O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Que é um ser humano? Que sou Eu?

Os pensamentos e sentimentos que fluem como um rio através de nossa consciência constituem o eu superficial. Porém, abaixo delas há um eu mais profundo que, sendo uma emanação da realidade divina, constitui nosso verdadeiro eu.

O que comumente pensamos que constitui o “eu” é uma ideia que muda de ano a ano. Este é o “eu” pessoal. Mas o que sentimos mais intimamente como sempre presente em todas essas ideias diferentes sobre o “eu”, ou seja, a sensação de ser, de existir, nunca muda mesmo. É isto que é nosso verdadeiro e permanente “Eu”.

Aquele elemento em sua consciência que lhe permite entender que ele existe, que o faz pronunciar as palavras “Eu Sou”, é o elemento espiritual, aqui chamado de Eu Superior. É realmente seu ser básico pois as três atividades de pensar, sentir e querer são derivadas dele, são ondulações se espalhando para fora dele, são atributos e funções que a ele pertencem. Mas como nós habitualmente pensamos, sentimos e agimos, essas atividades não expressam o Eu Superior porque elas estão sob o controle de uma entidade diferente, o ego pessoal.

A verdade é que este segundo eu – ou melhor, a percepção de sua presença ficou trancada por tanto tempo que viemos a considerá-lo como inexistente e os sinais de sua experiência real como alucinações. É por isso que a religião, o misticismo e a filosofia têm de travar uma batalha tão árdua nestes tempos, uma batalha contra a inevitável incredulidade humana.

O ser humano é como um ator que ficou tão envolvido com a interpretação de seu papel que esqueceu sua identidade original. Isso efetivamente o impede de lembrar quem e o quê é.

Este estado benigno é um passado do qual caímos ou um futuro ao qual nos dirigimos? A verdadeira resposta é que não é nenhuma deles. Este estado sempre existiu dentro de nós, existe agora, e sempre existirá. Está conosco eternamente simplesmente porque é aquilo que realmente somos.

Achamos necessário, por motivo de maior precisão e melhor exposição, restringir o termo ”Eu Superior” para representar a suprema realidade do homem e apresentar o termo ”Mente-do-Mundo” para representar a suprema realidade do universo.

O Eu Superior é um termo do qual a experiência passada não pode fornecer nenhum significado. Mas talvez você tenha tido momentos estranhamente belos nos quais tudo parecia estar tranquilo, nos quais um mundo etéreo do ser parecia muito próximo a você. Bem, naqueles momentos você foi elevado ao Eu Superior…

Esta é a essência permanente de um homem, seu verdadeiro eu em contraste com sua pessoa efêmera. Quem quer que entre em sua consciência entra na atemporalidade, uma experiência maravilhosa onde o fluxo de prazeres e dores chega ao fim com absoluta serenidade, onde os arrependimentos acerca do passado, a impaciência com o presente e os medos do futuro são desconhecidos.

Por ter acesso a essa fonte interior, a pessoa poderá viver a mais solitária das vidas mas sem estar desprovido de amor. A alegria e o calor de sua eterna presença habitarão com ele.

Paul Brunton

Materialismo espiritual - II

Materialismo espiritual - I

Materialismo espiritual: o narcisismo do pequeno eu

Fernand Schwarz
O materialismo espiritual trabalha sobre a consciência, sobre o ego, por meio de muitas formas de auto-ilusões forjadas pelo pequeno eu que se crê equilibrado e homogêneo e que toma o lugar do ser interior. O pequeno eu peca por narcisismo. É devido a isto que falamos de auto-ilusões. Agrada-lhe crer no que lhe convém, no que mais lhe interessa: eu sou brioso, eu sou bom, eu sou generoso, extraordinário, etc... Cada um de nós leva na bagagem uma auto-ilusão: um espelhismo, uma projeção do que crê ser o que lhe convém. Alguns gostam de dizer que sofrem, outros que não sofrem, outros que não necessitam de nenhum carinho, outros pelo contrário, não cessam de repetir: "Ninguém me quer, ninguém gosta de mim".

Cada qual com as suas próprias auto-ilusões, que são muito diferentes de indivíduo para indivíduo. Isto é o que deixamos ver aos demais. Chama-se auto-ilusão a todas essas formas mentais que fabricamos para nos apresentarmos aos demais e que acreditamos serem os nossos melhores cartões de visita para que os outros nos aceitem, nos julguem e nos considerem bem.

Estes são os milhares de rostos que fabricamos com a ajuda de técnicas materiais ou espirituais, postas ao serviço do ego para que seja aceite. São os vários disfarces fabricados pela Alma porque, desconhecendo-se, tem medo de si própria, das suas dúvidas. O eu pessoal é possessivo e tem medo das dificuldades, buscando sempre proteção e assistência. O materialismo espiritual é esta busca do ego, de soluções precisas, busca de uma noção de solidez, de estabilidade, em que tudo deve ter um porquê. Isto é auto-ilusão, querer assegurar-se exageradamente de que tudo será como se quer, sem surpresas, asséptico, controlado de antemão.

É o logro em que todos nós caímos; querermos assegurar-nos de antemão do êxito, qualquer que seja o ensinamento que estamos a receber. E ao fazermos isto caímos no reducionismo ideológico e transformamos a doutrina em utopia, mesmo que seja a mais espiritual.

E este é o trabalho essencial: quando se quer criar uma fraternidade, quando se quer trabalhar com uma determinada quantidade de pessoas, somos obrigados a ir mais além destes disfarces, mais além destas auto-ilusões. De outro modo, todas as relações estabelecidas com os demais nunca serão verdadeiras. Basear-se-ão nas aparências, no parecer e serão, por conseguinte, efémeras e superficiais, distantes da fraternidade, do intercâmbio verdadeiro, do amor verdadeiro que não é simplesmente o fato de consolar a pessoa que pede amor ou de tranquilizá-la porque necessita que se lhe diga que é importante. Às vezes, o amor verdadeiro pode causar sofrimento e não ser sempre brando. As atitudes verdadeiras não existem, mas sim as relações verdadeiras. A atitude verdadeira, permanente neste mundo, não existe visto que o que hoje é bom pode ser mau amanhã. Porém o "eu" necessita sempre de coisas similares para se consolidar, para se sentir mais forte; caso contrário sentir-se-á perturbado. O eu compraz-se no hábito.

Esta busca da estabilidade pelo eu, é um reflexo condicionado. Este ego auto-ilusório a que me refiro, é burguês, é o "eu" do burguês. As sociedades burguesas apareceram quando as sociedades e sistemas tradicionais foram destruídos. Foi então que surgiu a sociedade burguesa com o seu ideal de protecionismo, de aparências, de nada querer mudar, em que tudo estava bem definido e toda a gente muito bem educada, segundo um código formal de bons costumes.

As ideologias são as do materialismo, de esquerdas ou direitas, de cima ou de baixo. Esta forma que toda a gente mais ou menos conhece, e que chamamos burguesia é o nascimento das ideologias reducionistas, seguradoras, higienistas, como expressão de uma lei auto-ilusória que necessita de referências formais muito estritas (não se deve sair de noite a partir de tal hora, não se deve fazer isto ou aquilo...). O pequeno eu auto-ilusório necessita de coisas sólidas e utiliza para proveito próprio a ciência, a espiritualidade, os padres... enfim, tudo o que necessite para se sentir mais seguro de si. Por exemplo, para o burguês casar-se pela igreja não significa espiritualidade; fá-lo antes por um código social, para tranquilizar as pessoas e ficar bem visto. Não se trata de uma vontade interior de transformação. Ainda que não acredite nisso acaba por fazê-lo para ficar bem visto. Esta mentalidade não ama o risco nem o sacrifício, nem tão pouco busca uma aventura interior; segundo esta visão, vale mais ser cabeça de ratão do que cauda de leão.

