passo principal decisivo quando o passo principal precedente foi suficiente dominado: mesmo que certos estágios menores possam ser engolidos ou saltados por uma ascensão rápida e brusca, a consequência atrás para assegurar de que o terreno transposto está solidamente anexado à nova condição. É verdade que a conquista do espírito pressupõe a execução numa única vida ou em poucas vidas, de um processo que no curso ordinário da natureza envolveria uma lenta e incerta marcha de séculos ou mesmo de milênios: mas isto é uma questão da rapidez com que os degraus são transpostos; uma velocidade maior ou concentrada não elimina os próprios degraus ou a necessidade de sua sucessiva transposição. A crescente rapidez só é possível porque a participação consciente do ser interior está aí e o poder da Supranatureza já está operando na natureza mais baixa semitransformada, de modo que os passos, que de outra forma teriam que ser dados em tentativas na noite da Inconsciência ou da Ignorância, podem agora ser dados em uma crescente luz e poder de Conhecimento.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A importância da confiança e entrega a um Poder Superior

Uma segunda condição consiste na obediência consciente, na entrega de nosso ser todo à luz, à verdade e à força de cima.
Mas esta mais alta condição é difícil e deve evidentemente levar muito mais tempo para produzir efeito; pois a participação e o consentimento do Puro Ser à transição não é suficiente, deve haver também o consentimento e participação da natureza inferior. Não somente o pensamento e a vontade centrais têm que aquiescer, mas todas as partes de nosso ser devem assentir e entregar-se à Lei da Verdade espiritual; tudo tem que aprender e obedecer ao governo do Poder Divino consciente, nos membros. Há em nosso ser dificuldades obstinadas, nascidas de sua constituição evolucionária, que militam contra este assentimento. Pois algumas destas partes ainda estão submetidas à inconsciência e subconsciência e ao automatismo mais baixo do hábito ou da assim chamada lei da natureza — o hábito mecânico da mente, hábito de vida, hábito de instinto, hábito de personalidade, hábito de caráter, os arraigados impulsos, necessidades, desejos mentais, vitais e físicos do homem natural, os velhos funcionamentos de todos os tipos, que lá estão enraizados tão fundo que parece que teríamos de cavar alicerces abissais para conseguir arrancá-los... A cada passo da transição o assentimento do Puro Ser é necessário, e deve haver também o consentimento de cada parte da natureza à ação do poder mais alto, para sua mudança. Deve haver então uma consciente autodireção do ser mental em nós rumo a esta mudança, a esta substituição da velha natureza pela Supranatureza, a esta transcendência. A lei de obediência consiste à verdade mais alta do espírito, a entrega do ser todo à luz e ao poder provenientes da Supranatureza, é uma segunda condição que tem que ser cumprida lentamente e com dificuldade pelo próprio ser, sem a qual a transformação supramental não pode tornar-se possível

Segue-se que a transformação psíquica e a espiritual devem estar bastante avançadas, ou mesmo tão completas quanto possível, antes que possa haver um início da terceira e consumadora mudança, a supramental; pois é somente por esta dupla transmutação que a autovontade da Ignorância pode ser totalmente alterada para uma obediência espiritual à verdade e vontade remodeladora da Consciência maior do Infinito. Um longo, difícil estágio de esforço constante, manutenção de energias, austeridade da vontade pessoal, concentração de energias por meio de práticas disciplinares, tem ordinariamente que ser atravessado antes que se possa alcançar um estágio mais decisivo, em que um estado de autodoação de todo o ser ao Ser Supremo e à Natureza Suprema se torne total e absoluto. 

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

O trabalho de base e a transformação Supramental

Qual seria a preparação para a transformação supramental? Primeiro, um controle cada vez maior do indivíduo sobre sua própria natureza e uma participação mais e mais consciente na ação da Supranatureza. 
Uma primeira condição desta mudança é o que o Homem mental, que agora somos, deveria tornar-se interiormente desperto e em posse da lei mais funda de seu ser e seus processos; ele deve tornar-se o ser psíquico e mental interior, mestre de suas energias, não mais um escravo dos movimentos da natureza mais baixa, mas controlando-a, seguramente situado em uma livre harmonia com uma lei mais alta da Natureza.

