O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

O portal da nossa Essência Interior

Todos os métodos e técnicas, — e naturalmente, os seres humanos que as propõem não são senão meios para ajudar o estudante a alcançar um estado em que não tem mais necessidade de instrutor, de técnica ou método. Que não se deixe amarrar pela ideia de que lhe são necessários. Não confunda as atitudes para com a vida e a própria vida. Que não transforme a via em finalidade, nem os meios em fim. As técnicas foram imaginadas para abrir uma porta na direção da essência interior, mas os indivíduos desprovidos de discernimento se agarram obstinadamente a esta porta e a impedem que se abra. O estudante advertido conservará uma atitude ligeira, desembaraçado de tudo que é dogma. Que não procure, por exemplo, forjar-se cadeias para sua forma de meditação favorita. Que não procure adorar uma técnica ou doutrina em si mesmas. O que deve adorar é a iluminação, a compreensão, a nova consciência que desperta nele, sem o que só dará nós e mais nós psicológicos, que terá que desatar ulteriormente.  Que não se deixe imobilizar por uma forma metafísica particular. Essa fórmula deverá servi-lo e não escraviza-lo. É preciso que se eleve não somente acima de veneração das coisas, mas acima da veneração das ideias, e finalmente, acima da pesquisa da salvação. O lampejo da penetração pode brilhar no céu, no momento mais inesperado, talvez inexplicável e a esse lampejo não deve opor resistência, nem ancorar-se egoisticamente em alguma prática de preferência ou aprisionar-se à tutela de um instrutor.

As pessoas que se prendem com exclusividade a um certo aspecto da vida tendem a tornar-se maníacas. Isto não cabe àqueles que seguem as vias da filosofia visto que esta trata da vida em seu conjunto e insiste em ver e examinar seus aspectos mais contraditórios. A tarefa que seguimos consiste mais em sentir nossa unidade com este princípio sem forma e sem limite da vida, em compreender sua liberdade inata em oposição às limitações de suas expressões formais, sem se deixar apanhar nas laçadas que que elas lançam em tornos de nós. Não chegamos a esta liberdade senão cessando de nos enroscar não somente a nossos bens mas também a nossas concepções e a nossas crenças.

Aqueles que não se sentem atraídos pelos exercícios de meditação e pelo estudo da metafísica, podem, sem dúvida, procurar ou encontrar consolação ou ajuda de outra maneira. Podem praticar um exercício mais simples que substitui todos os outros ou que os acompanha. É tão simples que merece apenas o título de exercício e que, uma vez tornado hábito, é extremamente fácil e não demanda esforços. Do mesmo modo que uma mãe não perde um momento de pensar no filho largado à sua sorte no meio da guerra, quaisquer que sejam ocupações de momento, o estudante não deverá esquecer do divino. Treinar-se-á em conservar seu pensamento no Eu Superior como uma espécie de quadro a todos os outros pensamentos. O exercício é, pois, baseado na significação profunda da lembrança, e utiliza-a para um fim supraterrestre. Consiste em lembrar-se constantemente de sua identidade íntima com o Eu Superior e lembrar-se em todo o lugar, a todo o instante, em todas as condições físicas da presença da grande Mente. Se obtiver o sentimento ou a intuição, embora fugitiva, de uma existência supra-sensorial que vem impressioná-lo profundamente e incitá-lo a empreender a pesquisa, é extremamente importante inserir a lembrança dessa experiência em seu exercício. Em outras palavras, deve procurar reconduzir a sua mente, com a mais forte tensão possível, o sentimento de exaltação que sente.

O fim fundamental é conservar o exercício em permanência e tão frequente quanto possível no plano de fundo da mente, enquanto o estudante se entrega a seus deveres cotidianos e reconduzir a atenção cada vez com mais energia quando se acha afastada dele por momentos. Ele deve tornar-se o centro de gravidade impessoal da personalidade, o “pivot” inalterado, em torno do qual oscila perpetuamente a atividade exterior. Assim, o primeiro plano da consciência trata atentamente dos negócios da vida ordinária, enquanto que o plano de fundo se conserva numa espécie de vazio sagrado onde não pode penetrar nenhum outro pensamento que não seja o Eu Superior. Esta concentração interior para o fundo, e a despeito das atitudes externas, deve tornar-se habitual. Que benefício tirará o estudante daí? O exercício tão diferente dos outros possui um poder particular. Esse pensamento permanentemente dirigido ao Eu Superior uma vez estabelecido com firmeza, é especialmente apto a fazer descer a Graça. Não se trata, com efeito, do poder do ego mas do poder universal. Quando a Graça se faz sentir, ela destrói um certo número de obstáculos interiores e exteriores, às vezes de um modo milagroso, e conduz o paciente a uma consciência de si próprio mais profunda. É preciso que não julguemos da eficácia deste método pela aparente simplicidade.