A evolução e universalidade deste tipo de cultura nos últimos séculos - a do pequeno eu auto-ilusório -, engendrou a civilização na qual vivemos e provocou as dificuldades que todos nós encontramos para sair desta auto-ilusão que nos fez acreditar em mentiras e que nos impede de ir mais longe e de compreender o que é a Tradição, a busca espiritual verdadeira.

O simples fato de compreendermos que estamos todos encerrados neste tipo de cultura não é suficiente para crer que já não estamos ligados a ela. Vai ser muito difícil afastar-nos desta realidade, que não é simplesmente social como por vezes se pensa, mas que está muito mais profundamente arraigada em cada um de nós, portadores de expressões próprias do materialismo espiritual, incluindo os que se interessam pela atividade espiritual. É por esta razão que muitos espiritualistas se interessam pelos discos voadores (trata-se de uma máquina, claro está), pelo Egipto; porém, o que lhes interessa dos Egípcios é saber "como é que construíram as pirâmides" e não a Iniciação ou o desenvolvimento interior.

Se derdes uma olhadela nos livros do tipo esotérico vereis que, em geral, as pessoas se interessam pela sua saúde ou pela comida, e muito pouco pelo espírito metafísico. São muito poucos os textos sobre a ideia de renúncia e do combate interior. Se perguntardes numa livraria o que é que vendem mais no campo esotérico, dir-vos-ão que as pessoas procuram os conselhos práticos: como casar-se com a ajuda da astrologia, como cozinhar "saudável". E à parte estão os textos herméticos que têm, por suposto, muito pouco êxito. As pessoas que se interessam de verdade por uma busca global no plano metafísico e prático são muito poucas. E isto desde todos os tempos. Embora a experiência ameace constantemente fazer cair o ego do seu castelo de cartas, fruto das suas elucubrações intelectuais e da sua autocomplacência, sempre que devemos efetuar uma prova face à realidade, procuramos sistematicamente neutralizá-la.

O eu tenta a todo o custo, quando sente que a experiência real demonstra a sua fragilidade e as suas dificuldades, criar uma espécie de complacência e de reflexo condicionado para neutralizar todos os caminhos que o levariam a superar a prova. Então há bloqueio, uma tensão, uma vibração que nascem do fato de não se querer, na realidade, passar a prova. É por esta razão que, muito provavelmente estareis um pouco irritados, cada um num momento diferente porque o que é prova para uns não o é para outros.

A chave da maioria das nossas crispações é esta: a vontade de neutralizar a prova. E a prova não pode ser neutralizada; um mundo neutro é o mundo burguês, higiênico e sem parasitas, em que toda a gente está limpa e vacinada. Nenhum risco, não há micróbios.

Foi esta ideia de mundo limpo e higiênico que conduziu o nazismo a exterminar tantos seres humanos. Porque o nazismo é isto: um ideal de higiene e apolinismo excessivos. Esta crença continua a existir: vede o que se passa, por exemplo, no Cambodja. Este é o resultado de querer neutralizar tudo; então, tudo seria perfeito posto que tudo seria neutro. Assim, pois, a nossa sociedade está obcecada pela neutralidade, pela não-ação. Isto reflete-se nas modas assexuadas, nas opções políticas neutras, etc...

Desta maneira se exprime a natureza do pequeno eu, que é o verdadeiro vencedor dos finais do século XX; estamos possuídos pela sua filosofia que neutraliza a prova do enfrentamento com a realidade. Na verdade vivemos por procuração, apreendendo uma realidade branda fabricada pelos meios de comunicação. A nossa sociedade vive experiências verdadeiras e terríveis que a deveriam fazer refletir; a guerra do Líbano é uma experiência terrível: neutralizamo-la. Vivemos Tchernobyl: isolamo-lo. E assim nada chega à globalidade, pois tudo tem de ser neutralizado e rapidamente. Não obstante o mal-estar existe. Tomemos, como exemplo, a droga: há que neutralizá-la. Porém não se pergunta: "porque é que os jovens se drogam?". Luta-se contra os traficantes, mas não se luta contra a sociedade que empurra os jovens para a droga, porque não encontram outra alternativa. Se o fizéssemos, teríamos de nos enfrentar com o verdadeiro problema, e isto não é possível dentro dos sistemas atuais.

Por isso não há dicotomia entre a compreensão do que vivemos no interior de nós mesmos e o que a humanidade está a viver coletivamente, visto que não há tanta diferença entre indivíduo e coletividade, pois as regras são as mesmas para ambos. É possível que ao longo da evolução humana, o perigo da humanidade ficar submersa pelas forças do pequeno eu, nunca tenha sido tão grande como agora. No passado, houve sempre um sábio ou um grupo de homens que tomavam as medidas necessárias para lutar e erradicar o perigo. Atualmente, nenhuma destas duas possibilidades existe; por consequência, o problema é muito mais complexo. Além disso, não seria suficiente erradicá-lo do exterior, já que isto seria simplesmente criar um desequilíbrio. O que se trata agora é de saber se o homem pode ou não pode com os seus próprios meios e sem ajuda do exterior, através de um trabalho pessoal, levar a cabo uma transformação consciente.

Esta é a razão pela qual estamos a viver a nossa experiência. Mas tão pouco devemos cair numa depressão ou visão apocalíptica; pelo contrário, há que compreender que esta é uma oportunidade única para ir muito mais além da experiência humana coletiva. Por conseguinte, há que ter cuidado com a neutralização, porque para evoluir somos obrigados a passar por uma confrontação com a realidade, pela dor, única possibilidade de saída deste estado de confusão, de falta de discernimento, de excesso de agitação. Estamos todos demasiado agitados. O que irão pensar? O que irão fazer? O que devo fazer? A agitação produz confusão. Uma luz clara obscurece-se com a agitação. Se nos agitarmos menos, veremos as coisas mais claramente, pois estaremos mais calmos. As pessoas acalmam-se de modo muito diferente: uma bofetada ou uma carícia, uma palavra... de todas as formas o objetivo é acalmar. Os meios são distintos segundo as pessoas. Não existe uma solução única.

Segundo a tradição, avançar no caminho espiritual significa combater a nossa própria confusão e descobrir o nosso estado de atenção, condição original do nosso espírito, e descobrir que o nosso estado de atenção precede a nossa encarnação, que não é algo que construímos no momento, mas que é como a Alma. A nossa monada, a nossa luz interior não necessita ser iluminada.

A nossa luz existe desde o princípio e não temos nada para acender. O nosso dever como filósofos é desembaraçar o caminho do que se interpõe entre esta luz e nós. Todos temos o nosso Eu Superior; o que nos falta é a consciência disso. Todos somos a encarnação de um ponto de luz. Cada um de nós têm, como dizem os textos sagrados, a chispa, a chama ou o fogo. Mas se estivermos demasiado fechados, não captaremos deste fogo mais do que o calor. O materialismo espiritual cegou-nos com o seu utilitarismo aproveitando apenas o calor da chama interior que temos em nós, esquecendo a sua Luz. Para ver é necessário abrir os olhos; ousa e vive a tua luz.

Fernand Schwarz
Antropólogo, Cruz de Paris em Artes, Ciências e Letras.