Na mente humana, há o primeiro aparecimento de uma inteligência observadora que olha o que está sendo feito, e de uma vontade e escolha que se tornaram conscientes; mas a consciência é ainda limitada e superficial: também o conhecimento é limitado e imperfeito, ele é uma inteligência parcial, um semi-entendimento, em grande parte tateante e empírico, ou, se racional, então racional por construções, teorias, fórmulas. Não há até agora uma visão luminosa que conheça as coisas por apreensão direta e as arranje com uma precisão espontânea de acordo com a visão, de acordo com o esquema de sua verdade inerente; embora haja um certo elemento de instinto, intuição e insight que tem algum começo deste poder, o caráter normal da inteligência humana é uma razão inquiridora ou um pensamento refletivo, que observa, supõe, infere, conclui, chega através de um duro trabalho a uma verdade construída, um esquema de pensamento construído, uma ação deliberadamente ordenada, de sua própria fabricação. 

Somente uma consciência intuitiva inteira e livre seria capaz de ver e de aprender as coisas por um contato direto e uma visão penetradora ou senso de verdade espontâneo nascido de unidade ou identidade subjacente, e de ordenar uma ação da Natureza de acordo com a verdade da Natureza. Isto seria uma participação real do indivíduo no trabalho da Força-Consciência universal; o Puro Ser individual se tornaria senhor de sua própria energia executiva e ao mesmo tempo um parceiro, agente e instrumento consciente do Espírito Cósmico no trabalhar da Energia Universal; a Energia Universal operaria através dele, mas também ele operaria através dela, e a harmonia da verdade intuitiva faria deste duplo trabalho uma única ação. Uma participação consciente cada vez maior deste tipo mais alto e mais íntimo deve ser um dos acompanhamentos da transição de nosso presente estado de ser para um estado de supranatureza. 

A individualidade tornar-se-ia, assim, cada vez mais poderosa e efetiva à proporção que se compreendesse como um centro e formação do Ser e Natureza Universal e transcendente. Pois à medida que a progressão da mudança se processasse, a energia do indivíduo liberto não seria mais a energia limitada de mente, vida e corpo, com a qual ele começou; o ser emergiria dentro de uma maior Luz de Consciência e de uma maior ação de Força e as assumiria — como elas emergiriam nele e desceriam para dentro dele, assumindo-o para dentro de si mesmas: sua existência natural seria a instrumentação de um Poder Superior, uma Força-Consciência sobremental e supramental, o poder da Energia Divina original. Todos os processos da evolução seriam sentidos como a ação de uma Consciência suprema e universal, uma orça suprema e universal trabalhando em qualquer modo que escolhesse, em qualquer nível, dentro de quaisquer limites autodeterminados, um trabalho consciente do Ser transcendente e cósmico, a ação da onisciente Mãe-Mundo erguendo o ser para dentro de si mesma, para sua supranatureza. Em lugar da Natureza e da Ignorância tendo o indivíduo como seu campo fechado e instrumento não-consciente ou semi-consciente, haveria uma Supra-Natureza da Gnose divina, e a alma individual seria seu campo e instrumento consciente, aberto e livre, uma participação em sua ação, ciente de seu propósito e processo, ciente também de seu próprio Si maior, a Realidade universal e transcendente, e de sua própria Pessoa como ilimitavelmente uma com isso, e ainda assim um ser individual de Ser ser, um instrumento e um centro espiritual. 