Se nos recusamos ainda, por ventura, a seguir esta prática, sem falar dos estudos metafísicos ou da meditação mística, podemos recorrer a outro exercício aparentado que exige ainda menos. O paciente, suponhamos, posto bruscamente diante de uma desgraça inesperada ou em circunstâncias penosas, diante de problemas, muito grandes, mesmo em perigo extremo da vida, deve tomar evidentemente todas as disposições necessárias no plano exterior e, entretanto, abandonar sua atitude egocêntrica habitual, e encarregar, enfim, uma potência superior de desafazer, a situação angustiosa. Nascerá dessas medidas, paradoxalmente, um sentido de desprendimento interior durante a ação empreendia para emplantar as circunstâncias. Para ter êxito, é preciso que tenha naturalmente uma fé profunda na existência dessa potência supranatural e também a segurança confiante no resultado da intervenção. O paciente deve cessar de inquietar-se e não encarar com temor as circunstâncias e seu possível desenvolvimento, e até de algum modo, esquecê-los. Se permitir que as inquietações continuem a atormentá-lo, podem interromper a lembrança interior e embaraçar a eficácia da técnica ou da atitude. Além disso, não alcançaria esse resultado plenamente a não ser mantendo-se um tempo assaz longo sob concentração suficiente. Em outras palavras, enquanto faz os esforços pessoais que a situação reclama, o paciente deve dirigir firmemente uma parte de sua consciência para o interior, aí levando o problema hostil (sem negá-lo) e permitir que os pensamentos que constituem esse problema se dissolvam na lembrança do Eu Superior, Impessoal e sempre calmo. O paciente deve procurar conceber este poder como supremo, sem forma e residente num Vazio, sem imagens.

Refugiando-se assim, de um ponto de vista pessoal estreito em outro mais vasto e impessoal, chega-se não somente a dominar a reação emotiva diante do acontecimento, mas, também, talvez, a ajudar a introduzir o elemento superior da Graça e assim ficar senhor da situação externa. Obtém-se deste ato de desprendimento não somente a força para fazer face a esta situação, sem perder seu próprio controle, mas também um apoio super-humano. Sabemos, pelo estudo da experiência mística, que esta Graça pode não somente tomar uma forma imaginativa ou intelectual, mas ainda manifestar-se de outros modos. Pode trazer o homem em perigo um socorro de tal ordem que todo o temor desapareça nele. A guerra, que semeia o pânico em certas criaturas desperta em outros o heroísmo. Milhares de pessoas, soldados e civis, têm disso a experiência através dos terríveis anos que vivemos. Por quê? Porque eles abriram a porta, inconscientemente, há muito aferrolhada, do Eu Superior, e obtiveram a Graça. Diante dos tremendo meios de destruição que as rodeavam, elas compreenderam de repente que estavam à mercê de uma ligeira mudança da roda do Destino ou da vontade de Deus. É assim, portanto, que as entregaram resignados e deliberadamente ao inevitável, à sorte, ao destino ou à Deus, que são três modos de exprimir a mesma coisa. Por este ato de fé suprema, elas evocaram sem o saber o princípio mais profundo de seu ser e puxaram o possante ferrolho que fechava a porta sagrada do Eu Superior. Debaixo dos assobios dos obuses e das bombas, sentiram, se se aperceberem, que, qualquer que fosse a conclusão de sua experiência exterior, quer fossem mortos quer sobrevivessem, tudo seria um bem para elas. Elas se sentiram inexplicavelmente suspensas acima de suas angústias e dos terrores dos acontecimentos trágicos em que se encontravam mergulhadas. Esses momentos deixam traços profundos na alma; não podem mais ser esquecidos. A lição silenciosa que trazem afeta cedo ou tarde as concepções espirituais daqueles que as viveram.

Isto é tua servidão: pratica a meditação”, assim disse o sábio hindu Ashtavakra, que viveu há alguns milênios. Esta citação por nós feita no segundo capítulo do “A Sabedoria oculta além da Ioga”, na maior parte desse capítulo, chocou os sentimentos e alarmou as antecipações de numerosos leitores. Tiveram receio de ensinar que a meditação devia ceder lugar à metafísica. Pode-se ver agora quanto esta emoção era inútil. Seria preciso ter paciência e esperar o conjunto do ensino. Tilopa, sábio tibetano, do século IX, disse do mesmo modo: “Não medite. Mantenha sua mente em estado natural”. Um conselho negativo que não constitui uma revolta; antes é um progresso natural. É dado, não aos neófitos, aos quais poderiam prejudicar, mas aos estudantes mais adiantados, aos quais seria mais proveitoso. É simplesmente uma tentativa para por a meditação no lugar que lhe compete entre todos os outros elementos que compõem a trama complicada da vida; é para lembrar a seus adeptos entusiastas que a pesquisa não termina com ela somente; para lhe lembrar que o que procuram se acha, a partir de agora, no mais profundo de si mesmos.

A percepção interior, com efeito, aparece de repente no homem, mas não é feita por ele. A meditação não tem por fim fabricá-la mas criar as condições nas quais pode surgir. Tomando os meios pelo fim e aí ficando em posição, não a poderemos alcançar. O homem não está na terra por causa da ioga; esta, sim, é que está ali por causa dele. Está aqui para viver.