(Extratos de um curso ministrado na École d'Anthropologie de Paris)
Fonte: 
http://www.nova-acropole.pt/a_materialismo_espiritual.html

Quem me dará suporte?

"Primeiro, o ser humano encontrava-se retorcido num pequeno espaço dentro do útero da mãe. Quando nasceu e veio para este mundo ilimitado, ele abriu ligeiramente os olhos e olhou ao redor. Ao ver um imenso espaço e uma tremenda luz, desviou seus olhos e ficou em choque. “Que lugar é este para o qual eu vim sozinho? Quem me dará suporte? O que vai ser do meu destino?” Esses tipos de medo surgiram na sua mente. Imediatamente após o nascimento, com o primeiro choque, ele começou a chorar. Um pouquinho depois foi-lhe dado uma gotinha de mel para lamber. Com isso ele sentiu-se aliviado pensando que tudo estava bem, e que ele tinha o suporte de alguém. Assim, ele pacificou-se. Entretanto, aquele primeiro choque de medo ficou tão arraigado em sua mente, que ele ficava assustado com o menor som, e novamente aquietava-se quando lhe era dado mel ou o seio de sua mãe. Dessa maneira, arranjando suporte externo a cada passo, esse ser humano tornou-se dependente do suporte de seus pais. Conforme ele foi crescendo, os pais dele, bem como aqueles que cuidavam dele quando criança, começaram a dar-lhe conhecimento a respeito do mundo. Depois disso, seus professores de escola ensinaram-lhe as várias ciências físicas, tais como geografia, geometria, geologia, etc., as quais são tão sem valor quanto poeira.

Quando ele entra na fase da “juventude”, novamente procura por suportes para sua vida. Como é determinado pelo mundo que o suporte para a vida vem do dinheiro, esposa, etc., ele junta riquezas e arruma uma esposa. E toma por garantido que pode ser sustentado por esse suporte mundano apenas e desperdiça a sua vida. Com fama, aprendizagem, poder e autoridade, riqueza e esposa, ele soma prosperidade e fica cada vez mais enroscado. Suas principais posses e todo seu suporte, são sua esposa, riqueza, status, juventude, beleza e autoridade. Ficando com um orgulho especial em tudo isso, e ficando intoxicado com a mundaneidade, o ser humano perde a oportunidade de conhecer a sua “Natureza Real”. O orgulho em relação ao dinheiro, em relação à autoridade, à beleza absorve o homem e ele esquece sua Natureza Real. 

Eventualmente, as posses acima mencionadas começam a encolher uma a uma. Quando as posses começam a se esvair de acordo com a lei da natureza, a memória do choque que ele recebeu inicialmente balança-o até suas raízes mais profundas e ele torna-se frustrado. Em pânico ele questiona: “O que farei agora? Estou perdendo suportes de todos os lados. O que acontecerá comigo?” Entretanto, esse homem ignorante não entende que todas essas posses tinham apenas um suporte sólido, que era a própria Existência dele, ou o sentido de “Eu Sou”. É através desse suporte apenas, que o dinheiro tinha o seu valor, que a esposa dele parecia charmosa, que as honras recebidas pareciam valer a pena, que a aprendizagem deu-lhe sabedoria, a sua forma adquiriu beleza e sua autoridade empunhava poder. 

Ó pobre homem, você próprio é o suporte de toda a riqueza acima mencionada! Pode haver maior paradoxo do que sentir que a riqueza lhe dava suporte?" 

Siddharameshwar Maharaj  
Fonte: Advaita Livros


Deixa a Tua Mente Viver Dentro do Teu Coração

O que existe entre um pensamento e outro

A pessoa é uma construção do pensamento

Encontro contigo mesmo

Quantas vezes te encontras com teus amigos?
E nunca te encontras contigo mesmo?
Não com o teu ego externo - sim com o teu Eu interno...
O encontro com o teu centro resolveria
os problemas das tuas periferias.

O encontro com tua alma resolveria
os problemas da tua mente e do teu corpo.
Marca, cada manhã cedo, um encontro com tua alma.
Longe de todos os ruídos da tua mente e do teu corpo.
Isola-te em profundo silêncio e solidão.
Esvazia-te de tudo que tens
- e serás plenificado pelo que és.

Faze do teu ego uma total vacuidade
- e serás plenificado pelo Eu divino.
Onde há uma vacuidade acontece uma plenitude
- é esta a maravilhosa matemática do Universo.

Entra, cada manhã, num grande silêncio
- num silêncio pleniconsciente.
No silêncio da presença.
No silêncio da plenitude.

Abre os teus canais rumo à fonte cósmica
- e as águas vivas do Universo fluirão
através de teus canais.
E nunca mais te sentirás
frustrado, angustiado, infeliz.

Esse encontro com o teu centro de energia
beneficiará todas as periferias da tua vida diária.
Até os trabalhos mais prosaicos te parecerão poéticos.
E as pessoas antipáticas te serão simpáticas.

Nenhuma injustiça te fará injusto.
Nenhuma maldade te fará mal.
Nenhuma ingratidão te fará ingrato.
Nenhuma amargura te fará amargo.
Nenhuma ofensa te fará ofensor nem ofendido.

E estenderás o arco-íris da paz
sobre todos os dilúvios das tuas lágrimas.
Se te encontrares contigo mesmo...

Isola-te, numa hora de profundo silêncio e solidão.

Mais tarde, serás capaz de estar a sós contigo
em plena sociedade,
no meio da tua atividade profissional.

E então terás resolvido definitivamente
o problema da tua vida terrestre.

O mundo de Deus
não te afastará mais do Deus do mundo.

(Do livro “De Alma para Alma”, de Huberto Rohden)

Culpa Inconsciente

Livre de todos os nomes e de todas as forma

"Verso 15:
Estou livre de todos os nomes e de todas as forma"
Viveka Chudamani

Se perguntarmos a um homem comum quem ele é, a resposta que poderíamos chamar de natural será, na melhor das hipóteses, Eu sou um homem. Por esse termo podem ser entendidos o corpo do homem e os elementos invisíveis que denominamos seus mundos emocional e menta. Com tais ideias, você pode viver a sua encarnação, enquanto sonha com as concepções mais elevadas. A Supra-Consciência é a negação derradeiro de tudo que é relativo e temporal. Por isso é tão difícil, e até mesmo impossível, transmiti-lo em palavras ou em qualquer forma de comunicação mental, pois ele pertence aos domínios d'Aquilo que é absoluto, não sujeito a quaisquer condições, inacessível a toda influência, imutável por quaisquer fatores, para além do tempo e de todos os tipos de espaço. Assim, nada que pertença aos três planos humanos (mental, emocional, físico) tem acesso ao estado de Supra Consciência. Tudo deve ser abandonado diante do Grande Portal, se nos permitirmos usar esse símbolo. 

E aqueles que viveram a Supra Consciência sabem que existiram (e existem) na Plenitude, mesmo sem esses três elementos que aparentemente constituem todo ser humano. Mas, na Supra Consciência, o homem, como o conhecemos, não existe. É por isso que o senhor Buda rejeitava a ideia de "alma", tal como o fazem o Advaita-Vedanta, o Zen e as genuínas Escolas Iniciatórias Ocidentais da Tradição Hermética (sendo a sua concepção o Ain-Soph, o Inatingível, o Desconhecido). 

Na tradição Cristã, hoje bastante obscura para os leigos, podemos ainda encontrar ideias semelhantes (o dogma "o material morre, mas o espiritual se eleva"). 