Uma primeira abertura a esta participação numa ação da Supranatureza é uma condição da virada rumo à transformação final, a supramental; pois esta transformação é a conclusão de uma passagem da harmonia obscura de um automatismo cego, com a qual a natureza parte para a autêntica espontaneidade luminosa, o movimento infalível da verdade auto-existente do Espírito. A evolução começa com o automatismo da Matéria e de uma vida inferior, em que tudo obedece implicitamente ao ímpeto da Natureza, tudo cumpre mecanicamente sua lei de ser, e por isso consegue manter satisfatoriamente uma harmonia de seu tipo limitado de existência e ação; ela prossegue através da prenhe confusão da mente e da vida de uma humanidade impelida por esta Natureza inferior, mas lutando para escapar de suas limitações, para dominá-la, dirigi-la e usá-la; ela emerge numa maior harmonia espontânea e ação autocumpridora automática, fundada na Verdade espiritual das coisas. Neste estado mais alto a consciência verá essa Verdade e seguirá a linha de suas energias com conhecimento pleno, uma participação forte e uma maestria instrumental, um completo deleite em ação e existência. Haverá uma perfeição de luminosa e desfrutada unidade com todos, em vez da sujeição cega e penosa do individual ao universal, e a todo momento a ação do universal no inidividual e do individual no universal será iluminada e governada pela lei da Supranatureza transcendente.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

O fogo interior que queima no coração

À medida que a crosta da natureza exterior racha, à medida que os muros de separação interior desmoronam, a luz interior irrompe, o fogo interior queima no coração, a substância da natureza e a matéria da consciência refinam-se, chegando a uma maior sutileza e pureza, e as experiências psíquicas mais fundas, aquelas que não têm somente um caráter mental inferior ou vital interior, tornam-se possíveis nesta substância mais sutil, mais pura, mais delicada; a alma começa a se revelar; a personalidade psíquica alcança sua plena estatura. A alma, o ente psíquico, manifesta-se então como o ser central que sustenta a mente, vida e corpo, e é o suporte de todos os outros poderes e funções exteriores do Espírito; ela assume sua função maior como guia e legislador da Natureza. Começa uma guiança, um governo de dentro, que expõe cada movimento à luz da Verdade, repele o que é falso, obscuro, oposto à realização divina: cada região do ser, cada canto e esquina dele, cada movimento, formação, direção, inclinação de pensamento, vontade, emoção, sensação, ação, reação, motivo, disposição, propensão, desejo, hábito do físico consciente ou subconsciente, mesmo o mais escondido, camuflado, mudo, recôndito, é banhado com a luz psíquica que não erra, suas confusões são dissipadas, seus ensinamentos são deslindados, suas obscuridades, ilusões, auto-enganos precisamente indicados e removidos; tudo é purificado, posto no lugar certo, toda a natureza harmonizada, modulada na totalidade psíquica, colocada em ordem espiritual. 

Este é o primeiro resultado, mas o segundo é uma livre afluência de todos os tipos de experiência espiritual, a experiência do Si, experiência Puro Ser e da Energia Divina, experiência da consciência cósmica, um contato direto com forças cósmicas e com os movimentos ocultos da Natureza universal, uma simpatia e unidade psíquica, uma comunicação interior e intercâmbios de todos os tipos com outros seres e com a Natureza, iluminações da ente pelo conhecimento, iluminações do coração pelo amor, devoção, alegria espiritual e êxtase, iluminações dos sentidos e do corpo por experiências mais altas, iluminações da ação dinâmica na verdade e amplidão de uma mente e coração e alma purificados, as certezas da luz e guiança divinas, a alegria e poder da força divina trabalhando na vontade e na conduta. Estas experiências são o resultado de uma abertura, para o exterior, do ser e da natureza interiores e mais íntimos; pois é então que entra em jogo o poder de consciência, inerente e livre de erro, da alma, sua visão, seu contato com as coisas, que é superior a qualquer cognição mental; existe aí, nativo à consciência psíquica em seu trabalhar puro, um senso imediato do mundo e seus seres, um contato interior direto com eles e um contato direto com o Si e com o Divino — um conhecimento direto, uma visão direta da Verdade e de todas as verdades, uma direta emoção e sentir espiritual penetrantes, uma intuição direta da vontade certa e da ação certa, um poder para reger e para criar uma ordem do ser, não pelas hesitações do si superficial, mas a partir de dentro, da verdade interior do si e das coisas, e das realidades ocultas da Natureza. 

