O homem propriamente dito deve tomar consciência de sua substância. Assim sendo, o novato passa de um grau para outro, da disciplina corporal para a disciplina emocional e daí para a intelectual. Os três grupos combinam-se para formar um desdobramento progressivo das suas capacidades e de sua compreensão. É importante notar que se trata de etapas e não terminais. A verdade aprendida é sempre proporcional ao nível de compreensão do indivíduo. - PB

Suplício de Tântalo

Os voos ascendentes do noviciado do aspirante são obtidos à custa de quedas. Tanto faz parte de sua experiência dessa busca ser por vezes privado de todo sentimento de que o divino existe e é real, como de ter uma certeza de sua existência tão clara como a luz do sol.

No início, a experiência da realidade ocorre apenas em lampejos. Na verdade, não é o Eu Superior que de forma tantalizante, aparece e desaparece diante do olhar do aspirante, provocando, dessa forma, uma alternância de momentos de feliz fruição e de deplorável esterilidade, mas sim a GRAÇA amorosa do Eu Superior. Cada vez que ela é afastada, a primeira reação do aspirante é uma forte sensação de carência espiritual, aridez, escuridão e anseio. Isso traz muita infelicidade, descontentamento consigo próprio e frustração. Mas também traz ampliada e intensificada aspiração pelo que não é terreno e desgosto pelo que é terreno. Essa fase entretanto termina, e segue-se outra tão luminosa quanto foi escura a anterior, tão alegre quanto foi estéril a primeira e tão próxima da realidade quanto a anterior parecia dela distante. Nessa sagrada presença ocorre um processo purificador. O velho conhecido e imperfeito eu cai por terra como folhas de uma árvore no outono. Ele faz a radiante descoberta da bondade original do seu coração. Mas aí, quando a presença se afasta, o eu inferior retorna e reassume a soberania. Ao período de iluminação segue-se com frequência um período de escuridão. Um avanço espiritual que chegue inesperadamente é em geral seguido por um período de retrocesso. Ao júbilo segue-se a depressão.

Uma prova ainda maior o aguarda. O Eu Superior exige um sacrifício sobre seu altar, tão absoluto e completo que até mesmo o inocente anseio natural por felicidade pessoa deve ser entregue. Como nenhum iniciante e poucos aspirantes de grau intermediário poderiam suportar essa noite escura da alma, como até mesmo discípulos avançados não o fazem sem se lamentar, ela é reservada tão-somente para o último grupo — o que significa que acontece num estágio avançado do caminho, entre um pequeno período de grande iluminação e outro de sublime união. Durante essa fase, o místico irá sentir-se abandonado, emocionalmente fatigado e intelectualmente aborrecido a tal ponto que pode tornar-se uma alma enferma. Exercícios de meditação serão impossíveis e infrutíferos, as aspirações, mortas e sem atrativos. Poderá ser envolvido por uma terrível sensação de solidão. Poderá perder o interesse pelo assunto ou ser dominado pela ideia de que qualquer outro progresso esteja paralisado. Todavia, apesar das aparências em contrário, tudo isso é parte de seu desenvolvimento, que tomou um novo rumo, tornando-se mais completo e pleno. Durante esse período de escuridão, é muito comum que o estudante mergulhe em novos tipos de experiência. O Eu Superior o direciona a suportar provas e adquirir equilíbrio.

O aspecto mais perigoso da "noite escura" é o enfraquecimento da vontade, que ocorre juntamente com o reaparecimento de antigas más tendências já esquecidas. Esse é o ponto em que o aspirante realmente está sendo provado e em que parte daqueles que alcançaram esse grau elevado não passa prova e cai por muitos anos num inferior.

Mesmo Maomé teve que passar pela experiência da noite escura da alma. Ela durou três anos sem que uma única iluminação ou revelação viesse aliviar seu coração deprimido. De fato, até considerou a ideia de se matar para colocar fim àquilo, e, no entanto, sua suprema realização e a tarefa que abalaria o mundo anda estavam por vir.

