O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Os inimigos estão dentro de nossa própria casa

Não devemos perturbar, nem ficar alarmados, quando virmos os erros que aparecem na esteira desses movimentos de vanguarda, como se houvesse alguma dúvida quanto aos seus resultados. Poderia haver dúvida se essas coisas estivessem à mercê do homem; mas não dependem dele, e sim de Deus, que está forçando a passagem, porque sempre haverá os que reagem contra essas mudanças. Não obstante, elas se consumarão, alcançando plenamente seu objetivo, visto que constituem um desdobramento das atividades do Espírito, que é Deus.

Isto se aplica não só ao mundo em geral, mas também ao indivíduo em particular. Só pode aplicar-se ao mundo aquilo que se aplica ao indivíduo. O fato de virmos buscando a verdade durante cinco, dez, vinte ou trinta anos e ainda não termos encontrado a Utopia, esse estado de perfeição ideal, não deveria perturbar-nos.

Quando a luz da verdade irrompe pela primeira vez em nossa consciência, só encontra inimizade dentro de nós. Os inimigos do homem são aqueles que vivem na própria casa do homem, isto é, em sua consciência. Portanto, quando o Espírito, a luz da verdade força sua passagem para dento de nossa consciência, necessariamente terá de eliminar todas as nossas ideias humanas. Muitas delas constituem aquilo que julgamos ser bom para nós, e por isso nos rebelamos contra a própria vida espiritual que procura penetrar em nós.

Se estivéssemos profundamente apercebidos da causa e finalidade desse processo de eliminação de nossas ideias humanas, não haveria luta contra ele, ou, se houvesse, seria breve; mas, como ignorantes o que está ocorrendo dentro de nós, não sabemos que estamos combatendo as ideias espirituais e os impulsos mais elevados que estão chegando à nossa consciência para destruir “o homem velho”.

O “homem velho”, que tem de “morrer diariamente”, deseja apegar-se à vida. Esse apego ao maná de ontem é um instinto humano que vem de muito antes de Moisés. É natural apegar-se à vida aquilo que deve “morrer”.

Foi-nos dito eu o mais elevado instinto humano é o de autopreservação. Entretanto, este é o maior inimigo de nosso desenvolvimento espiritual. O instinto humano mais profundo, o mais forte, é ao mesmo tempo o mais feroz inimigo de nossa evolução espiritual. Por que? Que é o que sempre queremos conservar de nossa personalidade, senão o que julgamos bom para nós? Se isso não é o que nos convém, então, que e o que constitui o apogeu do progresso espiritual? — É não só a “morte” para o “eu”, mas também a perda do senso humano da vida. O instinto humano diz: “preserva-te”! O impulso de desenvolvimento espiritual diz: “perde tua vida”! Ambos estão sempre em luta um com o outro. [...]

A ideia da autopreservação persiste, é o inimigo do progresso espiritual, que no diz: “Dá, reparte, sacrifica, ajuda; se necessário, morre pelo teu próximo. Não há maior demonstração espiritual do que esta.” Os maiores inimigos de nosso progresso espiritual somos nós mesmos, tu e eu, porque insistimos em apegar-nos a essas ideias do passado. Apegamo-nos ao desejo de autopreservação e, com isso, criamos oposição dentro de nós próprios individualmente e coletivamente.

Isto não é dito como julgamento, crítica ou condenação a ninguém, mas para mostrar aquilo que está dentro de nós e que retarda e até impede a nossa própria expansão espiritual, a paz e a prosperidade de todo o mundo. É dito com a intenção de alertar-nos para que não percamos a paciência com nós mesmos e não esperemos alcançar a Utopia, aquele estado de perfeição ideal, logo no dia seguinte, porque dentro de cada um de nós estão esses inimigos que ainda precisam ser derrotados: a autopreservação e o senso pessoal de “eu” ou “ego” e cada uma de suas múltiplas manifestações.

É evidente que nós não podemos vencê-los, mas, à medida que nos expomos à luz da verdade, absorvendo-nos na leitura dos escrito místicos e espirituais que existem no mundo — os quais lemos porque a Luz que é Deus, já nos tocou a alma e a mente, — essas leituras inspiradas vão despertando em nosso íntimo algo que lhes responde: “Sim, sim, sim, é isto mesmo”. Então vamos entrando em sintonia com elas, e sua essência se vai transfundindo em nós e modificando nossa maneira de sentir.

Esta é a garantia de que fomos tocados pela Consciência divina, infinita, a qual, pacientemente, está abrindo caminho e estabelecendo o cerco decisivo para a vitória sobre os nossos inimigos internos. Ela destruirá, por nós, aquilo que dentro de nós se apega ao maná de ontem, às ideias e ideais do passado, e extirpará a crença em nós enraizada de que a autopreservação é a primeira lei da Natureza, permitindo-nos, assim, compreender que, pelo contrário, a mais importante lei da expansão espiritual  é o auto-sacrifício, isto é, o sacrifício do interesse particular, pessoal, pelo Universal, divino, que é o da fraternidade.

O Mestre revelou que de nada nos aproveita orar, pedir, para nós mesmo. Para sermos filhos de Deus, para que essa Consciência divina efetivamente se expresse em nós, precisamos orar pelos nossos inimigos. Em outras palavras: o “eu”, o “ego” humano precisa esvaziar-se a tal ponto que a dedicação do nosso tempo e de nossas orações, exclusivamente em favor de nós mesmos e de nossos amigos, se amplie e converta num estado de consciência em que haja o verdadeiro amor ao próximo.

Joel Goldsmith - Setas no "Caminho do Infinito"

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O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)