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A tríplice transformação rumo à Realidade espiritual

A primeira condição para o completo emergir da alma é um contato direto do ser de superfície com a Realidade Espiritual. Porque vem dela, o elemento psíquico em nós sempre se volta para tudo que na Natureza fenomênica parece pertencer a uma Realidade mais alta, e possa ser aceito como sinal e caráter dela. Primeiro, ele procura esta Realidade através do bom, do verdadeiro, do belo, através de tudo que seja puro e delicado e elevado e nobre: mas embora este toque através de sinais e caracteres exteriores possa modificar e preparar a natureza, ele não pode mudá-la nem inteiramente nem no seu mais interior e profundo. Para uma tal mudança mais íntima, é indispensável o contato direto com a própria Realidade, dado que nenhuma outra coisa pode tocar tão profundamente os alicerces de nosso ser e incitá-lo ou, por meio de seu incitamento, lançar a natureza em um fermentar de transmutação. Representações mentais, figuras emocionais e dinâmicas têm seu uso e valor, a Verdade, o Bem, a Beleza são em si mesmos figuras primordiais e potentes da Realidade, e até mesmo em suas formas, como são vistas pela mente, sentidas pelo coração, realizadas na vida, podem ser linhas de uma ascensão: mas é numa substância e ser espirituais delas e da própria realidade que Aquilo que elas representam tem que vir para dentro de nossa existência. 

A alma pode tentar alcançar este contato principalmente através da mente pensante como intermediário e instrumento; ela coloca uma impressão psíquica sobre o intelecto e sobre a mente mais ampla da inteligência interior e intuitiva, e orienta-os nesta direção. Em seu ponto mais alto, a mente pensante é sempre atraída para o impessoal; em sua busca, ela se torna consciente de uma essência espiritual, de uma Realidade impessoal que se expressa em todos esses sinais e caracteres exteriores, mas é mais do que uma formação ou figuras manifestadoras. Ela sente algo de que ela se torna íntima e invisivelmente ciente — uma Verdade Suprema, um Bem Supremo, uma Beleza Suprema, uma Pureza Suprema, uma Beatitude Suprema; ela guarda o toque crescente, cada vez menos impalpável e abstrato, sempre mais espiritualmente real e concreto, o toque e expressão de uma Eternidade e Infinitude que é tudo isto que existe e ainda mais. Há uma pressão por parte desta Impessoalidade que procura moldar toda a mente dentro de uma forma sua; ao mesmo tempo o segredo e a lei impessoal das coisas torna-se mais e mais visível. A mente se desenvolve até à mente do sábio, primeiro do pensador mental superior, depois do sábio espiritual que foi além das abstrações do pensamento para os começos de uma experiência direta. Como resultado, a mente torna-se pura, ampla, tranquila, impessoal; há uma influência tranquilizadora semelhante sobre as partes da vida: mas quanto ao mais o resultado pode permanecer incompleto; pois a mudança mental conduz mais naturalmente rumo a um status interior e a uma quietude exterior, mas, equilibrada neste quietismo purificador, não sendo atraída, como as partes vitais, a uma descoberta de novas energias de vida, ela não pressiona por um efeito dinâmico pleno sobre a natureza. 