Uma vez que falou sobre si mesmo, o sábio Maharshi disse que, na verdade, não tinha nome algum. Na época, poucos entenderam o que ele quis dizer e continuaram a chamá-lo como antes. 

Podemos acrescentar à descrição à descrição que demos do Sol Nascente que, nesse estado, "o sem nome e o sem forma" são realizados plenamente, sendo eles atributos da Supra Consciência. Esperamos que, após tudo o que foi dito sobre o Verso 15, a meditação sobre ele venha a ser mais fácil e que o aspirante compreenda, pelo menos em teoria, o que traz a Supra Consciência e que elementos de si devem ser abandonados no limiar da plena Supra Consciência. 

Neste momento, isso que chamamos de "homem" é não existente, pois tudo se torna o Silêncio, a Paz e a Bem-aventurança do Ser eternamente livre. 

Mouni Sadhu - Samadhi: A Supraconsciência do futuro

A Maha Yoga de Sri Ramana - Parte IV


Os trechos a seguir foram retirados do Capítulo XII do livro Maha Yoga, que já foi traduzido pelo Prof. Hermógenes e publicado no Brazil na década de 1950. Fizemos uma nova tradução do texto e há possibilidade de publicação neste ano (2011). Os trechos abaixo são provenientes da nova tradução. Em negrito são os subtítulos colocados pelo autor (K. Lakshmana Sarma) e, entre aspas (e em itálico), os ensinamentos do Maharshi.

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DEVEMOS CONDENAR O DVAITA? “Dvaita[1] consiste em (erroneamente) identificar o Ser como o não ser. Advaita é deixar de fazer isso.

HEROÍSMO. “Quando o eu surge, torna-se ele mesmo o sujeito e o objeto. Quando o eu não surge (enquanto ego) não há sujeito nem objeto. Para o discípulo maduro, nada mais precisa ser dito. Sabendo isso, ele volta sua mente para o interior, afastando-a de tudo que é externo. Para poder fazê-lo, deve-se ser um herói (Dhira). Mas, que heroísmo é necessário para encontrar a Si mesmo? ‘Dhi’ significa mente e ‘ra’ quer dizer evitar que as energias mentais se desgastem em correntes de pensamentos. Quem pode deter o fluxo dos pensamentos e voltar a mente para o seu íntimo é um Dhira.

AUMENTO DE CONHECIMENTO RELATIVO. Quando alguém quis saber sobre suas vidas passadas, o Sábio disse: “Mesmo com o conhecimento da vida presente você não é feliz. O conhecimento de suas vidas passadas só aumentará sua infelicidade. Todo esse conhecimento é apenas uma carga para a mente.

O SER É A TESTEMUNHA? A ideia do Ser como uma Testemunha está na mente. Pode ser útil para auxiliar a aquietar a agitação mental, mas não é a Verdade absoluta do Ser. A testemunha está relacionada à coisa testemunhada, Tanto a testemunha como a coisa testemunhada são criações mentais.”
Ausência de Ego, Amor, o Espírito Santo e o Espírito, são todos os nomes de uma única coisa: o Ser.

FELICIDADE. “Buscar a felicidade enquanto identificando o Ser com o corpo é como tentar atravessar um rio nas costas de um crocodilo. Quando o ego surge, a mente se separa da Fonte, o Ser, e fica inquieta, como uma pedra atirada no ar, ou como as águas de um rio. Quando a pedra ou o rio atingem o seu lugar de origem – o chão ou o oceano, respectivamente – elas cessam o movimento. Assim, também a mente descansa e é feliz quando retorna à Fonte e Nela repousa. Como a pedra e o rio voltam infalivelmente ao ponto de partida, assim também a mente inevitavelmente retornará – algum dia – à sua Fonte.” Dessa forma, existe a promessa de que todos alcançarão a Meta.
Felicidade é a sua própria Natureza. Portanto, não é errado desejá-la. O que é errado é procurá-la externamente, porque ela está dentro de você.

SAMADHI E ÊXTASE. “No Samadhi em si há apenas a Paz perfeita. O êxtase advém quando a mente revive com o término do Samadhi, com a lembrança da Paz do Samadhi. Na devoção o êxtase é anterior. Manifesta-se por meio de lágrimas de alegria, pelos cabelos ficarem em pé, e pela voz vacilante. Quando o ego finalmente morre e se alcança o Sahaja, esses sintomas e os êxtases cessam. Não há êxtase ao despertar do sono, porque Samadhi é sono no estado de vigília.
Buda estava interessado apenas em instruir seus discípulos em como alcançar a Felicidade permanente. Recusava-se a responder a perguntas – que se baseavam na ignorância dos interlocutores – sobre Deus e outros assuntos. Por isso foi depreciado como niilista, sunyavadi.

O SÁBIO QUE DIRIGIA UM REINO. Pergunta: “Como pôde Janaka dirigir seu Reino, sendo um Iluminado?” Resposta: “Janaka fez essa pergunta? Ela não surge no Estado do Conhecimento Correto. Só surge na ignorância.” O interlocutor: “Provavelmente ele considerava suas atividades como um sonho.” O Sábio: “Essa explicação também está na ignorância.

PURIFICAÇÃO DA MENTE. “A Experiência do Ser (Jnana) por si só purificará a mente.”

ANIQUILAÇÃO DO KARMA. “Quanto mais se poda uma planta, mais ela cresce. Igualmente, quanto mais se procura aniquilar o Karma, mais ele aumenta. Você deve procurar a raiz do Karma, o ego, e destruí-la.

SOBRE BRAHMACHARYA. “Brahmacharya (abstinência sexual) não pode ser estabelecida por simples força de vontade. O verdadeiro Brahmacharya não é externo. É viver em Brahman, a Realidade. Alcançada esta, o outro virá por si só.

MENTE SÃ, EM CORPO SÃO. “Se você continuar com a ideia de que a saúde do corpo é necessária à saúde da mente, não haverá fim para o cuidado com o corpo.

A ideia dos Hatha-Yogis de preparar o corpo para a prática dos métodos para alcançar a Libertação, fazendo-o durar por tempo incrivelmente longo, é ridícula. Justificam-na comparando o corpo a uma tela, que tem de ser preparada para ser pintada. O Sábio Ramana disse: “O que é a tela e o que é a pintura? O Ser é a tela, e o corpo e o mundo são a pintura. E o que precisamos para conscientizarmo-nos do Ser é apagar a pintura.[2]” Dessa forma, o Hatha Yoga não é necessário ao discípulo maduro.

CONTROLE DA MENTE. “Para acalmar os incessantes movimentos da tromba do elefante, o condutor lhe dá uma corrente pesada para segurar. Assim também, para controlar a divagação da mente, devemos ocupá-la da melhor forma possível; caso contrário ela se envolverá em alguma tarefa inconveniente. A melhor de todas as ocupações a dar à mente é engajá-la na busca de sua própria Fonte. A segunda melhor é a meditação ou o japa.

JEJUM PARA O PROGRESSO ESPIRITUAL. “O jejum deve ser essencialmente mental. A simples abstinência de alimentos não trará proveitos – isso até mesmo transtornará a mente. O progresso espiritual vem mais pelo controle da alimentação. Mas, se durante um mês de jejum, a perspectiva espiritual for mantida, então em cerca de dez dias após o jejum ser quebrado (se corretamente quebrado e seguido de alimentação criteriosa) a mente tornar-se-á pura e uniforme, e assim permanecerá.


