O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

A depuração do desejo e a Vontade Pura

Desejo, pensa-se, é o poder motivo real da vida humana e eliminá-lo poderia ser parar as molas da vida; satisfação do desejo é o único desfrute do homem e eliminá-lo poderia ser extinguir o impulso da vida por um ascetismo quietístico. Mas o poder motivo real da vida da alma é Vontade; desejo é apenas uma deformação da vontade na vida corporal e mente física dominantes. O voltar-se essencial da alma em direção à posse e desfrute do mundo consiste em uma vontade de deleite, e o desfrute da satisfação de ânsias é apenas uma degradação física e vital da vontade de deleite. É essencial distinguirmos entre vontade pura e desejo, entre a vontade interior de deleite e a exterior luxúria e ânsia da mente e corpo. Se nós formos incapazes de fazer esta distinção praticamente na experiência de nosso ser, nós podemos apenas fazer uma escolha entre um ascetismo anulador-de-vida e a grosseira vontade de viver, ou ainda, tentar efetuar um desajeitado, incerto e precário compromisso entre eles. Este é, de fato, o que a maioria dos homens fazem; uma pequena minoria despreza o instinto de vida e se empenha na busca de uma perfeição ascética; muitos obedecem à vontade grosseira de viver com tais modificações e restrições que a sociedade impõe ou que o homem social normal foi treinado para impor à sua própria mente e ações; outros estabelecem um equilíbrio entre austeridade ética e indulgência temperada do si de desejo mental e vital, e vêem nesse equilíbrio o meio dourado de uma mente sã e uma saudável vida humana. Mas nenhum desses modos dá a perfeição que nós estamos buscando, o governo divino da vontade na vida. Desprezar inteiramente o ser vital, é matar a força da vida pela qual a ampla ação da alma encarnada no ser humano deve ser suportada; indulgir a vontade grosseira de viver é permanecer satisfeito com a imperfeição; o comprometer-se entre eles é parar no meio do caminho e não possuir nem terra nem céu. Mas se nós pudermos chegar à VONTADE PURA não deformada por desejo, – que descobriremos ser uma força muito mais livre, tranquila, firme e efetiva que a saltitante, sufocante, logo fatigada e frustrada chama do desejo –, e à calma vontade interior de deleite não afligida ou limitada por qualquer perturbação de ânsia, nós poderemos então transformar a energia do ser vital, de um tirano, inimigo, assaltante da mente, em um obediente instrumento. Nós podemos chamar essas coisas maiores, também, pelo nome de desejo, se nós assim escolhermos, mas então temos que supor que existe um desejo divino além da ânsia vital, um desejo-de-Deus do qual esse outro e inferior fenômeno é uma sombra obscura e no qual esse tem que ser transfigurado. É melhor manter nomes distintos para coisas que são inteiramente diferentes em seu caráter e ação interior.

Desembaraçar-se a energia vital de desejo e incidentalmente reverter o equilíbrio ordinário de nossa natureza e transformar o ser vital, de um problematicamente dominante poder em um instrumento obediente de uma mente livre e não apegada, é então o primeiro passo na purificação. À medida que essa deformação da energia vital física é corrigida, a purificação do restante das partes intermediárias da parte anatômica espiritual — a conexão entre o cérebro físico e o Eu Superior — é facilitada, e quando essa correção é completada, sua purificação também pode ser facilmente tornada absoluta. Essas partes intermediárias são a mente emocional, a mente receptiva sensorial e a mente ativa sensorial ou mente de impulso dinâmico. Todas elas estão unidas em uma interação fortemente interligada. A deformação da mente emocional apoia-se na dualidade inclinação e aversão, atração e repulsa emocionais. Toda a complexidade de nossas emoções e sua tirania sobre a alma surgem das respostas habituais da alma de desejo nas emoções e sensações a essas atrações e repulsas. Amor e ódio, esperança e medo, tristeza e alegria, todos têm sua origem nessa fonte única. Nós gostamos, amamos, recebemos bem, esperamos por alegria em qualquer parte de nossa natureza, o primeiro hábito de nosso ser, ou ainda um hábito formado (frequentemente perverso), a segunda natureza de nosso ser, apresenta à mente como agradável; nós odiamos, temos aversão, medo, repulsa de tristeza ou qualquer coisa que se apresente a nós como desagradável. Esse hábito da natureza emocional entra no caminho da vontade inteligente e a faz frequentemente um escravo desamparado do ser emocional ou pelo menos impede-a de exercer um livre julgamento e governo da natureza. Essa deformação tem que ser corrigida. Pelo eliminar do desejo no ser vital psíquico e sua intermitência no ser emocional, nós facilitamos a correção. Pois então o apego, que é o forte grilhão do coração, afasta-se das cordas do coração; o hábito involuntário de atração-repulsa permanece, mas, não sendo tornado obstinado pelo apego, ele pode ser conduzido mais facilmente pela vontade e inteligência. O incansável coração pode ser conquistado e livrado do hábito de atração e repulsa.

Mas então se isto é feito, pode pensar-se, como em relação ao desejo, que isto será a morte do ser emocional. Certamente será assim, se a deformação é eliminada mas não substituída pela correta ação do ser emocional; a mente irá então passar a uma condição neutra de indiferença vazia ou a um luminoso estado de imparcialidade cheia de paz, sem nenhum movimento ou onda de emoção. O primeiro estado é de nenhuma maneira desejável; o último pode ser a perfeição de uma disciplina aquietadora, mas na perfeição integral, que não rejeita o amor ou evita vários movimentos de deleite, este não pode ser mais que um estágio que deve ser ultrapassado, uma passividade admitida como uma primeira base para a correta atividade. Atração e repulsa, inclinação e aversão são mecanismos necessários ao homem normal, eles formam um primeiro princípio de seleção natural entre os milhares de impactos agradáveis e horríveis, saudáveis e perigosos do mundo ao redor dele. A inteligência discernidora e a vontade iluminada inicia com esse material para trabalhar e tenta corrigir o natural e instintivo por uma mais sábia racional e voluntária seleção; pois obviamente o agradável não é sempre a coisa certa, o objeto a ser preferido e selecionado, nem o desagradável a coisa errada, o objeto a ser evitado e rejeitado; o agradável e o bom, têm que ser distinguidos, e a razão correta tem que escolher e não o capricho da emoção. Mas isto ela pode fazer muito melhor quando a sugestão emocional é recolhida e o coração repousa em uma luminosa passividade. Então também a ATIVIDADE CORRETA DO CORAÇÃO pode ser trazida para a superfície; pois nós descobrimos então que atrás dessa alma de desejo embaraçada-em-emoção estava esperando todo o tempo uma ALMA DE AMOR E LÚCIDA ALEGRIA E DELEITE, UMA PSIQUE PURA, que estava obscurecida pelas deformações de raiva, medo, ódio, repulsa e não podia abraçar o mundo com um imparcial amor e alegria. Mas o CORAÇÃO PURIFICADO é desembaraçado de raiva, desembaraçado de medo, desembaraçado de ódio, desembaraçado de todo recolhimento e repulsa: ele tem um amor universal, ele pode receber com uma imperturbada doçura e clareza os vários deleites que Deus dá a ele no mundo. Mas ele não é o fraco escravo de amor e deleite; ele não deseja, não tenta impor a si próprio como o mestre das ações. O seletivo processo necessário à ação é deixado principalmente à inteligência discernidora e a vontade iluminada e, quando a inteligência discernidora e a vontade iluminada tiver sido ultrapassada, ao espírito na vontade, conhecimento e Bem-Aventurança supramentais.


Sri Aurobindo

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)