Um empenho mais alto através da mente não muda este equilíbrio; pois a tendência da mente espiritualizada é prosseguir para cima, e como acima dela mesma a mente perde seu domínio sobre as formas, é dentro de uma vasta impessoalidade sem forma e sem feição que ela entra. Ela se torna ciente do Si Imutável, do Espírito Imaculado, da pura nudez de uma Existência Essencial, do Infinito sem forma e do Absoluto sem nome. Esta culminação pode ser alcançada mais diretamente pelo imediato prosseguir para além de todas as formas e figuras, além de todas as ideias de bom ou mau, verdadeiro ou falso, belo ou não-belo, para Aquilo que excede todas as dualidades, para a experiência de uma suprema unicidade, infinidade, eternidade ou outra sublimação inefável da última e extrema percepção que a mente tem do Si ou Espírito. É alcançada uma consciência espiritualizada, e a vida se aquieta, o corpo deixa de necessitar e pedir, a própria alma se funde no silêncio espiritual. Mas esta transformação através da mente não nos dá a transformação integral; a transmutação psíquica é substituída por uma mudança espiritual nos raros e altos cumes, mas isto não significa a dinamização divina completa da Natureza. 

Uma segunda aproximação ao contato direto, feito pela alma, é através do coração: este é seu caminho próprio mais próximo e rápido, porque sua sede oculta está lá, exatamente atrás, no centro-coração (chakra do coração), em contato íntimo com o ser emocional em nós; consequentemente, é através das emoções que no começo ela pode agir melhor com seu poder nativo, com sua força viva de experiência concreta. É através do amor e adoração do Todo-belo e Todo-feliz, o Todo-bom, o Verdadeiro, a Realidade espiritual do amor, que a aproximação é feita; as partes estéticas e emocionais juntam-se para oferecer a alma, a vida, a natureza toda àquilo que elas veneram.Esta aproximação através da adoração só pode obter seu pleno poder e ímpeto quando a mente vai além da impessoalidade para a percepção-consciência de um Ser Pessoal supremo: então tudo se torna intenso, vívido, concreto; a emoção, o sentir, o senso espiritualizado do coração alcançam seu absoluto; uma inteira doação de si torna-se possível, imperativa. O homem espiritual nascente surge na natureza emocional como o devoto; se, em acréscimo, ele tem a direta percepção de sua alma e dos ditames dela, se ele une sua personalidade emocional à psíquica, e transforma sua vida e partes vitais, através de pureza, êxtase de Deus, o amor para com Deus e os homens e todas as criaturas, em algo de beleza espiritual, cheio de luz e bondade divinas, ele se desenvolve até a santidade e alcança a mais alta experiência interior e a mais considerável mudança da natureza próprias deste caminho de aproximação ao Ser Divino. Mas para o propósito de uma transformação integral também isto não é suficiente; tem que haver uma transmutação da mente pensante, e de todas as partes vitais e físicas da consciência, em seu próprio caráter.

Essa mudança maior pode ser em parte atingida se se acrescentar às experiências do coração uma consagração da vontade pragmática, que deve conseguir trazer consigo — pois de outro modo esta consagração não pode ser efetiva — a adesão da parte vital dinâmica, que sustenta o dinamismo mental e é nosso primeiro instrumento de ação externa. Esta consagração da vontade nos trabalhos procede por uma gradual eliminação da vontade do ego e seu poder motivador de desejo: o ego se sujeita a uma lei superior e finalmente se apaga, parece não existir ou existe apenas para servir a um Poder mais alto ou a uma Verdade mais alta, ou para oferecer sua vontade e seus atos ao Ser Divino, como instrumento. A lei de ser e ação, ou a Luz da Verdade que guia então o aspirante, pode ser uma claridade ou poder ou princípio que ele percebe na maior altura de que sua mente é capaz; ou ela pode ser uma verdade da Vontade divina que ele sente presente e trabalhando dentro dele, ou guiando-o por uma Luz ou uma Voz ou uma Força ou uma Pessoa ou Presença Divina. No fim, através deste caminho, chega-se a uma consciência na qual se sente a Força ou Presença agindo dentro e movendo ou governando todas as ações, e a vontade pessoal é inteiramente entregue ou identificada com essa Vontade-Verdade, Poder-Verdade ou Presença-Verdade maiores.