[1] Filosofia de interpretação do Vedanta (a parte final dos Vedas, onde se encontram os Upanishads) que postula uma dualidade essencial.
[2] Ou seja, voltar a mente para dentro, para o Ser (Pura Consciência), quando então não mais será percebida a existência de um corpo ou mundo como algo real, exterior, com existência própria. [N.T.]

A Maha Yoga de Sri Ramana - Parte V


Os trechos a seguir foram retirados do Capítulo XII do livro Maha Yoga, que já foi traduzido pelo Prof. Hermógenes e publicado no Brazil na década de 1950. Fizemos uma nova tradução do texto e há possibilidade de publicação neste ano (2011). Os trechos abaixo são provenientes da nova tradução. Em negrito são os subtítulos colocados pelo autor (K. Lakshmana Sarma) e, entre aspas (e em itálico), os ensinamentos do Maharshi. Esta é a parte final da série “A Maha Yoga de Sri Ramana”.

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RESPOSTA A UM PRAGMATISTA: Pergunta: “Se todos os homens renunciarem o mundo, quem lavrará a terra e fará a colheita?” Resposta: “Realize o Ser Verdadeiro e então verá por si mesmo.” Essa é uma resposta geral para todas as questões semelhantes a esta.

SENSAÇÃO DE DIFICULDADE. Um método nos parecerá fácil ou difícil, conforme o tenhamos praticado antes ou não.

AOS NIVELADORES. “A forma mais segura de se atingir a perfeita igualdade é ir dormir!”[1]

CONTROLE DE NASCIMENTO VERSUS MORALIDADE. Pergunta: “O controle de nascimento é nocivo à moralidade?[2]” Resposta: “Maha Bharata diz que quanto mais se cede ao desejo, mais insaciável ele se tornará.

SOBRE PROGREDIR OU RETROCEDER. Alguns observaram que é fácil ir para frente, mas impossível retroceder. O Sábio diz: “Não importa quão longe vamos, estamos sempre onde sempre estamos. Onde está o ir para frente ou ir para trás? O Isa Upanishad (verso 5) diz: ‘Ele está longe e também está perto’.”

UTILIZAÇÃO DE PODER DIVINO PARA CURAR DOENÇAS, ETC. “Não há necessidade de ‘ingerir’ poder divino para qualquer finalidade. Já está dentro de você. Ele é você.

COMPARAÇÃO ENTRE A VIGÍLIA E O SONHO. “O mundo dos sonhos interessa ao sonhador porque ele julga que é uma realidade objetiva, fora de si mesmo e diferente de si. O homem desperto se interessa pelo seu mundo de vigília pela mesma razão. Se, pela experiência do Eu Real, ele chegar a saber que o mundo não passa de uma formação mental, deixara de interessar-se por ele.

EXISTE O MUNDO? Há uma diferença entre a declaração de que o mundo existe e a declaração de que ele é real”, afirma o Sábio. A segunda declaração não contradiz a afirmação aparentemente contrária, de que o mundo é irreal, enquanto que a primeira o faz. O homem completamente ignorante confunde a Substância – a Realidade que sustenta a aparência do mundo – e a aparência, e toma essa mistura como sendo real. Os discípulos do Sábio sabem que têm de separar a aparência da Substância, e compreender que apenas a Substância é real, e o resto é ilusão.

NOMES DE DEUS. Assim como você responde pelo seu nome, embora não houvesse nome algum escrito na sua testa ao nascer, da mesma forma Deus responde quando Seu nome é pronunciado pelo devoto, apesar de Ele realmente ser sem nome.”

RENÚNCIA AOS LAÇOS FAMILIARES: “No sono você não estava consciente da sua família. E você é o mesmo ser agora. Mas agora você tem consciência da família, sente que ela o prende, e deseja renunciar os laços. Por acaso os membros da ‘sua’ família o prendem a eles, ou é você que se prende a eles? Basta que você renuncie ao pensamento ‘Esta é minha família’. Os pensamentos mudam, mas você não. Mantenha-se no Eu que não muda. Para isso, não precisa fazer com que a mente deixe de pensar. Simplesmente lembre-se apenas da Fonte dos pensamentos e seriamente se empenhe em encontrá-La.

AUTOENTREGA: “Quanto mais nos entregamos, mais o nosso ambiente melhora e maior também é a nossa força para trabalhar.” Isso Bhagavan disse a alguém engajado em atividades de independência nacional [da Índia].
As escrituras têm valor apenas enquanto a pessoa não se volta para o interior, na Busca do Ser. Logo que isso é feito, tudo o que aprendeu é esquecido e perdido.

APODERAR-SE DO MUNDO. “Sendo o mundo uma simples sombra do Ser, é impossível conhecê-lo corretamente ou apoderar-se dele. Uma criança tenta tocar a cabeça de sua própria sombra, mas não o consegue, porque quando se move a cabeça da sua sombra também se movimenta. A mãe, então, coloca a mão da criança na cabeça desta, assim lhe mostrando que a cabeça da sombra foi tocada. Igualmente, só poderemos nos apoderar do mundo ou conhecê-lo corretamente se mergulharmos no Ser.”

SOBRE SER FIRME E NÃO AFETADO POR NADA. Criticando o ponto de vista que diz “Sou como uma espuma no Oceano da Consciência”, Ramana Maharshi disse: “Tal pensamento é a raiz de todas as preocupações, devendo ser abandonado. O Ser é o Oceano; o mundo e as almas são as espumas nele. Se você souber disso e se lembrar disso constantemente, então será firme e estará isento de dúvidas e preocupações. Esta verdade é confirmada quando se mergulha no Coração através da Busca [Quem sou eu?]. Mas, mesmo sem esse mergulho, somos Aquilo e nada mais do que Aquilo. As ideias de interior e exterior só podem surgir enquanto o ver correto não for aceito e a ele não aderirmos. Diz-se ao amante da Libertação que mergulhe no seu interior, porque ele confunde a alma individual, que não existe, com o Ser, que é infinito e inclui tudo que se vê. Aquele que compreende isso não desejará nada, mas estará sempre satisfeito. Mesmo antes que se mergulhe dentro de si, o Ser É experienciado. Ninguém pede negar que existe; aquela Existência é a Consciência do Ser. Você não pode fazer perguntas a menos que exista. Portanto, você temconsciência de si mesmo. O fruto de seus esforços para alcançar a Verdade do Ser é exatamente livrar-se dos seus erros atuais. Não haverá uma ‘Realização’ nova.”

O SER É LUZ. “Para se conhecer um objeto é preciso uma luz comum que vença a escuridão. Para se conhecer o Ser é preciso uma Luz que ilumine tanto a luz quanto a escuridão, mas que em si não é nem luz nem escuridão. Chama-se isto de Luz porque por Seu intermédio é que a claridade e a escuridão são conhecidas. Esta Luz é o próprio Ser, a Consciência Infinita, da qual ninguém está inconsciente. Ninguém é um Ajnani, um não-conhecedor do Ser; mas como não sabem disso, os homens desejam se tornar um Jnani [Iluminado].