Aquele que passou por essa mais profunda e mais longa das "noites escuras" que precede realizações maduras jamais tornará a sentir excessivos júbilos emocionais. A experiência foi como uma operação cirúrgica que lhe extirpou tais contentamentos. Além disso, embora seu caráter permaneça sempre sereno, também será um pouco tocado por aquela melancolia que deve vir a quem quer que não apenas perscrutou as profundezas da angústia da vida, mas também tem sido constante receptor das histórias de tristeza dos outros.

O aspirante pode descansar nesse estado passivo voltado sobre si mesmo por um breve período de tempo, no máximo por poucas horas. Os inexoráveis ditames da natureza o impelem a retornar a seu suprimido estado comum de vida ativa. Essa oscilação intermitente, para lá e para cá, entre a arrebatadora auto-absorção e o retorno à consciência comum o tantalizará até que perceba qual é a meta final. Terminará apenas quando seu egoísmo desaparecer. Até o momento, ele havia conseguido dominá-lo completamente apenas no estado contemplativo; agora deve dominá-lo em seu estado ativo comum. O ego, porém, não irá deixá-lo aqui a menos que o propósito de sua própria evolução tenha sido cumprido. Por essa razão, o aspirante deve completar seu total desenvolvimento, levar o ego à estabilidade e equilíbrio e então renunciar a ele por completo. Da renúncia total do ego resulta uma unicidade perfeita, inquebrantável e permanente com o Eu Superior.

Paul Brunton

* A expressão suplício de Tântalo refere-se ao sofrimento daquele que deseja algo aparentemente próximo, porém, inalcançável, a exemplo do ditado popular "Tão perto e, ainda assim, tão longe".

Poderá gostar de

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
O curandeiro não "faz" ou "dá" algo ao paciente, mas ajuda-o a voltar para o Todo, para o caminho da "Unidade" com o Universo; neste "encontro" o paciente se torna mais completo, e isto é cura. Nas palavras de Arthur Koestler: "Não há linha divisória nítida entre a auto-reparação e a auto-realização". - Lawrence LeShan

Observe, você não é aquilo que você pensa que é. Você não é somente aquilo que seu o seu meio ambiente lhe fez. Há mais realidade em si do que aquela que lhe é dada social e externamente. Você possui outra personalidade bastante diferente daquela que você mesmo tem certeza de que você é. — Gopi Krishna

A meditação em si, não é o Caminho. O Caminho é o CONTATO! A meditação apenas serve de meio para atingirmos o silêncio interior, onde o CONTATO é feito. — Joel S. Goldsmith

"Senhor, como uma ovelha perdida que anda de um lado para outro, procurando o caminho, também eu te procurava no exterior, quando Tu estavas em mim... Percorri ruas e praças da cidade deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrei porque em vão procurava fora o que estava dentro de mim." - Agostinho

"A paz que você procura está no silêncio que você não faz"

"Melhor seria viver apenas um único dia no aperfeiçoamento de uma boa vida em meditação do que viver cem anos de forma má e com uma mente indisciplinada.

Melhor seria viver apenas um único dia na busca do entendimento e da meditação do que viver cem anos na ignorância e na imoderação.

Melhor seria viver apenas um único dia no começo de um diligente esforço do que viver cem anos na indolência e inércia.

Melhor seria viver apenas um único dia pensando na origem e na cessação do que é composto do que viver cem anos sem pensar em tal origem e cessação.

Melhor seria viver apenas um único dia na percepção do estado Imortal do que viver cem anos sem tal percepção.

Melhor seria viver apenas um único dia conhecendo a Doutrina Excelsa do que viver cem anos sem conhecer a Doutrina Excelsa". — O Buda, dos DHARMMAPADA

Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato, nem sensato: não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios. — Hesíquio, o Sinaíta (Século VIII)