Uma combinação de todas estas três aproximações, a aproximação da mente, a aproximação da vontade, a aproximação do coração, cria uma condição espiritual ou psíquica do ser e natureza de superfície, em que há uma maior e mais complexa abertura à luz psíquica dentro de nós e ao Si espiritual, à Realidade agora sentida acima de nós, e que nos envolve e penetra. Na natureza há uma mudança mais poderosa e múltipla, uma edificação e auto-criação espirituais, o aparecimento de uma perfeição composta do santo, do trabalhador desprendido de si e do homem de conhecimento espiritual.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem

A verdade espiritual não é uma verdade de pensamento


[...] A verdade espiritual é uma verdade do espírito, não uma verdade do intelecto, não um teorema matemático ou uma fórmula lógica. Ela é uma verdade do Infinito, uma em infinita diversidade, e ela pode assumir uma infinita variedade de aspectos e formações: na evolução espiritual é inevitável que haja uma passagem e um estender-se por múltiplos aspectos rumo à Verdade única, uma apreensão dela por múltiplos aspectos; esta multiplicidade é o sinal da aproximação da alma a uma realidade viva, não a uma abstração ou a uma figura construída de coisas, que podem ser petrificadas em alguma fórmula morta ou rígida. A dura noção lógica e intelectual da verdade como uma só ideia que todos devem aceitar, uma ideia ou sistema de ideias anulando todas as outras ideias ou sistemas, ou um fato limitado singular ou fórmula singular de fatos que todos devem reconhecer, é uma transferência ilegítima da verdade limitada do campo físico para o campo muito mais complexo e plástico da vida, da mente e do espírito.

Esta transferência foi responsável por muito dano; ela traz para dentro do pensamento estreiteza, limitação, uma intolerância para com a necessária variação e multiplicidade de pontos de vista, sem as quais não pode haver totalidade de encontro com a verdade, e através da estreiteza e limitação, muita obstinação no erro. Ela reduz a filosofia a um labirinto infindável de disputas estéreis; a religião foi invadida por este engano e contaminada com dogmatismo, fanatismo e intolerância de credo. A verdade do espírito é uma verdade de ser e consciência e não uma verdade de pensamento: ideias mentais podem somente representar ou formular algumas facetas, algum princípio ou poder dela traduzido pela mente, ou enumerar seus aspectos, mas para conhecê-la deve-se crescer para dentro dela e sê-la; sem este crescer e ser não pode haver conhecimento espiritual verdadeiro. A verdade fundamental da experiência espiritual é uma só, sua consciência é uma só, em toda parte ela segue as mesmas linhas e tendências gerais de despertar e crescer até atingir um estado de ser espiritual; pois estes são os imperativos da consciência espiritual. Mas há também, baseadas nesses imperativos, inumeráveis possibilidades de variação de experiência e expressão: a centralização e harmonização destes possíveis, mas também o intensivo e exclusivo seguir até o fim de cada linha de experiência, são ambos, movimentos necessários da Consciência-Força espiritual, emergente dentro de nós. Além disso, a adequação de mente e vida à verdade espiritual, a expressão desta verdade neles, deve variar com a mentalidade do aspirante, enquanto ele não se tenha elevado acima de toda necessidade de tal adequação ou de tal expressão limitadora. Foi este elemento vital e vital que criou as oposições que ainda dividem os que buscam a espiritualidade, ou que se introduzem em suas divergentes afirmações da verdade que eles experienciam. Esta diferença e variação é necessária para a liberdade de busca espiritual e crescimento espiritual: ultrapassar diferenças é bem possível, mas isto é feito mais facilmente na experiência pura; na formulação mental a diferença deve permanecer até o momento em que se pode exceder por completo a mente e, numa mais alta consciência, integralizar, unificar e harmonizar a verdade multifacetada do Espírito.

O Supremo Si é um, mas as almas do Si são muitas, e tal como é a formulação da natureza da alma, assim será sua auto-expressão espiritual. Uma diversidade em unicidade é a lei da manifestação; a unificação e integração supramental deve harmonizar estas diversidades, mas aboli-las não é a intenção do Espírito na Natureza.

Sri Aurobindo em, A evolução futura do homem 

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)