[1] Essa frase enigmática aparece na versão original do livro, sem que se tenha conseguido compreender sua inserção. Possivelmente ela faz sentido em certo contexto, como resposta (possivelmente brincalhona) do Bhagavan a alguma pergunta incomum. Tal contexto, contudo, não foi apresentado pelo autor “WHO”. De qualquer forma, está relacionada ao ensinamento geral do Maharshi de que no estado de sono, quando não há mente, não há quaisquer diferenças. [N.T.]
[2] Essa pergunta deve ser compreendida dentro do contexto dos ideais morais e espirituais da religião indiana, entre os quais se encontram a moderação e, mais elevadamente, o abandono dos desejos [nirasavairagya]. Ou seja, por trás dessa pergunta há possivelmente a presunção de que o “controle da natalidade” (questão social relevante na Índia) – ou seja, a utilização de métodos anticoncepcionais – pode ser uma forma de contornar uma “fraqueza moral”, qual seja, a falta de comedimento nas relações sexuais. Bhagavan em sua resposta parece reforçar o ideal espiritual da necessidade de ir além dos desejos, o que pode ser interpretado como uma confirmação de que se tal verdade for compreendida e vivida, não haverá necessidade de controle de natalidade. [N.T.]

Fonte: http://advaita.com.br/2012/05/20/maha-yoga-parte-v/

A Maha Yoga de Sri Ramana - Parte III

Os trechos a seguir foram retirados do Capítulo XII do livro Maha Yoga, que já foi traduzido pelo Prof. Hermógenes e publicado no Brazil na década de 1950. Fizemos uma nova tradução do texto e há possibilidade de publicação neste ano (2011). Os trechos abaixo são provenientes da nova tradução. Em negrito são os subtítulos colocados pelo autor (K. Lakshmana Sarma) e, entre aspas (e em itálico), os ensinamentos do Maharshi.

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O CORAÇÃO. “Não há necessidade de saber onde o Coração está e o que Ele é. Ele desempenhará seu papel se você se empenhar na Busca do Ser.

INTELECTO. “O intelecto não pode deixar de imaginar o Ser como tendo o tamanho e a forma do corpo.

MENTE. “A mente é como a lua, e a luz de sua consciência provém do Ser, que, assim, se assemelha ao Sol. Portanto, quando o Ser começa a brilhar, a mente torna-se inútil, tal como a lua durante o dia.

AUXÍLIO AOS OUTROS. “O Sábio auxilia o mundo simplesmente por ser o Ser Real. O melhor meio de servir ao mundo é alcançar o Estado sem ego.” Em outra ocasião disse: “Se você está ansioso por auxiliar o mundo, mas pensa que não poderá fazê-lo alcançando o Estado sem ego, então entregue a Deus todos os problemas do mundo, junto com os seus.

VISÃO DA FORMA CÓSMICA DE DEUS TIDA POR ARJUNA.[1] “Sri Krishna disse a Arjuna: ‘Não tenho forma e transcendo todos os mundos.’ Contudo, mostrou a Arjuna sua ‘forma cósmica’. Arjuna vê a si mesmo, os deuses e todos os mundos dentro dela. Krishna também disse: ‘Nem os deuses nem os homens podem Me ver’. E, apesar disso, Arjuna vê Sua forma. Krishna diz: ‘Eu sou o Tempo’. O Tempo tem forma? Novamente, se o universo fosse realmente Sua forma, deveria ser uno e imutável. Por que diz ele a Arjuna: ‘Veja em Mim tudo que você quiser ver’? A resposta é que a visão era mental – de acordo com os desejos do contemplador. Portanto, não deve ser interpretada literalmente. Não era uma visão de acordo com a Verdade de Deus. Chamam-na ‘visão divina’. Contudo, cada um a pinta de acordo com seus próprios pontos de vista. E também há um observador na visão! Se um hipnotizador lhe mostra algo, você diz que é truque, mas isso você diz que é divino! Por que essa diferença? Krishna deu a Arjuna o olho divino (divya chakshus) e não o Olho da Sabedoria (janana chaksus), o Olho que é Pura Consciência e que não tem visões. Nada que é visto é real.”

A AÇÃO DO YOGA E A RENÚNCIA DA AÇÃO. (Karma-Yoga e Karma-Sannyasa). Quando certa vez perguntado a respeito, o Maharshi não respondeu imediatamente, mas dirigiu-se à floresta da montanha[2], seguido pelo interlocutor, e tirou dois galhos de uma árvore. Talhou-os, transformando-os em bengalas, e deu uma ao interlocutor e a outra a alguém mais. Depois disse: “A confecção das bengalas é Karma-Yoga e a doação delas é Karma-Sannyasa”. O Sábio não as fez para si mesmo.

O CENTRO ESPIRITUAL não é geográfico. Inclui todos os homens. Tanto as forças destrutivas como construtivas pertencem a Ele.

CONCILIAÇÃO DAS DOUTRINAS DE SANKARA E RAMANUJA.[3] Ramanuja diz que o mundo é real, e que Maya não existe. Shankara nos exorta a descobrir a Realidade que sustenta o mundo sempre mutável. O que Ramanuja chama de mutabilidade, Shankara classifica como ilusão [maya]. “A diferença é apenas verbal. Ambas levam ao mesmo objetivo.

O SÁBIO MEDITA SOBRE DEUS? Meditar é pensar, e pensar é relativo ao esquecer. Aquele que esquece Deus deve pensar em Deus. O Sábio nunca esquece Deus, assim como nós nunca esquecemos nós mesmos. Portanto, ele não medita sobre Deus. Mas, como ele nunca esquece Deus, pode-se dizer verdadeiramente que ele está sempre meditando em Deus.”

VISÕES DE DEUS. Alguém que não tenha estudado os ensinamentos do Sábio, nem as escrituras, formulou uma série de perguntas, uma das quais é a seguinte: “Você já viu Deus?” O Sábio respondeu, rindo suavemente: “Se alguém tivesse aparecido para mim dizendo: ‘Eu sou Siva’, ou ‘Sou Rama’ ou ‘Sou Krishna’, eu poderia saber que tinha visto tal pessoa. Mas ninguém apareceu para mim, dizendo quem era.” A resposta estava de acordo com a ignorância do inquiridor. Deus, que é o Eu Real, não tem forma, e não pode ser visto como um objeto. Em outra ocasião, quando perguntaram ao Sábio sobre “ver Deus em todas as coisas” – que é uma prática prescrita na sabedoria sagrada –, ele respondeu: “Ver objetos e conceber Deus neles são processos mentais. Mas isso não é ver Deus, porque Ele está dentro”. A expressão “ver Deus em todas as coisas” significa a compreensão de que Deus é a Realidade na qual a manifestação do mundo é sobreposta. Isso se chama pravilapa drishti – lembrando a Verdade que subjaz à variedade – e é recomendado pelo Sábio como meio de purificar e fortalecer a mente.

POR QUE AS ESCRITURAS NÃO NOS DIZEM O QUE É O SER? Tudo que precisamos fazer para encontrarmos o Ser é remover os não eu, os revestimentos. Um homem em dúvida quanto ao que ele é dirige-se a alguém e lhe pergunta. Este lhe diz que ele não é uma árvore, nem uma vaca, e assim por diante, deixando evidente que ele não é outra coisa senão um homem. Se o sujeito não ficar satisfeito e perguntar: “Você não me disse o que sou”, a resposta será: “Eu não lhe disse que você não era um homem.” Se até mesmo assim ele não puder entender que é um homem, será inútil dizer-lhe. Dessa forma, [as escrituras] também nos dizem o que nós não somos, de modo que pela eliminação de tudo isso, encontraremos o Remanescente, o Eu Real.

COMO EMPREENDER A BUSCA “QUEM SOU EU?” A forma é subjetiva, não objetiva, de modo que não pode e nem precisa ser mostrada por outrem. Alguém precisa lhe mostrar o interior de sua própria casa? Se o buscador conservar sua mente imóvel, isso será suficiente.