Sim, a ação constitui uma parte essencial desta pesquisa do Eu Superior. A Natureza não deixará ninguém entrar no seu sacratíssimo santuário sem haver satisfeito a sua tríplice exigência, embora ela esteja disposta a permitir que lance, de tempo em tempo, um olhar de encorajamento sobre seus tesouros, e constate seu valor. Esta exigência é simplesmente para que siga as três linhas de evolução paralelas, pelas quais ela guia tão pacientemente toda a humanidade: atividade, inteligência e contemplação. Se se consente nesta tríplice exigência, deixamos de ser místicos ou metafísicos para tornar-nos filósofos. O homem, sendo um ser tríplice — uma trindade, compreendendo o pensamento, o sentimento e a ação, é inevitável que a pesquisa reclame dele um esforço correspondente à sua natureza. As três direções que deve seguir em harmonia com as divisões de seu próprio caráter são: a metafísica, como exercício do pensamento raciocinante; o misticismo, como exercício do sentimento intuitivo; a atividade altruísta, como exercício da ação corporal. O conhecimento, a meditação e o trabalho desinteressado constituem a trindade santa que pode conduzir o homem à iluminação. Essas três concepções do empreendimento humano — intelectual, mística e prática — não devem entrar em conflito, mas entreajudar-se harmonicamente, agir em conjunto ao mesmo tempo para alcançar o mesmo fim. Devem fundir-se na concórdia, abraçando-se para encontrar a unidade integral da vida filosófica. A sabedoria é, pois, engendrada pelo conjunto da experiência vivida e não por uma das partes. Essas qualidades  não se misturam simplesmente, mas amalgamam-se para produzir uma nova, mais positiva a penetração, que possui uma significação e uma natureza especiais. Se o estudante começa a sua pesquisa de salvação no amor místico e profundo do Eu Superior só, será levado a lhe acrescentar finalmente uma inteligência aguda, e se começa com a inteligência somente, será levado a lhe acrescentar o amor. Se empreende sua pesquisa seguindo a via tríplice e integral, avançará de uma maneira igual e equilibrada; mas seguindo apenas uma, a Natureza o obrigará, ao fim, a fazer uma reviravolta por um brusco retorno de sua vida interior e exterior. Eis porque não se escapa finalmente à integração harmoniosa das três vias. A busca deve efetuar-se também na via prática da vida corrente. Mas este ativismo não deve ser cego. “Eu sou todo ação. A imobilidade é para mim é uma tortura da danação”, dizia Mussolini. Ele esquecia que a ação não é útil se não aliada à sabedoria. Este esquecimento lhe fez prometer grandeza ao povo e o conduziu à pior das catástrofes.

No caso de um aspirante filósofo, a ação prudente consiste em lutar energicamente para o triunfo do Bem. Deve procurar este triunfo, não somente em seu caráter e em sua vida exterior, mas também no caráter e na vida dos outros. Esta dupla finalidade mão pode ser alcançada envolvendo-se ocasionalmente em quimeras fabulosas ou preocupando-se somente com o seu próprio progresso; ela implica necessariamente uma atividade altruísta. Em vez de deixar a contemplação morrer por si mesma, deve fazê-la fecundar seus atos. Resulta daí que a pesquisa é intensamente prática e deve inspirar constantemente a vida quotidiana. Deve acabar por uma ação inspirada. A natureza da verdade filosófica é tal que, uma vez bem compreendida, se exprime por força como uma contribuição daquele que estuda para sua experiência exterior.

[...] Quando o homem adquire consciência de suas possibilidades criadoras; quando sabe que, identificando-se com o que há de melhor em seu pensamento e em seu sentimento, faz manifestar-se, por uma reação natural, o que há de melhor em suas cercanias terrenas;   quando descobre cedo ou tarde que as ideias que alimenta ordinariamente e as imagens que ele forma quase sempre afetam seu caráter e as circunstâncias, torna-se mais atento à sua vida mental. Do mesmo modo que o arsênico pode matar um homem aparentemente cheio de saúde e curar um doente, a concentração sadia e bom uso do poder mental do homem, enquanto que abusado dele, degrada-se. Este poder lhe pertence naturalmente e não pode separar-se dele. O homem ajudará seu aperfeiçoamento e a melhorar o seu destino afeiçoando-se em todas as circunstâncias e compreender que tudo o que vê ele o faz sob a forma de pensamento em seu cérebro; a pessoa que vê é também criada pelo pensamento e a realidade; enfim, por trás de tudo, nada mais é que o Pensamento Puro.[...] Não esqueçamos que as restrições morais pesam sobre o emprego destes métodos; nunca procuremos constranger o livre arbítrio das outras pessoas contra seus interesses particulares. Os motivos devem ser puros, se não o boomerangue do castigo kármico recai naquele que o desencadeou.  

Paul Brunton em, A Sabedoria do Eu Superior  

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)