RESPOSTA À PERGUNTA “QUEM SOU EU?” Uma resposta que surge na mente e através dela, não é resposta, em absoluto.” A resposta é o Estado sem ego.

O QUE É CONHECIMENTO DIRETO? As pessoas supõem que não existe Consciência separada dos pensamentos da mente. Portanto, pensam que só a percepção dos sentidos é conhecimento direto. Mas os objetos dos sentidos não se manifestam por si sós. Logo, a percepção sensorial não é conhecimento direto. O Ser existe por si mesmo e, por isso, o conhecimento do Ser é direto. Mas se perguntarmos às pessoas ‘Por acaso o Ser não é visto diretamente sem o intermédio de qualquer agente?’ elas não entendem, porque o puro Eu não lhes aparece com uma forma.

A VIDA ETERNA. Esquecer o Ser é morte; lembrá-Lo é Vida. Você deseja a vida eterna. Por quê? Porque a vida presente (na relatividade) é insuportável. Por que é assim? Porque ela não é a sua Natureza real. Na verdade, você é o Espírito puro; mas você o identifica com um corpo, que é uma projeção da mente, um pensamento transformado em objeto. E a mente, por sua vez, originou-se do puro Espírito. A simples mudança de corpo não adianta, porque simplesmente há uma transferência do ego para o novo corpo. Além disso, o que é Vida? É Existência (como Consciência), e isso é Você mesmo. Isso é verdadeira vida, e Ela é eterna (além do tempo). A vida no corpo é vida condicionada. Mas você é Vida Incondicional. Você recuperará sua verdadeira natureza como Vida não condicionada quando a ideia ‘eu sou o corpo’ cessar.

HÁ GRAUS DE REALIDADE? “Pode haver graus de experiência da Realidade – decorrentes do quanto nos libertamos de pensamentos – mas não há graus de Realidade.

PODEMOS PERDER O SER? Disse alguém: “A Bíblia declara que a alma pode ser perdida”. O Sábio então observou: “O ego pode (e deve) ser perdido, mas o Ser nunca.” “O sofrimento é devido ao grande número de pensamentos discordantes que reinam na mente. Se todos os pensamentos forem substituídos por um único pensamento, não haverá infortúnios. Então o sentimento de ser o agente das ações e a consequente expectativa dos resultados dessas ações cessarão.

A GÊNESE DO PRAZER. Quando um pensamento ocupa toda a mente, ele exclui todos os outros pensamentos. Então, esse pensamento único também desaparece no Ser, e a Bem-Aventurança se manifesta como prazer. Mas essa manifestação está no anandamaya[4]. A perfeita Bem-Aventurança só é alcançada quando todos os revestimentos são retirados.

IDENTIDADE ENTRE DEUS E O SER. “Se Deus fosse diferente do Ser, então Ele não possuiria um Ser, o que é absurdo.

O VERDADEIRO ESTADO. “Seu dever é simplesmente SER, e não ser isso ou ser aquilo. Quando o eu sai pela tangente, dizendo ‘eu sou isto’, é egoísmo, ignorância. Quando brilha como o puro ‘EU’ é o Ser.”

[1] O episódio aqui se refere a um relato muito conhecido no livro Bhagavad Gita. [N.T.]
[2] Montanha de Arunachala [N.T.]
[3] Shankara foi o codificador do Advaita Vedanta, doutrina hindu da não dualidade, baseada nosUpanishads; já Ramanuja advoga a doutrina da “Não Dualidade Qualificada”. [N.T.]
[4] O revestimento mais sutil que oculta o Ser. [N.T.]

Fonte: http://advaita.com.br/2011/06/19/maha-yoga-parte-iii/

A Maha Yoga de Sri Ramana - Parte II


Os trechos a seguir foram retirados do Capítulo XII do livro Maha Yoga, que já foi traduzido pelo Prof. Hermógenes e publicado no Brazil na década de 1950. Fizemos uma nova tradução do texto e há possibilidade de publicação em 2011. Os trechos abaixo são provenientes da nova tradução. Em negrito são os subtítulos colocados pelo autor (K. Lakshmana Sarma) e, entre aspas, os ensinamentos do Maharshi.

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MEDITAÇÃO E CONTROLE MENTAL. A meditação (dhyana) é uma batalha, pois constitui o esforço de manter-se em um pensamento, excluindo todos os demais. Outros pensamentos surgem e tentam afundar aquele pensamento objeto da meditação; quando este ganha força os outros desaparecem. O controle da respiração (pranayama) é para aquele que não consegue controlar diretamente seus pensamentos; tem a mesma utilidade que um freio tem para um carro. Contudo, não devemos parar com o controle da respiração. Após atingir o objetivo – acalmar a mente inquieta – devemos empreender a prática da concentração. Com o tempo, será possível deixar de lado o controle da respiração; a mente então se aquietará tão logo se tente a meditação. Quando a meditação está bem sedimentada, não mais podemos desistir dela. Continuará automaticamente durante o trabalho, lazer e outras atividades. Continuará até mesmo durante o sono. O meio de se estabelecer na meditação é a própria meditação. Nem o japa (repetição mental de palavras ou frases) nem um voto de silêncio se fazem necessários. Se a pessoa se envolve em atividades mundanas de cunho egoísta, de nada adianta um voto de silêncio. A meditação extingue todos os pensamentos e então só resta a Verdade.”

Noutra oportunidade, o Sábio disse: “Quando a cânfora queima, não resta nenhum resíduo. A mente deve ser como a cânfora: deve derreter-se e ser totalmente consumida pela decisão determinada de encontrar e ser o Eu Real. Mediante tal determinação, a Busca ‘Quem Sou Eu?’ se torna eficaz. Quando a mente for assim consumida – quando não restar nenhum vestígio da mente –ter-se-á dissolvido no Ser.”

Sendo-lhe perguntado como pode alguém encontrar seu Guru, o Sábio respondeu: “Através de intensa meditação.”

As pessoas que procuram resultados específicos da meditação não os conseguem, desencorajam-se, e concluem que a meditação não lhes trouxe proveito. A essas pessoas o Sábio diz: “Não importa nada se esses resultados foram obtidos ou não. A obtenção da constância é o principal. É o grande proveito. De qualquer modo, devem confiar em Deus e esperar sem impaciência por sua Graça. A mesma regra se aplica ao japa também; japa feito mesmo uma vez traz proveito, quer a pessoa esteja consciente disso quer não.

Alguns pensam que se deve continuar praticando a meditação, mesmo após a Iluminação. Essa questão é esclarecida da seguinte maneira: “Quando a mente se extingue no Estado sem ego, então nem há concentração nem não-concentração”. Referindo-se à mesma questão, o Sábio disse em outra ocasião: “Quando o Ser é realizado, não é possível nem tentar o samadhi nem abandoná-lo”.

O êxito na meditação vem rapidamente a poucos, e depois de longa prática para os outros. Sobre tal questão o Sábio diz: “As vasanas (propensões ou tendências mentais) impedem a meditação, portanto esta só se torna eficaz através do enfraquecimento progressivo das vasanas. Certas mentes são como a pólvora que pega fogo e se consome imediatamente: outras se assemelham ao carvão, e outras ainda são iguais ao combustível molhado.

O segredo do controle mental é esclarecido na seguinte resposta: “A mente não pode ser controlada por alguém que julga que ela seja algo que realmente existe; nesse caso, a mente se comporta como um ladrão que finge ser um policial perseguindo o ladrão. Esforços feitos dessa maneira servem apenas para dar um novo alento de vida ao ego e à mente”.  O método adequado é investigar a verdade da mente e do ego, o que leva à Busca.

Em outra ocasião, o Sábio disse: “Pessoas me perguntam como controlar a mente. Eu respondo: ‘Mostre-me a mente’. A mente nada mais é do que uma série de pensamentos. Como pode a mente ser controlada por um daqueles pensamentos, isto é, pelo desejo de controlar a mente? É tolice tentar acabar com a mente através da própria mente; a única maneira é encontrar a Fonte da mente e segurá-La. Então a mente desaparecerá por si só. O Yoga prescreve o chitta-vritti-nirodha(supressão dos pensamentos); eu recomendo Atmanveshana (Busca do Eu), a qual é praticável. A mente é contida [em algumas ocasiões], como no desmaio, ou como resultado do jejum. Mas logo que a causa é removida, a mente revive, isto é, os pensamentos começam a fluir como antes. Há apenas dois modos de controlar a mente: ou buscar a sua Fonte, ou renunciar a mente, deixando que o Poder Supremo a destrua. A entrega é o reconhecimento da existência de um Poder Supremo. Se a mente se recusa a auxiliar na busca da Fonte, deixe-a ir e espere que retorne: então a dirija para o íntimo. Ninguém obtém êxito sem paciente perseverança.

A meditação com os olhos fixos no espaço entre as sobrancelhas, o Sábio nos adverte, pode resultar em medo. A maneira certa é fixar a mente somente no Ser. Não conduz ao medo.

Outra coisa que aprendemos é que não pode haver meditação – no sentido usual do termo – no Ser. Meditação é normalmente concebida como pensar em um objeto; isso implica em distinção entre sujeito e objeto e, portanto, não é possível meditação sobre o Ser. O que é chamado meditação nada mais é do que afastar os pensamentos, pelos quais o Ser fica oculto. Quando todos os pensamentos são dissipados, o Ser brilha em Sua Natureza real: permanecer nesse estado é a única meditação do Ser que pode haver. O Sábio, pois, está sempre em meditação, embora possa parecer estar frequentemente envolvido com outras atividades.

COMO LIDAR COM O SOFRIMENTO. “Voltando a mente para dentro, vencer a pior das mágoas. O sofrimento só é possível quando consideramos que somos o corpo. Se a forma é transcendida, saberemos que o Ser é eterno – que para ele não existe nem nascimento nem morte. É apenas o corpo que nasce e morre, não o Ser. O corpo é uma criação do ego, que, contudo, nunca é percebido independente do corpo – na verdade, o ego é inseparável do corpo. Devemos considerar que no sono não temos consciência da existência de um corpo; assim, percebemos que o corpo não é real. Ao despertarmos do sono, surge o ego e, depois, os pensamentos. Descubra a quem os pensamentos pertencem. Pergunte de onde se originam. Devem surgir do Ser, que é a Consciência. Compreender essa Verdade, mesmo vagamente, ajuda na extinção do ego; com ela, a Existência infinita é alcançada. Nesse Estado não há indivíduos – apenas o Ser único. Portanto, não há espaço nem mesmo para o pensamento da morte.

“Se alguém julga que nasceu, não pode deixar de pensar na morte. Portanto, que ele se questione se realmente nasceu. Então, descobrirá que o Eu Real tem existência eterna, e que o corpo é apenas um pensamento – o primeiro de todos os pensamentos, a raiz de todas as perturbações.”

OS TRÊS ESTADOS DA MENTE. A mente é alternadamente sujeita a três estados: o estado de sonolência ou inércia, chamado tamas, é o mais baixo; o seguinte, mais elevado, é o de atividade inquieta, chamado rajas; o superior é o de clareza e paz, chamado sattva. O Sábio nos diz que o discípulo não deve lamentar ou lastimar o predomínio dos dois primeiros, mas esperar até que surja o estado de clareza e, então, tirar o maior proveito dele.

A MORTE. “Na verdade os mortos são felizes, tendo se livrado do pesadelo que é o corpo. Os mortos não sofrem. Os homens temem o sono? Não, procuram-no e preparam-se para ele. O sono é a morte temporária, e a morte nada mais é do que um sono prolongado. Se o homem, enquanto vivo, morrer a morte que não é morte, através da extinção do ego, ele não mais sofrerá pela morte de ninguém. Uma vez que sabemos que existimos continuamente através de todos os três estados – com o corpo e sem o corpo – por que deveríamos desejar a continuação dos grilhões físicos para nós mesmos ou para os outros?

Quando alguém está nos começando a morrer, a respiração se torna difícil. Isso significa que a pessoa se tornou inconsciente do corpo moribundo; a mente logo toma posse de outro corpo e oscila entre os dois, até que o apego se transfira totalmente para o novo corpo. Nesse ínterim, há violentas respirações ocasionais, indicando que a mente hesitantemente retornou ao corpo moribundo. Esse estado de transição da mente é semelhante a um sonho.

OS ANIMAIS POSSUEM ALMA? O Sábio trata os animais da mesma forma com que trata os seres humanos. Ao falar de um animal usa sempre os termos que usaria para referir-se a um ser humano, “ele” e “ela”[1]. Uma vez perguntaram-lhe se os animais não eram inferiores aos homens, e ele respondeu: “Os Upanishads dizem que os homens, enquanto ficarem sujeitos ao ego – ou seja, até se conscientizarem do puro Ser –, não passam de animais. Pode até ser que os homens sejam piores do que os animais.

Bhagavan também disse que almas muito avançadas podem ter ocupado corpos de animais a fim de viver no ambiente de seu eremitério. Havia, certa vez, quatro cães que viviam lá, e demonstravam muitos sinais de devoção. Por exemplo, quando se lhes oferecia alimento, eles não o tocavam até que o próprio Sábio tivesse sido servido e iniciasse sua refeição. Logo que o Sábio começava a comer, eles também o faziam, mostrando a sua peculiaridade quanto a esse aspecto.

PRÁTICAS DEVOCIONAIS. “Práticas como o japa e outras semelhantes são preferidas por muitos, por serem mais concretas. Mas o que é mais concreto do que o Ser? Ele está dentro da experiência direta de cada um e de todos, e é experienciado em cada momento. Portanto, o Ser é a única coisa que é incontestavelmente conhecida. Assim sendo, devemos procurá-Lo e achá-Lo, em vez de buscar algo desconhecido – Deus ou o mundo.”

SAMADHI E SUA INTERPRETAÇÃO. “A experiência que São Paulo obteve e que o converteu à fé em Cristo foi realmente uma experiência transcendente ao mundo das formas. Mas, posteriormente, ele a identificou como a visão do Cristo.” Respondendo à objeção de que Paulo tinha sido anteriormente um perseguidor de Cristo, o Sábio disse: “É irrelevante se o predominante tenha sido amor ou ódio; o que importa é que o pensamento de Cristo estava lá. O caso foi semelhante ao de Ravana e outros demônios.

COMO DEVEMOS AGIR NO MUNDO? “Devemos agir no mundo como um ator no palco. Em todas as ações há no fundo o Eu Real como princípio sustentador. Lembre-se disso e aja.


[1] Enquanto que no Tâmil normalmente se usa o pronome relativo a “coisa” [it, em inglês, N.T.] para se referir a um animal.

Fonte: http://advaita.com.br/2011/02/04/maha-yoga-parte-ii/

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)